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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

22
Nov25

"O granito na construção rural transmontana"


Mário Silva Mário Silva

"O granito na construção rural transmontana"

22Nov DSC09096_ms

A fotografia de Mário Silva é um close-up angular que foca na fachada e na lateral de uma estrutura rural antiga, provavelmente um celeiro, adega ou habitação, construída integralmente em pedra de granito.

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O edifício é maciço e apresenta uma cantaria de granito irregular e não polida, com pedras de diferentes tamanhos e formatos, ligadas com argamassa.

A parede demonstra uma solidez impressionante, característica das construções de Trás-os-Montes.

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Aberturas: São visíveis duas aberturas na fachada.

Uma delas, mais antiga, é uma porta de madeira vertical no rés-do-chão, com uma pequena soleira de granito e um lintel também em pedra.

A outra abertura é um vão de porta ou janela, com caixilhos de madeira (uma porta) e uma moldura em pedra mais regular na lateral.

Textura e Cor: A pedra, de tom cinzento-claro a ocre, está coberta em alguns pontos por musgos e líquenes verdes, o que atesta a sua idade e a humidade do ambiente.

O telhado, parcialmente visível, é de telha tradicional e confere um toque de cor quente.

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O enquadramento angular realça a robustez e a verticalidade da construção.

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O Granito na Construção Rural Transmontana: A Essência da Robustez e Identidade

A fotografia de Mário Silva capta a mais pura expressão da arquitetura popular transmontana: o uso dominante do granito.

Em Trás-os-Montes, onde este material é abundante, o granito transcendeu a sua função geológica para se tornar o elemento definidor da paisagem construída, simbolizando a robustez, a durabilidade e a identidade cultural da região.

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Funcionalidade: A Resposta ao Clima e ao Solo

O granito foi a escolha óbvia na construção rural transmontana por razões estritamente funcionais.

A sua extrema dureza e densidade garantem:

Isolamento Térmico: A espessura das paredes de granito oferece um isolamento natural, mantendo as casas frescas no verão quente e protegidas do frio intenso do inverno transmontano.

Durabilidade e Estabilidade: O material é praticamente indestrutível, conferindo às estruturas uma longevidade que ultrapassa séculos.

As casas e celeiros são construídos para durar gerações, resistindo ao vento, à chuva e às intempéries.

Disponibilidade: A abundância de afloramentos graníticos na região (sendo Trás-os-Montes uma área predominantemente granítica) tornava-o o material de construção mais acessível, extraído e trabalhado pelos próprios lavradores e pedreiros locais.

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Estética e Identidade Cultural

A estética do granito na construção rural é o oposto do polimento e da perfeição.

A cantaria irregular e a justaposição de blocos de diferentes tamanhos na fotografia refletem uma arquitetura de subsistência e adaptação, onde a beleza reside na honestidade do material.

A cor da pedra, que envelhece gradualmente ganhando musgos e patinas (como se vê na imagem), integra a construção na paisagem natural.

As aldeias de granito fundem-se com os maciços montanhosos, formando um todo coeso.

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O granito, assim, não é apenas um material; é uma afirmação cultural.

Ele representa a tenacidade do povo transmontano — duro, resiliente e profundamente enraizado na sua terra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
19
Nov25

"A ponte de pedra - a ligação entre margens"


Mário Silva Mário Silva

"A ponte de pedra - a ligação entre margens"

19Nov DSC08943_ms

A fotografia, representada pela imagem de uma ponte rústica sobre um pequeno rio, exibe uma ponte de lajes de pedra de construção antiga e simples, que se estende sobre um curso de água sereno.

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A ponte é suportada por três pilares maciços de granito irregular, visíveis dentro da água, sobre os quais assentam grandes lajes de pedra, formando o tabuleiro.

A sua construção é utilitária e primitiva, refletindo a engenharia popular.

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O rio é estreito e tem águas escuras, mas com reflexos da vegetação circundante, nomeadamente os ramos nus das árvores nas margens.

As margens estão densamente cobertas por vegetação rasteira e arbustos verde-escuros, criando um ambiente húmido e sombrio.

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A luz, provavelmente do final do dia, incide sobre as árvores ao fundo, deixando a área da ponte na penumbra, o que realça o caráter intemporal e isolado da estrutura.

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A Ponte de Pedra: A Ligação Eterna Entre Margens, Corações e Tempos

A ponte de pedra, com a sua arquitetura simples e robusta, é mais do que um mero trajeto funcional; é, no coração de Portugal rural, uma metáfora para a própria vida e a sua perpétua busca por união.

A fotografia capta a essência desta ligação, onde a pedra ancestral desafia a corrente do rio e a passagem do tempo.

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A Funcionalidade Transfigurada em Sentimento

A origem de toda a ponte reside na necessidade: a de ultrapassar um obstáculo, de evitar o isolamento.

No entanto, o que a mão humana constrói com pedra e esforço transcende rapidamente essa primeira função.

A ponte rústica torna-se o testemunho silencioso de todas as travessias que testemunhou:

A Travessia do Trabalho: O caminho diário do lavrador e do pastor, levando os animais e as colheitas.

A Travessia do Encontro: O ponto onde os namorados se encontravam e os vizinhos se saudavam.

A Travessia da Saudade: O local onde se via partir e onde se esperava o regresso.

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A pedra, batida pela chuva e pelo sol, guarda a memória desses passos.

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A Força da Ligação

O verdadeiro poder da ponte é unir o que o rio, na sua natureza de separação e fluxo, tenta manter à distância.

Ela representa a vitória da vontade sobre a natureza implacável.

Os pilares, firmemente cravados no leito do rio, são âncoras de estabilidade num mundo em constante movimento.

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As duas margens não são apenas terra; são dois mundos, duas vidas, dois corações.

A ponte é o voto de que a distância será sempre vencida, que a separação é apenas temporária.

Ela oferece uma via segura, mesmo quando a vida corre agitada e escura, como as águas refletidas na imagem.

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Um Portal no Tempo

Olhar para esta ponte de pedra é entrar num portal.

As lajes gastas não nos ligam apenas à outra margem do rio, mas também à outra margem do tempo.

Sentimo-nos ligar aos que a construíram e aos que por ela passaram há gerações.

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Ela ensina-nos que as ligações mais valiosas não são as mais elaboradas ou modernas, mas sim as que são construídas com materiais simples, mas com a firmeza da convicção e o propósito de unir.

A ponte de pedra é a lição de que o essencial na vida é a união, a perseverança e o regresso seguro.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
09
Nov25

Igreja de São Martinho – Ervedosa – Vinhais – Bragança – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Igreja de São Martinho

Ervedosa – Vinhais – Bragança – Portugal

09Nov DSC04079_ms

A fotografia de Mário Silva retrata a Igreja de São Martinho, na aldeia de Ervedosa, no concelho de Vinhais, distrito de Bragança.

A igreja é uma construção em granito rústico, com uma tonalidade dourada, banhada pela luz intensa do final da tarde, que projeta sombras nítidas.

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A fachada principal é marcada por uma torre sineira de dupla abertura, que se eleva acima do telhado de telha vermelha, e está coroada por uma cruz de pedra.

Na parte superior da fachada, no topo da empena, é visível um relógio de parede embutido na pedra.

A entrada principal, com uma porta de madeira escura, é ladeada por cantaria bem trabalhada.

A construção combina o granito à vista com paredes laterais caiadas de branco.

Um espelho de trânsito convexo em primeiro plano, no centro-direito, reflete a fachada de forma distorcida, introduzindo um elemento moderno no contexto histórico.

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São Martinho: Do Soldado Romano ao Patrono da Generosidade e do Vinho Novo

A Igreja de São Martinho em Ervedosa (Vinhais) é um testemunho da profunda e antiga devoção portuguesa a este santo, cujo culto está intrinsecamente ligado à época do outono e à celebração do vinho novo.

A história de São Martinho de Tours, que se tornou um dos santos mais populares da Europa, explica a origem do famoso "Verão de São Martinho" e do ritual do Magusto.

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A Origem do Culto: O Manto e a Caridade

O culto a São Martinho (316–397 d.C.) tem origem numa lenda que se tornou um símbolo de generosidade e misericórdia cristã.

Segundo a história, Martinho era um jovem soldado romano na Gália.

Num dia de inverno rigoroso, encontrou um mendigo quase nu à porta da cidade de Amiens.

Sem ter nada para oferecer, Martinho cortou a sua capa militar (o manto) a meio com a espada e deu metade ao mendigo.

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Naquela noite, Martinho sonhou com Jesus, vestido com a metade do manto que havia dado.

Ao acordar, Martinho compreendeu que o ato de caridade era a sua verdadeira vocação, e a partir desse momento, dedicou a sua vida à fé.

Acabou por ser batizado e, mais tarde, nomeado Bispo de Tours, na França.

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O Milagre do Verão de São Martinho

O dia da sua celebração, 11 de novembro, marca um período de melhoria climática no outono europeu, conhecido em Portugal como o Verão de São Martinho.

A lenda diz que o milagre da capa (o corte e a entrega do manto) foi recompensado por Deus com três dias de sol e calor inesperados para aquecer o pobre mendigo.

Este período é esperado anualmente em Portugal e celebrado com alegria.

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O Magusto: Vinho Novo e Castanhas

A data de 11 de novembro coincide com o final das colheitas e o início da prova do vinho novo.

Assim, o culto a São Martinho ligou-se naturalmente ao ritual do Magusto, em que as famílias e comunidades se reúnem para assar castanhas na fogueira (em Trás-os-Montes, como em muitas outras regiões) e beber o vinho acabado de fazer ou a água-pé.

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A Igreja de São Martinho em Ervedosa, com a sua arquitetura de granito, representa este pilar da tradição: um local de fé que resiste ao tempo e que, todos os anos, se torna o centro espiritual de uma festa que celebra a bondade, a memória do santo e a renovação dos frutos da terra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
30
Out25

“Um pormenor que é pormaior” - Águas Frias – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Um pormenor que é pormaior”

Águas Frias – Chaves – Portugal

30Out DSC07949_ms

Esta fotografia de Mário Silva, capturada em Águas Frias, Chaves, é um estudo focado num detalhe encantador e rústico da arquitetura local.

O título “Um pormenor que é pormaior” (ou “Um pormenor que é por maior”) sugere a importância de se prestar atenção a pequenos aspetos que carregam grande significado.

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A imagem é dominada por uma campainha de ferro forjado e enferrujado, fixada a uma parede rugosa de pedra clara.

O suporte desta campainha tem a forma de um gato sentado, uma figura zoomórfica que confere um toque de fantasia e familiaridade à peça.

O metal está corroído pelo tempo e pela humidade, exibindo tons profundos de castanho e laranja-ferrugem, que contrastam suavemente com o verde esmeralda no olho do gato.

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Por baixo do gato, pende o sino, robusto e igualmente corroído, suspenso por um pequeno elo.

Uma corrente estende-se a partir do sino, completando o mecanismo de chamada.

A luz difusa da tarde realça a textura da pedra e o peso do ferro, conferindo à cena uma atmosfera de quietude, durabilidade e nostalgia pela história que este pequeno objeto carrega.

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O Pormenor que Veste a História

A Simbologia dos Sinos e Enfeites na Arquitetura Transmontana

Nas aldeias do interior de Portugal, especialmente em regiões como Trás-os-Montes, a história não se encontra apenas nos grandes monumentos; está cravada nos pormenores do quotidiano.

A campainha de porta rústica e o suporte em forma de gato, capturados nesta fotografia, são a prova de que “um pormenor é por maior”: um pequeno objeto pode ter um vasto significado cultural e estético.

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O Ferro e o Testemunho do Tempo

O material dominante – o ferro forjado e enferrujado – é um testemunho da durabilidade e da autenticidade da vida rural.

A ferrugem não é vista como desgaste, mas como uma patina do tempo, um registo visual das estações e das décadas que este objeto experienciou na fachada.

O ferro, pesado e resistente, simboliza a natureza imutável da tradição e a resiliência das gentes locais.

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A Campainha e a Comunidade

Antes dos intercomunicadores modernos, o sino à porta era um elemento essencial da comunicação social.

Tocar a campainha não era apenas uma chamada funcional, mas um ato social que anunciava uma visita, o regresso de alguém, ou a chegada de um vendedor.

A campainha é, portanto, um símbolo do limiar entre o público e o privado, e da hospitalidade que define as comunidades pequenas, onde o som do sino era reconhecível e significativo.

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O Gato: Entre a Simbologia e o Afeto

O suporte em forma de gato é o toque que transforma este pormenor em “pormaior”.

O uso de figuras animais em ferro forjado na arquitetura popular tem raízes antigas, muitas vezes ligadas a crenças de proteção e boa sorte.

O gato, em particular, é um símbolo de vigilância, mistério e, nas casas rurais, um guardião prático contra roedores.

A sua presença humaniza a fachada de pedra, injetando uma nota de afeto e folclore no rigor da arquitetura.

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A fotografia de Mário Silva eleva este modesto objeto a um ponto focal, convidando-nos a valorizar os elementos que, embora pequenos, são essenciais para contar a história de uma casa, de uma rua e de uma aldeia.

É uma lembrança subtil de que a beleza e o significado cultural muitas vezes se encontram nos detalhes mais inesperados.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
29
Out25

“Pela rua principal de Sobreira” – Águas Frias – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Pela rua principal de Sobreira”

Águas Frias – Chaves – Portugal

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Esta fotografia de Mário Silva capta um pequeno, mas profundamente característico, recanto da aldeia de Sobreira, em Águas Frias (Chaves), no Norte de Portugal.

A composição é dominada por uma antiga fachada rural, rústica e texturada, dividida em duas secções distintas.

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À esquerda, ergue-se uma parede de pedra irregular em tons quentes, banhada por uma luz solar que lhe confere um brilho dourado e acentua a robustez dos materiais de construção tradicionais.

À direita, a parede apresenta um reboco mais claro e desgastado, em contraste suave com a pedra.

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O ponto focal é a porta castanha-avermelhada, de aspeto metálico e simples, que se insere numa moldura de pedra.

Por cima desta porta, luxuriante e viva, cresce uma parreira (videira), com as suas folhas verdes a penderem de forma protetora sobre a entrada e a criarem uma coroa de vitalidade sobre o cenário de pedra antiga.

Esta vide sugere a tradição agrícola e a profunda ligação da vida rural à produção do vinho.

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A telha tradicional no topo da parede, os pequenos pormenores como o tubo de escoamento e a pequena janela, juntamente com a assinatura do autor, emolduram uma cena que exala a calma, a simplicidade e a durabilidade da vida no interior transmontano.

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A Parreira, a Pedra e a Porta – Os Elementos da Memória Rural Transmontana

A fotografia de Mário Silva, capturada na aldeia de Sobreira, em Águas Frias, não é apenas um retrato arquitetónico; é uma síntese visual dos valores e da cultura do Portugal rural e transmontano.

A imagem condensa três elementos centrais da identidade desta região: a pedra, a porta e a videira.

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A Pedra: A Fundação da Resiliência

A parede de pedra, fria e robusta, simboliza a resiliência e a antiguidade destas comunidades.

Construída com o material abundante da região – o granito –, estas fachadas testemunham séculos de vida, resistindo ao rigor do clima e à passagem do tempo.

Cada bloco irregular, iluminado pelo sol, conta a história de uma construção feita à mão, perfeitamente integrada no ambiente circundante.

É uma arquitetura de necessidade, mas também de profunda beleza.

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A Parreira: O Símbolo da Vida e do Sustento

Contrastando com a imobilidade da pedra, a parreira que se debruça sobre a porta traz vida, movimento e cor.

A videira é, historicamente, um pilar da economia e da cultura transmontana.

Crescer à entrada de casa não é apenas decorativo; é um símbolo de sustento, de sombra no verão e, sobretudo, da produção caseira do vinho.

Esta videira luxuriante representa a interdependência entre o homem e a terra, e o ciclo anual de trabalho, colheita e celebração.

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A Porta: O Limiar do Lar

O elemento central, a porta, é o portal entre o mundo público da rua e o santuário privado do lar.

A sua aparência simples e metálica sugere funcionalidade e proteção.

Numa rua principal de uma aldeia, a porta é o ponto de passagem onde se trocam as primeiras palavras do dia, onde o trabalho começa e onde o descanso se encontra.

É o coração visível da vida familiar, emoldurado pelo legado da pedra e pela promessa da videira.

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A fotografia, ao isolar e realçar estes três elementos, captura a essência de Sobreira e de muitas outras aldeias do interior: um lugar onde a tradição se mantém firme na pedra, a subsistência floresce no verde da videira, e o calor da vida reside logo após o humilde limiar da porta.

É um convite à reflexão sobre a autenticidade e a beleza duradoura do Portugal profundo.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
23
Out25

“Pedra Fálica” - Águas Frias – Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Pedra Fálica”

Águas Frias – Chaves - Portugal

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A fotografia, intitulada “Pedra Fálica” e capturada em Águas Frias, Chaves, Portugal, é um plano próximo e dramático de uma grande rocha vertical incrustada num muro de pedra rústico.

A pedra central, de formato alongado e ligeiramente afilado no topo, tem uma textura rugosa e é predominantemente coberta por uma camada de musgo escuro e seco nas laterais, enquanto a sua superfície central é iluminada por uma luz quente, intensa e baixa, possivelmente do sol do final da tarde.

Esta iluminação acentua o volume e a forma da rocha, conferindo-lhe uma presença imponente e escultural.

A rocha está enquadrada por um muro de pedras mais pequenas, de cores e formatos variados, que servem de moldura e de contraste, destacando a antiguidade e a importância do monólito.

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Lenda Ancestral da Pedra da Fecundidade

Nas terras de Águas Frias, onde os Invernos são duros e os rios cantam lendas antigas, ergue-se, desde tempos que se perdem na memória dos povos, a "Pedra da Fecundidade", um monólito venerado que o povo viria a conhecer como a Pedra Fálica.

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A Lenda: O Gigante Petrificado e a Deusa Mãe

A lenda mais antiga conta que esta pedra não era, na verdade, uma rocha, mas sim a forma petrificada do Deus-Gigante Turi, o último da sua espécie, que habitava os picos de Barroso.

 Turi, que amava a Deusa-Mãe Telena, Senhora da Água e da Terra, foi amaldiçoado por um ciumento espírito do Submundo.

A maldição transformou-o em pedra, para que nunca mais pudesse abraçar a sua amada.

No entanto, Telena, em lágrimas, usou o seu poder para lhe conceder uma última dádiva: a de que a sua essência, o seu poder criador, permanecesse aprisionado na pedra, para que pudesse continuar a abençoar a vida na Terra.

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A Pedra Fálica era, portanto, vista como o último vestígio do poder do Gigante Turi, um pilar que unia o céu à terra, e que canalizava a energia vital da Deusa Telena.

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Os Rituais da Fertilidade e da Fortuna

Desde a época pré-romana, gentes de todo o Norte de Portugal e da Galiza peregrinavam a Águas Frias para prestar homenagem à Pedra e participar nos seus rituais, que eram sempre realizados sob a luz da Lua Cheia.

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O Ritual da Fecundidade: O mais famoso era o ritual das Mulheres Sem Fruto.

Ao cair da noite, as mulheres que desejavam engravidar subiam ao local da pedra.

Primeiro, banhavam-se nas águas frias da nascente próxima, purificando-se.

Depois, dirigiam-se à Pedra.

O ritual central era o de "abraçar a pedra": a mulher devia esfregar-se ou abraçar o monólito com os braços, vertendo leite ou azeite nos musgos escuros da rocha, pedindo a Turi que lhe desse o "fogo da vida".

Acreditava-se que a rugosidade e a forma da pedra lhe transmitiam o "vigor do gigante".

Se a mulher sentisse um formigueiro ou um calor, a bênção estava concedida.

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O Ritual da Fortuna nos Campos: Os homens, por sua vez, tocavam na pedra antes da sementeira.

O ritual exigia que roçassem nela uma espiga de milho ou um punhado de centeio, pedindo a Turi que a sua força garantisse colheitas fartas e abundância para o ano.

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Os "Milagres" e a Promessa

Os "milagres" atribuídos à Pedra Fálica eram lendários.

As histórias viajavam de boca em boca:

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O Dom da Vida: Centenas de casais de Trás-os-Montes e do Minho atestavam terem concebido um filho após a peregrinação.

A criança nascida após a bênção era frequentemente chamada de "Túrio" ou "Telena", em honra dos deuses ancestrais.

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O Campo Renovado: Conta-se que, durante uma grande seca, os lavradores de Águas Frias, após um ritual desesperado, viram o tempo mudar, salvando as suas searas.

O "poder da Pedra" era mais forte do que a maior das estiagens.

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Mesmo com a chegada de novas religiões, a lenda da Pedra da Fecundidade nunca se apagou.

No íntimo do povo nortenho, o monólito de Águas Frias permaneceu como um símbolo da força da vida, um local onde a natureza e a ancestralidade se encontram para sussurrar a promessa de que a vida sempre encontra um caminho para florescer.

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Se não acredita, venha visitar a Pedra Fálica.

NOTA: Mas desde já aconselho que não menospreze o seu efeito, pois em caso de zombaria, Turi pode ficar irritado e a sua “ação” pode ser de tal maneira violenta, que pode tornar-se brutal e permanente (todos os segundos, minutos, horas, dias e anos).

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Out25

"Antigo Relógio de Sol" - Monte de Arcas - Tinhela - Valpaços


Mário Silva Mário Silva

"Antigo Relógio de Sol"

Monte de Arcas - Tinhela - Valpaços

22Out DSC03694-fotor_ms

A fotografia de Mário Silva, intitulada "Antigo Relógio de Sol", é um registo próximo de um instrumento de medição do tempo talhado em pedra.

A imagem foca-se num quadrante de pedra de formato irregular, com um penedo ou suporte maciço na base.

A superfície do relógio está desgastada e marcada pela ação do tempo, com uma tonalidade bege-amarelada, e são visíveis incisões que representam as horas, embora a leitura completa seja difícil devido ao desgaste e ao ângulo.

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Um gnómon (o ponteiro que projeta a sombra), feito de um pedaço de metal enferrujado, está inserido na pedra.

A luz forte, que sugere um ambiente interior ou uma sombra projetada, incide no quadrante.

No fundo desfocado, vê-se um padrão que se assemelha a uma janela, criando um forte contraste entre o objeto antigo e o fundo contemporâneo e difuso.

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Os Guardiães de Pedra do Tempo: A Fascinante História dos Relógios de Sol

A fotografia de Mário Silva, que imortaliza um antigo relógio de sol gasto pelo tempo, não nos mostra apenas uma peça de pedra; revela-nos um dos mais antigos e ingénuos métodos de medição do tempo, uma testemunha silenciosa da história humana e da nossa incessante busca por compreender o universo.

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A Mecânica Celeste no Solo

O relógio de sol, ou gnómon, é um instrumento baseado num princípio simples e brilhante: a Terra gira, e a sombra de um objeto fixo move-se de forma previsível.

O elemento essencial é o gnómon (o ponteiro), que na imagem é o pequeno ferro enferrujado.

É a sombra projetada por este ponteiro sobre o quadrante de pedra que indica a hora solar.

A precisão do relógio depende da sua correta orientação e do ângulo do gnómon, que deve ser paralelo ao eixo de rotação da Terra e ajustado à latitude do local.

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História e Simbologia em Portugal

Os relógios de sol têm uma longa tradição em Portugal, sendo utilizados desde a época romana.

Atingiram o seu auge de popularidade nos séculos XVI e XVII.

Em muitas aldeias, igrejas, quintas e casas senhoriais de Trás-os-Montes, como sugere a origem da fotografia, estes relógios eram essenciais para organizar a vida diária e religiosa.

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Registo da Vida Comunitária: Muitos relógios de sol eram colocados em locais públicos, como fachadas de igrejas, para que a comunidade pudesse acompanhar o tempo, marcando os momentos de oração, trabalho e descanso.

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A Arte da Gnomónica: O seu fabrico era uma arte complexa (gnomónica), que combinava conhecimentos de astronomia, matemática e alvenaria.

Cada peça era única, desenhada para um local específico.

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Mais do que um Medidor: Um Filosofia

Com a invenção do relógio mecânico, o relógio de sol perdeu a sua utilidade prática, mas ganhou um novo valor: o filosófico.

A sua sombra, que se move lentamente, é um símbolo da passagem inevitável do tempo.

Muitas vezes, os relógios de sol tinham gravadas frases latinas ou portuguesas que convidavam à reflexão (carpe diem, "aproveita o dia", ou "Só marco as horas alegres").

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A peça que Mário Silva fotografa, com as suas marcas desgastadas, é um eco desses tempos.

É um objeto que nos liga diretamente ao sol e que nos lembra que a forma mais pura de medir o tempo é através da observação da natureza.

A sua persistência, apesar da erosão, é um testemunho da genialidade humana e da beleza simples da vida.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
19
Out25

Igreja de Tortomil - Bouçoães – Valpaços – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Igreja de Tortomil

Bouçoães – Valpaços – Portugal

19Out DSC03715_ms

A fotografia de Mário Silva retrata a Igreja de Tortomil, na freguesia de Bouçoães, Valpaços.

A imagem, capturada num ângulo que realça a verticalidade e a solidez da construção, mostra a igreja sob a luz forte do final da tarde, que cria um contraste acentuado entre a sombra e a iluminação.

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A igreja é um exemplar de arquitetura religiosa em granito rústico, com as pedras de cor castanho-claro a formar a sua estrutura principal.

A fachada é simples, marcada por uma porta verde no centro.

Acima do telhado de barro, ergue-se uma sineira de dupla abertura, com um sino visível e coroada por uma cruz de pedra.

À direita da porta, uma pequena capela-altar (nichos para santos) está embutida na parede, contendo figuras religiosas, e encimada por uma cruz.

A luz incide diretamente na fachada, realçando a textura da pedra, enquanto o céu azul-claro serve de fundo.

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A Igreja de Tortomil: Um Pilar de Pedra e Fé no Coração de Trás-os-Montes

A Igreja de Tortomil, no concelho de Valpaços, é um exemplar modesto, mas profundamente enraizado, da arquitetura e da espiritualidade transmontana.

Longe da grandiosidade dos templos urbanos, esta igreja de aldeia simboliza a fé inabalável e a resiliência das comunidades rurais.

Ela é o coração de Tortomil, um ponto de encontro e um farol de esperança ao longo dos séculos.

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A Expressão da Arquitetura Rústica

A igreja é construída quase inteiramente em granito, a pedra farta e duradoura da região.

Esta escolha de material não é um acaso; ela reflete a solidez e a tenacidade das gentes de Trás-os-Montes.

A fachada é despojada, com a beleza a residir na simplicidade da sua forma e na honestidade do material.

A sineira de dupla abertura, que se eleva acima do telhado, é o elemento mais decorativo e funcional, pois o som dos seus sinos marca o ritmo da vida na aldeia, da missa dominical aos anúncios de festividades ou luto.

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Devoção e Identidade Comunitária

Como em muitas aldeias transmontanas, a igreja é o centro da identidade comunitária.

Ela é o palco de todas as celebrações importantes – os batismos, que acolhem as novas vidas, os casamentos, que unem as famílias, e os funerais, que encerram os ciclos.

A sua importância é reforçada pela presença de pequenos detalhes devocionais, como a capela-altar exterior (nicho), visível na fotografia, onde os fiéis podem deixar as suas ofertas e acender velas aos seus santos protetores em qualquer hora do dia.

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A Luz e a Permanência

A imagem capturada por Mário Silva, com a luz dourada do sol a incidir sobre o granito, não é apenas um registo arquitetónico; é uma representação da permanência.

A luz, que cria sombras profundas, simboliza a dualidade da vida rural: o trabalho árduo e as dificuldades (as sombras) em contraste com a fé e a esperança (a luz).

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A Igreja de Tortomil não é um monumento para ser admirado pela sua riqueza, mas um local para ser respeitado pela sua história e pelo papel vital que desempenha.

Ela é a casa da fé, um pilar de pedra que resiste ao tempo e que, tal como as gentes de Valpaços, permanece firme na sua essência.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
09
Out25

“A mina de água nascente” - Águas Frias - Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

“A mina de água nascente”

Águas Frias - Chaves - Portugal

09Out P1180439_ms

A fotografia de Mário Silva retrata uma mina de água nascente num ambiente rural e sereno.

O enquadramento mostra a entrada de uma mina de pedra escura, quase como um túnel, de onde a água flui para um tanque circular de pedra, em primeiro plano.

O tanque, com as suas paredes musgosas, é alimentado por uma nascente.

A vegetação densa, com árvores de folhas amarelas de outono e a luz do sol a atravessar as copas, cria uma atmosfera mística e pacífica.

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A Lenda da Água Eterna

Havia um tempo, nos vales de Águas Frias, em que a água era um bem precioso, mas escasso.

As terras secavam, e as colheitas morriam.

A sede apertava as gentes e os animais, e o desespero começava a tomar conta das almas.

Contavam-se histórias sobre uma mina de água nascente, uma fonte lendária escondida nas entranhas da montanha, mas o seu paradeiro era um segredo há muito perdido.

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Um dia, um jovem pastor, chamado Dionísio, partiu em busca dessa mina.

Ele não era forte nem corajoso, mas a sua determinação era a força do seu coração.

Depois de dias de caminhada por caminhos difíceis, ele encontrou um velho, tão velho quanto as pedras que calçavam a serra.

O velho, com a sua voz rouca de anos, disse-lhe:

- A mina só se revela a quem tiver o coração puro e a intenção verdadeira.

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Dionísio, sem entender a fundo o significado daquelas palavras, continuou o seu caminho.

Atravessou penedos e chegou a uma clareira onde a luz do sol iluminava as árvores.

E então, ele viu-a: a entrada da mina, um arco de pedra escura, e a água a fluir para um tanque de pedra, como um bálsamo para a terra sedenta.

A mina era uma dádiva, mas o acesso era difícil.

As pedras que a cercavam pareciam vigias, e a entrada, um portal para um mundo desconhecido.

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Apesar da sua exaustão, Dionísio, em vez de beber, começou a abrir um pequeno canal com as suas próprias mãos para que a água pudesse seguir o seu caminho até à aldeia.

Passou a noite inteira a trabalhar, movendo as pedras mais pequenas, as suas mãos a sangrarem e o seu corpo a doer de cansaço.

Ao amanhecer, a água começou a fluir, gota a gota, em direção aos campos da sua terra.

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A fotografia de Mário Silva, com a sua luz mística, é um retrato do momento em que Dionísio, exausto, se sentou e viu a água a fluir.

Ele não se tornou um herói por ter derrotado um monstro ou por ter enfrentado um inimigo, mas por ter mostrado que a verdadeira força de um ser humano reside na sua capacidade de sacrifício e de partilha.

E assim, a mina de água nascente, que a lenda diz ser uma dádiva, foi, na realidade, a recompensa do seu trabalho e da sua abnegação.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
25
Set25

“Fonte de mergulho” - Oucidres - Planalto de Monforte – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Fonte de mergulho”

Oucidres - Planalto de Monforte – Chaves – Portugal

25Set DSC03651_ms

A fotografia de Mário Silva, “Fonte de mergulho” (Oucidres, Planalto de Monforte, Chaves, Portugal), mostra uma pequena estrutura de pedra antiga, que é um abrigo para uma fonte.

A estrutura, feita de pedras rústicas e musgosas, tem um telhado de duas águas e uma abertura arqueada na frente.

Há uma grade de ferro enferrujada à sua frente, que impede o acesso ao interior escuro.

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Por trás da estrutura, ergue-se um muro alto de pedras irregulares, coberto de vegetação rasteira.

O solo em frente é de terra batida, com algumas ervas e pedras soltas.

A imagem tem uma tonalidade sépia, que realça a antiguidade e a história do local.

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Estória: Uma fonte de amor

Alonso era um homem de poucas palavras, mas de um coração imenso.

Todos os dias, passava pela Fonte de Mergulho a caminho do campo.

A fonte era um local antigo e misterioso, um portal para memórias de uma Chaves que já não existia.

Alonso nunca parava para a admirar, mas a sua alma gravava-lhe cada pormenor: as pedras musgosas, a grade de ferro que a protegia, a entrada escura que guardava os segredos de gerações.

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Até que um dia, a sua rotina foi interrompida.

Uma jovem, com um vestido florido e os cabelos ao vento, estava sentada no muro de pedra, a desenhar a fonte num pequeno caderno.

Alonso, que sempre se sentira invisível, sentiu o seu coração a bater com força.

Ele parou, indeciso, mas ela, com um sorriso, olhou para ele e disse:

- Não se preocupe, não estou a roubar o seu caminho.

Alonso, envergonhado, apenas murmurou um “Não, de todo”, e seguiu em frente.

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Nos dias que se seguiram, Alonso esperou por ela, a caminho do campo.

E ela estava sempre lá.

Primeiro, apenas se cumprimentavam.

Depois, começaram a trocar breves palavras.

Ela chamava-se Clara, e era uma artista de Lisboa que se apaixonou pela calma da região.

A fonte de mergulho era a sua musa, um símbolo do amor que ela queria expressar na sua arte.

Alonso, tímido, escutava as suas palavras com atenção, descobrindo um mundo novo, de cores e emoções.

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Um dia, choveu.

Alonso abrigou-se sob a fonte, para evitar a intempérie.

Clara juntou-se a ele, e o pequeno espaço, protegido pela pedra e pelo tempo, tornou-se o seu refúgio.

Foi ali, naquele abrigo antigo e seguro, que Alonso e Clara se apaixonaram.

A fonte de mergulho, que antes guardava os segredos de gerações, guardava agora a história de um amor que florescia, um amor tão puro e eterno quanto a água que um dia a fonte guardou.

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Anos mais tarde, Alonso e Clara, casados, passavam pela fonte de mergulho, de mãos dadas.

Clara, com um sorriso, disse-lhe:

- Lembras-te? Foi aqui que tudo começou.

Alonso, com o coração cheio de ternura, respondeu:

- Sempre que te vejo, sinto que voltei a encontrar-me de novo.

E ali, debaixo daquele muro de pedra, a fonte de mergulho testemunhou mais um momento de amor, um amor que se tornara tão forte e eterno quanto a própria pedra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
18
Set25

“Fonte de mergulho” Paradela de Veiga - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Fonte de mergulho”

Paradela de Veiga - Chaves – Portugal

12Set DSC03563_ms

A fotografia "Fonte de mergulho" de Mário Silva foca em uma fonte de pedra, de estilo rústico e antigo, rodeada por vegetação.

A estrutura de pedra, coberta por musgo e hera, possui uma entrada em arco que permite o acesso à água.

Uma data, 1810, está gravada na pedra, sugerindo a sua antiguidade.

A vegetação luxuriante e a iluminação suave criam um ambiente místico e atemporal.

A imagem é assinada digitalmente no canto inferior direito.

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As Fontes de Mergulho e a sua Importância

As fontes de mergulho são um tipo de fonte rural, com um tanque ou um poço, onde as pessoas, tinham que mergulhar o balde ou outro utensilio para apanhar água.

Estas fontes, muitas vezes encontradas em aldeias remotas, são mais do que simples estruturas para obter água; são o coração da vida rural e um elo com o passado.

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A importância das fontes de mergulho é multifacetada.

Em primeiro lugar, elas são um recurso vital para a população rural.

Numa época em que não existia água canalizada, estas fontes eram a principal fonte de água potável, utilizada para beber, cozinhar, lavar roupa e dar de beber aos animais.

A sua localização, muitas vezes estratégica, era um fator de atração para a fundação de aldeias e para o desenvolvimento das comunidades.

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Em segundo lugar, as fontes de mergulho são um importante ponto de encontro social.

As pessoas que iam buscar água encontravam-se, conversavam e partilhavam as notícias da aldeia.

As fontes, por isso, tornaram-se o palco de histórias, de lendas e de tradições.

Eram o coração da aldeia, o lugar onde as amizades se formavam, os casamentos se combinavam e os segredos se partilhavam.

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Em terceiro lugar, estas fontes são um testemunho da história e da cultura das comunidades rurais.

As suas datas, gravadas na pedra, são um lembrete da longevidade e da resiliência das aldeias.

A sua arquitetura rústica, a sua integração na paisagem e a sua ligação com a natureza fazem delas um elemento importante do património rural.

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Hoje, com a chegada da água canalizada, muitas destas fontes perderam a sua função utilitária.

No entanto, o seu significado permanece.

Elas são um lembrete do passado, um símbolo da vida rural e um tesouro cultural que deve ser preservado.

A fotografia de Mário Silva, "Fonte de mergulho”, Paradela de Veiga - Chaves - Portugal", é uma ode a esta importância, um lembrete da beleza e do valor de um passado que, embora remoto, continua a moldar o nosso presente.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
05
Set25

"Real Pombal" - Vila Frade - Lamadarcos (ou Lama de Arcos), Chaves, Portugal


Mário Silva Mário Silva

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"Real Pombal"

Vila Frade - Lamadarcos (ou Lama de Arcos)

Chaves, Portugal

05Set DSC07593_ms

Esta fotografia de Mário Silva mostra um pombal de pedra, de forma cilíndrica e com o topo em forma de coroa de castelo, localizado num campo.

A estrutura, que já foi um magnífico pombal, está agora desgastada pelo tempo.

O edifício está rodeado por um campo de palha ceifada, em tons de amarelo e castanho, o que contrasta com a cor da sua pele.

Uma pequena porta de madeira, com a sua cor escura, é a única entrada para o interior do pombal.

A imagem, com a sua arquitetura única e a sua história de abandono, transmite uma sensação de melancolia e de saudade de um tempo que já foi.

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Estória: A Maldição do Engenheiro

Houve um tempo em que o pombal, que o Mário Silva fotografou, era o centro do mundo.

Milhares de pombas, com as suas penas de cor de pérola e de cinza, viviam no seu interior.

O pombal era o seu lar, o seu santuário, e as pombas eram a voz da aldeia.

Quando voavam, era como se o céu cantasse.

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Mas um dia, um engenheiro agrícola, com o seu chapéu na cabeça e o seu ar de sapiência, chegou à aldeia.

- Os excrementos das pombas - disse ele - prejudicam a criação de gado bovino e ovino.

 A sua voz, antes fina e suave, transformou-se num trovão.

E, por conselho dele, o pombal, que antes era o lar das pombas, transformou-se num local de criação de águias de asa redonda e outras aves de rapina.

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As águias, com as suas asas de fogo e os seus olhos de diamante, tomaram o lugar das pombas.

O canto do pombal, que antes era suave, tornou-se um grito.

As pombas, assustadas e feridas, fugiram.

E a aldeia, que antes era cheia de vida, tornou-se silenciosa.

A maldição do engenheiro, como a chamavam, tinha chegado.

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A velha Rufina, que morava perto, olhava para o pombal com o coração pesado.

O pombal, que antes era um símbolo de vida, era agora um símbolo de morte.

As pombas, que tinham sido os seus amigos, tinham-se ido embora.

O pombal, com as suas paredes de pedra e o seu topo em forma de coroa, era apenas um túmulo para as memórias.

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O tempo passou, e as águias, que tinham sido criadas no pombal, foram para outros lugares.

O pombal, agora vazio, era um castelo abandonado, com as suas paredes a cair e o seu telhado a desmoronar.

A maldição do engenheiro tinha-se concretizado.

O pombal, que antes era o lar de pombas, era agora o lar da saudade.

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A fotografia de Mário Silva capta o pombal como ele é agora.

A imagem é um lembrete de que, por mais que a nossa intenção seja boa, as nossas ações podem ter consequências imprevisíveis.

E a estória do pombal é um conto sobre a perda, a mudança e a importância de não nos esquecermos das lições do passado.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
25
Ago25

Invulgar Cruzeiro de Santa Apolónia – Mairos – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Invulgar Cruzeiro de Santa Apolónia

Mairos – Chaves – Portugal

25Ago DSC03412_ms

Esta fotografia de Mário Silva foca-se num cruzeiro de pedra, incomum pela figura que o coroa.

A estátua, esculpida em pedra rústica, apresenta uma figura humana de corpo inteiro, sem braços, com um capuz na cabeça e as pernas juntas, como se estivesse envolta num manto.

A sua forma alongada e a expressão austera e anónima do rosto conferem-lhe um aspeto enigmático.

A estátua está colocada sobre uma base esférica de pedra, que repousa sobre uma coluna (não visível na totalidade).

No fundo, um telhado de telhas de barro de cor laranja-claro e uma parede de cimento com textura servem de pano de fundo.

A luz do sol incide sobre a estátua, realçando a sua textura rugosa e a sua antiguidade.

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O Enigma do Cruzeiro de Santa Apolónia - Uma Peça Única na Paisagem de Chaves

A fotografia de Mário Silva do cruzeiro de Santa Apolónia, em Mairos, Chaves, capta um monumento que se destaca na paisagem de Trás-os-Montes não pela sua beleza convencional, mas pela sua singularidade e mistério.

Este cruzeiro, com a sua estátua invulgar, é um convite a uma reflexão sobre a história, a arte e a fé que moldaram esta região.

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A Origem e a Singularidade

Os cruzeiros, como símbolos da fé cristã, são elementos comuns em Portugal.

Servem como marcadores de devoção, de território ou de eventos importantes.

No entanto, o cruzeiro de Mairos é notavelmente diferente.

Em vez da representação clássica de Jesus Cristo crucificado, ele é encimado por uma figura humana de forma rudimentar, com o corpo estreito e o capuz a cobrir-lhe a cabeça.

Esta representação é incomum e levanta várias questões sobre a sua origem e significado.

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Possíveis Interpretações

A figura pode ser interpretada de várias formas.

Uma delas é a de que se trata de uma representação de Santa Apolónia, a padroeira do local.

Santa Apolónia foi uma virgem mártir, que, segundo a tradição, teve os seus dentes arrancados durante a perseguição aos cristãos no século III.

Embora a figura não apresente qualquer elemento que a associe diretamente a esta história, a sua pose, com as mãos cruzadas sobre o peito, pode sugerir uma atitude de resignação e de fé.

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Outra interpretação é que a figura pode ser uma representação de um eremita ou de um santo penitente.

A forma minimalista e austera da escultura, com o corpo coberto por um manto, evoca a imagem de uma vida dedicada à contemplação e à solidão.

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Há ainda a possibilidade de que o cruzeiro seja de uma época mais antiga, possivelmente pré-cristã, e que tenha sido reutilizado e reinterpretado com o passar do tempo.

A sua forma rudimentar e a sua falta de detalhe podem ser um sinal da sua antiguidade.

A própria escultura é um testemunho da capacidade de uma comunidade de criar símbolos que resistem ao tempo.

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O Valor da Autenticidade

A beleza deste cruzeiro reside na sua autenticidade.

Ele não é uma obra de arte perfeita, mas uma peça com alma, com a marca do tempo e da fé de uma comunidade.

Em vez de ser "restaurado" para corresponder a uma estética moderna, o seu estado atual é um testemunho da sua história e da sua identidade.

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Em suma, a fotografia de Mário Silva do cruzeiro de Santa Apolónia é mais do que um registo visual.

É um convite a explorar o mistério da história, a riqueza da arte popular e a força da fé.

O cruzeiro de Mairos, com a sua figura enigmática, é um símbolo da resistência do tempo e da beleza que se encontra naquilo que é único e invulgar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Jul25

"Os vasos floridos nas escaleiras de pedra" (Águas Frias – Chaves – Portugal) … … e uma estória


Mário Silva Mário Silva

"Os vasos floridos nas escaleiras de pedra"

(Águas Frias – Chaves – Portugal)

… e uma estória

22JulL DSC08089_ms

A fotografia de Mário Silva, intitulada "Os vasos floridos nas escaleiras de pedra", apresenta uma cena encantadora e pitoresca, utilizando a técnica de cor seletiva para realçar elementos específicos.

O fundo da imagem é predominantemente em preto e branco, mostrando uma parede de pedra rústica e uma escadaria também de pedra, com um corrimão de ferro forjado.

As pedras são grandes e irregulares, conferindo um aspeto tradicional e sólido ao ambiente.

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No entanto, o que imediatamente capta a atenção, são os vasos de flores e as próprias flores, que foram deixados nas suas cores originais, vibrantes e quentes, contrastando fortemente com o monocromatismo do restante.

Vários vasos de terracota, em tons de laranja e vermelho, estão dispostos ao longo dos degraus e em pequenas saliências.

Estes vasos contêm gerânios (e plantas similares) com folhas verdes e flores vermelhas e rosadas intensas, que se destacam vivamente.

Um dos vasos maiores, cor laranja, está no pilar de pedra no início das escadas.

As plantas parecem exuberantes, crescendo e pendendo sobre os degraus, conferindo um ar de vida e cuidado à estrutura de pedra.

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A composição cria uma sensação de aconchego e hospitalidade, convidando o olhar a percorrer os detalhes coloridos que se espalham pela escadaria.

A técnica de cor seletiva acentua a beleza e a vivacidade das flores, transformando um cenário comum num quadro artístico e apelativo.

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A Estória: O Segredo da Cor na Escadaria de Pedra

Na aldeia de Penedos Altos, onde as casas eram feitas de pedra e o tempo parecia mover-se mais devagar, vivia uma bela senhora chamada Maria.

A sua casa era igual a todas as outras, com paredes de granito robusto e uma escadaria exterior que levava à porta principal, feita das mesmas pedras gastas pelo tempo.

Mas havia algo que tornava a casa de Maria única, algo que Mário Silva capturou na sua fotografia com uma magia que só ele conhecia: a explosão de cor na escadaria monocromática.

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Para os forasteiros, era apenas uma escadaria antiga com vasos de flores.

Mas para Maria, e para a própria escadaria, era uma história de vida e resiliência.

Maria tivera uma vida algo difícil, marcada por perdas e tristezas que haviam pintado o seu mundo de cinzento, tal como a fotografia, antes das flores, mostrava.

Os dias pareciam blocos de pedra sobrepostos, frios e inertes.

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Um dia, depois de mais uma tarde cinzenta, Maria olhou para a sua escadaria.

Parecia tão dura, tão sem vida, tal como ela própria se sentia.

Foi então que uma ideia lhe surgiu, como um pequeno raio de sol: iria plantar flores.

Não apenas um vaso, mas muitos.

Vasos de gerânios, as flores que a sua mãe tanto amava, com as suas cores vivas e a sua capacidade de resistir ao sol forte e às noites frias.

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Começou com um único vaso, o grande de terracota que agora repousava no pilar da escada.

 Depois, vieram outros, pequenos, médios, de barro e de cerâmica, cada um com as suas tonalidades de vermelho, laranja e rosa.

Cada vez que plantava uma nova flor, Maria sentia um pequeno brilho acender-se dentro de si.

Era como se estivesse a pintar a sua própria vida de novo, uma pétala de cada vez.

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As flores cresceram, derramando-se pelos degraus, abraçando o corrimão de ferro que parecia um braço protetor.

As suas cores vibrantes contrastavam com o cinzento austero da pedra, criando um espetáculo que atraía os olhares de todos os que passavam.

Os vizinhos começaram a chamar a casa de Maria "A Casa da Escadaria Florida".

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Mas o verdadeiro segredo da cor era que ela só aparecia para quem a procurava.

Tal como na fotografia de Mário Silva, onde o mundo em volta se tornava preto e branco para que as flores pudessem brilhar.

Maria costumava dizer ao seu neto: "O mundo pode parecer cinzento, meu querido, mas há sempre uma cor, um pequeno milagre à espera de ser visto. Basta olhar com o coração."

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E assim, a escadaria de pedra de Maria tornou-se mais do que um mero caminho para a sua porta.

Transformou-se num farol de esperança, uma lembrança viva de que mesmo nas estruturas mais sólidas e nos corações mais endurecidos pelo tempo, a beleza, a vida e a cor podem sempre florescer, se forem cultivadas com amor e persistência.

E a cada novo dia, as flores, no seu esplendor vibrante, sussurravam a todos os que passavam o segredo da cor na escadaria de pedra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
15
Jul25

"A Fraga Bolideira" (Chaves - Portugal)


Mário Silva Mário Silva

"A Fraga Bolideira" e suas lendas

(Chaves - Portugal)

15Jul DSC07002_ms

Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "A Fraga Bolideira", apresenta um impressionante conjunto de grandes formações rochosas num ambiente natural.

No centro da imagem, destacam-se duas enormes rochas arredondadas, que parecem estar uma sobre a outra ou muito próximas, dando a ideia de um equilíbrio precário, o que justifica o nome "Bolideira".

Ambas as rochas mostram sinais de musgo ou líquenes, indicando a sua antiguidade e exposição aos elementos.

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As rochas estão assentes num terreno irregular coberto por erva seca e alguma vegetação rasteira, sugerindo um clima de transição.

Ao fundo, vê-se alguma folhagem de árvores, incluindo um carvalho com folhas recortadas no lado direito superior, e outras árvores mais distantes que adicionam profundidade à paisagem.

O céu é azul com algumas nuvens brancas esparsas, contribuindo para uma atmosfera de dia claro e ensolarado.

A fotografia capta a majestade e a quietude destas formações geológicas, convidando à contemplação da natureza e da sua história.

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A Fraga Bolideira, localizada perto de Chaves, em Portugal, é um local envolto em mistério e lendas que se perderam um pouco no tempo, mas que ainda ecoam na memória popular.

Embora não exista uma lenda única e amplamente divulgada como as de outras pedras famosas em Portugal, a característica mais marcante da Fraga Bolideira – a sua aparente instabilidade e o facto de "baloiçar" (ou poder ter baloiçado em tempos) – deu origem a algumas crenças e histórias.

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Uma das versões mais comuns da lenda está ligada à força e ao desafio.

Conta-se que a Fraga Bolideira só poderia ser movida por pessoas de grande pureza de espírito, ou por aqueles que possuíssem uma força sobrenatural ou mágica.

Havia quem acreditasse que apenas os justos, os inocentes ou as pessoas de coração puro conseguiriam fazer a rocha baloiçar, enquanto os pecadores ou aqueles com más intenções jamais conseguiriam fazê-lo.

Este teste de "pureza" ou "virtude" atribuía à pedra uma qualidade quase mística, funcionando como um oráculo silencioso.

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Outra vertente da lenda, talvez mais ligada ao folclore local, sugere que a Fraga Bolideira foi colocada ali por gigantes ou por seres mitológicos num tempo primordial.

Estes seres teriam moldado a paisagem, e a forma como a rocha superior se equilibra sobre a inferior seria uma prova da sua colossal força e da sua capacidade de desafiar as leis da física.

Em algumas variações, estes gigantes seriam responsáveis por outras formações rochosas peculiares na região.

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Havia também quem associasse a Fraga Bolideira a tesouros escondidos ou passagens secretas.

A ideia de uma pedra que "baloiça" ou que pode ser movida levava à crença de que debaixo dela poderia estar escondido um valioso tesouro, talvez de mouros ou de antigas civilizações, ou até mesmo a entrada para um reino subterrâneo.

No entanto, o tesouro só seria revelado àqueles que conseguissem mover a pedra, o que, como na primeira lenda, adicionava um elemento de desafio e de virtude.

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Embora estas lendas não sejam tão famosas como as de outras pedras sagradas ou encantadas em Portugal, elas refletem a forma como as comunidades locais tentavam dar sentido e atribuir significado a fenómenos naturais impressionantes.

A Fraga Bolideira, com a sua imponência e o seu nome sugestivo, continua a ser um testemunho da capacidade humana de criar histórias e mistérios em torno da natureza.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
03
Jul25

“Fonte de mergulho” - S. Vicente (Chaves – Portugal)


Mário Silva Mário Silva

“Fonte de mergulho”

S. Vicente (Chaves – Portugal)

03Jul DSC01220_ms

A fotografia de Mário Silva, "“Fonte de mergulho” - S. Vicente (Chaves – Portugal), exibe uma estrutura de pedra característica e de grande significado histórico e cultural para as comunidades rurais.

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A imagem foca-se numa fonte de mergulho, uma construção antiga feita predominantemente de pedra lavrada e aparelhada, de tonalidade clara, provavelmente granito, que é comum na região de Chaves.

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A estrutura central é composta por um arco de volta perfeita, que dá acesso ao interior da fonte, onde se recolhia a água.

Este arco está integrado numa fachada sólida de pedra, que serve de suporte e proteção ao tanque de recolha.

Acima do arco, a estrutura horizontal forma uma espécie de pequeno banco ou platibanda, onde assenta uma cruz de pedra, símbolo cristão que frequentemente acompanha estas fontes, abençoando e protegendo a água e os que dela bebem.

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À direita da fonte, é visível uma placa de aviso amarela, com texto a preto, parcialmente visível, que parece indicar "PERIGO" e informação de segurança e restrição, pois atualmente a água é imprópria para consumo.

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No lado esquerdo da estrutura principal, um pequeno tanque retangular de pedra, de menor profundidade, parece ser um bebedouro ou um lavadouro mais pequeno, adjacente à fonte principal.

Toda a estrutura assenta sobre um pavimento de lajes de pedra, que se prolonga para a frente da fonte.

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Em primeiro plano, na parte inferior da fotografia, vê-se um muro de blocos de cimento de cor cinzenta escura, indicando que a fonte está ligeiramente acima do nível da rua.

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O fundo da imagem mostra vegetação densa e verde, com arbustos e árvores, sugerindo um ambiente rural ou semi-rural.

A luz do sol incide diretamente na fonte, criando contrastes acentuados de luz e sombra que realçam a textura da pedra e a profundidade do arco.

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Uma fonte de mergulho, também conhecida como fonte de mina ou fonte de nascente, é um tipo de construção tradicional que tem como função captar e disponibilizar a água de uma nascente natural para usufruto da população.

O termo "de mergulho" refere-se à necessidade de "mergulhar" ou baixar-se para aceder ao interior da estrutura e recolher a água diretamente da nascente ou de um pequeno tanque onde a água brota.

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Geralmente são construídas no local onde a água brota do solo, protegendo a nascente da contaminação externa (folhas, detritos, animais).

Apresentam uma estrutura fechada ou semi-fechada, muitas vezes com um arco ou galeria, que permite o acesso ao ponto de recolha da água.

A água é fresca e pura, mantida à temperatura constante do subsolo.

Muitas destas fontes incluem tanques adjacentes, chamados "lavadouros", onde as pessoas lavavam a roupa, e "bebedouros" para animais.

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Até à generalização das redes de abastecimento de água domiciliária, as fontes de mergulho desempenhavam um papel fundamental e insubstituível na vida das comunidades rurais.

A sua importância pode ser compreendida sob vários aspetos:

- Eram a principal, e muitas vezes a única, fonte de água potável para consumo humano e animal.

A qualidade da água era crucial para a saúde pública.

- As fontes eram locais de intensa atividade social.

As mulheres, em particular, deslocavam-se diariamente à fonte para buscar água, transformando estes momentos em oportunidades de convívio, partilha de informações e fortalecimento dos laços comunitários.

Era um espaço de comunicação e socialização.

- Os lavadouros anexos permitiam a lavagem da roupa, uma tarefa árdua que também se tornava um momento de convívio entre as lavadeiras.

- A água das fontes era vital para a agricultura de subsistência e para a criação de gado, que dependiam diretamente da disponibilidade hídrica.

- As fontes de mergulho são testemunhos vivos de um passado recente, de um modo de vida mais simples e dependente dos recursos naturais.

Representam um património arquitetónico e etnográfico que define a identidade das aldeias.

Muitas estão ligadas a lendas locais ou têm nomes próprios que as distinguem.

A cruz, como a que se vê na fotografia, sublinha o caráter sagrado ou de bênção atribuído à água e ao local.

- Representam um modelo de gestão da água baseado na captação de recursos naturais de forma sustentável, sem a necessidade de infraestruturas complexas ou de grande consumo energético.

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Embora muitas fontes de mergulho tenham perdido a sua função primária com a modernização, muitas são hoje preservadas como marcos históricos, culturais e turísticos, recordando a centralidade que a água e estes locais tiveram na vida das gerações passadas.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
01
Jul25

"Casas em Segirei" - (Chaves - Portugal)


Mário Silva Mário Silva

"Casas em Segirei"

(Chaves - Portugal)

01Jul DSC01335_Segirei_ms

A fotografia de Mário Silva, "Casas em Segirei" (Chaves - Portugal), retrata uma construção rural típica da região de Trás-os-Montes, particularmente das aldeias da raia, ou seja, aquelas localizadas na fronteira com Espanha.

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Este tipo de construção, visível na imagem, caracteriza-se pelo uso predominante de pedra, um material abundante na região.

As paredes são robustas, geralmente de xisto ou granito, dependendo da geologia local, e construídas com técnica de alvenaria de pedra seca ou com argamassa simples.

A tonalidade da pedra confere uma camuflagem natural ao ambiente, integrando as casas na paisagem.

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Os telhados são, na maioria dos casos, de telha cerâmica, de tipo luso-árabe, com inclinações adequadas para escoamento da água da chuva e resistência às intempéries, incluindo as nevadas de inverno.

No caso da fotografia, a telha é de um tom alaranjado, que contrasta com a cor da pedra.

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As janelas e portas eram tradicionalmente pequenas, para melhor isolamento térmico e segurança, embora não sejam muito visíveis nesta imagem.

A funcionalidade e a adaptação ao clima e aos recursos locais eram os princípios basilares destas construções.

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No que toca ao contexto das aldeias transmontanas da raia, estas construções refletem um modo de vida rural e agropastoril.

As casas eram frequentemente de dois pisos: o rés-do-chão servia para abrigar animais ou armazenar produtos agrícolas, enquanto o piso superior era a habitação.

Esta tipologia era prática e permitia aproveitar o calor gerado pelos animais no piso inferior para aquecer a casa no inverno.

A simplicidade e a durabilidade eram características essenciais, dada a escassez de recursos e a necessidade de autossuficiência.

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É comum ver nestas aldeias a presença de anexos, muros e currais, também construídos em pedra, que complementam o conjunto arquitetónico e funcional da propriedade.

A degradação parcial da casa na fotografia, com parte da parede em ruínas, é um reflexo do despovoamento e abandono que muitas destas aldeias têm vindo a sofrer nas últimas décadas.

No entanto, a solidez da sua construção original ainda se mantém visível.

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Em suma, a fotografia de Mário Silva é um excelente exemplo da arquitetura vernácula das aldeias da raia transmontana, caracterizada pela robustez da pedra, a simplicidade funcional e a profunda ligação ao território e aos seus recursos.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
25
Jun25

“Carranca” (igreja matriz de Chaves, em Portugal)


Mário Silva Mário Silva

“Carranca”

(igreja matriz de Chaves, em Portugal)

25Jun DSC00649_ms

A fotografia de Mário Silva intitulada "Carranca" captura um detalhe arquitetónico da igreja matriz de Chaves, em Portugal.

A imagem mostra uma escultura em pedra, desgastada pelo tempo, com musgo a crescer na parte superior, integrada numa parede de granito.

A carranca, com traços faciais rudimentares e mãos junto ao rosto, parece expressar uma emoção de sofrimento ou contemplação, sendo um elemento típico da decoração medieval em igrejas e outros edifícios comunitários.

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As carrancas, figuras grotescas ou expressivas esculpidas em pedra, são um elemento distintivo da arquitetura medieval, especialmente em igrejas e monumentos comunitários da Europa. Estas esculturas, frequentemente representando rostos humanos ou animais com expressões exageradas, têm raízes profundas na cultura e na religiosidade da época.

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As carrancas remontam à Idade Média, entre os séculos XI e XV, um período marcado pela construção de catedrais e igrejas românicas e góticas.

Influenciadas por tradições pagãs pré-cristãs, como os espíritos da natureza e os guardiões míticos, foram adaptadas pela Igreja como parte da iconografia cristã.

A sua presença espalhou-se por regiões como Portugal, Espanha, França e Inglaterra, sendo comum em locais como a igreja matriz de Chaves.

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Acreditava-se que as carrancas afastavam espíritos malignos e protegiam os edifícios sagrados.

As suas expressões assustadoras visavam intimidar forças negativas.

Muitas vezes, representavam pecadores ou almas em tormento, servindo como um lembrete visual da moralidade e da necessidade de penitência.

Além da função simbólica, as carrancas refletiam a criatividade dos artesãos e a identidade cultural das comunidades, variando em estilo conforme a região.

Em alguns casos, funcionavam como gárgulas, canalizando água da chuva para longe das paredes, combinando utilidade com simbolismo.

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Em Portugal, as carrancas são particularmente notáveis em igrejas românicas, como a de Chaves.

A sua integração na arquitetura reflete a fusão entre influências celtas, romanas e cristãs, adaptadas ao contexto local.

O desgaste visível nas esculturas, como o musgo e a erosão, testemunha séculos de exposição aos elementos, reforçando o seu valor histórico.

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As carrancas são mais do que ornamentos; são testemunhos de crenças, artesanato e história.

Na igreja matriz de Chaves, a "Carranca" de Mário Silva encapsula este legado, convidando-nos a refletir sobre o passado e o significado espiritual das comunidades medievais.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
09
Jun25

"Para memória futura" - Águas Frias, Chaves, Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Para memória futura"

Águas Frias, Chaves, Portugal

09Jun DSC01938_ms

A imagem capturada por Mário Silva, intitulada "Para memória futura" e ambientada em Águas Frias, Chaves, Portugal, revela uma cena rústica que convida à reflexão.

O espaço, com as suas paredes de pedra antiga, telhado de madeira desgastado e objetos simples como cebolas penduradas e lenha empilhada, transmite a essência de um tempo passado, onde a vida seguia um ritmo mais lento e ligado à natureza.

Atrás da grade de ferro, que parece proteger e ao mesmo tempo limitar o acesso a esse mundo, percebe-se a presença de uma porta fechada, simbolizando talvez o fim de uma era ou a guarda de memórias.

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Tudo tem o seu tempo.

Esta frase ressoa profundamente ao observar a fotografia.

As cebolas maduras, colhidas e penduradas, sugerem o momento certo da colheita, enquanto a estrutura envelhecida reflete o passar dos anos, cada rachadura contando uma história.

É um lembrete de que cada coisa tem o seu ciclo – o crescimento, a maturação, o declínio – e que a beleza reside em respeitar esse fluxo natural.

A luz que entra pelo telhado danificado ilumina suavemente o interior, como se o tempo, na sua inevitabilidade, trouxesse também um brilho de esperança ou nostalgia.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
07
Mai25

"O tanque”


Mário Silva Mário Silva

"O tanque”

07Mai DSC04413_ms

A fotografia de Mário Silva, intitulada "O tanque", captura um tanque de pedra em Águas Frias, Chaves, Portugal.

Este tanque, com as suas bordas de pedra cobertas de musgo e a água refletindo a vegetação ao redor, carrega uma história funcional que reflete a evolução das práticas rurais na região.

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Antigamente, tanques como este eram essenciais para a comunidade, servindo como local para lavar roupas.

As mulheres da aldeia reuniam-se em torno destes tanques, esfregando as peças manualmente com sabão, enquanto compartilhavam conversas e fortaleciam laços sociais.

A pedra lisa ao redor do tanque, visível na foto, provavelmente era usada como superfície para esfregar as roupas, e a água, muitas vezes proveniente de fontes naturais, era constantemente renovada para garantir a limpeza.

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Hoje, com o avanço das tecnologias domésticas, como as máquinas de lavar, a função original destes tanques foi substituída.

No entanto, eles não perderam a sua utilidade.

Atualmente, o tanque da fotografia é utilizado como reservatório de água para a rega de culturas hortícolas.

A água acumulada, ainda que com um tom esverdeado devido à presença de algas, é aproveitada para irrigar hortas locais, sustentando o cultivo de vegetais e outras plantas.

As pedras e plantas ao redor, como as folhas verdes visíveis na imagem, sugerem um ambiente integrado à natureza, onde o tanque continua a desempenhar um papel vital na vida agrícola da comunidade.

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Essa transição de função destaca a adaptabilidade das estruturas tradicionais às necessidades contemporâneas, mantendo a sua relevância num contexto rural.

A fotografia de Mário Silva, assim, não apenas documenta um elemento do património local, mas também conta uma história de continuidade e transformação.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

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