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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

21
Jan26

"O ritual da matança da seba" - Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"O ritual da matança da seba"

21Jan DSC03222_ms.JPG

Esta é uma imagem poderosa que capta a essência de uma das tradições mais profundas do Portugal rural.

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "O ritual da matança da seba", é uma composição a preto e branco que exala força e movimento.

A imagem regista um momento de intenso esforço coletivo: um grupo de homens, unidos pela tarefa comum, lida com o corpo pesado de um porco (a seba) num cenário campestre.

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A escolha do preto e branco acentua os contrastes da luz solar, realçando as texturas das roupas de trabalho e a tensão muscular dos intervenientes.

Ao fundo, vislumbra-se a tranquilidade da paisagem rural e um segundo animal em repouso, criando um contraste narrativo entre a ação frenética do primeiro plano e a quietude do ambiente.

A vinheta escura em redor da imagem foca o olhar do observador no centro da ação, transformando o trabalho manual num momento quase coreografado.

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A Matança da Seba – Mais que um Costume, um Pilar da Comunidade

O título da obra de Mário Silva remete-nos para uma expressão que faz parte do léxico emocional de muitas aldeias portuguesas.

A "seba" é o porco que foi alimentado e cuidado ao longo de um ano inteiro, muitas vezes com os restos da colheita e o que de melhor a terra deu.

A sua matança não é apenas um ato de subsistência; é um ritual de sobrevivência e de coesão social.

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O Ciclo da Entreajuda

No Portugal profundo, a matança do porco nunca foi uma tarefa solitária.

Como a fotografia ilustra com mestria, este é um evento que exige a força do coletivo.

É um momento de entreajuda: hoje ajuda-se num vizinho, amanhã o vizinho retribui.

Este ciclo de cooperação reforça os laços comunitários que, de outra forma, poderiam diluir-se no isolamento do campo.

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O Ritual e a Memória

O termo "ritual" no título é particularmente apropriado.

Existe uma ordem estabelecida, um saber-fazer passado de geração em geração:

O inverno: A época escolhida (normalmente entre dezembro e janeiro) devido ao frio, essencial para a conservação da carne.

A Lida: O processo que envolve homens e mulheres em tarefas distintas, desde o corte até à preparação dos enchidos.

O Fumeiro: A transformação da carne em presuntos, chouriços e alheiras, que garantirão o sustento da família durante os meses seguintes.

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O Olhar Contemporâneo

Embora as normas de saúde pública e a modernização tenham alterado a forma como estas práticas ocorrem, o registo de Mário Silva imortaliza a dimensão antropológica do evento.

A fotografia não celebra a morte do animal, mas sim a vitalidade de uma cultura que se recusa a esquecer as suas raízes.

É um testemunho da relação direta do ser humano com a sua alimentação, despida dos artifícios do consumo industrializado.

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A "matança da seba" continua a ser, no imaginário coletivo, o símbolo da abundância conquistada com o suor do rosto e a união de braços amigos.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
28
Jun25

"O Homem, o Cavalo e o Arado"


Mário Silva Mário Silva

"O Homem, o Cavalo e o Arado"

28Jun DSC00165_ms

A fotografia de Mário Silva capta uma cena intemporal que evoca a dura, mas profunda, ligação entre o ser humano, o animal de trabalho e a terra.

Esta imagem é um poderoso memorando de tradições rurais que estão em rápido declínio em muitas partes do mundo, incluindo Portugal.

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A cena retratada – um homem a arar a terra com a ajuda de um animal (seja um cavalo, uma mula ou um boi) – é um símbolo de uma era em que a agricultura dependia fortemente da força animal e do trabalho manual.

Essa prática, que durante séculos foi o pilar da subsistência rural, está a ser progressivamente substituída por métodos mais mecanizados e industrializados.

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Algumas das tradições rurais que se encontram em vias de desaparecimento incluem:

- O uso de animais de tração (bois, cavalos, mulas) para arar, gradar, semear e transportar produtos agrícolas era uma prática comum.

Estes animais não eram apenas uma força de trabalho, mas parte integrante da família e da comunidade.

A sua substituição por tratores e máquinas agrícolas mais eficientes e rápidas tornou o arado puxado por animal uma raridade, muitas vezes limitado a terrenos de difícil acesso ou a pequenas propriedades que mantêm métodos tradicionais.

A perda desta prática significa também a perda do conhecimento e das técnicas associadas ao maneio e treino destes animais para o trabalho agrícola.

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- Muitas comunidades rurais viviam da agricultura de sequeiro e da produção para autoconsumo, com pequenos excedentes para venda em mercados locais.

As terras eram trabalhadas para produzir uma variedade de culturas essenciais à alimentação da família e do gado.

Com a modernização e a especialização da agricultura, muitas destas pequenas explorações foram abandonadas ou convertidas para culturas mais rentáveis, perdendo-se a diversidade de produções e a autonomia alimentar local.

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- Embora ainda existam em algumas regiões, as práticas de pastoreio tradicionais, incluindo a transumância (movimento sazonal do gado entre pastagens de verão e inverno), diminuíram drasticamente.

A vida do pastor, com a sua sabedoria sobre o território, o clima e o comportamento animal, está em risco de se perder à medida que os rebanhos diminuem e as explorações se tornam mais intensivas e fechadas.

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- Os agricultores e pastores de antigamente possuíam um conhecimento profundo e empírico do ambiente natural – os padrões climáticos, os ciclos da lua e a fertilidade da terra.

Este saber, transmitido de geração em geração, era fundamental para a tomada de decisões agrícolas.

Com a dependência de tecnologias e previsões meteorológicas modernas, grande parte deste conhecimento ancestral está a desaparecer.

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- As comunidades rurais eram frequentemente baseadas em redes de ajuda mútua, onde vizinhos e familiares se ajudavam mutuamente nas tarefas agrícolas mais pesadas (como as mondas, as colheitas ou as desfolhadas).

Estes momentos eram também importantes para a coesão social e a transmissão oral de histórias e canções.

A mecanização e a diminuição da população rural enfraqueceram estes laços comunitários.

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- A manufatura de ferramentas agrícolas, cestos, utensílios de madeira e outros objetos essenciais para a vida no campo era uma parte integrante da economia rural.

Os artesãos rurais, com os seus conhecimentos e técnicas transmitidos ao longo do tempo, são cada vez mais raros, e as ferramentas tradicionais são substituídas por equipamentos industriais.

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A fotografia de Mário Silva serve, assim, como um valioso registo de um passado recente, mas que se afasta rapidamente.

É um convite à reflexão sobre a importância de preservar, ainda que em registo, estas tradições que moldaram a paisagem, a cultura e a identidade das comunidades rurais durante séculos.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
04
Mar25

"Carnaval na Aldeia", 2010, na aldeia de Águas Frias - Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Carnaval na Aldeia" - 2010

na aldeia de Águas Frias - Chaves - Portugal

04Mar DSC04456_ms

 

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O Carnaval é uma celebração rica e variada em todo o mundo, e nas aldeias transmontanas de Portugal, ele assume um caráter particularmente único, refletindo tradições locais, história e a identidade comunitária.

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O Carnaval, na sua essência, é uma festa de origem pagã que remonta a celebrações antigas como as Saturnais romanas, onde as normas sociais eram temporariamente invertidas.

Com a cristianização da Europa, essas festividades foram incorporadas ao calendário cristão, situando-se antes da Quaresma, um período de jejum e reflexão.

Nas aldeias transmontanas, o carnaval pode ter sido influenciado tanto por essas tradições antigas quanto pela necessidade de comunidades rurais de marcar o fim do inverno e o início da primavera, um momento de renovação e preparação para o trabalho agrícola intensivo.

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Nas aldeias transmontanas, o uso de máscaras e fantasias é central.

Elas servem não apenas para diversão, mas também para a anulação da identidade individual, permitindo que as pessoas se comportem de maneiras que normalmente não fariam.

A foto de Mário Silva mostra pessoas vestidas com roupas coloridas e acessórios, como chapéus e guarda-chuvas, que são típicos em muitas celebrações locais.

O carnaval nessas aldeias frequentemente inclui desfiles ou "cortes" onde grupos de pessoas percorrem as ruas, cantando, dançando e tocando instrumentos, como se vê na imagem com os participantes carregando instrumentos musicais.

Estes desfiles são ocasiões para a comunidade se reunir, fortalecendo laços sociais.

É comum encontrar elementos de sátira e crítica social durante o carnaval.

As pessoas vestem-se para imitar figuras locais ou para zombar de situações sociais, proporcionando uma válvula de escape para tensões e hierarquias sociais.

Algumas celebrações incluem rituais que podem ter raízes pré-cristãs, como a queima de bonecos que simbolizam o inverno ou o mal, ou danças que imitam movimentos de animais, simbolizando a ligação com a natureza e o ciclo agrícola.

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O carnaval é um momento de união, onde todos, independentemente da idade ou status social, participam.

Isso fortalece a coesão comunitária, especialmente importante em áreas rurais onde a vida pode ser isolada.

Estas festividades ajudam a preservar tradições locais que podem estar em risco de se perder com a modernização e a migração para áreas urbanas.

Simbolicamente, o carnaval representa a renovação.

Para as comunidades agrícolas, é um momento de preparação espiritual e social para a primavera, um período de plantio e renascimento.

O carnaval oferece uma oportunidade para a expressão pessoal e a liberdade de comportamento que é normalmente restringida pelas normas sociais e religiosas.

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Em resumo, o carnaval nas aldeias transmontanas é uma rica tapeçaria de tradição, comunidade e renovação.

A imagem de Mário Silva captura apenas um momento desta celebração, mas ilustra bem como o carnaval é uma expressão vital da cultura e da vida rural em Portugal.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

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