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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

07
Fev26

“As árvores nem sempre morrem de pé” - Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

“As árvores nem sempre morrem de pé”

Mário Silva

07Fev DSC09558_ms.JPG

Esta fotografia de Mário Silva, é uma composição que convida à reflexão sobre a resiliência e a inevitabilidade do tempo.

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A imagem transporta-nos para um ambiente rural autêntico, numa aldeia transmontana.

Em primeiro plano, o elemento central é o tronco robusto e retorcido de uma árvore (com aspeto de ser uma figueira dada a sua estrutura e casca acinzentada) que, contrariando o adágio popular, tombou ou cresceu de forma quase horizontal.

O tronco atravessa a composição, cruzando um pequeno caminho de terra batida.

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Ao fundo, observamos habitações de traça tradicional.

Uma delas apresenta paredes de pedra nua e um telhado de quatro águas envelhecido, enquanto outra, mais ao lado, exibe paredes brancas.

O cenário é completado por um céu azul límpido e uma luz solar clara que realça as texturas da madeira seca e da vegetação rasteira que começa a cobrir o solo.

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A Dignidade na Queda – Quando a Natureza Escreve o seu Próprio Roteiro

O título desta obra de Mário Silva é uma subversão inteligente e poética do título da famosa peça de teatro de Alejandro Casona, "Los árboles mueren de pie" (As Árvores Morrem de Pé).

Se, na literatura, a expressão serve como metáfora para a dignidade e a força moral de quem se mantém firme até ao fim, a lente de Mário Silva propõe-nos uma realidade mais crua, mas não menos bela.

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O Mito vs. A Realidade

O provérbio sugere que a honra reside na verticalidade.

No entanto, na natureza — e na vida das aldeias do interior de Portugal — a sobrevivência exige, muitas vezes, a capacidade de se curvar, de cair e de continuar a existir noutra forma.

A árvore que vemos na fotografia não "desistiu"; ela adaptou-se à gravidade, ao vento ou ao peso dos anos.

Mesmo tombada, ela permanece ligada à terra, servindo de marco no caminho e de abrigo para a pequena fauna.

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Metáfora do Mundo Rural

Há uma analogia poderosa entre esta árvore e as próprias aldeias transmontanas que Mário Silva tão bem documenta.

Muitas destas localidades, fustigadas pela desertificação, parecem estar "caídas" aos olhos de quem as vê de fora.

Mas, tal como o tronco da foto, elas possuem uma estrutura que resiste.

As casas de pedra ao fundo, com os seus telhados musgosos, são testemunhas de gerações que souberam viver com o que a terra lhes dava.

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A Beleza da Imperfeição

A fotografia celebra a estética do que é torto e do que não segue a linha reta.

Num mundo que valoriza a perfeição geométrica e a juventude eterna, o registo desta árvore "que não morreu de pé" é um hino à autenticidade.

Ela conta uma história de invernos rigorosos e de verões tórridos.

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Ao captar este momento, o fotógrafo recorda-nos que não há vergonha na queda.

Existe, sim, uma forma profunda de dignidade em permanecer presente, em ocupar o espaço e em continuar a fazer parte da paisagem, mesmo quando o destino nos obriga a mudar de perspetiva.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
06
Fev26

“Chouriças assadas na brasa” - Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

“Chouriças assadas na brasa”

Mário Silva

06Fev DSC05478_ms.JPG

Esta é uma imagem que quase nos permite sentir o aroma e o calor, captando um dos rituais mais autênticos e reconfortantes do Norte de Portugal.

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Na obra “Chouriças assadas na brasa”, Mário Silva foca a sua lente no coração da gastronomia transmontana: o fogo.

A composição é dominada pelas labaredas vibrantes de tons cor-de-laranja e amarelo que se erguem ao fundo, consumindo ramos e lenha miúda.

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No primeiro plano, sobre um denso leito de brasas incandescentes e cinzas esbranquiçadas, repousa uma grelha de ferro artesanal.

Nela, várias chouriças tradicionais, de cor escura e aspeto suculento, estão a ser assadas lentamente.

O contraste entre o brilho do fogo e a textura rugosa dos enchidos cria uma imagem rica em sensações, onde o calor é o elemento transformador que prepara o alimento.

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O Banquete do Fogo: O Valor Inestimável da Gastronomia Transmontana

O título desta fotografia, "Chouriças assadas na brasa", remete-nos para uma simplicidade que é, na verdade, o auge de um saber ancestral.

Em Trás-os-Montes, o ato de assar enchidos diretamente no lume não é apenas uma forma de cozinhar; é um ato de celebração da sobrevivência, da terra e do convívio.

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O Fumeiro como Identidade

A gastronomia transmontana tem no fumeiro o seu pilar central.

A chouriça, o salpicão, a alheira e o botelo são o resultado de meses de cuidado, desde a criação do animal até à cura feita com o fumo das lareiras de granito.

Quando Mário Silva regista estas chouriças na brasa, ele está a documentar o capítulo final de um ciclo que envolve famílias inteiras e mantém vivas as tradições das aldeias.

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O Sabor do "Lume de Chão"

Diferente da cozinha moderna e impessoal, a gastronomia desta região vive do tempo e do elemento natural.

O sabor único que a brasa confere à carne não pode ser replicado num fogão elétrico.

Há um componente de "fumo" e "terra" que define o paladar transmontano — um sabor forte, honesto e generoso, feito para combater os invernos rigorosos da região de Chaves e arredores.

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Valorização e Património

Hoje, a gastronomia de Trás-os-Montes é um dos principais motores de turismo e resistência económica do interior.

Feiras de fumeiro atraem milhares de visitantes, provando que o que nasce da tradição tem um valor universal.

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Economia Local: A produção artesanal de enchidos sustenta pequenas unidades familiares

Cultura: O ritual de partilhar o pão e a chouriça assada à volta do fogo reforça os laços comunitários que a desertificação ameaça romper.

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Esta fotografia é, portanto, um convite.

Convida-nos a sentar à lareira, a ouvir o estalar da lenha e a reconhecer que, num mundo cada vez mais digital e acelerado, o verdadeiro luxo reside na autenticidade de uma chouriça assada no calor das cinzas.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
03
Fev26

"Rua Central sem vivalma, somente um cão" - Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"Rua Central sem vivalma, somente um cão"

Mário Silva

03Fev DSC04093_ms.JPG

Esta é uma imagem que capta com sensibilidade a alma profunda dum Portugal profundo.

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Rua Central sem vivalma, somente um cão", transporta-nos para a aldeia de Águas Frias, em Chaves.

A composição é dominada por uma estrada de asfalto clara que serpenteia por entre muros de pedra e habitações típicas da região transmontana.

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No centro do caminho, um cão preto caminha solitário, afastando-se do observador, servindo como o único sinal de movimento e vida num cenário de absoluta quietude.

À esquerda, árvores de ramos despidos de folhas sugerem o rigor do inverno, enquanto ao fundo se ergue uma casa de tons cinzentos com o característico telhado de telha cerâmica laranja.

O céu encoberto e a luz suave reforçam a atmosfera de melancolia e isolamento que a obra emana.

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O Silêncio de Trás-os-Montes: Quando a Rua Deixa de Ter Gente

O título escolhido por Mário Silva não é apenas uma descrição visual; é um diagnóstico social.

Dizer que uma "Rua Central" não tem "vivalma" encerra em si uma contradição dolorosa.

Por definição, a rua central de qualquer localidade deveria ser o seu coração pulsante, o ponto de encontro, o lugar do comércio e do "bom dia" trocado entre vizinhos.

Em Águas Frias, como em tantas outras aldeias de Trás-os-Montes, esse pulsar está a tornar-se um eco.

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A Desertificação como Realidade Inexorável

A imagem é uma metáfora poderosa da desertificação do mundo rural.

Ao longo das últimas décadas, o interior de Portugal tem assistido a um êxodo contínuo.

Os jovens partem para as cidades do litoral ou para o estrangeiro em busca de oportunidades, deixando para trás um património de pedra e silêncio.

O que resta são casas fechadas e ruas onde o som dos passos humanos foi substituído pelo sopro do vento nos ramos secos.

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O Cão: O Último Guardião

A presença do cão na fotografia é simbólica.

Nas aldeias fustigadas pelo despovoamento, os animais tornam-se, muitas vezes, os últimos habitantes das ruas.

Este cão preto, caminhando sozinho, representa a lealdade a um território que parece ter sido esquecido pelo progresso.

Ele é o testemunho vivo de que, embora a "vivalma" humana escasseie, o espírito do lugar resiste, ainda que de forma solitária.

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Um Apelo à Memória

A fotografia de Mário Silva cumpre uma função vital: a de documento histórico e emocional.

Ela obriga-nos a olhar para o que estamos a perder.

A desertificação não é apenas a falta de pessoas; é a perda de tradições, de saberes ancestrais e da identidade transmontana que tanto caracteriza o norte de Portugal.

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Águas Frias, vista através desta lente, é um lembrete poético e triste de que o país corre a duas velocidades.

Enquanto o litoral ferve em atividade, o interior recolhe-se na dignidade de quem, como o cão da imagem, continua a percorrer o seu caminho, mesmo que já não haja ninguém à janela para o ver passar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
02
Fev26

“A Lampaça numa manhã de geada” – Águas Frias – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“A Lampaça numa manhã de geada”

Águas Frias – Chaves – Portugal

02Fev A Lampaça numa manhã de geada_ms.jpg

Esta fotografia de Mário Silva é um retrato fiel da alma transmontana no inverno.

Capta não apenas uma paisagem, mas um estado de espírito típico da região de Chaves.

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A imagem apresenta uma vista panorâmica da Lampaça, na freguesia de Águas Frias, mergulhada num cenário invernal rigoroso.

A composição divide-se em três planos distintos:

O Primeiro Plano: Revela a vida quotidiana da aldeia, com habitações de telhados alaranjados que contrastam suavemente com o cinzento da manhã.

Os campos em redor já mostram o tom esbranquiçado da terra gelada.

O Plano Médio: É dominado por uma densa massa arbórea totalmente coberta por uma camada espessa de geada ou sincelo, criando um efeito visual de "floresta de cristal".

O Plano de Fundo: Um céu pesado e carregado de nevoeiro baixo (as "nuvens de geada") que paira sobre a montanha, comprimindo a paisagem e acentuando a sensação de isolamento e frio cortante.

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A paleta de cores é fria e melancólica, dominada por tons de cinza, branco e o verde escuro das persistentes árvores resinosas, transmitindo com perfeição o silêncio de uma manhã em que a temperatura desceu abaixo de zero.

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O Fenómeno da Geada: Onde a Humidade se Transforma em Arte

O título da fotografia, "A Lampaça numa manhã de geada", remete-nos para um dos fenómenos mais característicos do Nordeste Transmontano.

Em regiões como Chaves, a geada não é apenas um detalhe meteorológico; é um elemento moldador da agricultura e da paisagem.

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O Que é a Geada e Como se Forma?

Contrariamente ao que muitos pensam, a geada não é neve que caiu.

É um processo de deposição direta:

Arrefecimento Noturno: Durante a noite, o solo e as plantas perdem calor rapidamente, especialmente em noites de céu limpo.

Ponto de Congelação: Quando a temperatura da superfície desce abaixo dos 0°C, a humidade do ar que entra em contacto com essas superfícies não condensa em líquido (orvalho), mas passa diretamente do estado gasoso ao sólido.

Este processo chama-se sublimação inversa.

Inversão Térmica: Em vales como os da região de Chaves, o ar frio (mais denso) desce e acumula-se nos pontos mais baixos, tornando as manhãs em locais como Lampaça e Águas Frias particularmente propícias a este "manto branco".

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O "Sincelo": O Grau Seguinte da Geada

Na fotografia de Mário Silva, as árvores ao fundo aparecem tão brancas que podemos estar perante o fenómeno do sincelo.

Este ocorre quando existe nevoeiro (pequenas gotas de água em suspensão) com temperaturas negativas.

As gotículas, ao chocarem com os ramos das árvores, congelam instantaneamente, criando estruturas de gelo mais volumosas e dramáticas do que a geada comum.

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Impacto na Região

Para os habitantes de Águas Frias, a geada é um sinal de "limpeza" do ar e da terra, embora exija cuidados redobrados com as culturas.

Visualmente, como demonstra a fotografia, ela transforma a paisagem rural numa obra de arte efémera, onde cada folha e cada ramo são contornados por minúsculos cristais de gelo que brilham à primeira luz do dia.

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Nota Curiosa: O termo popular "nove meses de inverno e três de inferno", frequentemente aplicado a Trás-os-Montes, ganha toda a sua expressão visual em fotografias como esta, onde o rigor do clima define a beleza do território.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
23
Jan26

"Já foi um lar..." - Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"Já foi um lar..."

23Jan DSC09710_ms.jpg

Esta é uma imagem que toca profundamente na alma do Portugal interior, capturando a fragilidade do tempo e a memória de outros dias.

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Já foi um lar...", retrata uma casa tradicional em ruínas na aldeia de Águas Frias, Chaves.

A imagem foca-se na estrutura esquelética de uma varanda de madeira que, outrora vibrante, agora se desfaz sob o peso do abandono e das intempéries.

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As robustas paredes de granito, típicas da região transmontana, contrastam com a madeira apodrecida e lascada da galeria.

No piso inferior, vislumbram-se restos de palha e algumas abóboras, sugerindo que o espaço, antes habitado por pessoas, serviu por último como armazém agrícola antes de ser entregue ao silêncio.

A luz solar incide lateralmente, criando sombras dramáticas que acentuam as texturas das pedras e a fragilidade das tábuas suspensas, enquanto uma moldura escura (vinheta) envolve a cena, conferindo-lhe um tom nostálgico e quase fúnebre.

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O Eco das Paredes Vazias – Quando o Tempo Apaga o Lar

O título escolhido pelo fotógrafo — "Já foi um lar..." — não é apenas uma descrição; é um lamento em forma de reticências.

Em Águas Frias, como em tantas outras aldeias de Trás-os-Montes, as casas não são apenas amontoados de pedra e madeira; são baús de memórias que, lentamente, se deixam vencer pelo esquecimento.

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A Anatomia do Abandono

Olhar para esta fotografia é testemunhar a finitude das coisas humanas.

A varanda, que outrora poderá ter sido o lugar onde se via o pôr-do-sol ou se trocavam palavras com o vizinho, é hoje um esqueleto de madeira que desafia a gravidade por pouco tempo.

O Granito: Permanece firme, como a espinha dorsal de uma história que se recusa a cair totalmente.

A Madeira: Cede e lasca-se, representando a vida que se retirou e a fragilidade do que é orgânico.

Os Frutos da Terra: As abóboras e a palha no rés-do-chão são os últimos vestígios de utilidade, um eco distante da subsistência que ali pulsava.

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A Saudade do que foi

Relacionar o tema com o título é falar de Saudade.

Quando Mário Silva diz que "já foi um lar", ele convida-nos a imaginar o fumo a sair da chaminé, o cheiro do caldo ao lume e o som de passos no soalho que agora range sob o nada.

Esta imagem é o retrato da desertificação do interior, mas também uma homenagem à dignidade dessas ruínas que, mesmo no fim, mantêm uma beleza melancólica e severa.

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Esta fotografia serve como um espelho de um país que envelhece e de casas que, ao perderem os seus habitantes, perdem a sua alma, restando apenas a luz do sol a iluminar o pó do que um dia foi vida.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Jan26

“Pedra Bolideira” - Planalto de Monforte – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Pedra Bolideira”

Planalto de Monforte – Chaves – Portugal

22Jan Pedra Bolideira_ms.jpg

Esta é uma belíssima composição que nos transporta para o misticismo das terras altas transmontanas.

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Pedra Bolideira", captura a alma do Planalto de Monforte, em Chaves, sob o rigor de um inverno rigoroso.

A imagem destaca-se pela sua atmosfera etérea, onde o nevoeiro denso funde o céu e a terra num branco infinito.

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No centro da composição, as monumentais massas de granito — cobertas por musgo e agora salpicadas por uma fina camada de neve ou geada — impõem-se pela sua robustez.

Em primeiro plano, um conjunto de mesa e bancos de pedra surge solitário, convidando à contemplação do silêncio.

O tratamento artístico, com uma vinheta suave e uma tonalidade fria, acentua o isolamento e a quietude deste lugar emblemático, transformando a paisagem geológica num cenário quase onírico.

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O Equilíbrio Mágico da Pedra Bolideira

O título da obra transporta-nos imediatamente para um dos fenómenos geológicos mais fascinantes de Portugal: a Pedra Bolideira.

Situada no Planalto de Monforte, esta não é apenas uma rocha colossal; é um símbolo de equilíbrio improvável e um guardião de lendas ancestrais.

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O Mistério do Movimento

A "Pedra Bolideira" deve o seu nome à sua característica mais singular: apesar de pesar várias dezenas de toneladas, diz-se que um pequeno impulso humano num ponto específico é capaz de a fazer oscilar (ou "bolir").

Na fotografia de Mário Silva, este gigante parece repousar numa fragilidade silenciosa, desafiando as leis da gravidade sob o manto branco do inverno de Chaves.

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A Paisagem Transmontana no Inverno

O Planalto de Monforte é uma região de beleza crua e resiliente.

O artigo visual proposto pelo fotógrafo realça o binómio entre a dureza e a suavidade:

A Dureza: Representada pelo granito eterno e pelas árvores despidas, símbolos de uma terra que resiste ao tempo.

A Suavidade: Transmitida pelo nevoeiro e pela geada, que suavizam as arestas da rocha e criam uma sensação de paz absoluta.

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Mais que Geologia, uma Identidade

Relacionar o tema da fotografia com o seu título é falar da identidade de Trás-os-Montes.

A Pedra Bolideira é um ponto de paragem obrigatório, um local onde a natureza parece querer comunicar connosco.

O mobiliário de pedra em primeiro plano, vazio, mas presente, sugere que este ritual de visitar a "pedra que bole" é uma tradição partilhada por gerações, mesmo quando o frio afasta os visitantes e deixa a paisagem entregue aos seus próprios mistérios.

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A lente de Mário Silva não regista apenas um local turístico; imortaliza o “genius loci” (o espírito do lugar) de Monforte, onde a pedra ganha vida e o tempo parece ter parado para nos deixar ouvir o silêncio do planalto.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
15
Jan26

"A Névoa Transmontana e a Incerteza" - Águas Frias – Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

"A Névoa Transmontana e a Incerteza"

Águas Frias – Chaves - Portugal

15Jan DSC05353_ms.JPG

Esta fotografia da autoria de Mário Silva encerra um ciclo de contemplação com uma carga emocional e metafórica profunda.

A fotografia revela uma paisagem minimalista e melancólica, dominada pela presença etérea da névoa transmontana.

No centro da composição, surge a silhueta solitária de uma árvore despojada das suas folhas, cujos ramos finos e intrincados se desenham como veias contra um fundo branco e difuso.

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O cenário é marcado por uma visibilidade reduzida que apaga o horizonte, restando apenas o primeiro plano: uma berma de estrada, vegetação rasteira e um banco de pedra vazio, que parece convidar a uma espera paciente.

A paleta de cores é subtil, composta por cinzentos, castanhos suaves e verdes esbatidos, reforçando a sensação de isolamento, silêncio e a quietude típica das manhãs de inverno no interior de Portugal.

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A Névoa Transmontana – Uma Metáfora da Incerteza

Em Trás-os-Montes, a névoa não é apenas um fenómeno meteorológico; é um véu que transforma a realidade.

Na obra de Mário Silva, captada em Águas Frias, a neblina deixa de ser um obstáculo visual para se tornar uma representação física da incerteza.

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O Horizonte Invisível

A incerteza é, por definição, a falta de clareza sobre o que está adiante.

Na fotografia, a névoa esconde as montanhas de Chaves e os caminhos que se seguem.

Esta ausência de referências espaciais obriga o olhar a deter-se no "aqui e agora".

Tal como na vida, quando o futuro se torna incerto, somos forçados a focar-nos naquilo que é tangível: a árvore à nossa frente, o solo que pisamos, o banco onde podemos descansar.

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A Árvore como Símbolo de Resiliência

A árvore solitária, embora pareça frágil na sua nudez invernal, permanece firme.

Ela aceita a incerteza da névoa sem tentar combatê-la.

Esta imagem sugere que:

A incerteza faz parte do ciclo: Tal como as estações, os momentos de dúvida são necessários para o crescimento.

A beleza reside no mistério: O que não vemos permite-nos imaginar infinitas possibilidades.

A quietude é necessária: O silêncio da névoa proporciona um espaço de introspeção que a claridade do sol muitas vezes dissipa.

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O Convite à Reflexão

O banco vazio na imagem é o elemento que liga o observador à cena.

Ele representa a pausa necessária perante o desconhecido.

A incerteza causa, muitas vezes, ansiedade, mas a lente de Mário Silva propõe uma abordagem diferente: a contemplação.

Em vez de temermos o que a névoa esconde, somos convidados a apreciar a suavidade com que ela envolve o mundo.

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A originalidade desta fotografia reside na coragem de mostrar o "nada", provando que, mesmo quando não conseguimos ver o caminho, a paisagem continua a ter uma alma vibrante, à espera que o sol a revele novamente.

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"A incerteza não é o fim do caminho, é apenas o momento em que a paisagem nos pede para abrandar e sentir o que está por perto."

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
12
Jan26

Uma casa típica transmontana - Paradela de Monforte – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Uma casa típica transmontana

Paradela de Monforte – Chaves – Portugal

12Jan DSC05086_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva transporta-nos para o coração de Trás-os-Montes, apresentando uma habitação que é um exemplo vivo da arquitetura vernácula regional.

A composição destaca a robustez do granito, material predominante na base da casa, onde as marcas do tempo e o musgo conferem uma textura orgânica à construção.

O elemento central é a escadaria exterior de pedra, que conduz ao piso superior (a zona habitacional), protegida por um corrimão de ferro forjado com um desenho geométrico simples.

No sopé das escadas, um pequeno portão de ferro pintado de tons avermelhados delimita o espaço.

As paredes do andar superior são rebocadas e caiadas de branco, contrastando com o peso da pedra do rés-do-chão, enquanto o telhado de telha cerâmica tradicional completa este quadro de autenticidade e memória.

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A Casa Transmontana – Onde a Pedra Guarda a História

A arquitetura tradicional de Trás-os-Montes, como a captada em Paradela de Monforte, não é apenas uma escolha estética; é uma lição de sobrevivência e adaptação ao clima rigoroso e à geografia da região "para lá dos montes".

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A Anatomia da Casa Típica

A casa transmontana clássica, particularmente na zona de Chaves, segue uma organização funcional muito específica que espelha o modo de vida agrícola de outrora:

Rés-do-chão (Lojas): Construído em granito grosso para suportar o peso e isolar. Antigamente, servia para guardar o gado, alfaias agrícolas e a adega. O calor dos animais ajudava a aquecer o piso superior.

Piso Superior: A zona de habitação da família. É aqui que se encontra a cozinha (o centro da casa com a sua lareira) e os quartos.

Escada Exterior: Um elemento iconográfico. Como o piso inferior era para os animais e trabalho, o acesso à casa fazia-se por fora, muitas vezes culminando num patamar chamado "balcão".

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A Simbiose com a Paisagem

Estas casas parecem brotar diretamente do chão.

O uso do granito local não só facilitava a construção, como permitia que a habitação tivesse uma inércia térmica fundamental: manter o fresco nos verões tórridos do interior e preservar o calor durante os invernos gelados.

O reboco branco no andar superior, visível na fotografia de Mário Silva, tinha também uma função prática e social.

A cal protegia as paredes e refletia a luz, conferindo uma sensação de limpeza e dignidade à moradia.

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Um Património em Preservação

Hoje, estas casas são mais do que habitações; são contentores de memória.

Em aldeias como Paradela de Monforte, a preservação destes detalhes — o portão de ferro, a pequena lanterna sobre a porta, a disposição das janelas — é o que mantém viva a identidade cultural do norte de Portugal.

Ver uma fotografia destas é recordar um tempo em que o ritmo da vida era ditado pelas estações e pela terra, e onde a casa era o refúgio seguro contra a dureza da montanha.

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"Trás-os-Montes não é apenas um lugar no mapa, é um estado de espírito gravado na pedra das suas casas."

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
02
Jan26

"Águas Frias no silêncio da noite" - Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"Águas Frias no silêncio da noite"

 Águas Frias, Chaves, Portugal

02Jan DSC00278_ms.JPG

Esta fotografia noturna capta a atmosfera intimista e serena da aldeia de Águas Frias.

A imagem é dominada por um forte contraste cromático entre o azul profundo e quase negro do céu e da encosta montanhosa em segundo plano, e os tons quentes, alaranjados e âmbar da iluminação pública que banha o casario.

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No centro da composição, destaca-se a silhueta da torre sineira da igreja, que se ergue acima dos telhados como um ponto de referência espiritual e geográfico.

As casas, aglomeradas de forma típica das aldeias transmontanas, parecem aninhar-se umas nas outras, com os telhados a refletir subtilmente a luz das ruas.

A granulação da imagem e a suavidade da focagem conferem-lhe uma textura quase pictórica, reforçando a sensação de silêncio, frio e recolhimento noturno.

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O Abraço Âmbar na Escuridão de Trás-os-Montes

Onde o silêncio não é vazio, mas um guardião.

Quando a noite cai sobre as terras de Chaves, não cai simplesmente; ela abraça.

Em Águas Frias, quando o último raio de sol se esconde atrás da serra e o frio desce com a autoridade do inverno transmontano, a aldeia não desaparece na escuridão.

Ela acende-se.

A fotografia de Mário Silva não nos mostra apenas casas e ruas; mostra-nos a resistência do conforto contra a imensidão da noite.

Ali, naquele vale de sombras azuladas, a iluminação pública desenha um mapa de calor humano.

Cada ponto de luz laranja é uma promessa: a promessa de que, lá dentro, há vida, há histórias a serem contadas à lareira e há o respirar compassado de uma comunidade que dorme.

A torre da igreja, altiva no centro da imagem, ergue-se como um pastor de pedra a velar pelo seu rebanho de telhados.

Ela é a testemunha muda dos séculos, a âncora que segura a aldeia para que esta não flutue para o céu estrelado.

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Neste silêncio, ouve-se tudo o que importa.

Ouve-se a paz.

Ouve-se o estalar da geada nos campos vizinhos e o sussurro do vento nas frinchas das portas.

Não é um escuro que assusta; é um escuro que protege.

As luzes não combatem a noite; dialogam com ela, criando uma pintura onde o âmbar e o azul dançam numa valsa lenta.

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"Águas Frias no silêncio da noite" é um lembrete de que a beleza mais profunda reside, muitas vezes, na quietude.

É a imagem de um lar que espera, paciente e luminoso, pelo nascer de um novo dia.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
24
Dez25

"A Aldeia colocou a 'toalha' branca para a Ceia de Natal" (Águas Frias - Chaves - Portugal)


Mário Silva Mário Silva

"A Aldeia colocou a 'toalha' branca para a Ceia de Natal"

(Águas Frias - Chaves - Portugal)

24Dez ipcvn2ipcvn2ipcv_ms.jpg

A fotografia de Mário Silva é uma magnífica vista panorâmica aérea da aldeia de Águas Frias, captada num dia de nevada intensa, provavelmente na véspera de Natal.

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A Paisagem: A imagem revela a topografia da região, com a aldeia aninhada num vale suave.

Todo o cenário está coberto por um manto de neve espesso e imaculado.

A "Toalha" Branca: Os campos agrícolas que rodeiam o casario, habitualmente verdes ou castanhos, transformaram-se em superfícies brancas e lisas.

Os muros de pedra que dividem as propriedades desenham linhas escuras e geométricas sobre a neve, assemelhando-se às dobras ou aos bordados de uma grande toalha estendida sobre a terra.

O Casario: No centro, as casas da aldeia agrupam-se com os seus telhados cobertos de branco.

A arquitetura tradicional transmontana destaca-se timidamente, com algumas fachadas a revelar tons de pedra ou reboco, mas a predominância é a uniformidade da neve.

Primeiro Plano: Em primeiro plano, ramos de árvores despidas de folhagem, salpicados de neve, criam uma moldura natural, dando profundidade à imagem e acentuando a sensação de estarmos a observar um presépio vivo a partir de um ponto elevado.

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A Toalha de Linho do Céu – Um Natal Branco em Águas Frias

Há metáforas que, de tão perfeitas, deixam de ser figuras de estilo para se tornarem realidade visível.

O título desta fotografia, "A Aldeia colocou a 'toalha' branca para a Ceia de Natal", é uma dessas verdades poéticas.

Na véspera da noite mais sagrada do ano, Águas Frias não precisou de enfeites artificiais; a própria natureza encarregou-se da decoração, estendendo sobre o vale o mais puro linho que o inverno transmontano consegue tecer.

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O Ritual do Silêncio

A neve tem o poder de silenciar o mundo.

Ela abafa o ruído dos passos, o som dos carros e até o ladrar dos cães.

Quando a "toalha" branca é colocada, a aldeia entra num estado de reverência.

É como se a paisagem soubesse que a Ceia de Natal exige solenidade.

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Nesta fotografia, vemos Águas Frias transformada num presépio à escala real.

As casas, aconchegadas umas às outras sob o peso branco dos telhados, guardam no seu interior o calor que falta lá fora.

Imaginamos, por detrás daquelas paredes de pedra, as lareiras acesas, o cheiro a lenha queimada, o polvo ou o bacalhau a cozer e as filhós a fritar.

O contraste é absoluto: fora, o gelo estático e belo; dentro, o fogo vivo e a família.

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A Mesa Está Posta

Diz-se que no Natal ninguém deve ficar sozinho e que a mesa deve estar sempre posta.

Aqui, é a terra inteira que se senta à mesa.

Os muros de pedra, desenhados a negro sobre a neve, parecem as marcas dos lugares marcados para os convidados: os ausentes, os presentes e os que hão de vir.

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Esta "toalha" não foi lavada no tanque da aldeia nem secada ao sol de agosto.

Foi enviada do céu, caindo floco a floco, cobrindo as imperfeições do chão, nivelando os caminhos e purificando a vista.

É uma toalha efémera, que durará apenas enquanto o frio permitir, mas que chegou no momento exato para dignificar a festa.

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O Milagre da Terra Fria

Em Trás-os-Montes, o Natal tem uma dureza terna.

O frio aperta o corpo, mas a tradição aquece a alma.

A fotografia de Mário Silva capta esse espírito: a beleza austera de uma aldeia que, no dia 24 de dezembro, recebeu o presente mais bonito que o céu podia dar.

A aldeia vestiu-se de branco, a mesa está posta, e o mundo parece, por um instante, imaculado e novo, pronto para o nascimento da Esperança.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
23
Dez25

"O castelo de Monforte de Rio Livre, esperando o Natal, sobre um manto branco"


Mário Silva Mário Silva

"O castelo de Monforte de Rio Livre,

esperando o Natal,

sobre um manto branco"

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A fotografia de Mário Silva é uma paisagem de inverno majestosa, que retrata as ruínas históricas do Castelo de Monforte de Rio Livre (em Chaves) completamente dominadas pela neve.

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O Castelo: No topo de uma colina elevada, destaca-se a silhueta da Torre de Menagem quadrangular e de alguns panos de muralha em ruínas.

A pedra escura e antiga contrasta subtilmente com o branco que a rodeia, mantendo a sua postura de sentinela solitária.

O Manto Branco: Toda a paisagem está submersa num manto de neve espesso e uniforme.

As árvores e arbustos que cobrem a encosta até ao castelo estão "petrificados" pelo gelo e pela neve, assemelhando-se a corais brancos ou a uma floresta de cristal.

A Atmosfera: O fundo da imagem é preenchido por montanhas distantes, esbatidas pela neblina e pela queda de neve, criando uma profundidade atmosférica em tons de azul-pálido e cinzento.

A cena transmite frio extremo, silêncio absoluto e uma beleza intemporal.

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O Sentinela de Gelo – Monforte de Rio Livre no Natal Branco

A imagem do Castelo de Monforte de Rio Livre coberto de neve, a poucos dias do Natal, é mais do que um postal de inverno; é um retrato da alma histórica e geográfica da Terra Fria Transmontana.

Neste cenário, onde a história se encontra com a meteorologia, o castelo deixa de ser uma ruína militar para se tornar um monumento à paciência e à resistência.

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A Solidão da História

O castelo, situado num ponto estratégico entre Chaves e Verín, na aldeia de Águas Frias, foi em tempos um bastião de defesa fronteiriça.

Hoje, abandonado e em ruínas, a sua Torre de Menagem ergue-se como o único guardião de uma memória antiga.

Sob o "manto branco", a sua solidão é amplificada.

A neve apaga os caminhos modernos, esconde a vegetação e uniformiza a paisagem, devolvendo ao castelo a sua pureza original.

Ele parece flutuar sobre a colina, intocado pelo tempo, "esperando o Natal" num silêncio monástico que convida à reflexão.

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A Beleza Cruel do Inverno

A fotografia capta a beleza extrema do inverno transmontano, mas não esconde a sua dureza.

As árvores cobertas de neve mostram a severidade das condições climáticas que moldaram esta região e as suas gentes.

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A beleza é fria, quase cortante.

O branco domina tudo, criando um cenário de conto de fadas gótico, onde a natureza reclama a pedra para si.

O castelo, resistindo ao peso da neve e ao vento gélido da serra, simboliza a tenacidade de quem vive nestas terras altas.

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A Espera do Natal

O título sugere uma personificação poética: o castelo está "à espera do Natal".

Nesta época de luz e calor humano, a imagem de uma fortaleza fria e isolada pode parecer contraditória.

No entanto, o Natal é também tempo de paz e silêncio.

E não há paz maior do que a de uma montanha coberta de neve, onde o ruído do mundo não chega.

Monforte de Rio Livre, vestido de branco, oferece-nos o verdadeiro espírito do Natal na natureza: uma quietude sagrada e uma beleza que, tal como a história que ele guarda, resiste a todas as tempestades.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Dez25

"A misteriosa névoa" (Águas Frias - Chaves - Portugal)


Mário Silva Mário Silva

"A misteriosa névoa"

(Águas Frias - Chaves - Portugal)

22Dez DSC05769_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva é uma representação atmosférica e minimalista da paisagem transmontana sob condições climáticas de inverno rigoroso.

A imagem é quase inteiramente dominada pelo efeito dramático da névoa densa e profunda.

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O Caminho: Um caminho rural de terra batida ou estrada secundária estabelece uma forte linha de fuga a partir do primeiro plano.

O caminho avança, mas o seu destino é incerto, pois se dissolve visualmente na massa branca da névoa que preenche todo o fundo.

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O Contraste: O lado direito da imagem é definido por uma sebe densa de arbustos ou vegetação de baixo porte, que se apresenta em tons de castanho e negro.

Esta linha escura funciona como uma âncora visual, contrastando vivamente com o branco-leitoso da bruma e impedindo que a imagem se dissolva totalmente no vazio.

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A Atmosfera: A ausência de horizonte e de formas distantes cria uma poderosa sensação de isolamento, silêncio e mistério.

A luz é difusa, mas suficiente para dar textura à névoa, que parece espessa e fria, confirmando a dureza da Terra Fria de Chaves.

 

A Misteriosa Névoa – O Véu da Incerteza em Águas Frias

Em Águas Frias, o topónimo é uma garantia de inverno rigoroso, e a névoa, mais do que um fenómeno meteorológico, é uma presença viva que define a paisagem e o estado de espírito.

A fotografia de Mário Silva, "A misteriosa névoa", não é apenas um registo do tempo, mas uma meditação sobre a incerteza e a beleza do que está oculto.

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A Estratégia do Esconderijo

A névoa tem a capacidade de despir a paisagem de tudo o que é supérfluo: o horizonte, as cores saturadas e a perspetiva.

Ao fazê-lo, força o observador a concentrar-se no imediato e no essencial.

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O caminho, que nas estações luminosas nos promete um destino e uma continuidade, dissolve-se aqui no branco.

Este limite visual é o cerne do mistério.

Onde leva a estrada?

O que está escondido no véu?

A névoa transforma o familiar em desconhecido, convidando-nos à introspeção típica do período do Solstício, quando a luz é escassa e o mundo se recolhe.

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O Enigma Transmontano

A presença da sebe escura na margem do caminho é crucial. Ela é a única certeza tátil e visual na imensidão branca.

Simboliza a resiliência da natureza transmontana, que se agarra à terra e resiste ao frio cortante.

É o único guia, a única linha divisória entre o campo e o caminho que permanece visível.

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A névoa em Águas Frias não é passageira; ela é a névoa que traz o orvalho gelado, aquela humidade persistente que penetra nos ossos.

Ela isola a aldeia do resto do mundo, reforçando o sentido de comunidade e de autossuficiência da Terra Fria.

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A fotografia é uma obra de arte sobre o silêncio.

O silêncio que se obtém quando o mundo se cala e só resta o caminho, a sebe, e o grande e misterioso branco.

É uma imagem que celebra a força do que não se vê, onde a beleza reside precisamente na ausência de resposta para a pergunta: "O que virá a seguir?".

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
21
Dez25

"Advento -(Rorate, caeli) - "Desça o orvalho do alto dos céus e as nuvens chovam o Justo. Abra-se a terra e germine o Salvador.""


Mário Silva Mário Silva

Advento -(Rorate, caeli)

"Desça o orvalho do alto dos céus e as nuvens chovam o Justo. Abra-se a terra e germine o Salvador."

21Dez DSC06498_ms.jpg

A fotografia, captada por Mário Silva, apresenta a torre sineira da Igreja Matriz de Águas Frias, em Chaves, sob um enquadramento dramático e evocativo do tempo do Advento.

O ângulo de visão é baixo, acentuando a verticalidade e a imponência da torre de pedra granítica, que domina a composição e se eleva contra um céu azul pontuado por nuvens.

A arquitetura é robusta, de um estilo barroco sóbrio, visível no corpo principal branco e no remate da torre com os seus pináculos e a cruz no topo.

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Destaca-se um elemento de contraste sazonal e simbolismo litúrgico: a imagem está artisticamente tratada com um efeito de neve a cair em primeiro plano.

Estas "gotas" brancas e brilhantes preenchem o espaço, simulando a precipitação e a ideia de "orvalho" e "chuva" mencionadas na citação bíblica (Rorate, caeli), conferindo um toque de mistério e expetativa.

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À direita, parte de uma árvore de folhagem verdejante contrasta com a neve e a pedra, adicionando um elemento de vida e cor.

No centro da torre, um relógio marca as horas, simbolizando a passagem do tempo e a espera.

Em primeiro plano, no canto inferior esquerdo, vê-se parte de um pilar de pedra trabalhado, típico da arquitetura religiosa local, que enquadra e protege o olhar.

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A fotografia funde a realidade arquitetónica da aldeia transmontana com o simbolismo da fé, criando uma imagem que é, simultaneamente, um registo documental e uma meditação poética sobre a espera do Natal.

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Advento - O Clamor do "Rorate, caeli"

O título "Advento -(Rorate, caeli)" e a citação profética que o acompanha — "Desça o orvalho do alto dos céus e as nuvens chovam o Justo. Abra-se a terra e germine o Salvador." (uma adaptação de Isaías 45:8, na Vulgata) — remetem para um dos mais belos e profundos temas da liturgia cristã: o tempo do Advento.

Este é um período de quatro semanas que antecede o Natal, marcado pela vigilância, penitência e, sobretudo, ardente expetativa da vinda do Salvador.

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O Significado do Clamor Profético

A expressão latina "Rorate caeli desuper" significa "Destilai, ó céus, o vosso orvalho do alto".

É o Intróito (Canto de Entrada) tradicional de uma missa votiva da Virgem Maria celebrada no Advento, popularmente conhecida como Missa Rorate.

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O Orvalho e a Chuva: O "orvalho" e a "chuva" simbolizam a graça divina e a descida do Messias, Jesus Cristo.

Na mentalidade bíblica, o orvalho é uma bênção que vivifica a terra seca; o Justo (o Salvador) é a água de vida que a humanidade anseia para sair da sua aridez espiritual.

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Abertura da Terra: O pedido "Abra-se a terra e germine o Salvador" exprime o anseio da criação e da humanidade.

É a oração para que a terra, que está "fechada" pelo pecado original, se torne fecunda pela intervenção divina, dando à luz a Salvação.

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Expetativa e Anseio: Este texto, cantado em canto gregoriano, reflete o clamor dos profetas e, simbolicamente, o anseio da Igreja ao longo da História pela primeira vinda de Cristo (o Natal) e a segunda vinda (no fim dos tempos).

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A Missa Rorate e o Símbolo da Luz

A Missa Rorate é tradicionalmente celebrada antes do amanhecer nos sábados do Advento (dedicados à Virgem Maria).

A sua simbologia é poderosa:

A Escuridão: A celebração começa na escuridão da madrugada, com a igreja iluminada apenas pela luz das velas trazidas pelos fiéis.

Esta penumbra representa o mundo envolto nas trevas do pecado e na noite de espera antes da Vinda de Cristo.

A Luz que Cresce: À medida que a missa avança, a luz da aurora começa a surgir e, no fim da celebração, o templo é inundado pela luz do sol nascente.

Este é o símbolo de Cristo, o Sol Nascente (Oriens) prometido pelos profetas, que vem dissipar as trevas.

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A Igreja de Águas Frias na Espera

Ao escolher a Igreja de Águas Frias, em Chaves, como cenário, o fotógrafo Mário Silva enquadra esta meditação teológica numa realidade concreta e portuguesa.

A pedra granítica da igreja (ver-se na fotografia) evoca a solidez e a longevidade da fé nas comunidades transmontanas.

O efeito de neve e orvalho sobre o edifício (como se sugere na descrição visual) torna-se a materialização da súplica litúrgica: a promessa de Salvação desce sobre a casa de Deus e sobre a comunidade reunida.

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O Advento não é apenas um tempo de memória, mas um apelo à conversão e à vigilância ativa.

A imagem da torre, robusta, mas coberta pelo suave "orvalho" divino, convida o observador a preparar o coração para receber Aquele que está para vir, lembrando que a luz, mesmo que comece com uma simples vela na escuridão, acabará por inundar o mundo.

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Texto & Fotografia (tratada): ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Nov25

"O granito na construção rural transmontana"


Mário Silva Mário Silva

"O granito na construção rural transmontana"

22Nov DSC09096_ms

A fotografia de Mário Silva é um close-up angular que foca na fachada e na lateral de uma estrutura rural antiga, provavelmente um celeiro, adega ou habitação, construída integralmente em pedra de granito.

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O edifício é maciço e apresenta uma cantaria de granito irregular e não polida, com pedras de diferentes tamanhos e formatos, ligadas com argamassa.

A parede demonstra uma solidez impressionante, característica das construções de Trás-os-Montes.

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Aberturas: São visíveis duas aberturas na fachada.

Uma delas, mais antiga, é uma porta de madeira vertical no rés-do-chão, com uma pequena soleira de granito e um lintel também em pedra.

A outra abertura é um vão de porta ou janela, com caixilhos de madeira (uma porta) e uma moldura em pedra mais regular na lateral.

Textura e Cor: A pedra, de tom cinzento-claro a ocre, está coberta em alguns pontos por musgos e líquenes verdes, o que atesta a sua idade e a humidade do ambiente.

O telhado, parcialmente visível, é de telha tradicional e confere um toque de cor quente.

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O enquadramento angular realça a robustez e a verticalidade da construção.

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O Granito na Construção Rural Transmontana: A Essência da Robustez e Identidade

A fotografia de Mário Silva capta a mais pura expressão da arquitetura popular transmontana: o uso dominante do granito.

Em Trás-os-Montes, onde este material é abundante, o granito transcendeu a sua função geológica para se tornar o elemento definidor da paisagem construída, simbolizando a robustez, a durabilidade e a identidade cultural da região.

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Funcionalidade: A Resposta ao Clima e ao Solo

O granito foi a escolha óbvia na construção rural transmontana por razões estritamente funcionais.

A sua extrema dureza e densidade garantem:

Isolamento Térmico: A espessura das paredes de granito oferece um isolamento natural, mantendo as casas frescas no verão quente e protegidas do frio intenso do inverno transmontano.

Durabilidade e Estabilidade: O material é praticamente indestrutível, conferindo às estruturas uma longevidade que ultrapassa séculos.

As casas e celeiros são construídos para durar gerações, resistindo ao vento, à chuva e às intempéries.

Disponibilidade: A abundância de afloramentos graníticos na região (sendo Trás-os-Montes uma área predominantemente granítica) tornava-o o material de construção mais acessível, extraído e trabalhado pelos próprios lavradores e pedreiros locais.

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Estética e Identidade Cultural

A estética do granito na construção rural é o oposto do polimento e da perfeição.

A cantaria irregular e a justaposição de blocos de diferentes tamanhos na fotografia refletem uma arquitetura de subsistência e adaptação, onde a beleza reside na honestidade do material.

A cor da pedra, que envelhece gradualmente ganhando musgos e patinas (como se vê na imagem), integra a construção na paisagem natural.

As aldeias de granito fundem-se com os maciços montanhosos, formando um todo coeso.

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O granito, assim, não é apenas um material; é uma afirmação cultural.

Ele representa a tenacidade do povo transmontano — duro, resiliente e profundamente enraizado na sua terra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
21
Nov25

"Castanha Transmontana - como ela não há igual"


Mário Silva Mário Silva

"Castanha Transmontana - como ela não há igual"

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A fotografia de Mário Silva é um close-up vertical que celebra a colheita da castanha, capturando um cesto rústico repleto dos frutos no solo do souto.

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O elemento central é um cesto de verga ou vime tecido, de formato tradicional e com uma pega larga de madeira clara.

No interior do cesto, repousa uma abundância de castanhas maduras.

As castanhas são de cor castanho-avermelhada intensa e brilhante, com a ponta clara, e parecem ser de um calibre considerável, prontas para serem preparadas.

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O cesto está assente numa mistura de terra e erva verde-escura, com manchas de terra mais exposta no primeiro plano.

Ao fundo, espalhados pela relva e sobre um trecho de terra batida, são visíveis alguns ouriços (as cascas espinhosas da castanha) em tons de castanho-claro, já abertos e vazios, confirmando o local da apanha.

A luz incide suavemente, destacando as cores ricas das castanhas e a textura da verga.

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A Castanha Transmontana: Um Tesouro do Outono, Sabor e Identidade

O título da fotografia, "Castanha Transmontana - como ela não há igual", é uma afirmação que resume o orgulho e a reverência que a região de Trás-os-Montes nutre por este seu fruto.

A castanha não é apenas um produto agrícola; é uma pedra angular da cultura, da história e da paisagem transmontana.

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A Excelência da Terra o Fruto Superior

Trás-os-Montes, com o seu clima continental (invernos rigorosos e verões quentes) e solos graníticos ácidos, oferece o terreno ideal para o cultivo do castanheiro (Castanea sativa).

Esta combinação resulta em castanhas de qualidade excecional, reconhecidas pela Indicação Geográfica Protegida (IGP) "Castanha da Terra Fria", que abrange variedades notáveis como a Longal e a Judia.

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A superioridade da castanha transmontana reside em várias características que a tornam "sem igual":

Sabor e Textura: Possuem um sabor inconfundível, doce e intenso, e uma textura farinhenta e pouco fibrosa, ideal para assar, cozer ou para a produção de farinha e doces.

Calibre: Frequentemente, o seu calibre é superior, o que a torna altamente valorizada nos mercados nacional e internacional.

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O "Pão da Serra" e a Tradição da Sobrevivência

Historicamente, a castanha foi vital.

Antes da disseminação da batata e do milho, servia como a principal fonte de alimentação das populações serranas, valendo-lhe o nome de "pão da pobreza".

Era consumida de múltiplas formas — fresca, cozida, assada ou seca para ser guardada durante o inverno.

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A fotografia, ao mostrar o cesto cheio, simboliza a recompensa do trabalho e a garantia da sobrevivência da comunidade.

A apanha, frequentemente associada ao Magusto (celebrado por São Martinho), transformava-se num ritual de convívio e partilha, reforçando os laços sociais no souto.

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Um Futuro na Modernidade

Hoje, o castanhal transmontano é encarado com um novo valor económico, fornecendo matéria-prima para a indústria de ultracongelados e para a gastronomia de alta cozinha.

O cesto na relva, assim, representa a coesão entre o passado rústico e um futuro próspero, garantindo que a castanha continue a ser o orgulho e o sabor inigualável de Trás-os-Montes.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Nov25

"Castanha transmontana e Magusto"


Mário Silva Mário Silva

"Castanha transmontana e Magusto"

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A fotografia de Mário Silva é um close-up que foca a atenção no fruto do castanheiro no seu invólucro natural.

A imagem apresenta um ouriço (a casca espinhosa) parcialmente aberto, ainda pendurado num ramo, com as suas castanhas já visíveis no interior.

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O ouriço é de cor verde-limão e amarelo-pálido, coberto por uma miríade de espinhos longos e finos.

No seu interior, revelam-se duas castanhas de cor castanho-avermelhada e brilhante, com a ponta clara, prontas para serem colhidas.

O fundo é composto por folhagem verde-escura e alguma vegetação desfocada (bokeh), o que destaca as cores ricas e as texturas contrastantes da castanha e do ouriço.

A fotografia celebra a prontidão da colheita e a beleza do fruto antes de ser apanhado.

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A Castanha Transmontana: O "Pão da Pobreza" e a Festa do Magusto

A castanha, magistralmente retratada por Mário Silva no seu ouriço protetor, é um dos mais importantes símbolos culturais e económicos de Trás-os-Montes.

Durante séculos, o fruto do castanheiro (Castanea sativa) foi mais do que um alimento; foi o pilar da subsistência em muitas regiões de montanha, valendo-lhe o cognome de "pão da pobreza" ou "pão da serra".

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O Valor Histórico e Económico

O castanheiro, introduzido ou expandido pelos Romanos e cultivado em tradicionais soutos, prospera nos solos ácidos e no clima frio de Trás-osMontes e Beiras.

Antes da chegada da batata e da expansão do milho, a castanha servia como principal fonte de carboidratos, sendo consumida cozida, assada, seca (conhecida como "castanha pilada") ou moída em farinha.

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Hoje, a Castanha da Terra Fria (variedades como a Longal e a Judia) possui uma reputação de qualidade superior, sendo valorizada tanto para consumo “in natura” como para a exportação e a indústria de ultracongelados.

A colheita, que ocorre no outono, mobiliza as comunidades e representa uma fatia importante da economia local.

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O Magusto: A Festa da Partilha e da Identidade

O ponto alto do ciclo da castanha é a celebração do Magusto, um ritual ancestral de convívio e agradecimento, que em Portugal está tradicionalmente associado ao Dia de São Martinho (11 de novembro).

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O Magusto é a festa onde a castanha, após o trabalho da apanha, é finalmente saboreada de forma comunitária (ou era):

O Fogo e o Ritual: Acendem-se fogueiras para assar as castanhas (fazendo o magusto), que se comem quentes e, muitas vezes, ainda com o fumo a sair.

A Bebida Tradicional: A castanha assada é tradicionalmente acompanhada por vinho novo (o vinho acabado de fazer da vindima anterior) ou por jeropiga (uma bebida doce feita com mosto de uva).

O Convívio: O Magusto é (ou era) uma cerimónia de partilha, onde as castanhas, o vinho e a água-pé correm livremente, e o convívio, os cânticos e as brincadeiras (como enfarruscar os rostos uns dos outros com as cinzas da fogueira) reforçam (ou reforlavam) os laços comunitários.

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Em Trás-os-Montes, a castanha é, portanto, o laço que une o passado e o presente, e o Magusto é o momento em que a comunidade celebra (ou celebrava) a generosidade da terra e a sua própria identidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
12
Out25

Capela de Nossa Senhora da Conceição - Nova de Veiga – São Pedro de Agostem - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Capela de Nossa Senhora da Conceição

Nova de Veiga – São Pedro de Agostem - Chaves – Portugal

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A fotografia de Mário Silva retrata a Capela de Nossa Senhora da Conceição, localizada em Nova de Veiga, na freguesia de São Pedro de Agostem, Chaves.

A imagem, com uma perspetiva de baixo para cima, realça a solidez e a simplicidade da construção.

A capela tem paredes brancas e telhado de barro.

Os cantos das paredes e os elementos decorativos são em pedra amarelada.

A porta de madeira escura e a pequena sineira no topo são os elementos principais.

O céu azul com nuvens brancas, visível no topo da fotografia, contrasta com as cores da capela e confere-lhe um aspeto monumental.

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A Fé Inscrita na Paisagem: O Significado de Capelas e Igrejas em Trás-os-Montes

As capelas e igrejas de Trás-os-Montes são mais do que simples edifícios religiosos; são o coração da paisagem, a memória de um povo e o eco de séculos de fé e devoção.

Em aldeias remotas, em penedos solitários ou em vales escondidos, estas construções, como a Capela de Nossa Senhora da Conceição, testemunham a profunda espiritualidade das gentes transmontanas.

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A Arquitetura da Fé e da Simplicidade

A arquitetura das capelas transmontanas reflete a alma da região: robusta, simples e funcional.

Geralmente construídas com as pedras locais, como granito ou xisto, estas pequenas igrejas parecem fundir-se com a paisagem.

As suas paredes brancas, que contrastam com a pedra e os telhados de telha, são um sinal de pureza e de respeito.

As sineiras, muitas vezes singelas, tocam ao ritmo do dia-a-dia da aldeia, chamando os fiéis para a missa, assinalando a passagem das horas e anunciando as festas religiosas.

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O Coração da Comunidade

Em Trás-os-Montes, a igreja ou a capela é o centro da vida comunitária.

É o lugar onde se celebram os momentos mais importantes da vida: batismos, casamentos e funerais.

É também o palco das festas religiosas, uma das tradições mais vivas da região.

As festas do padroeiro, as romarias e as procissões são momentos de grande alegria e de união.

Nesses dias, a aldeia veste-se a preceito para honrar o seu santo, e os sons da música e os aromas da comida preenchem as ruas.

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Um Refúgio de Paz

As capelas e igrejas, muitas vezes situadas em locais de grande beleza natural, servem também como um refúgio de paz.

A sua quietude e o seu silêncio convidam à introspeção e à contemplação.

São espaços onde as gentes transmontanas podem fazer as suas preces, pedir graças e encontrar conforto em tempos difíceis.

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A fotografia de Mário Silva capta a dignidade de uma capela que, apesar da sua modéstia, é um pilar da comunidade.

Ela é um elo entre o céu e a terra, um testemunho da fé inabalável de um povo que, na sua simplicidade, construiu a sua alma nas suas igrejas e capelas.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
07
Out25

“Uvas após a vindima” - Águas Frias - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Uvas após a vindima”

Águas Frias - Chaves – Portugal

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A fotografia de Mário Silva é uma representação vibrante e detalhada de uvas recém-colhidas.

A imagem, tirada de perto, mostra uma mistura de cachos de uvas brancas e uvas pretas, com a luz do sol a incidir sobre elas, realçando as cores e as texturas.

É possível ver a pele fina das uvas brancas e o aspeto aveludado das uvas pretas, que formam um contraste de cores e luzes.

As uvas brancas, com os seus tons dourados e translúcidos, são o ponto focal da foto, iluminadas de forma intensa.

A composição celebra a riqueza da colheita e a abundância da natureza.

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A Vindima em Trás-os-Montes: Mais do que uma Colheita, uma Tradição de Vida

A vindima, a colheita das uvas, é um dos momentos mais importantes do calendário agrícola em Portugal, e na região de Trás-os-Montes, como em Águas Frias, é um evento com um significado que vai muito além da simples agricultura.

Para as gentes transmontanas, a vindima é um ritual de vida, um tempo de união, de esforço e de celebração.

É a altura em que a terra generosa recompensa o trabalho de um ano inteiro.

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O Esforço e a Cooperação

A vindima é um trabalho que exige a participação de todos.

Não é apenas uma tarefa individual, mas uma ação de comunidade.

Famílias inteiras, vizinhos e amigos juntam-se para apanhar os cachos de uvas, como os que a fotografia de Mário Silva retrata.

O ambiente é de camaradagem, com as conversas e as canções a preencherem o ar.

As mãos calejadas, os braços cansados e a coluna dolorida são o preço que se paga por cada cesto de uvas cheias.

Mas a recompensa é um sentimento de pertença e de realização que não tem preço.

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O Património Cultural e a Identidade

A vindima é uma celebração das raízes e da identidade transmontana.

O conhecimento de quando e como colher as uvas é transmitido de geração para geração, um legado oral que se mantém vivo e que garante a qualidade dos vinhos da região.

As tradições, como o almoço partilhado na vinha ou o lanche, são parte integrante do ritual.

A vindima não é apenas um ato de colher, mas também de honrar o passado e de transmitir os valores da terra e do trabalho.

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A Emoção da Colheita e a Promessa do Vinho

Quando os cestos se enchem de uvas, como as brancas e pretas da foto, há um sentimento de alegria e de alívio.

A colheita representa a conclusão de um ciclo, o fim de meses de preocupação com o tempo, a chuva e o sol.

É um momento de esperança, pois cada cacho é uma promessa de vinho.

Para as gentes de Trás-os-Montes, o vinho é mais do que uma bebida.

É um símbolo de convivência, de partilha e de hospitalidade.

Ele está presente em todas as mesas, nas festas de família e nas celebrações da aldeia.

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Em suma, a vindima é um espelho da alma transmontana: resiliente, trabalhadora e profundamente ligada à sua terra e às suas tradições.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
08
Ago25

A Festa de Verão em Águas Frias (08, 09 e 10 de agosto de 2025): Um Brilho de Tradição e Alegria em Chaves


Mário Silva Mário Silva

A Festa de Verão em Águas Frias

(08, 09 e 10 de agosto de 2025)

Um Brilho de Tradição e Alegria em Chaves

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Águas Frias, uma pitoresca localidade do concelho de Chaves, em Portugal, ganha um brilho especial a cada verão com a celebração da sua afamada "Festa de Verão".

Este evento anual, que irradia cor e animação, é um verdadeiro cartão de visitas da cultura local, atraindo não só os seus residentes, mas também visitantes que procuram vivenciar a autenticidade e a alegria transmontana.

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A festa é um espetáculo para os sentidos, onde a cor se manifesta nas vibrantes decorações festivas e nos fogos de artifício que pintam o céu noturno.

A música é o motor da folia, com o som a ecoar pelas ruas, convidando todos a participar na dança e na celebração.

Para garantir que a sede não atrapalhe a diversão, um bar aberto oferece bebidas geladas, enquanto o bom vinho da região e os petiscos típicos deliciam os paladares mais exigentes.

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A tradição e a diversão coexistem em perfeita harmonia.

Os entusiastas de jogos de cartas reúnem-se para o emocionante Torneio de Sueca, onde a destreza e o convívio se misturam.

A beleza e o carisma da juventude local são celebrados nos concursos de mini e de miss Águas Frias, momentos de descontração e aplausos.

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Os morteiros, com o seu estrondo característico, assinalam os momentos de maior efervescência, enquanto a Missa e a Procissão trazem um lado mais solene e tradicional à festa, reforçando os laços de fé e comunidade.

O ponto alto da programação musical é o concerto com "Paulo Raiz & Amigos", que contagia a assistência com a sua energia e repertório animado.

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Para culminar as celebrações, o céu de Águas Frias transforma-se num palco de luz e cor com um grandioso espetáculo de fogo de artifício, um momento que capta a atenção de todos e encerra a festa com chave de ouro.

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"A Festa de Verão" em Águas Frias é, em suma, uma experiência inesquecível de cor, música, gastronomia e convívio, onde a alegria transborda e a identidade de uma comunidade se celebra em pleno.

É um evento que reafirma a hospitalidade de Chaves e deixa em cada participante a vontade de regressar no ano seguinte para mais uma dose desta contagiante alegria.

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Texto & Fotomontagem: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
06
Ago25

Águas Frias: Filha de Rio Livre, Alma Transmontana


Mário Silva Mário Silva

Águas Frias: Filha de Rio Livre, Alma Transmontana

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Aninhada nas encostas verdejantes do concelho de Chaves, no coração de Trás-os-Montes, jaz a pitoresca aldeia de Águas Frias.

O seu nome, que evoca a frescura das suas nascentes e ribeiras, esconde uma história rica e uma ligação profunda a um passado remoto, sendo herdeira e "filha" do antigo concelho de Rio Livre, cuja memória se ergue no imponente Castelo de Monforte de Rio Livre.

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A história de Águas Frias e da sua região está intrinsecamente ligada à vida e à defesa da fronteira.

O Castelo de Monforte de Rio Livre, que coroa uma colina rochosa a poucos quilómetros de Águas Frias, é um testemunho silencioso de séculos de batalhas, conquistas e reconquistas.

Fundado, segundo a lenda, por D. Afonso Henriques, e mais tarde reforçado e dotado de foral por reis como D. Dinis, o castelo foi o centro nevrálgico de um vasto território, o concelho de Rio Livre, que durante séculos desempenhou um papel crucial na defesa do reino português contra as incursões castelhanas.

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Águas Frias, situada na órbita deste poderio medieval, beneficiou da sua proteção e da dinâmica socioeconómica que um centro administrativo e militar proporcionava.

As suas terras férteis, irrigadas pelas águas que lhe deram o nome, eram cultivadas com esmero, e os seus habitantes, maioritariamente ligados à agricultura e à pastorícia, contribuíam para a subsistência do concelho.

A vida na aldeia, embora dura, era pautada por um forte sentido de comunidade, moldado pelas tradições e pela paisagem transmontana.

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Com a reforma administrativa do século XIX, o concelho de Rio Livre foi extinto, e as suas freguesias, incluindo a de Águas Frias, foram integradas no concelho de Chaves.

No entanto, a memória daquela antiga jurisdição permaneceu gravada na identidade local.

O Castelo de Monforte de Rio Livre, embora hoje, quase em ruínas, continua a ser um guardião silencioso, um marco paisagístico e um símbolo da resiliência e da história daquela terra.

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Hoje, Águas Frias mantém o seu encanto rural, com as suas casas de granito, muitas delas recuperadas, e a sua paisagem de socalcos e campos verdejantes.

A aldeia vive o seu ritmo tranquilo, pontuado pelas estações do ano e pelas festividades religiosas e populares, como a famosa Festa de Verão, que atrai anualmente os seus filhos emigrados e visitantes, revitalizando as ruas e fortalecendo os laços comunitários.

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Águas Frias é, assim, mais do que uma simples aldeia transmontana.

É um fragmento vivo de um passado glorioso, uma "filha" que herdou a robustez e a autenticidade de Rio Livre.

Caminhar pelas suas ruas é sentir o eco da história, a força do granito e a pureza das águas, que continuam a moldar a vida e o carácter de um povo profundamente enraizado na sua terra.

É um convite à descoberta de um Portugal rural e genuíno, onde a memória e a tradição se fundem na paisagem.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

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