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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

12
Jan26

Uma casa típica transmontana - Paradela de Monforte – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Uma casa típica transmontana

Paradela de Monforte – Chaves – Portugal

12Jan DSC05086_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva transporta-nos para o coração de Trás-os-Montes, apresentando uma habitação que é um exemplo vivo da arquitetura vernácula regional.

A composição destaca a robustez do granito, material predominante na base da casa, onde as marcas do tempo e o musgo conferem uma textura orgânica à construção.

O elemento central é a escadaria exterior de pedra, que conduz ao piso superior (a zona habitacional), protegida por um corrimão de ferro forjado com um desenho geométrico simples.

No sopé das escadas, um pequeno portão de ferro pintado de tons avermelhados delimita o espaço.

As paredes do andar superior são rebocadas e caiadas de branco, contrastando com o peso da pedra do rés-do-chão, enquanto o telhado de telha cerâmica tradicional completa este quadro de autenticidade e memória.

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A Casa Transmontana – Onde a Pedra Guarda a História

A arquitetura tradicional de Trás-os-Montes, como a captada em Paradela de Monforte, não é apenas uma escolha estética; é uma lição de sobrevivência e adaptação ao clima rigoroso e à geografia da região "para lá dos montes".

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A Anatomia da Casa Típica

A casa transmontana clássica, particularmente na zona de Chaves, segue uma organização funcional muito específica que espelha o modo de vida agrícola de outrora:

Rés-do-chão (Lojas): Construído em granito grosso para suportar o peso e isolar. Antigamente, servia para guardar o gado, alfaias agrícolas e a adega. O calor dos animais ajudava a aquecer o piso superior.

Piso Superior: A zona de habitação da família. É aqui que se encontra a cozinha (o centro da casa com a sua lareira) e os quartos.

Escada Exterior: Um elemento iconográfico. Como o piso inferior era para os animais e trabalho, o acesso à casa fazia-se por fora, muitas vezes culminando num patamar chamado "balcão".

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A Simbiose com a Paisagem

Estas casas parecem brotar diretamente do chão.

O uso do granito local não só facilitava a construção, como permitia que a habitação tivesse uma inércia térmica fundamental: manter o fresco nos verões tórridos do interior e preservar o calor durante os invernos gelados.

O reboco branco no andar superior, visível na fotografia de Mário Silva, tinha também uma função prática e social.

A cal protegia as paredes e refletia a luz, conferindo uma sensação de limpeza e dignidade à moradia.

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Um Património em Preservação

Hoje, estas casas são mais do que habitações; são contentores de memória.

Em aldeias como Paradela de Monforte, a preservação destes detalhes — o portão de ferro, a pequena lanterna sobre a porta, a disposição das janelas — é o que mantém viva a identidade cultural do norte de Portugal.

Ver uma fotografia destas é recordar um tempo em que o ritmo da vida era ditado pelas estações e pela terra, e onde a casa era o refúgio seguro contra a dureza da montanha.

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"Trás-os-Montes não é apenas um lugar no mapa, é um estado de espírito gravado na pedra das suas casas."

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Jan26

Igreja de São Cornélio – Travancas – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Igreja de São Cornélio

Travancas – Chaves – Portugal

11Jan DSC04216_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva capta a simplicidade e a serenidade da Igreja de São Cornélio, situada em Travancas, no concelho de Chaves.

A composição destaca-se pelos seguintes elementos:

Arquitetura Tradicional: O edifício apresenta a traça típica das Beiras e de Trás-os-Montes, com paredes caiadas de branco e uma robusta cobertura de telha de barro avermelhada.

O Campanário: À esquerda, ergue-se uma torre sineira modesta e quadrangular, integrada na estrutura, que confere verticalidade ao conjunto.

O Contexto Local: A igreja assenta sobre um pavimento de paralelepípedos (calçada), num plano ligeiramente inclinado que sugere a topografia acidentada da região flaviense.

Luz e Cor: A edição da imagem utiliza tons quentes e uma vinheta suave, que acentuam o caráter histórico e intemporal do local, evocando uma sensação de paz e isolamento rural.

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Vida e Obra de São Cornélio: O Papa da Misericórdia

São Cornélio foi uma figura central do cristianismo do século III, tendo servido como o 21.º Papa da Igreja Católica entre os anos 251 e 253 D.C.

A sua vida foi marcada pela coragem face à perseguição romana e pela defesa da unidade da Igreja.

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A Eleição num Clima de Perseguição

Após o martírio do Papa Fabiano, a cadeira de Pedro ficou vazia durante mais de um ano devido à violenta perseguição do Imperador Décio.

Cornélio foi eleito sob grande risco pessoal, numa altura em que ser cristão era um crime punível com a morte.

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O Conflito com Novaciano (O Rigorismo)

O maior desafio do seu pontificado não veio de fora, mas de dentro da Igreja.

Surgiu a questão dos "Lapsi" — cristãos que, por medo da tortura ou morte, tinham renunciado à fé ou oferecido sacrifícios a deuses pagãos.

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Novaciano: Defendia que a Igreja não tinha poder para perdoar quem tivesse pecado gravemente (apostasia).

São Cornélio: Apoiado por São Cipriano de Cartago, defendeu a misericórdia.

Cornélio estabeleceu que, após uma penitência sincera, os "Lapsi" poderiam ser reintegrados na comunhão da Igreja.

Este princípio de perdão e reconciliação tornou-se um pilar do catolicismo.

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Martírio e Legado

Com a ascensão do Imperador Galo, as perseguições recomeçaram.

Cornélio foi exilado para Centumcellae (atual Civitavecchia), onde viria a morrer em 253 D.C.

Embora algumas fontes sugiram uma morte por maus-tratos no exílio, a Igreja venera-o como mártir.

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Curiosidade: Em muitas zonas rurais, como em Trás-os-Montes, São Cornélio é invocado como protetor do gado e dos animais domésticos, possivelmente devido à associação fonética do seu nome com a palavra latina cornu (corno/chifre).

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
02
Jan26

"Águas Frias no silêncio da noite" - Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"Águas Frias no silêncio da noite"

 Águas Frias, Chaves, Portugal

02Jan DSC00278_ms.JPG

Esta fotografia noturna capta a atmosfera intimista e serena da aldeia de Águas Frias.

A imagem é dominada por um forte contraste cromático entre o azul profundo e quase negro do céu e da encosta montanhosa em segundo plano, e os tons quentes, alaranjados e âmbar da iluminação pública que banha o casario.

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No centro da composição, destaca-se a silhueta da torre sineira da igreja, que se ergue acima dos telhados como um ponto de referência espiritual e geográfico.

As casas, aglomeradas de forma típica das aldeias transmontanas, parecem aninhar-se umas nas outras, com os telhados a refletir subtilmente a luz das ruas.

A granulação da imagem e a suavidade da focagem conferem-lhe uma textura quase pictórica, reforçando a sensação de silêncio, frio e recolhimento noturno.

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O Abraço Âmbar na Escuridão de Trás-os-Montes

Onde o silêncio não é vazio, mas um guardião.

Quando a noite cai sobre as terras de Chaves, não cai simplesmente; ela abraça.

Em Águas Frias, quando o último raio de sol se esconde atrás da serra e o frio desce com a autoridade do inverno transmontano, a aldeia não desaparece na escuridão.

Ela acende-se.

A fotografia de Mário Silva não nos mostra apenas casas e ruas; mostra-nos a resistência do conforto contra a imensidão da noite.

Ali, naquele vale de sombras azuladas, a iluminação pública desenha um mapa de calor humano.

Cada ponto de luz laranja é uma promessa: a promessa de que, lá dentro, há vida, há histórias a serem contadas à lareira e há o respirar compassado de uma comunidade que dorme.

A torre da igreja, altiva no centro da imagem, ergue-se como um pastor de pedra a velar pelo seu rebanho de telhados.

Ela é a testemunha muda dos séculos, a âncora que segura a aldeia para que esta não flutue para o céu estrelado.

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Neste silêncio, ouve-se tudo o que importa.

Ouve-se a paz.

Ouve-se o estalar da geada nos campos vizinhos e o sussurro do vento nas frinchas das portas.

Não é um escuro que assusta; é um escuro que protege.

As luzes não combatem a noite; dialogam com ela, criando uma pintura onde o âmbar e o azul dançam numa valsa lenta.

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"Águas Frias no silêncio da noite" é um lembrete de que a beleza mais profunda reside, muitas vezes, na quietude.

É a imagem de um lar que espera, paciente e luminoso, pelo nascer de um novo dia.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
28
Dez25

“Felizes os que esperam no Senhor e seguem os seus caminhos.” Capela S. Cristóvão - Ervedosa – Vinhais


Mário Silva Mário Silva

“Felizes os que esperam no Senhor

e seguem os seus caminhos.”

Capela S. Cristóvão - Ervedosa – Vinhais

28Dez Falram 3 dias_ms.jpg

A fotografia, capturada por Mário Silva, oferece um retrato sóbrio e emotivo da Capela de São Cristóvão, situada em Ervedosa, Vinhais.

A composição é dominada pela simplicidade arquitetónica da pequena ermida, em primeiro plano.

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A capela apresenta paredes brancas caiadas que se destacam sob uma luz difusa, possivelmente de um final de tarde, com a atmosfera levemente turva, quiçá por névoa ou orvalho.

O telhado, de telha tradicional de barro, é rematado por uma cruz singela e dois pináculos de pedra.

A porta principal, em madeira escura, é ladeada por dois pequenos óculos circulares, típicos de construções rurais e religiosas da região de Trás-os-Montes.

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Em frente à capela, encontra-se uma pequena área de acesso e patamar construída em granito rústico, com degraus largos.

No lado direito, um muro baixo de pedra irregular serve de guarda e assento, conferindo à entrada um ar de acolhimento e repouso.

Em ambos os lados, colunas robustas e trabalhadas em granito, com a sua pátina do tempo, emolduram a entrada.

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O fundo da imagem é preenchido por um horizonte rural, onde se vislumbra uma zona arborizada de pinheiros e vegetação dispersa, tudo envolto numa aura de calma e isolamento.

A terra à volta da capela é seca, de tons castanhos e amarelados, reforçando o cenário de ambiente interiorano.

A luz e o grão da imagem sugerem uma atmosfera quase intemporal, sublinhada pela citação que a acompanha, "Felizes os que esperam no Senhor e seguem os seus caminhos."

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O Santuário da Espera

"Felizes os que esperam no Senhor e seguem os seus caminhos."

No coração da terra ancestral de Trás-os-Montes, onde o granito guarda as histórias de séculos e o vento sopra a melodia dos pinhais, ergue-se a Capela de São Cristóvão em Ervedosa.

Não é um templo de fausto, mas um santuário da espera, um marco de fé plantado na simplicidade.

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A imagem capturada por Mário Silva não é apenas uma fotografia; é uma meditação sobre o Salmo que a intitula.

A frase, "Felizes os que esperam no Senhor e seguem os seus caminhos", ressoa na quietude da paisagem, transformando a capela num farol de paciência e propósito.

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As paredes brancas da ermida, lavadas pela chuva ou pelo tempo, são um reflexo da alma despojada que busca abrigo.

A porta escura, fechada, mas não trancada, sugere a intimidade do encontro — a entrada para o silêncio interior, onde a verdadeira espera acontece.

É no limiar, nos degraus de pedra gasta, que o caminhante de hoje encontra a sombra dos peregrinos de outrora, aqueles que, como São Cristóvão, transportavam o peso do mundo em busca de uma luz maior.

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O granito rude que sustenta a varanda não cede ao tempo; ele ensina a perseverança.

Ele murmura sobre os caminhos percorridos, os de Trás-os-Montes, acidentados e longos, e os da própria vida, cheios de incertezas.

A felicidade prometida não está no destino final apressado, mas no caminhar consciente, no seguir a senda com a certeza invisível da fé.

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Esperar no Senhor não é estagnação, mas um ato de confiança ativa.

É saber que, mesmo quando a luz é difusa e o horizonte se esbate nas árvores distantes, há uma cruz simples no topo do telhado a orientar.

É o reconhecimento de que cada passo é sustentado por uma promessa que transcende a paisagem visível.

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A capela de Ervedosa, solitária e serena, lembra-nos que a verdadeira felicidade reside na humildade da jornada e na fidelidade à direção.

É a poesia da fé anónima, do rito simples, que faz do esperar a forma mais elevada do seguir.

É um convite ao repouso da alma, antes de retomar o caminho com o coração renovado pela esperança.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
24
Dez25

"A Aldeia colocou a 'toalha' branca para a Ceia de Natal" (Águas Frias - Chaves - Portugal)


Mário Silva Mário Silva

"A Aldeia colocou a 'toalha' branca para a Ceia de Natal"

(Águas Frias - Chaves - Portugal)

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A fotografia de Mário Silva é uma magnífica vista panorâmica aérea da aldeia de Águas Frias, captada num dia de nevada intensa, provavelmente na véspera de Natal.

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A Paisagem: A imagem revela a topografia da região, com a aldeia aninhada num vale suave.

Todo o cenário está coberto por um manto de neve espesso e imaculado.

A "Toalha" Branca: Os campos agrícolas que rodeiam o casario, habitualmente verdes ou castanhos, transformaram-se em superfícies brancas e lisas.

Os muros de pedra que dividem as propriedades desenham linhas escuras e geométricas sobre a neve, assemelhando-se às dobras ou aos bordados de uma grande toalha estendida sobre a terra.

O Casario: No centro, as casas da aldeia agrupam-se com os seus telhados cobertos de branco.

A arquitetura tradicional transmontana destaca-se timidamente, com algumas fachadas a revelar tons de pedra ou reboco, mas a predominância é a uniformidade da neve.

Primeiro Plano: Em primeiro plano, ramos de árvores despidas de folhagem, salpicados de neve, criam uma moldura natural, dando profundidade à imagem e acentuando a sensação de estarmos a observar um presépio vivo a partir de um ponto elevado.

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A Toalha de Linho do Céu – Um Natal Branco em Águas Frias

Há metáforas que, de tão perfeitas, deixam de ser figuras de estilo para se tornarem realidade visível.

O título desta fotografia, "A Aldeia colocou a 'toalha' branca para a Ceia de Natal", é uma dessas verdades poéticas.

Na véspera da noite mais sagrada do ano, Águas Frias não precisou de enfeites artificiais; a própria natureza encarregou-se da decoração, estendendo sobre o vale o mais puro linho que o inverno transmontano consegue tecer.

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O Ritual do Silêncio

A neve tem o poder de silenciar o mundo.

Ela abafa o ruído dos passos, o som dos carros e até o ladrar dos cães.

Quando a "toalha" branca é colocada, a aldeia entra num estado de reverência.

É como se a paisagem soubesse que a Ceia de Natal exige solenidade.

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Nesta fotografia, vemos Águas Frias transformada num presépio à escala real.

As casas, aconchegadas umas às outras sob o peso branco dos telhados, guardam no seu interior o calor que falta lá fora.

Imaginamos, por detrás daquelas paredes de pedra, as lareiras acesas, o cheiro a lenha queimada, o polvo ou o bacalhau a cozer e as filhós a fritar.

O contraste é absoluto: fora, o gelo estático e belo; dentro, o fogo vivo e a família.

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A Mesa Está Posta

Diz-se que no Natal ninguém deve ficar sozinho e que a mesa deve estar sempre posta.

Aqui, é a terra inteira que se senta à mesa.

Os muros de pedra, desenhados a negro sobre a neve, parecem as marcas dos lugares marcados para os convidados: os ausentes, os presentes e os que hão de vir.

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Esta "toalha" não foi lavada no tanque da aldeia nem secada ao sol de agosto.

Foi enviada do céu, caindo floco a floco, cobrindo as imperfeições do chão, nivelando os caminhos e purificando a vista.

É uma toalha efémera, que durará apenas enquanto o frio permitir, mas que chegou no momento exato para dignificar a festa.

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O Milagre da Terra Fria

Em Trás-os-Montes, o Natal tem uma dureza terna.

O frio aperta o corpo, mas a tradição aquece a alma.

A fotografia de Mário Silva capta esse espírito: a beleza austera de uma aldeia que, no dia 24 de dezembro, recebeu o presente mais bonito que o céu podia dar.

A aldeia vestiu-se de branco, a mesa está posta, e o mundo parece, por um instante, imaculado e novo, pronto para o nascimento da Esperança.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
19
Dez25

"Outono! ... ou já será inverno?"


Mário Silva Mário Silva

"Outono! ... ou já será inverno?"

19Dez DSC05295_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva, apresenta uma paisagem atmosférica dominada por tons de sépia, bronze e castanho, que evocam uma forte sensação de nostalgia e transição.

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As Silhuetas: O enquadramento é definido pelas silhuetas escuras de árvores despidas, cujos ramos finos e intrincados se estendem como veias contra o céu.

A ausência de folhas é quase total, restando apenas alguns vestígios secos nas pontas, sinalizando o final do ciclo vegetativo.

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O Céu Dramático: O fundo é preenchido por um céu nublado e texturado.

Existe uma abertura nas nuvens por onde se filtra uma luz difusa e pálida (talvez de um sol baixo de inverno), criando um ponto focal luminoso que contrasta com o negrume dos ramos e da encosta.

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A Paisagem: Na base da imagem, recorta-se o perfil escuro de uma colina ou montanha, com vegetação rasteira, sugerindo um terreno agreste e em repouso.

A imagem transmite frio, silêncio e a quietude que antecede o solstício.

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O Limiar do Solstício – A Indefinição Dourada de Dezembro

A questão lançada pelo título da fotografia, "Outono! ... ou já será inverno?", captada num dia 19 de dezembro, toca no ponto nevrálgico do nosso calendário natural.

Estamos na "terra de ninguém" temporal, naquele hiato suspenso entre a definição astronómica e a realidade visual.

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A Ilusão do Calendário

Oficialmente, a 19 de dezembro, o Outono ainda reina.

O Solstício de Inverno, o dia mais curto do ano que marca a entrada oficial na nova estação, ocorre habitualmente a 21 ou 22 de dezembro.

No entanto, a fotografia de Mário Silva prova que a natureza não obedece a datas marcadas no papel.

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Visualmente, a paisagem já se rendeu ao Inverno.

As árvores, esqueletos elegantes desenhados a tinta da china contra o céu, já se despiram das cores quentes de outubro e novembro.

Já não há o fogo das folhas vermelhas; há apenas a estrutura nua da madeira, preparada para resistir às geadas e ventos que se avizinham.

O "Outono" da colheita e da abundância já partiu; o que resta é a sua sombra.

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A Cor da Saudade

O uso do tom sépia ou monocromático quente na fotografia acentua esta ambiguidade.

Não é o cinzento frio e azulado do inverno profundo, nem o laranja vibrante do outono pleno.

É uma cor de memória, uma cor de terra adormecida.

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A luz que rompe as nuvens é tímida, típica dos dias em que o sol caminha baixo no horizonte.

Esta luz ilumina uma natureza que está em pausa, em suspenso, aguardando o renascimento que só virá meses mais tarde.

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A Resposta da Natureza

Então, é Outono ou Inverno?

A fotografia responde-nos que é um momento de fronteira.

É o adeus arrastado de uma estação que se desvanece e a chegada silenciosa de outra que se impõe.

Em Trás-os-Montes e no interior norte, a 19 de dezembro, o frio já dita a lei.

O calendário pode dizer "Outono", mas a terra, as árvores e o céu da fotografia de Mário Silva sussurram, inequivocamente, que o espírito do Inverno já tomou o seu trono.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
18
Dez25

"Folhas no chão ... musgo nas paredes"


Mário Silva Mário Silva

"Folhas no chão ... musgo nas paredes"

18Dez DSC05239_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva transporta o observador para um cenário bucólico e intimista: um caminho rural estreito, ladeado pela natureza em pleno estado de inverno húmido.

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O Tapete de Folhas: O chão do caminho está completamente oculto por um manto espesso de folhas secas, em tons de castanho-acobreado e ocre.

A densidade das folhas sugere que se trata de um bosque de caducifólias (carvalhos ou castanheiros) que já perderam a sua copa, criando uma "estrada" suave e rústica.

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O Musgo Vibrante: Ladeando o caminho, especialmente do lado esquerdo, ergue-se um muro de pedra solta (granito), que está quase integralmente coberto por um musgo de um verde intenso e aveludado.

Do lado direito, uma elevação do terreno (rocha) apresenta a mesma cobertura verdejante.

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O Contraste: A composição vive do forte contraste cromático e textural: a secura castanha das folhas mortas no solo contra a humidade vital e verde do musgo nas paredes laterais.

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A Profundidade: As árvores, com ramos finos e pouca folhagem, formam um túnel natural que guia o olhar para o fundo da imagem, onde o caminho parece curvar ou abrir-se para um campo mais iluminado.

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O Ciclo da Terra – Onde o Castanho Adormece e o Verde Desperta

O título da fotografia, "Folhas no chão ... musgo nas paredes", resume com precisão poética a dualidade do inverno nas paisagens rurais do Norte de Portugal.

Nesta estação, enquanto uma parte da natureza morre (ou adormece), outra desperta com vigor, alimentada pela humidade e pela sombra.

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O Chão que Repousa

As "folhas no chão" contam a história do ciclo que terminou.

São as memórias do verão e do outono que caíram dos carvalhos e castanheiros.

Em Trás-os-Montes, estas folhas não são lixo; são o cobertor da terra.

Elas protegem o solo da erosão causada pelas chuvas fortes, mantêm a temperatura das raízes e, com o tempo, transformar-se-ão em húmus fértil que alimentará a primavera seguinte.

Caminhar por estas veredas é ouvir o som estaladiço da história natural sob as botas.

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As Paredes que Respiram

Em contrapartida, o "musgo nas paredes" é a vida que triunfa no frio.

Os muros de pedra seca, construídos há gerações para delimitar propriedades e gado, ganham uma segunda pele no inverno.

O musgo, bebendo da chuva e do orvalho, cobre a dureza do granito com um veludo macio.

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Este verde vibrante é um indicador biológico de ar puro e humidade saudável.

Ele suaviza as arestas da paisagem, transformando muros de pedra cinzenta em jardins verticais microscópicos.

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A Corredoura: Artéria da Aldeia

Este tipo de caminho, muitas vezes chamado de corredoura, é uma artéria vital da vida rural.

É por aqui que o gado passa para os pastos, que os agricultores acedem às hortas e que se faz a ligação entre o mundo doméstico e o mundo selvagem.

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A fotografia de Mário Silva capta o silêncio destes caminhos no inverno.

É uma imagem de equilíbrio perfeito: o castanho que nutre a terra e o verde que veste a pedra, criando um corredor de serenidade onde o tempo parece passar mais devagar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
17
Dez25

"Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) no planalto nordestino, nevado"


Mário Silva Mário Silva

"Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula)

no planalto nordestino, nevado"

17Dez DSC00140-fotor-20251126185613_ms.jpg

A fotomontagem de Mário Silva é uma composição artística que justapõe o detalhe de uma ave icónica com a vastidão de uma paisagem de inverno.

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O Pisco-de-peito-ruivo: Em primeiro plano, do lado esquerdo, destaca-se um Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula).

A ave exibe a sua característica mais marcante: a mancha alaranjada vibrante no peito e na face, que contrasta com a plumagem castanha do dorso e o ventre claro.

O pisco está pousado numa haste, olhando diretamente para a câmara (ou para o observador) com uma postura atenta e curiosa.

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O Planalto Nevado: O fundo retrata o Planalto Nordestino coberto por um espesso manto de neve branca e imaculada.

O horizonte é vasto e plano, transmitindo a sensação de isolamento e silêncio.

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A Árvore Solitária: Do lado direito, equilibrando a composição, ergue-se uma árvore grande e despida de folhas.

A sua silhueta negra e ramificada recorta-se nitidamente contra o céu e a neve, enfatizando a nudez do inverno.

Ao fundo, uma linha de árvores escuras marca o limite da paisagem.

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A Atmosfera: O céu azul-acinzentado sugere um dia frio e encoberto.

A imagem joga com o contraste entre o calor da cor da ave e o frio gélido do cenário.

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A Chama Viva no Branco do Planalto – O Pisco e a Neve

No vasto e gelado Planalto Nordestino (Trás-os-Montes), onde o inverno não é apenas uma estação, mas um estado de espírito, a paisagem tende a cair num silêncio monocromático.

A neve cobre os caminhos, as rochas de granito e os campos agrícolas, pintando tudo de branco.

É neste cenário de aparente dormência que surge, como uma pequena chama de esperança, o Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula).

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O Sentinela do Inverno

A fotografia de Mário Silva capta a essência deste contraste.

Enquanto muitas aves migram para sul em busca de calor, o pisco é um residente tenaz (reforçado no inverno por companheiros vindos do norte da Europa).

Ele permanece.

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Com o seu corpo pequeno e arredondado, o pisco desafia as temperaturas negativas da Terra Fria transmontana.

A sua mancha alaranjada no peito funciona visualmente como uma brasa acesa no meio da neve, quebrando a monotonia dos cinzentos e brancos.

Ele é o verdadeiro sentinela do inverno: territorial, corajoso e sempre atento a qualquer movimento na terra que possa revelar alimento.

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A Solidão da Árvore e a Companhia da Ave

A árvore solitária ao fundo da imagem representa a estrutura da paisagem despida.

Sem a folhagem, a árvore dorme, esperando a primavera.

O pisco, porém, não dorme.

Ele traz vida ao cenário estático.

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Conhecido como o "amigo do jardineiro" ou dos lavradores, o pisco tem o hábito de seguir quem trabalha a terra, esperando que a enxada revire o solo para encontrar minhocas.

No planalto nevado, onde a terra está escondida, a sua resiliência é ainda mais notável.

Ele procura abrigo nas sebes e alimenta-se do que a natureza ainda oferece ou da caridade humana.

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Um Símbolo de Natal e de Resistência

Não é por acaso que o pisco-de-peito-ruivo é associado aos postais de Natal.

A sua presença na neve evoca conforto e alegria.

Nesta fotografia, ele é mais do que uma ave bonita; é um símbolo da resistência transmontana.

Tal como as gentes do Nordeste, que se adaptam e vivem em harmonia com a dureza do clima, o pisco enfrenta o frio com o peito erguido, lembrando-nos que a vida pulsa forte mesmo debaixo do manto gelado do inverno.

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Texto & Fotomontagem: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
14
Dez25

"Trás-os-Montes atravessando o seu 'Inverno'"


Mário Silva Mário Silva

"Trás-os-Montes atravessando o seu "Inverno'"

14Dez DSC09225_ms A.JPG

A fotografia de Mário Silva é uma paisagem panorâmica que captura a atmosfera melancólica e serena do inverno no interior norte de Portugal.

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O Caminho: Em primeiro plano, um caminho de terra batida serpenteia suavemente por entre a vegetação, convidando o olhar a entrar na paisagem.

O caminho está ladeado por arbustos densos e árvores com folhagem de tons outonais e invernais (castanhos, ocres e verdes-escuros), indicando a dormência da flora.

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O Plano de Fundo e a Bruma: O fundo da imagem é dominado por uma colina ou serra, cujos detalhes estão suavizados por uma densa camada de bruma ou nevoeiro cinzento-azulado.

Esta neblina retira a saturação às cores, criando uma separação visual entre a nitidez do primeiro plano e o mistério do horizonte.

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Os Gigantes Eólicos: No cume da colina, quase desvanecidos pela neblina, erguem-se três aerogeradores (turbinas eólicas).

As suas silhuetas finas giram no vento, introduzindo um elemento moderno e tecnológico na paisagem rústica.

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A Atmosfera: A luz é difusa e sem sombras marcadas, típica de um dia encoberto.

A imagem transmite frio, silêncio e a vastidão da região transmontana.

 

O Manto de Bruma e a Resiliência da Terra Fria

O título da fotografia, "Trás-os-Montes atravessando o seu 'Inverno'", encerra em si uma verdade geográfica e emocional.

Nesta região, onde o ditado popular reza "nove meses de inverno e três de inferno", a estação fria não é apenas uma passagem no calendário; é um estado de espírito e uma prova de resistência que a terra atravessa com dignidade.

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A Travessia pelo Caminho de Terra

O caminho de terra batida que vemos no sopé da imagem é a metáfora perfeita para esta travessia.

Ele rasga o mato rasteiro, ladeado por carvalhos e giestas que já perderam o verde vibrante da primavera, vestindo-se agora de castanho e ferrugem.

É por estes caminhos que a vida rural continua a fluir, lenta, mas imparável, mesmo quando o frio aperta.

A vegetação, despida e rude, não está morta; está em recolhimento, guardando forças nas raízes profundas que se agarram ao xisto e ao granito.

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O Abraço do Nevoeiro

Ao fundo, a serra desaparece sob o manto da bruma.

Este nevoeiro, que muitas vezes se instala nos vales e teima em não levantar durante dias, confere à paisagem transmontana um carácter místico e isolado.

Ele suaviza as arestas duras da montanha e une o céu à terra num abraço cinzento.

É este clima rigoroso que molda o caráter das gentes: temperado pelo frio, resiliente como a rocha e habituado a ver para além da neblina.

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O Vento que Move o Futuro

No topo da colina, as turbinas eólicas giram silenciosamente.

Elas são os novos moinhos de Trás-os-Montes.

Aproveitando o mesmo vento gélido que fustiga a face dos pastores, estas estruturas transformam a dureza do clima em energia.

A sua presença na fotografia de Mário Silva é um lembrete de que a região, embora profundamente tradicional, não parou no tempo.

Ela adapta-se.

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"Atravessar o Inverno" em Trás-os-Montes é, portanto, um ato de paciência.

É saber caminhar pela terra húmida, aceitar a proteção da bruma e esperar, com a certeza inabalável das estações, que o sol voltará a romper a neblina para trazer a "Terra Quente" de volta à superfície.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Dez25

"Pastoreio numa tarde fria ... quase gélida"


Mário Silva Mário Silva

"Pastoreio numa tarde fria ... quase gélida"

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A fotografia de Mário Silva retrata uma cena de pastoreio num prado verde, marcada por um detalhe inusitado que atesta a dureza do clima.

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O Pastor: No centro da imagem, destaca-se a figura do pastor, um homem que segura firmemente um longo cajado de madeira com as duas mãos.

O detalhe mais marcante e pragmático é o seu adereço de cabeça: em vez de um gorro ou chapéu tradicional, ele usa um capacete de motociclista escuro.

Ele veste um casaco cinzento grosso e calças de trabalho escuras, protegendo-se visivelmente das baixas temperaturas.

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O Rebanho: Ao seu redor, pastam tranquilamente cerca de quatro ovelhas adultas com a lã espessa (sinal de inverno) e um pequeno borrego branco, que se destaca pela sua fragilidade ao lado da mãe.

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O Cenário: O solo está coberto de uma relva verde e fresca, salpicada de pequenas flores silvestres, indicando que há humidade no solo.

Em contraste, o fundo é composto por uma barreira de vegetação arbustiva seca e castanha (silvas ou giestas), típica da paisagem de inverno em Trás-os-Montes.

A luz é difusa, sugerindo um céu nublado e uma atmosfera fria.

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O Capacete e o Cajado – A Inovação Térmica no Pastoreio Transmontano

A fotografia "Pastoreio numa tarde fria ... quase gélida" é um documento antropológico fascinante sobre a capacidade de adaptação do homem rural às adversidades do clima.

Em Trás-os-Montes, onde se diz que há "nove meses de inverno e três de inferno", a estética cede lugar à necessidade, e a tradição encontra formas curiosas de dialogar com a modernidade.

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A Proteção Contra a "Gelhada"

A imagem do pastor com um capacete de mota pode, à primeira vista, arrancar um sorriso.

É uma justaposição incongruente: o cajado bíblico numa mão e a proteção rodoviária na cabeça.

No entanto, para quem conhece a mordedura do vento gélido nas planícies e serras de Chaves, esta escolha é de uma lógica implacável.

O capacete oferece o que nenhum gorro de lã consegue: isolamento total contra o vento, proteção para as orelhas e face, e uma caixa térmica que retém o calor.

O pastor transformou um objeto de velocidade numa ferramenta de estática paciência.

É o "desenrascanço" português na sua forma mais pura.

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A Vulnerabilidade e a Vida

Enquanto o pastor se blinda contra o frio, o rebanho segue o seu instinto milenar.

As ovelhas, com a sua lã densa, estão preparadas pela natureza.

A presença do pequeno borrego adiciona uma nota de ternura e vulnerabilidade à cena.

Numa tarde "quase gélida", a vida nova continua a surgir e a exigir cuidado.

O pastor está ali, com o seu cajado e o seu capacete, não apenas a ver a erva crescer, mas a garantir que aquele pequeno ser sobrevive ao rigor da estação.

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O Verde da Esperança e o Castanho da Realidade

O contraste entre o verde vívido do pasto e o castanho seco das silvas ao fundo resume a dualidade do inverno transmontano.

Há água e alimento (o verde), mas há também o frio que seca e queima (o castanho).

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Esta fotografia de Mário Silva é uma homenagem à resistência.

Mostra que a identidade rural não está presa a uma imagem de postal antigo; ela é viva, dinâmica e usa o que tem à mão para continuar a cumprir a sua missão: cuidar da terra e dos animais, faça chuva, faça sol, ou faça um frio de rachar que exija um capacete integral.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
04
Dez25

"O Abrigo e a Fraga" - Águas Frias - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"O Abrigo e a Fraga"

Águas Frias - Chaves – Portugal

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A fotografia de Mário Silva capta uma estrutura rústica e primitiva no campo, um pequeno abrigo construído sob uma enorme fraga (rocha de grandes dimensões), que reflete a interação ancestral do homem com o ambiente agreste de Trás-os-Montes.

A Fraga (A Rocha Mãe): O elemento dominante é uma fraga massiva e arredondada, que forma o telhado natural do abrigo.

A sua superfície é rugosa, coberta por musgos e líquenes em tons de castanho e verde-claro.

A sua imponência contrasta com a pequenez da entrada.

O Abrigo (A Construção): Por baixo da fraga, encontra-se uma pequena abertura de entrada retangular, cujas paredes laterais são construídas com blocos de granito bruto, dispostos verticalmente.

O lintel da porta é também uma pedra maciça.

O telhado, onde a fraga não chega, é rematado com telhas de barro onduladas, que ajudam a vedar e a proteger a abertura.

O Ambiente: A estrutura está implantada numa zona de vegetação rasteira seca e arbustos (possivelmente urze ou carrasco) e árvores caducas de folhagem castanha-dourada, indicando o final do outono ou início do inverno.

O céu é de um azul intenso, realçando a luz solar clara e a sombra escura do interior do abrigo.

O Significado: O conjunto evoca uma sensação de primitivismo, solidez e harmonia entre a obra humana e a geologia.

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O Abrigo e a Fraga – Arquitetura da Sobrevivência em Terras de Granito

A imagem "O Abrigo e a Fraga" é um testemunho da arquitetura vernácula de Trás-os-Montes, em particular da Terra Fria Chaves, onde a geologia do granito se impõe e dita as regras da construção.

Este pequeno abrigo, edificado na base de uma rocha colossal, é uma ode à engenharia da necessidade e à profunda ligação do povo transmontano à sua terra.

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A Lição da Fraga: Imponência e Proteção

A fraga nesta paisagem não é apenas uma rocha; é um recurso.

Com a sua massa e solidez, ela oferece naturalmente uma proteção inigualável contra os ventos frios, a chuva intensa e as temperaturas extremas do interior.

Ao utilizar a rocha como telhado e parede natural, o construtor original demonstrou um profundo conhecimento do ambiente e uma economia de esforço notável.

Estes abrigos, comuns em zonas de pastoreio ou de mato, serviam tradicionalmente para guardar ferramentas, proteger os pastores durante as intempéries ou alojar rebanhos. Simbolizam a permanência e o caráter imutável da terra.

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O Abrigo: O Gesto Humano

O elemento construído, com as suas paredes de pedra encaixadas e o remate de telha, é a marca da presença humana.

É um gesto de apropriação e adaptação.

Ao vedar a abertura, o homem transforma o espaço natural em espaço habitável (ou utilizável).

Este tipo de construção revela a filosofia de máximo rendimento com o mínimo de intervenção, uma ética ecológica intrínseca ao mundo rural.

A obra humana não compete com a natureza; ela coopera com a força geológica, utilizando o que a terra já oferece de forma grandiosa.

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Harmonia no Contraste

A fotografia realça o contraste dramático:

Luz e Sombra: A luz do sol bate forte na fraga, enquanto o interior do abrigo permanece numa escuridão profunda, simbolizando o mistério e a segurança que ele oferece.

Rugosidade e Função: A rugosidade primitiva da rocha contrasta com a funcionalidade das paredes e do telhado, resultando num objeto de simplicidade escultural.

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O Abrigo e a Fraga representam a essência de Trás-os-Montes: uma paisagem onde a dureza da pedra inspira a resiliência humana e onde a inteligência da sobrevivência se manifesta na arte de se abrigar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
03
Dez25

"Os castanheiros despidos, deixando ver a casa" - Águas Frias - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Os castanheiros despidos, deixando ver a casa"

Águas Frias - Chaves – Portugal

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A fotografia de Mário Silva capta uma cena de paisagem rural em pleno inverno, destacando a transparência da paisagem quando a folhagem cai, revelando a arquitetura por detrás.

A Casa: No centro do plano, emerge uma habitação rural moderna, de dois pisos, com uma varanda superior e grandes janelas.

A sua caraterística mais notável é o telhado de telha cerâmica de cor viva, alaranjada, que contrasta fortemente com o céu e os elementos circundantes.

A casa assenta num terreno desnivelado, apoiada numa estrutura de cimento ou bloco no rés-do-chão.

Os Castanheiros Despidos: Em primeiro plano, duas árvores de médio porte, desfolhadas, emolduram a casa.

Os seus ramos nus e escuros criam uma rede intricada que, no verão, ocultaria a casa, mas que no inverno a revela.

A falta de folhagem confirma o inverno profundo.

Estas árvores, pela sua estrutura e pelo contexto transmontano de Águas Frias, são castanheiros (Castanea sativa).

O Enquadramento e a Luz: A cena é capturada sob uma luz solar clara e fria, típica do inverno, com um céu azul parcialmente visível.

As sombras projetadas pelos ramos e pelo muro de suporte em primeiro plano reforçam a sensação de um dia de sol invernal.

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Castanheiros Despidos, Casa Revelada – O Ritmo Sazonal da Vida em Trás-os-Montes

A imagem "Os castanheiros despidos, deixando ver a casa" de Águas Frias, Chaves, é uma poderosa representação da sazonalidade e da transparência na vida rural de Trás-os-Montes.

O Outono e o Inverno não são épocas de perda, mas de revelação, onde a natureza retira o seu manto verde e expõe o que está por detrás: a estrutura da terra e a habitação humana.

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A Folha Que Cobre e a Folha Que Revela

No verão, os castanheiros (o souto) constituem uma barreira protetora e uma fonte de sombra, ocultando as casas do calor e, em parte, da vista.

Esta folhagem densa simboliza a abundância e o pico da atividade agrícola.

Quando chega o inverno, os castanheiros, já despidos após a colheita da castanha, tornam-se quase transparentes.

Esta nudez é um convite à contemplação e uma metáfora para a honestidade e a crueza da paisagem de inverno.

A casa, agora visível (com o seu telhado quente e laranja), simboliza o abrigo e o aconchego, o refúgio humano que resiste ao frio imposto pela natureza.

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O Inverno: A Época da Casa

Em Trás-os-Montes, o Inverno não é um tempo morto; é o tempo do recolhimento e da introspeção.

É a época em que a vida se move do campo (o ar livre) para o lar (o interior).

A luz fria do inverno realça a importância da casa como símbolo da família e da permanência.

A estrutura da casa, embora de linhas modernas (com grandes janelas), é ladeada pelas árvores ancestrais, ligando o conforto contemporâneo à tradição do ciclo da castanha, que é o coração económico e cultural da região.

O inverno força a comunidade a focar-se no essencial, tal como a ausência das folhas nos permite focar-nos na estrutura e no alicerce da vida rural.

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A imagem é um lembrete visual de que o ciclo da natureza e o ciclo da vida humana estão interligados: o castanheiro, depois de dar o seu fruto, repousa; e a comunidade, depois do trabalho no campo, recolhe-se à sua casa, esperando o novo ciclo.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
25
Nov25

Laccaria laccata solitário – Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"Laccaria laccata" solitário

Mário Silva

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A fotografia de Mário Silva é um close-up em plano baixo que destaca um único cogumelo, um Laccaria laccata, emergindo de um denso tapete verde no solo.

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O Cogumelo: O exemplar é solitário e o seu chapéu é de cor laranja-acastanhada a tijolo (característica da espécie), com uma forma ligeiramente convexa aplanada.

A margem do chapéu é notavelmente irregular e ondulada.

O pé (estipe) é fino, cilíndrico e da mesma cor do chapéu, surgindo verticalmente.

A Base Vegetal: O cogumelo está firmemente enraizado num solo coberto por um tapete denso de pequenas folhas de trevo e outras plantas rasteiras de um verde vibrante.

O contraste entre o laranja quente do fungo e o verde fresco do solo é muito acentuado.

Detalhes do Chão: Entre o verde, são visíveis pequenos raminhos e detritos escuros, o que sublinha o ambiente florestal e húmido.

Gotículas de água ou orvalho brilham levemente sobre as folhas, sugerindo um ambiente húmido, ideal para a micologia.

Composição: O enquadramento em plano baixo enfatiza a altura e a presença do cogumelo, elevando-o sobre o tapete verde e transmitindo uma sensação de descoberta.

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O Laccaria laccata Solitário – Humildade e Abundância no Reino Fúngico

O Laccaria laccata, vulgarmente conhecido como Cogumelo-Laca ou simplesmente Laca-Comum, é uma das espécies mais ubíquas e resilientes dos ecossistemas florestais de Portugal.

A fotografia "Laccaria laccata solitário" celebra a humildade e a discrição desta espécie, que, apesar de ser modesta na dimensão, é gigantesca na sua importância ecológica.

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O Mestre da Adaptação

O Laccaria laccata é um verdadeiro mestre da adaptação.

É um cogumelo micorrízico, o que significa que estabelece uma relação de simbiose vital com as raízes das árvores (carvalhos, pinheiros, etc.).

Este cogumelo fornece nutrientes e água à planta, recebendo em troca açúcares essenciais.

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A sua cor, que varia entre o laranja-pálido e o tijolo (daí o nome laccata, que significa lacado ou envernizado), permite-lhe prosperar em diversos ambientes, desde o solo ácido de sobreiros e carvalhos, como é comum em Trás-os-Montes, até à base de coníferas.

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A Lição do Solitário

Embora o Laccaria laccata surja frequentemente em grupos (o que contraria o título, que pode ser uma forma poética do fotógrafo ou a captura de um exemplar inicial), o seu aparecimento solitário na fotografia remete para a perseverança individual e para o ciclo discreto da natureza.

O cogumelo que vemos é apenas o corpo frutífero; o verdadeiro organismo, o micélio, está escondido sob o solo, numa vasta e complexa rede que liga a vida da floresta.

O exemplar solitário, emergindo do tapete de trevos, é uma manifestação fugaz de um sistema subterrâneo vasto e interligado, lembrando-nos que a maior parte da vida e do trabalho da natureza ocorre em silêncio e nas profundezas.

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Valor e Sabor Escondido

Apesar de ser um cogumelo de pequeno porte e de ser frequentemente ignorado por catadores em busca de espécies maiores, o Laccaria laccata é comestível e valorizado pelo seu sabor suave e ligeiramente terroso.

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A fotografia, ao concentrar-se na sua beleza vibrante contra o verde intenso, não só o valoriza esteticamente, mas também nos convida a prestar atenção aos detalhes mais modestos do reino fúngico, que garantem a saúde da floresta e enriquecem a biodiversidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
24
Nov25

"Depois da chuvada" – Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"Depois da chuvada"

Mário Silva

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A fotografia de Mário Silva capta uma cena de natureza, um pequeno ribeiro a correr suavemente por uma área de bosque, sob a luz difusa que se segue a uma precipitação.

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O Curso de Água: O elemento central é a água do riacho, que corre cristalina sobre um leito de pedras e seixos arredondados.

A água é rasa e espelha a luz do céu e as árvores nas margens, criando reflexos ténues e cintilantes.

O nível da água, ligeiramente elevado, e a presença de lodo húmido e folhas caídas nas margens sugerem que a chuvada acabou de cessar.

As Margens: A margem esquerda está densamente coberta por vegetação verde escura, musgo, e terra encharcada, destacando-se as raízes expostas das árvores que se agarram ao solo.

A Luz: A iluminação é de final de tarde, com o sol baixo (ou a sair por detrás das nuvens) a atravessar a folhagem das árvores mais altas na parte superior direita.

Esta luz quente, em contraste com o ambiente húmido e escuro do ribeiro, confere uma atmosfera de serenidade e renovação.

O Enquadramento: O enquadramento em plano picado (de cima para baixo) acentua o brilho e a fluidez da água, transmitindo uma sensação de quietude e ar puro, típica do momento "Depois da chuvada".

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A Chuvada e a Alma Transmontana — O Ciclo da Renovação

Em Trás-os-Montes, a chuvada não é apenas um fenómeno meteorológico; é um acontecimento fundamental que molda a paisagem, a economia e o temperamento das suas gentes.

A fotografia "Depois da chuvada" representa o momento exato em que a natureza respira aliviada, um instante de tranquilidade e saturação de vida que é essencial para a identidade desta região do Norte de Portugal.

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O Inverno Húmido e a Benção da Água

Trás-os-Montes, especialmente a Terra Fria, é caraterizada por um clima continental que traz invernos rigorosos e, crucialmente, períodos de precipitação intensa.

O granito, o solo e o sistema agrícola da região dependem diretamente desta afluência de água:

Vitalidade Agrícola: É a chuva que nutre os soutos (castanheiros), os carvalhais e as culturas de sequeiro.

A cena do ribeiro a correr suavemente após a chuvada simboliza a reposição da água nas ribeiras e nas nascentes, garantindo a vitalidade dos campos.

O Sabor da Terra: A qualidade dos produtos transmontanos, desde a castanha até aos cogumelos (cuja aparição é determinada pela humidade), está intrinsecamente ligada à sazonalidade e à pluviosidade.

A chuva é a promessa de uma boa colheita e de um solo fértil.

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A Sensação de "Depois da Chuvada"

O momento capturado na fotografia é rico em emoções e sensações que são universais, mas agudizadas na rusticidade transmontana:

O Aroma da Terra: O cheiro a terra molhada, a “petricor”, é a fragrância da floresta purificada.

A Quietude: O som da chuva intensa cede lugar ao murmúrio suave do ribeiro e ao silêncio das árvores encharcadas.

A Limpeza: A água remove o pó do verão e revela as cores mais saturadas da vegetação e das pedras.

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A Metáfora da Resiliência

Na cultura transmontana, o ciclo da água reflete a resiliência do seu povo.

Tal como as raízes das árvores se agarram à terra húmida para resistir à erosão (como se vê na margem do ribeiro), o povo da região agarra-se à sua terra, resistindo à adversidade.

A chuvada, por vezes avassaladora, é sempre seguida pela serenidade e pela renovação — um ciclo perpétuo de dificuldade e superação.

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A cena do riacho, iluminada pelo sol que regressa, é um lembrete de que, mesmo após as tempestades mais fortes, a luz e a vida voltam a fluir, prometendo a fertilidade e a continuidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Nov25

"O granito na construção rural transmontana"


Mário Silva Mário Silva

"O granito na construção rural transmontana"

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A fotografia de Mário Silva é um close-up angular que foca na fachada e na lateral de uma estrutura rural antiga, provavelmente um celeiro, adega ou habitação, construída integralmente em pedra de granito.

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O edifício é maciço e apresenta uma cantaria de granito irregular e não polida, com pedras de diferentes tamanhos e formatos, ligadas com argamassa.

A parede demonstra uma solidez impressionante, característica das construções de Trás-os-Montes.

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Aberturas: São visíveis duas aberturas na fachada.

Uma delas, mais antiga, é uma porta de madeira vertical no rés-do-chão, com uma pequena soleira de granito e um lintel também em pedra.

A outra abertura é um vão de porta ou janela, com caixilhos de madeira (uma porta) e uma moldura em pedra mais regular na lateral.

Textura e Cor: A pedra, de tom cinzento-claro a ocre, está coberta em alguns pontos por musgos e líquenes verdes, o que atesta a sua idade e a humidade do ambiente.

O telhado, parcialmente visível, é de telha tradicional e confere um toque de cor quente.

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O enquadramento angular realça a robustez e a verticalidade da construção.

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O Granito na Construção Rural Transmontana: A Essência da Robustez e Identidade

A fotografia de Mário Silva capta a mais pura expressão da arquitetura popular transmontana: o uso dominante do granito.

Em Trás-os-Montes, onde este material é abundante, o granito transcendeu a sua função geológica para se tornar o elemento definidor da paisagem construída, simbolizando a robustez, a durabilidade e a identidade cultural da região.

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Funcionalidade: A Resposta ao Clima e ao Solo

O granito foi a escolha óbvia na construção rural transmontana por razões estritamente funcionais.

A sua extrema dureza e densidade garantem:

Isolamento Térmico: A espessura das paredes de granito oferece um isolamento natural, mantendo as casas frescas no verão quente e protegidas do frio intenso do inverno transmontano.

Durabilidade e Estabilidade: O material é praticamente indestrutível, conferindo às estruturas uma longevidade que ultrapassa séculos.

As casas e celeiros são construídos para durar gerações, resistindo ao vento, à chuva e às intempéries.

Disponibilidade: A abundância de afloramentos graníticos na região (sendo Trás-os-Montes uma área predominantemente granítica) tornava-o o material de construção mais acessível, extraído e trabalhado pelos próprios lavradores e pedreiros locais.

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Estética e Identidade Cultural

A estética do granito na construção rural é o oposto do polimento e da perfeição.

A cantaria irregular e a justaposição de blocos de diferentes tamanhos na fotografia refletem uma arquitetura de subsistência e adaptação, onde a beleza reside na honestidade do material.

A cor da pedra, que envelhece gradualmente ganhando musgos e patinas (como se vê na imagem), integra a construção na paisagem natural.

As aldeias de granito fundem-se com os maciços montanhosos, formando um todo coeso.

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O granito, assim, não é apenas um material; é uma afirmação cultural.

Ele representa a tenacidade do povo transmontano — duro, resiliente e profundamente enraizado na sua terra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
21
Nov25

"Castanha Transmontana - como ela não há igual"


Mário Silva Mário Silva

"Castanha Transmontana - como ela não há igual"

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A fotografia de Mário Silva é um close-up vertical que celebra a colheita da castanha, capturando um cesto rústico repleto dos frutos no solo do souto.

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O elemento central é um cesto de verga ou vime tecido, de formato tradicional e com uma pega larga de madeira clara.

No interior do cesto, repousa uma abundância de castanhas maduras.

As castanhas são de cor castanho-avermelhada intensa e brilhante, com a ponta clara, e parecem ser de um calibre considerável, prontas para serem preparadas.

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O cesto está assente numa mistura de terra e erva verde-escura, com manchas de terra mais exposta no primeiro plano.

Ao fundo, espalhados pela relva e sobre um trecho de terra batida, são visíveis alguns ouriços (as cascas espinhosas da castanha) em tons de castanho-claro, já abertos e vazios, confirmando o local da apanha.

A luz incide suavemente, destacando as cores ricas das castanhas e a textura da verga.

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A Castanha Transmontana: Um Tesouro do Outono, Sabor e Identidade

O título da fotografia, "Castanha Transmontana - como ela não há igual", é uma afirmação que resume o orgulho e a reverência que a região de Trás-os-Montes nutre por este seu fruto.

A castanha não é apenas um produto agrícola; é uma pedra angular da cultura, da história e da paisagem transmontana.

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A Excelência da Terra o Fruto Superior

Trás-os-Montes, com o seu clima continental (invernos rigorosos e verões quentes) e solos graníticos ácidos, oferece o terreno ideal para o cultivo do castanheiro (Castanea sativa).

Esta combinação resulta em castanhas de qualidade excecional, reconhecidas pela Indicação Geográfica Protegida (IGP) "Castanha da Terra Fria", que abrange variedades notáveis como a Longal e a Judia.

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A superioridade da castanha transmontana reside em várias características que a tornam "sem igual":

Sabor e Textura: Possuem um sabor inconfundível, doce e intenso, e uma textura farinhenta e pouco fibrosa, ideal para assar, cozer ou para a produção de farinha e doces.

Calibre: Frequentemente, o seu calibre é superior, o que a torna altamente valorizada nos mercados nacional e internacional.

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O "Pão da Serra" e a Tradição da Sobrevivência

Historicamente, a castanha foi vital.

Antes da disseminação da batata e do milho, servia como a principal fonte de alimentação das populações serranas, valendo-lhe o nome de "pão da pobreza".

Era consumida de múltiplas formas — fresca, cozida, assada ou seca para ser guardada durante o inverno.

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A fotografia, ao mostrar o cesto cheio, simboliza a recompensa do trabalho e a garantia da sobrevivência da comunidade.

A apanha, frequentemente associada ao Magusto (celebrado por São Martinho), transformava-se num ritual de convívio e partilha, reforçando os laços sociais no souto.

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Um Futuro na Modernidade

Hoje, o castanhal transmontano é encarado com um novo valor económico, fornecendo matéria-prima para a indústria de ultracongelados e para a gastronomia de alta cozinha.

O cesto na relva, assim, representa a coesão entre o passado rústico e um futuro próspero, garantindo que a castanha continue a ser o orgulho e o sabor inigualável de Trás-os-Montes.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
16
Nov25

“Igreja de São Lourenço” – Vilartão – Bouçoães – Valpaços – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Igreja de São Lourenço”

Vilartão – Bouçoães – Valpaços – Portugal

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A fotografia de Mário Silva retrata o interior do templo em Vilartão, Bouçoães, no concelho de Valpaços.

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A imagem foca-se no altar-mor, que é dominado por um retábulo ricamente ornamentado de talha dourada.

O estilo é de transição entre o Barroco e o Rococó, com grande profusão de detalhes, colunas salomónicas e ornamentos folheados a ouro.

O altar central é ladeado por nichos e figuras de santos, e o arco do altar tem um acabamento em pedra escura.

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Pendurado no centro da nave está um grande e vistoso candelabro de cristal, que reflete a luz interior.

O piso da igreja é de madeira escura e, em primeiro plano, estão visíveis os bancos de madeira da nave, em filas paralelas.

A luz artificial e o brilho da talha dourada criam um ambiente de solenidade e riqueza artística, contrastando com a simplicidade da vida rural em Trás-os-Montes.

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São Lourenço: O Guardião dos Tesouros e o Mártir na Grelha

A Igreja de São Lourenço, com a sua talha dourada no interior, é um dos muitos templos em Portugal dedicados a este santo, cuja vida e martírio ressoam na história da Igreja Católica.

São Lourenço (ou São Lourenço de Roma) é uma das figuras mais veneradas do cristianismo primitivo, conhecido pela sua inteligência, caridade e coragem inabalável.

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Vida e Função na Igreja Primitiva

Lourenço nasceu em Hispânia (atual Espanha) no século III, mas a sua vida destacou-se em Roma.

Foi um dos sete Diáconos da Igreja Romana, numa época em que o cristianismo ainda era perseguido.

Como arquidiácono, Lourenço tinha uma função crucial: era o guardião do tesouro da Igreja e o responsável pela sua administração, incluindo a distribuição de esmolas e a assistência aos pobres, aos órfãos e às viúvas.

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O Tesouro de Lourenço

O momento mais famoso e definidor da sua vida ocorreu durante a perseguição do Imperador Valeriano, por volta de 258 d.C..

O Imperador exigiu que Lourenço entregasse os tesouros da Igreja, esperando encontrar ouro, prata e objetos preciosos.

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Lourenço pediu três dias para reunir os "tesouros".

Ao fim desse tempo, em vez de ouro, apresentou à frente das autoridades imperiais os pobres, os coxos, os cegos e os enfermos que ele ajudava.

Declarou então: "Estes são os verdadeiros tesouros da Igreja."

Este ato de desafio, que colocava o valor humano e a caridade acima da riqueza material, selou o seu destino.

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O Martírio na Grelha

Como punição pela sua audácia e fé, São Lourenço foi condenado a uma das formas de martírio mais brutais da época: foi colocado numa grelha de ferro e assado vivo.

Reza a lenda que, mesmo sob tortura, Lourenço manteve a sua serenidade e bom humor.

No auge do seu sofrimento, terá dito aos seus algozes: "Podeis virar-me, pois este lado já está bem assado.".

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Devido ao seu martírio na grelha, São Lourenço é o patrono dos cozinheiros, assadores e bombeiros.

A sua festa litúrgica celebra-se a 10 de agosto, e a sua história é um poderoso testemunho da prioridade do serviço, da caridade e da fé inquebrável.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Nov25

"Castanha transmontana e Magusto"


Mário Silva Mário Silva

"Castanha transmontana e Magusto"

11Nov DSC06315_ms2

A fotografia de Mário Silva é um close-up que foca a atenção no fruto do castanheiro no seu invólucro natural.

A imagem apresenta um ouriço (a casca espinhosa) parcialmente aberto, ainda pendurado num ramo, com as suas castanhas já visíveis no interior.

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O ouriço é de cor verde-limão e amarelo-pálido, coberto por uma miríade de espinhos longos e finos.

No seu interior, revelam-se duas castanhas de cor castanho-avermelhada e brilhante, com a ponta clara, prontas para serem colhidas.

O fundo é composto por folhagem verde-escura e alguma vegetação desfocada (bokeh), o que destaca as cores ricas e as texturas contrastantes da castanha e do ouriço.

A fotografia celebra a prontidão da colheita e a beleza do fruto antes de ser apanhado.

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A Castanha Transmontana: O "Pão da Pobreza" e a Festa do Magusto

A castanha, magistralmente retratada por Mário Silva no seu ouriço protetor, é um dos mais importantes símbolos culturais e económicos de Trás-os-Montes.

Durante séculos, o fruto do castanheiro (Castanea sativa) foi mais do que um alimento; foi o pilar da subsistência em muitas regiões de montanha, valendo-lhe o cognome de "pão da pobreza" ou "pão da serra".

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O Valor Histórico e Económico

O castanheiro, introduzido ou expandido pelos Romanos e cultivado em tradicionais soutos, prospera nos solos ácidos e no clima frio de Trás-osMontes e Beiras.

Antes da chegada da batata e da expansão do milho, a castanha servia como principal fonte de carboidratos, sendo consumida cozida, assada, seca (conhecida como "castanha pilada") ou moída em farinha.

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Hoje, a Castanha da Terra Fria (variedades como a Longal e a Judia) possui uma reputação de qualidade superior, sendo valorizada tanto para consumo “in natura” como para a exportação e a indústria de ultracongelados.

A colheita, que ocorre no outono, mobiliza as comunidades e representa uma fatia importante da economia local.

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O Magusto: A Festa da Partilha e da Identidade

O ponto alto do ciclo da castanha é a celebração do Magusto, um ritual ancestral de convívio e agradecimento, que em Portugal está tradicionalmente associado ao Dia de São Martinho (11 de novembro).

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O Magusto é a festa onde a castanha, após o trabalho da apanha, é finalmente saboreada de forma comunitária (ou era):

O Fogo e o Ritual: Acendem-se fogueiras para assar as castanhas (fazendo o magusto), que se comem quentes e, muitas vezes, ainda com o fumo a sair.

A Bebida Tradicional: A castanha assada é tradicionalmente acompanhada por vinho novo (o vinho acabado de fazer da vindima anterior) ou por jeropiga (uma bebida doce feita com mosto de uva).

O Convívio: O Magusto é (ou era) uma cerimónia de partilha, onde as castanhas, o vinho e a água-pé correm livremente, e o convívio, os cânticos e as brincadeiras (como enfarruscar os rostos uns dos outros com as cinzas da fogueira) reforçam (ou reforlavam) os laços comunitários.

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Em Trás-os-Montes, a castanha é, portanto, o laço que une o passado e o presente, e o Magusto é o momento em que a comunidade celebra (ou celebrava) a generosidade da terra e a sua própria identidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
10
Nov25

"A névoa... o mar de Trás-os-Montes"


Mário Silva Mário Silva

"A névoa... o mar de Trás-os-Montes"

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No chão de Trás-os-Montes,

Onde a serra faz o seu ninho,

A névoa tece mil pontes,

Cobrindo todo o caminho.

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Vem de mansinho, calada,

Como um oceano que avança,

E a paisagem, adormecida,

Aguarda a sua esperança.

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Ficam só as árvores velhas,

A flutuar no branco lençol,

Cumes que são ilhas vermelhas,

À espera da força do Sol.

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Quebra a névoa, a linha do arame,

Que leva a luz e a memória,

Um traço do mundo que chame,

A vida que espreita a vitória.

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É um silêncio de lã e magia,

Um manto de bruma a ondular,

E a alma da gente da aldeia,

Suspira por ver o mar.

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Mas logo a brisa o afasta e some,

E o campo ressurge, inteiro,

Onde o mistério da névoa assume,

O sonho de um mundo verdadeiro.

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Poema & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
09
Nov25

Igreja de São Martinho – Ervedosa – Vinhais – Bragança – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Igreja de São Martinho

Ervedosa – Vinhais – Bragança – Portugal

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A fotografia de Mário Silva retrata a Igreja de São Martinho, na aldeia de Ervedosa, no concelho de Vinhais, distrito de Bragança.

A igreja é uma construção em granito rústico, com uma tonalidade dourada, banhada pela luz intensa do final da tarde, que projeta sombras nítidas.

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A fachada principal é marcada por uma torre sineira de dupla abertura, que se eleva acima do telhado de telha vermelha, e está coroada por uma cruz de pedra.

Na parte superior da fachada, no topo da empena, é visível um relógio de parede embutido na pedra.

A entrada principal, com uma porta de madeira escura, é ladeada por cantaria bem trabalhada.

A construção combina o granito à vista com paredes laterais caiadas de branco.

Um espelho de trânsito convexo em primeiro plano, no centro-direito, reflete a fachada de forma distorcida, introduzindo um elemento moderno no contexto histórico.

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São Martinho: Do Soldado Romano ao Patrono da Generosidade e do Vinho Novo

A Igreja de São Martinho em Ervedosa (Vinhais) é um testemunho da profunda e antiga devoção portuguesa a este santo, cujo culto está intrinsecamente ligado à época do outono e à celebração do vinho novo.

A história de São Martinho de Tours, que se tornou um dos santos mais populares da Europa, explica a origem do famoso "Verão de São Martinho" e do ritual do Magusto.

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A Origem do Culto: O Manto e a Caridade

O culto a São Martinho (316–397 d.C.) tem origem numa lenda que se tornou um símbolo de generosidade e misericórdia cristã.

Segundo a história, Martinho era um jovem soldado romano na Gália.

Num dia de inverno rigoroso, encontrou um mendigo quase nu à porta da cidade de Amiens.

Sem ter nada para oferecer, Martinho cortou a sua capa militar (o manto) a meio com a espada e deu metade ao mendigo.

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Naquela noite, Martinho sonhou com Jesus, vestido com a metade do manto que havia dado.

Ao acordar, Martinho compreendeu que o ato de caridade era a sua verdadeira vocação, e a partir desse momento, dedicou a sua vida à fé.

Acabou por ser batizado e, mais tarde, nomeado Bispo de Tours, na França.

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O Milagre do Verão de São Martinho

O dia da sua celebração, 11 de novembro, marca um período de melhoria climática no outono europeu, conhecido em Portugal como o Verão de São Martinho.

A lenda diz que o milagre da capa (o corte e a entrega do manto) foi recompensado por Deus com três dias de sol e calor inesperados para aquecer o pobre mendigo.

Este período é esperado anualmente em Portugal e celebrado com alegria.

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O Magusto: Vinho Novo e Castanhas

A data de 11 de novembro coincide com o final das colheitas e o início da prova do vinho novo.

Assim, o culto a São Martinho ligou-se naturalmente ao ritual do Magusto, em que as famílias e comunidades se reúnem para assar castanhas na fogueira (em Trás-os-Montes, como em muitas outras regiões) e beber o vinho acabado de fazer ou a água-pé.

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A Igreja de São Martinho em Ervedosa, com a sua arquitetura de granito, representa este pilar da tradição: um local de fé que resiste ao tempo e que, todos os anos, se torna o centro espiritual de uma festa que celebra a bondade, a memória do santo e a renovação dos frutos da terra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

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