Dedaleira (Digitalis purpurea)
… e uma estória
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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Dedaleira (Digitalis purpurea)", é um plano aproximado de uma planta com flores em tons de rosa e magenta.
As flores, em forma de campânula ou dedal, estão dispostas num caule alto e reto, e mostram os seus pormenores e o interior em tons de branco.
As flores em primeiro plano estão abertas, enquanto as do topo, ainda em botão, sugerem a continuidade da floração.
A planta está inserida numa paisagem com o chão em tons de castanho e uma vegetação verde e desfocada em segundo plano.
A luz suave e a composição da imagem realçam a beleza e a delicadeza da flor.
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Estória: O Segredo da Dedaleira
No coração da serra, onde o ar era puro e o sol acariciava as encostas, crescia uma planta de dedaleira.
A sua beleza, capturada com tanta delicadeza na fotografia de Mário Silva, era um engano.
Cada flor, um dedal de cor rosa e magenta, escondia um segredo sombrio.
E era um segredo que a velha Maria Coxa, a curandeira da aldeia, conhecia bem.
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A Maria Coxa era uma mulher de poucas palavras, com as mãos enrugadas pela vida e os olhos sábios que tinham visto o tempo passar.
O seu conhecimento das ervas e das plantas era lendário.
Ela sabia que a dedaleira, apesar da sua aparência inocente, era uma assassina silenciosa.
As suas folhas, os seus caules, as suas flores — tudo nela era veneno.
Mas também sabia que, nas mãos certas, a planta podia ser a salvação.
Uma pequena dose do seu extrato podia curar um coração fraco, um coração que batia sem força e sem esperança.
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O seu neto, o pequeno Tiago, um rapazinho de olhos escuros e um sorriso que iluminava a aldeia, tinha nascido com o coração fraco.
A sua respiração era curta, os seus passos lentos.
Os médicos da cidade tinham dito que não havia esperança.
Mas a Maria Coxa, com a sua sabedoria ancestral, não desistiu.
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Ela ia todos os dias à serra, à procura da sua dedaleira.
Escolhia cuidadosamente as folhas, colhia-as com um respeito que era quase uma oração.
A cada folha, pedia perdão à planta pela sua transgressão, e pedia que ela tivesse piedade do coração do seu neto.
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Um dia, enquanto a Maria Coxa colhia as folhas, um estranho da cidade apareceu.
Ele era um homem alto, com um chapéu de palha e a arrogância dos que pensam que sabem tudo.
- Que bela flor! - exclamou ele, aproximando-se da planta. - Vou levar um ramo para a minha mulher. Ela vai adorar a cor."
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A Maria Coxa sentiu um arrepio de medo.
A beleza da dedaleira era uma armadilha.
A sua mão, rápida como um raio, agarrou a do homem.
- Não! - disse ela, a voz baixa, mas firme. - Esta flor... ela não é para enfeitar. Ela é perigosa. O seu perfume é doce, mas o seu segredo é amargo."
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O homem riu-se, uma risada que parecia oco.
- Velha supersticiosa. É só uma flor."
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Maria Coxa, com o seu olhar sábio, olhou-o nos olhos.
- É a “dedaleira”, meu caro. O seu nome diz tudo. É um “dedal” para a morte. Apenas um curandeiro sabe a dose para a vida."
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O homem, embora hesitante, ouviu o aviso.
Virou costas, rindo e balançando a cabeça.
A Maria Coxa, com o coração a bater forte, pegou nas suas folhas e voltou para casa, para preparar a poção que salvaria o coração do seu neto.
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A beleza da dedaleira na fotografia de Mário Silva é um lembrete de que, mesmo nas formas mais belas da natureza, o perigo e a cura coexistem.
A estória da Maria Coxa e do seu neto Tiago é um conto sobre a sabedoria ancestral, a humildade e a linha ténue entre a vida e a morte.
Uma linha que a dedaleira, com o seu segredo, nos ensina a respeitar.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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