"Outono! ... ou já será inverno?"
Mário Silva Mário Silva
"Outono! ... ou já será inverno?"

A fotografia de Mário Silva, apresenta uma paisagem atmosférica dominada por tons de sépia, bronze e castanho, que evocam uma forte sensação de nostalgia e transição.
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As Silhuetas: O enquadramento é definido pelas silhuetas escuras de árvores despidas, cujos ramos finos e intrincados se estendem como veias contra o céu.
A ausência de folhas é quase total, restando apenas alguns vestígios secos nas pontas, sinalizando o final do ciclo vegetativo.
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O Céu Dramático: O fundo é preenchido por um céu nublado e texturado.
Existe uma abertura nas nuvens por onde se filtra uma luz difusa e pálida (talvez de um sol baixo de inverno), criando um ponto focal luminoso que contrasta com o negrume dos ramos e da encosta.
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A Paisagem: Na base da imagem, recorta-se o perfil escuro de uma colina ou montanha, com vegetação rasteira, sugerindo um terreno agreste e em repouso.
A imagem transmite frio, silêncio e a quietude que antecede o solstício.
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O Limiar do Solstício – A Indefinição Dourada de Dezembro
A questão lançada pelo título da fotografia, "Outono! ... ou já será inverno?", captada num dia 19 de dezembro, toca no ponto nevrálgico do nosso calendário natural.
Estamos na "terra de ninguém" temporal, naquele hiato suspenso entre a definição astronómica e a realidade visual.
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A Ilusão do Calendário
Oficialmente, a 19 de dezembro, o Outono ainda reina.
O Solstício de Inverno, o dia mais curto do ano que marca a entrada oficial na nova estação, ocorre habitualmente a 21 ou 22 de dezembro.
No entanto, a fotografia de Mário Silva prova que a natureza não obedece a datas marcadas no papel.
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Visualmente, a paisagem já se rendeu ao Inverno.
As árvores, esqueletos elegantes desenhados a tinta da china contra o céu, já se despiram das cores quentes de outubro e novembro.
Já não há o fogo das folhas vermelhas; há apenas a estrutura nua da madeira, preparada para resistir às geadas e ventos que se avizinham.
O "Outono" da colheita e da abundância já partiu; o que resta é a sua sombra.
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A Cor da Saudade
O uso do tom sépia ou monocromático quente na fotografia acentua esta ambiguidade.
Não é o cinzento frio e azulado do inverno profundo, nem o laranja vibrante do outono pleno.
É uma cor de memória, uma cor de terra adormecida.
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A luz que rompe as nuvens é tímida, típica dos dias em que o sol caminha baixo no horizonte.
Esta luz ilumina uma natureza que está em pausa, em suspenso, aguardando o renascimento que só virá meses mais tarde.
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A Resposta da Natureza
Então, é Outono ou Inverno?
A fotografia responde-nos que é um momento de fronteira.
É o adeus arrastado de uma estação que se desvanece e a chegada silenciosa de outra que se impõe.
Em Trás-os-Montes e no interior norte, a 19 de dezembro, o frio já dita a lei.
O calendário pode dizer "Outono", mas a terra, as árvores e o céu da fotografia de Mário Silva sussurram, inequivocamente, que o espírito do Inverno já tomou o seu trono.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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