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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

13
Dez25

Condomínio de “Leratiomyces ceres”


Mário Silva Mário Silva

Condomínio de “Leratiomyces ceres

13Dez DSC00172_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva é um close-up vibrante que regista um aglomerado denso de cogumelos da espécie “Leratiomyces ceres”, emergindo vigorosamente do solo da floresta.

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O "Condomínio": O elemento central é o grupo de cogumelos, cujos chapéus se sobrepõem uns aos outros como telhados de casas numa encosta, justificando o título "condomínio".

Os chapéus apresentam uma cor laranja-avermelhada intensa e brilhante, com uma textura que parece cerosa ou ligeiramente húmida (viscosa).

As margens dos chapéus exibem pequenos vestígios esbranquiçados do véu universal.

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A Envolvente Vegetal: Os cogumelos estão aninhados numa mistura rica de vegetação.

Destacam-se as folhas de hera (Hedera helix) de um verde vivo e brilhante, que contrastam com o vermelho dos fungos.

Há também folhas secas de carvalho em tons de castanho e algumas lâminas finas de erva, criando uma moldura natural e texturada.

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A Luz e Cor: A iluminação suave realça o brilho natural dos cogumelos e das folhas de hera, criando uma composição saturada de cor que celebra a humidade e a vida do sub-bosque.

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Vizinhos de Cor – A Arquitetura Natural do “Leratiomyces ceres”

O título escolhido por Mário Silva, "Condomínio de Leratiomyces ceres", é uma metáfora deliciosa para o comportamento "gregário" deste cogumelo.

Na arquitetura da floresta, o Leratiomyces ceres (frequentemente conhecido em inglês como Redlead Roundhead) raramente vive sozinho; ele prefere a companhia, formando densos aglomerados que iluminam o chão da mata com a sua cor de fogo.

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Uma Explosão de Vermelho no Verde

Visualmente, este cogumelo é uma joia do outono e inverno.

Enquanto muitos cogumelos optam pela discrição dos castanhos e beges para se camuflarem nas folhas mortas, o Leratiomyces ceres veste-se de vermelho-tijolo ou laranja-vivo.

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Na fotografia, a interação cromática é perfeita: o vermelho complementar do cogumelo vibra contra o verde escuro da hera.

É um sinal visual de que a floresta está viva e ativa, mesmo ao nível do solo.

A superfície brilhante e cerosa do chapéu ajuda-o a repelir o excesso de água e a manter-se visível, como um farol para os insetos.

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O Reciclador Urbano (e Florestal)

Este "condomínio" não é apenas bonito; é funcional.

O “Leratiomyces ceres” é uma espécie saprófita, o que significa que se alimenta de matéria orgânica em decomposição.

Ele é frequentemente encontrado em aparas de madeira (mulch), restos de madeira podre ou solos ricos em detritos lenhosos.

Ao aglomerarem-se desta forma, estes cogumelos estão a trabalhar em equipa (através de uma rede de micélio subterrânea partilhada) para decompor a madeira morta e as folhas, transformando o "lixo" da floresta em nutrientes vitais para as plantas vizinhas, como a hera e as árvores circundantes.

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A Vida em Comunidade

A imagem do "condomínio" lembra-nos que, na natureza, a proximidade é muitas vezes uma estratégia de sobrevivência.

Crescer em grupos densos ajuda a reter a humidade essencial para o desenvolvimento dos esporos e cria um microclima favorável.

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Mário Silva, com a sua lente, transforma um pequeno detalhe biológico numa cena de urbanismo natural, onde cada "habitante" deste condomínio desempenha o seu papel na grande cidade que é o ecossistema florestal.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
12
Dez25

"Lua em finais de outono"


Mário Silva Mário Silva

"Lua em finais de outono"

12Dez DSC03136_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva é uma composição poética e minimalista que retrata o céu diurno (ou crepuscular) numa tarde límpida de finais de outono.

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A Lua: O ponto focal é a Lua (em fase gibosa crescente), que surge no quadrante direito da imagem.

Apresenta-se com uma cor branca pálida e textura calcária, contrastando suavemente com o fundo, revelando subtilmente os "mares" e crateras da sua superfície lunar.

Ela não brilha intensamente como à noite, mas paira como uma presença fantasmagórica e serena.

O Céu: O fundo é um manto uniforme de azul profundo e límpido, sem nuvens, uma cor característica dos dias frios e secos de alta pressão atmosférica que antecedem o inverno.

Os Ramos: Em primeiro plano, no lado esquerdo, atravessam a imagem ramos de árvores despidos de folhas.

Estes estão propositadamente desfocados (bokeh), apresentando-se como manchas difusas em tons de castanho e negro.

Este desfoque cria profundidade de campo, sugerindo que o observador está a olhar para o céu através da "cortina" da natureza adormecida.

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A Sentinela Pálida – Quando o Outono se Despede em Silêncio

A fotografia "Lua em finais de outono" carrega em si uma melancolia doce, quase palpável.

É uma imagem que não grita; sussurra.

Capta aquele momento preciso do ano em que a terra já se despiu de quase todas as suas cores quentes — os dourados e vermelhos de outubro já caíram para o solo — e o mundo prepara-se para o sono profundo do inverno.

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O Olhar Através do Véu

Os ramos desfocados em primeiro plano são os protagonistas silenciosos desta história.

Eles são os "ossos" da paisagem, a estrutura nua que resta quando a festa da folhagem termina.

Ao desfocá-los, Mário Silva transforma-os numa memória, numa barreira suave entre nós e o infinito.

Eles lembram-nos da fragilidade da vida terrena, que ciclicamente se recolhe e seca, em contraste com a permanência imutável do astro que brilha lá no alto.

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A Lua de Porcelana

A Lua, nesta imagem, não é o farol noturno que guia os viajantes; é uma companhia diurna, discreta e pálida, como se fosse feita de porcelana fina ou de gelo.

Ela flutua no azul frio do céu transmontano com uma leveza que desafia a gravidade.

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Há uma emoção de solidão partilhada nesta cena.

Olhar para a Lua num céu de tarde de outono é sentir a vastidão do universo e, simultaneamente, o conforto de saber que ela está sempre lá, a observar a mudança das estações.

Ela vê as folhas nascerem e caírem, vê o verde tornar-se castanho, e o castanho tornar-se branco de geada.

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A Espera do Inverno

O título "Lua em finais de outono" é um anúncio.

A imagem transmite a sensação térmica do frio seco, aquele frio que corta o rosto, mas limpa a alma.

É o tempo da quietude, onde os sons da floresta e da aldeia se tornam mais abafados e cristalinos.

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Esta fotografia é um convite a parar.

A levantar a cabeça do chão (onde estivemos a olhar para as castanhas e cogumelos) e a olhar para cima.

É um lembrete de que, mesmo quando a natureza na terra parece adormecida e despida, o céu continua a oferecer espetáculos de beleza pura e silenciosa.

É a promessa de que a luz, mesmo pálida e fria, nunca nos abandona.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
10
Dez25

"O ouriço esquecido"


Mário Silva Mário Silva

"O ouriço esquecido"

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A fotografia de Mário Silva é um close-up macro que se foca num único ouriço de castanha, capturado na floresta, provavelmente após a época de colheita.

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O Ouriço: O objeto central é o ouriço, a casca espinhosa da castanha, que aqui se apresenta na sua forma redonda e perfeitamente simétrica.

As suas hastes são de cor castanho-alaranjada e o ouriço está fechado, sugerindo que a castanha lá dentro ainda não foi colhida ou que o ouriço foi abandonado.

O seu aspeto denso e espinhoso domina o plano.

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A Cama de Musgo: O ouriço repousa sobre um tapete denso de musgo vivo, de um verde fluorescente e vibrante.

O contraste entre o castanho-seco e picante do ouriço e a suavidade e a frescura húmida do musgo são extremamente acentuadas.

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Detalhes do Solo: Em frente ao ouriço, é visível um pequeno líquen branco-acinzentado, que acrescenta um detalhe de textura e cor secundário ao primeiro plano.

O fundo é desfocado em tons de castanho e verde-escuro, concentrando todo o foco no ouriço e no musgo.

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Composição: O enquadramento central e a profundidade de campo rasa conferem ao ouriço uma importância escultural, quase como se fosse uma pequena mina terrestre orgânica.

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O Ouriço Esquecido – Drama, Espinhos e a Traição Humana

No grande palco do souto transmontano, onde o Outono se desenrola em tons de glória e farra, encontramos a estrela desta peça: "O ouriço esquecido".

Aqui está ele, isolado, com a sua armadura de espinhos perfeita, repousando sobre um tapete de musgo verde piscina que grita Primavera (o que, convenhamos, é um choque de moda e calendário).

Mas não se deixe enganar pela beleza cénica.

Este ouriço é, na verdade, uma vítima.

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A sua função na vida era clara: proteger a sua preciosa carga, a castanha, para que, no momento certo, fosse colhida por mãos carinhosas e terminasse a sua jornada no calor crepitante de uma lareira, ao lado de um bom vinho.

Contudo, ele foi traído.

Enquanto os seus irmãos foram impiedosamente apanhados e calcados por botins e socas, este exemplar, por um capricho do destino (ou talvez por um “scanner” de castanhas avariado), foi deixado para trás.

Terá sido um erro de cálculo, uma mancha na eficiência da apanha?

Ou terá sido uma decisão consciente: "Deixemos este, Mário, para a foto, que está com um musgo fabuloso!"

Agora, o nosso ouriço está aqui, um herói trágico da micologia, destinado a abrir-se não para a fogueira, mas para o lento abraço húmido da terra.

Está a ser lentamente reabsorvido pelo ciclo de vida, sem a glória de ser cozido.

É o espinho na consciência do colhedor de castanhas: o lembrete de que, mesmo na colheita mais abençoada, há sempre um pequeno tesouro esquecido.

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E o musgo? O musgo verde-limão está simplesmente a rir-se, sabendo que a sua hora de dominar a floresta chegou, aproveitando o ouriço como um pequeno troféu castanho-alaranjado.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
05
Dez25

"Um “Gymnopilus” numa cama de folhas de carvalho (Quercus)"


Mário Silva Mário Silva

"Um “Gymnopilus” numa cama de folhas de carvalho (Quercus)"

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A fotografia de Mário Silva é um close-up vertical que destaca um cogumelo solitário, identificado como sendo um exemplar do género Gymnopilus, emergindo de um denso tapete de folhas secas.

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O Cogumelo (Gymnopilus): O exemplar é pequeno, com um chapéu de cor amarelo-claro a laranja pálido e uma forma ligeiramente convexa aplanada.

O pé (estipe) é fino e da mesma cor amarelada.

O cogumelo está em bom estado e destaca-se como um ponto de cor viva no cenário dominado por tons de outono.

A Cama de Folhas de Carvalho: O solo está totalmente coberto por uma espessa camada de folhas secas de carvalho (Quercus), identificáveis pelos seus contornos lobados e acentuados.

As folhas apresentam tons de castanho-avermelhado e ocre, típicos da decomposição outonal.

Composição e Contraste: O contraste é o ponto forte da imagem: o amarelo brilhante e fresco do cogumelo, que parece ter acabado de nascer, contrasta com a textura áspera e as cores quentes e secas do tapete de folhas mortas.

O close-up reforça a sensação de um microecossistema centrado na vida fúngica.

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O Gymnopilus e o Carvalho – A Micologia no berço da Decomposição

A fotografia "Um Gymnopilus numa cama de folhas de carvalho (Quercus)" é um tributo à simbiose e ao ciclo da vida na floresta portuguesa.

O género Gymnopilus (vulgarmente conhecidos como "cogumelos-chama" pela sua cor vibrante) e o carvalho são atores essenciais no ecossistema, revelando que a maior vitalidade muitas vezes reside na matéria em decomposição.

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O Papel Vital do Gymnopilus

Os cogumelos Gymnopilus são predominantemente saprófitas, o que significa que desempenham um papel crucial ao decompor a matéria orgânica morta – neste caso, as folhas de carvalho.

A sua função é transformar o material complexo das folhas caídas em nutrientes mais simples, que são devolvidos ao solo, alimentando as árvores e o ecossistema.

A emergência do seu corpo frutífero, com a sua cor de chama sobre o castanho da matéria morta, é um lembrete visual do processo de reciclagem contínuo e silencioso da natureza.

A sua beleza é a prova de que a vida encontra formas de prosperar naquilo que consideramos o fim de um ciclo.

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A Cama de Carvalho: História e Sustento

O carvalho (Quercus) é uma das árvores mais icónicas da paisagem portuguesa, representando a força, a longevidade e a biodiversidade.

As suas folhas, quando caem, criam o substrato ideal para uma vasta comunidade de fungos.

A "cama" de folhas na fotografia não é lixo; é o berço da nova vida.

Esta imagem sugere o bioma do souto ou do montado, onde a folhagem do carvalho, rica em taninos, cria um ambiente específico que certos fungos, como o Gymnopilus, adoram.

A folha de carvalho é a ponte energética que liga a árvore, a terra e o cogumelo.

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O Poder da Concentração

Ao focar-se num único exemplar de Gymnopilus contra o pano de fundo de folhas de carvalho, a fotografia isola a beleza microscópica e a força do fungo.

É um convite a olhar para baixo e a reconhecer o poder da micologia como motor invisível do ecossistema.

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O cogumelo de cor vibrante, nascido do castanho monótono, simboliza a regeneração e a promessa de que, por mais desolador que seja o outono, há sempre uma nova forma de vida a preparar-se para o ciclo seguinte.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
29
Nov25

"O Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata) e a pinha (Pinus pinaster)"


Mário Silva Mário Silva

"O Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata)

e a pinha (Pinus pinaster)"

29Nov DSC05053_ms

A fotografia de Mário Silva é um close-up que enquadra uma pequena ave num ramo, lado a lado com uma pinha, com um fundo luminoso e desfocado, típico do outono.

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A Ave (Muscicapa striata): No centro-direito do plano, encontra-se uma pequena ave pousada num ramo.

A ave é de cor cinzenta-acastanhada clara no dorso e mais clara no peito e abdómen.

A sua postura é vertical e a cabeça é proporcionalmente grande em relação ao corpo, características compatíveis com o Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata), embora os detalhes da risca da testa não sejam totalmente nítidos.

A Pinha (Pinus pinaster): No lado esquerdo, e pendurada num ramo que se cruza, está uma pinha grande e escura.

A pinha é alongada, com as suas escamas lenhosas bem visíveis, sugerindo que pertence a um pinheiro-bravo (Pinus pinaster), comum em Portugal.

A Composição e Cor: A ave e a pinha estão em equilíbrio num ramo escuro e fino.

O fundo é dominado por uma desfocagem (bokeh) de cores quentes, sobretudo amarelo-dourado e verde-claro, que remete para a luz do outono a filtrar-se pela folhagem.

Este fundo confere à cena uma atmosfera de serenidade e calor.

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O Papa-Moscas e o Pinhal – A Vida Aérea e o Repouso Resinoso

A justaposição do Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata) e da pinha (Pinus pinaster) na fotografia de Mário Silva é um retrato da ecologia do pinhal português, um ecossistema que oferece abrigo, alimento e um ponto de pausa para a vida selvagem.

Esta imagem celebra dois elementos que definem a dinâmica do Norte e do Centro do país: a migração e a resina.

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O Viajante Incansável: O Papa-Moscas-Cinzentos

O Papa-moscas-cinzento é um dos grandes símbolos da migração e do verão português.

É uma ave insectívora que chega a Portugal (e à Europa) na primavera para nidificar e passa o inverno na África subsaariana.

A sua presença no ramo, talvez nos meses de outono, sugere um momento crucial: o repouso final antes da longa viagem para sul.

O Papa-moscas é conhecido pela sua postura discreta e pela sua técnica de caça, permanecendo imóvel num posto de vigia (como o ramo na foto) para, de repente, voar e capturar insetos em pleno ar.

A sua silhueta discreta contrasta com a sua vitalidade e o seu instinto de viajante.

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O Ponto de Apoio: A Pinha e a Resina

Ao lado da ave, a pinha do pinheiro-bravo (Pinus pinaster) é o símbolo da estabilidade, da semente e da resistência.

O pinhal, com a sua madeira e a sua resina, é uma cultura de rendimento crucial em muitas zonas rurais portuguesas.

A pinha é o fruto que alberga a semente e que oferece uma fonte de alimento para outras aves e roedores.

A sua presença na imagem, grande e robusta, ancorando o observador no local, contrasta com a natureza ligeira e efémera da ave.

Juntos, no mesmo ramo, representam a interdependência da Natureza: o pinhal providencia o substrato da vida e os insetos (alimento do papa-moscas) contribuem para o equilíbrio do ecossistema.

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A fotografia, com o seu fundo dourado, capta a harmonia silenciosa entre a ave migrante, que se prepara para voar, e o fruto resinado do pinhal, que se prepara para semear a próxima geração, tudo sob o calor efémero da luz outonal.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
28
Nov25

"A folha pendente - meados de outono" – Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"A folha pendente - meados de outono"

Mário Silva

28Nov DSC03561_ms

A fotografia de Mário Silva é um close-up que foca numa folha de árvore caduca, possivelmente de Liquidâmbar (Liquidambar styraciflua), capturada no auge da sua transformação outonal.

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A Folha: A folha é o elemento central, apresentando a sua característica forma estrelada ou lobada com cinco pontas proeminentes.

A cor é notavelmente intensa, exibindo uma transição vibrante: o centro é de um vermelho profundo e carmesim, que se esbate para tons de amarelo e dourado nas extremidades e veios.

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A Pêndula: A folha está suspensa por um pecíolo fino, quase invisível, ligada a um pequeno ramo, que a mantém no ar.

Este detalhe sublinha o momento de pendência, o instante de transição entre a ligação à árvore e a queda iminente.

Fundo e Contraste: O fundo é um suave “bokeh” (desfocagem) em tons de verde e amarelo-esbatido, que contrasta intensamente com o vermelho e o dourado da folha, realçando-a dramaticamente e isolando-a do seu contexto mais amplo.

Composição: O foco nítido na folha e o fundo desfocado criam uma sensação de vulnerabilidade e beleza efémera, capturando o esplendor de meados de outono.

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A Folha Pendente – Elogio da Fragilidade e do Esplendor do Outono

A fotografia "A folha pendente - meados de outono" é mais do que um registo da Natureza; é uma meditação visual sobre a mudança, o desapego e a beleza do ciclo da vida.

A folha, suspensa entre o ramo e o chão, torna-se uma embaixadora da estação, encarnando o momento mais melancólico e mais colorido do ano.

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O Esplendor da Despedida

Em meados de outono é o período em que as árvores caducas em Portugal, especialmente no interior e no Norte, atingem o seu máximo cromático.

A folha, transformada quimicamente, arde em cores (carotenoides e antocianinas) que estiveram escondidas sob o verde da clorofila durante o verão.

Esta exibição de vermelho, ouro e laranja é, ironicamente, o prelúdio da sua morte.

O momento de "pendência" (ou suspensão) capturado na imagem é a celebração do efémero.

A folha está ali, em toda a sua glória final, antes de se juntar ao tapete castanho que cobre o chão da floresta.

É um lembrete de que o maior esplendor é muitas vezes atingido no limiar do fim.

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A Metáfora do Desapego

Na sua pose solitária e suspensa, a folha oferece uma profunda metáfora para o desapego.

A sua ligação ao ramo é ténue, um mero fio que se prepara para se romper.

Este momento espelha o ciclo necessário de libertação na vida, onde a natureza, sem resistência ou lamento, se despoja do que já não serve para se preparar para o repouso e a renovação.

O outono, simbolizado por esta folha, ensina-nos que deixar ir é um ato de vitalidade, não de derrota.

O ciclo da Natureza exige o despojamento para que a energia possa ser preservada no tronco e nas raízes, garantindo o florescimento na próxima primavera.

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A Fragilidade Solitária

A luz suave do outono, capturada na fotografia, enfatiza a vulnerabilidade da folha.

Isolada contra o fundo desfocado, ela é o centro do universo fotográfico, mas está à mercê do mais leve sopro de vento.

Esta fragilidade é a sua força poética, convidando o observador a pausar e a apreciar a complexidade e a beleza de um único e pequeno elemento antes que a gravidade a reclame de volta à terra.

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A Folha Pendente é, assim, o retrato da transitoriedade e da dignidade com que a Natureza completa os seus ciclos.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
27
Nov25

"O largo; a sede da Junta de Freguesia; o cruzeiro de Nosso Sr. dos Milagres" - Águas Frias - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"O largo; a sede da Junta de Freguesia;

o cruzeiro de Nosso Sr. dos Milagres"

Águas Frias - Chaves – Portugal

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A fotografia de Mário Silva capta um amplo plano do largo principal da aldeia de Águas Frias, onde se encontram os elementos cívicos, administrativos e religiosos da comunidade, sob a luz clara de um dia de outono.

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A Sede da Junta de Freguesia: No lado esquerdo do plano, domina um edifício de dois pisos, com as paredes em pedra (granito) e uma varanda no piso superior.

O telhado é de telha tradicional.

O rés-do-chão apresenta inscrições identificativas ("Junta de Freguesia de Águas Frias") e algumas aberturas.

A estrutura é robusta e utilitária, tipicamente rural.

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O Cruzeiro: No lado direito, sob a sombra das árvores, encontra-se uma pequena estrutura religiosa que funciona como cruzeiro de rua.

Esta consiste num nicho emoldurado por um pequeno telhado sustentado por colunas, abrigando uma imagem de culto, Nosso Senhor dos Milagres, dado ser um cruzeiro.

A sua presença demarca o espaço sagrado no largo.

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O Largo e a Vegetação: O largo propriamente dito é um espaço amplo de pavimento simples, que serve de ponto de encontro e estacionamento.

Árvores de grande porte, com folhagem de outono em tons de verde, amarelo-dourado e vermelho intenso, emolduram a cena, sugerindo a transição da estação.

 O céu é limpo e azul.

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O Coração da Aldeia Transmontana – A Tripla Identidade do Largo

O largo principal de Águas Frias, Chaves, imortalizado na fotografia de Mário Silva, é o palco onde se manifestam os três pilares que estruturam a vida social e cultural da aldeia transmontana: o poder cívico (Junta), a fé (Cruzeiro) e a comunidade (Largo).

Este espaço é o verdadeiro coração da freguesia, um ponto de convergência de todos os caminhos.

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A Junta de Freguesia: O Poder Terreno

O edifício da Sede da Junta de Freguesia representa a autoridade local e a voz da comunidade.

Não se trata de uma simples repartição administrativa, mas sim do polo onde se resolvem os problemas quotidianos, se organizam os festejos e se mantêm as tradições.

Na arquitetura de granito e de linhas simples, o edifício simboliza a solidez e a resiliência das instituições rurais.

É o elo de ligação entre a aldeia e o município, garantindo que as necessidades dos habitantes, desde o arranjo dos caminhos à distribuição de água, sejam atendidas.

É o símbolo da vida organizada e da gestão coletiva.

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O Cruzeiro: O Elo com o Sagrado

A presença do Cruzeiro de Nosso Senhor dos Milagres lado a lado com a administração civil sublinha a profunda raiz religiosa que ainda impera nas comunidades transmontanas.

Estes pequenos altares ao ar livre são pontos de devoção espontânea e local.

O cruzeiro é um farol de fé, onde os lavradores, antes ou depois do trabalho, podem fazer uma breve oração.

Simboliza a esperança, a proteção e a constante busca por milagres que amparem a vida, muitas vezes dura, do campo.

É um lembrete de que a vida da aldeia é regida não só pelas leis humanas, mas também pelas leis divinas.

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O Largo: O Espaço da Comunidade

Por fim, o Largo é o palco da vida social.

É onde se dão os encontros após a missa, onde as crianças brincam e onde se realizam as festas anuais.

Rodeado pela vegetação do outono em tons vibrantes, este espaço aberto representa a liberdade, a partilha e o convívio.

O largo é o ponto de partida e o ponto de chegada.

Ao unir a administração (Junta) e a fé (Cruzeiro), este espaço encapsula a identidade completa da aldeia: uma comunidade que se apoia na organização prática, mas que encontra o seu conforto e a sua força na espiritualidade e na tradição.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
18
Nov25

Cogumelo (Amanita muscaria) e bolotas (Quercus)


Mário Silva Mário Silva

Cogumelo (Amanita muscaria) e bolotas (Quercus)

18Nov DSC09102_ms

A fotografia de Mário Silva é um close-up que capta dois símbolos distintos do outono e do ecossistema florestal no solo.

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O elemento central da imagem é um cogumelo, com um grande chapéu de cor laranja-avermelhada intensa.

O chapéu é plano e exibe pequenas escamas brancas ou amarelas dispersas, características do género Amanita.

O pé (estipe) do cogumelo, parcialmente visível, é branco e robusto.

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Em primeiro plano, no solo, encontram-se várias bolotas, frutos da família Quercus (carvalhos).

As bolotas têm a sua característica cúpula (chapéu) escamosa e castanha, e o fruto em si é de cor castanho-claro.

O fundo é composto por um leito de folhas secas, raminhos e terra em tons castanhos e ocre, um ambiente típico de floresta caduca no outono.

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O Contraste da Floresta: Veneno e Sustento no Solo do Outono

A fotografia de Mário Silva, ao colocar lado a lado o Amanita muscaria e as bolotas do Quercus, sintetiza o dualismo da natureza outonal: a presença de um espetáculo visual de advertência e, simultaneamente, de um tesouro nutritivo.

A cena é uma micro-paisagem que representa a interconexão e os perigos do ecossistema florestal.

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O Amanita muscaria: Beleza, Mito e Alerta

O cogumelo do género Amanita, com o seu chapéu vermelho-vivo e pontos brancos, é uma das espécies mais icónicas e reconhecíveis do mundo micológico.

Contudo, é fundamental notar que esta espécie, em particular o Amanita muscaria (apesar de haver variações regionais e ser por vezes referida como tóxica ou psicoativa), pertence a uma família que inclui espécies fatalmente venenosas (como a Amanita phalloides, o chapéu-da-morte).

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Em Portugal, a regra de ouro na apanha de cogumelos é a cautela, pois a sua cor chamativa e o seu aspeto quase de fantasia atuam como um aviso.

Na mitologia e folclore europeu, o Amanita muscaria está frequentemente ligado a contos de fadas, duendes e rituais xamânicos, devido aos seus efeitos alucinogénicos, transformando-o num símbolo do mistério e da natureza intocada da floresta.

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As Bolotas (Quercus): O Sustento da Floresta

Em contraste direto com o cogumelo potencialmente tóxico, as bolotas são o símbolo da fertilidade, da resiliência e da alimentação na floresta.

Sendo o fruto dos carvalhos e sobreiros (Quercus), as bolotas eram e continuam a ser uma fonte de alimento crucial:

Para a Fauna: São a base da alimentação para muitos animais selvagens (esquilos, javalis, veados) durante o outono e inverno.

Para a Pecuária: Em muitas regiões de Portugal, as bolotas são essenciais para a alimentação de gado, especialmente o porco (nomeadamente o porco de raça Alentejana), contribuindo para o sabor e a qualidade dos enchidos e presuntos.

Uso Humano: Embora menos comum hoje, a farinha de bolota foi historicamente usada na alimentação humana, especialmente em tempos de escassez.

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Uma Cena de Outono Português

A junção destes dois elementos na fotografia é, em última análise, um retrato do outono português, onde a natureza oferece os seus contrastes: a beleza e o perigo lado a lado, o alimento essencial e a chamada de atenção para a prudência.

A imagem celebra o renascimento e a decomposição que ocorrem no solo da floresta.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
14
Nov25

O Bosque Despido (poema)


Mário Silva Mário Silva

O Bosque Despido

14Nov DSC02741_ms

 

De tronco esguio, erguido ao frio,

Veste o carvalho a nudez crua,

E a floresta, num mar vazio,

Espera a folha que recua.

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A rede de ramos ao alto,

Desenha o céu limpo e distante,

Um véu tecido em desalento,

De um inverno que é gigante.

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No chão dorme a cor de castanho,

A seda que o outono teceu,

Tudo em repouso, tudo estranho,

A glória que em pó se perdeu.

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Caminha o olhar pela linha,

Dos troncos que o tempo deixou,

A lição que a seiva ensina,

Na força que a vida guardou.

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Haverá um sol, uma prece,

Que chame a folha e o verde-novo,

E a vida que sempre acontece,

No chão deste humilde povo.

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Aguarda a terra, em paz serena,

O beijo da chuva que venha,

E o bosque, na sua cena plena,

Será de novo um ninho e lenha.

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Poema & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
12
Nov25

Chrysanthemum “Anna Marie”


Mário Silva Mário Silva

Chrysanthemum “Anna Marie”

12Nov DSC03662_ms

A fotografia de Mário Silva é um close-up de um grupo de flores que se destacam num fundo escuro e neutro, com um foco nítido na textura e cor das pétalas.

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A imagem é dominada por três crisântemos de cor branca e amarela.

A flor central é a maior, exibindo uma profusão de pequenas pétalas brancas e densas, que formam um centro amarelo-vivo.

As duas flores laterais são ligeiramente menores e menos densas, permitindo que as pétalas longas e brancas se destaquem.

O contraste é dramático, com o fundo em tons escuros de verde-preto, o que enfatiza a luminosidade e a fragilidade das flores.

A luz parece incidir de cima, realçando o miolo amarelo dos crisântemos.

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O Crisântemo “Anna Marie”: A Beleza que Desafia a Despedida do Outono

A fotografia de Mário Silva, ao imortalizar o Crisântemo “Anna Marie”, não regista apenas uma flor de beleza formal; capta um símbolo de resiliência, homenagem e transição cultural, especialmente em Portugal.

Esta flor, pertencente ao género Chrysanthemum, floresce no final do outono, quando a maioria das outras plantas já se prepara para o inverno.

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A Rainha do Outono e o Seu Significado

O crisântemo é frequentemente apelidado de "Rainha do Outono" e possui uma rica história cultural.

Originário da Ásia (China e Japão), onde é visto como símbolo de longevidade, alegria e perfeição, o crisântemo encontrou o seu lugar também na cultura ocidental.

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Em Portugal e em muitos países europeus, a sua floração coincide com o Dia de Todos os Santos e o Dia de Fiéis Defuntos (1 e 2 de novembro).

Por esta razão, o crisântemo, muitas vezes na sua variante branca ou amarela, tornou-se a flor tradicionalmente escolhida para adornar as sepulturas, simbolizando a homenagem, a saudade e a memória dos entes queridos.

A “Anna Marie”, com as suas pétalas brancas, representa a pureza e a inocência, cores frequentemente associadas a esta função.

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A Resiliência na Natureza

O que torna o crisântemo tão especial no contexto do outono é a sua resistência.

A sua capacidade de florescer quando as temperaturas descem e os dias encurtam é uma metáfora poderosa para a perseverança.

Ele oferece um último e exuberante espetáculo de cor antes da chegada do frio mais intenso, provando que a beleza pode florescer mesmo nas condições mais adversas.

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A Fotografia como Homenagem

Mário Silva, ao enquadrar a flor num plano próximo contra um fundo escuro, isola-a do ambiente.

Este método não só realça a sua forma geométrica e a intensidade das cores, mas também confere-lhe uma dignidade solene.

A flor central, robusta, é a manifestação da força, enquanto as flores laterais, ligeiramente inclinadas, sugerem a gentileza e o aceno de despedida à estação que finda.

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O Crisântemo “Anna Marie” é, assim, uma celebração da vida que persiste e da memória que perdura no tempo.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
09
Nov25

Igreja de São Martinho – Ervedosa – Vinhais – Bragança – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Igreja de São Martinho

Ervedosa – Vinhais – Bragança – Portugal

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A fotografia de Mário Silva retrata a Igreja de São Martinho, na aldeia de Ervedosa, no concelho de Vinhais, distrito de Bragança.

A igreja é uma construção em granito rústico, com uma tonalidade dourada, banhada pela luz intensa do final da tarde, que projeta sombras nítidas.

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A fachada principal é marcada por uma torre sineira de dupla abertura, que se eleva acima do telhado de telha vermelha, e está coroada por uma cruz de pedra.

Na parte superior da fachada, no topo da empena, é visível um relógio de parede embutido na pedra.

A entrada principal, com uma porta de madeira escura, é ladeada por cantaria bem trabalhada.

A construção combina o granito à vista com paredes laterais caiadas de branco.

Um espelho de trânsito convexo em primeiro plano, no centro-direito, reflete a fachada de forma distorcida, introduzindo um elemento moderno no contexto histórico.

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São Martinho: Do Soldado Romano ao Patrono da Generosidade e do Vinho Novo

A Igreja de São Martinho em Ervedosa (Vinhais) é um testemunho da profunda e antiga devoção portuguesa a este santo, cujo culto está intrinsecamente ligado à época do outono e à celebração do vinho novo.

A história de São Martinho de Tours, que se tornou um dos santos mais populares da Europa, explica a origem do famoso "Verão de São Martinho" e do ritual do Magusto.

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A Origem do Culto: O Manto e a Caridade

O culto a São Martinho (316–397 d.C.) tem origem numa lenda que se tornou um símbolo de generosidade e misericórdia cristã.

Segundo a história, Martinho era um jovem soldado romano na Gália.

Num dia de inverno rigoroso, encontrou um mendigo quase nu à porta da cidade de Amiens.

Sem ter nada para oferecer, Martinho cortou a sua capa militar (o manto) a meio com a espada e deu metade ao mendigo.

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Naquela noite, Martinho sonhou com Jesus, vestido com a metade do manto que havia dado.

Ao acordar, Martinho compreendeu que o ato de caridade era a sua verdadeira vocação, e a partir desse momento, dedicou a sua vida à fé.

Acabou por ser batizado e, mais tarde, nomeado Bispo de Tours, na França.

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O Milagre do Verão de São Martinho

O dia da sua celebração, 11 de novembro, marca um período de melhoria climática no outono europeu, conhecido em Portugal como o Verão de São Martinho.

A lenda diz que o milagre da capa (o corte e a entrega do manto) foi recompensado por Deus com três dias de sol e calor inesperados para aquecer o pobre mendigo.

Este período é esperado anualmente em Portugal e celebrado com alegria.

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O Magusto: Vinho Novo e Castanhas

A data de 11 de novembro coincide com o final das colheitas e o início da prova do vinho novo.

Assim, o culto a São Martinho ligou-se naturalmente ao ritual do Magusto, em que as famílias e comunidades se reúnem para assar castanhas na fogueira (em Trás-os-Montes, como em muitas outras regiões) e beber o vinho acabado de fazer ou a água-pé.

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A Igreja de São Martinho em Ervedosa, com a sua arquitetura de granito, representa este pilar da tradição: um local de fé que resiste ao tempo e que, todos os anos, se torna o centro espiritual de uma festa que celebra a bondade, a memória do santo e a renovação dos frutos da terra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
08
Nov25

"A apanha da castanha" - Águas Frias - Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

"A apanha da castanha"

Águas Frias - Chaves - Portugal

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A fotografia de Mário Silva retrata uma cena rural no outono, especificamente em Águas Frias, Chaves.

O foco da imagem está em duas figuras humanas curvadas sobre um campo de relva verde-viva, dedicadas à colheita das castanhas.

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As figuras, vestidas com roupa escura que contrasta fortemente com o verde do relvado, estão em pleno trabalho: uma delas parece estar a recolher algo para um saco branco no chão, enquanto a outra utiliza um balde claro.

A postura curvada de ambas as figuras enfatizam o esforço e a dedicação exigidos por esta tarefa.

O plano de fundo é composto por um maciço de castanheiros com folhagem verde e tons de castanho-avermelhado (fetos e ramos secos), característicos do outono.

A luz do sol incide sobre a vegetação, criando um ambiente natural e rústico.

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A Apanha da Castanha: Mais do que Colheita, um Ritual Transmontano

A fotografia de Mário Silva, que imortaliza o esforço da apanha da castanha em Águas Frias, Chaves, capta um dos rituais mais antigos e significativos do ciclo agrícola em Trás-os-Montes.

A castanha não é apenas um fruto; é um símbolo de subsistência, de convívio e da identidade cultural de uma região onde o castanheiro é apelidado de "árvore do pão".

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O Outono e o Tesouro do Souto

O outono, com o seu tapete de folhas caídas, anuncia o tempo do Souto, a floresta tradicional de castanheiros.

A apanha da castanha é um processo que exige paciência e, como a fotografia bem ilustra, um trabalho manual árduo.

As castanhas, protegidas dentro dos ouriços espinhosos, são libertadas pela queda ou com a ajuda de varas.

As figuras curvadas sobre a terra representam a ligação profunda e física entre o homem transmontano e o seu recurso mais valioso.

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O Sentido da Comunidade e do Esforço

Tradicionalmente, a apanha da castanha é uma atividade comunitária (ou era).

Famílias e vizinhos juntam-se (ou juntavam-se) nos soutos, numa forma de entreajuda que transforma o trabalho num momento de convívio.

A colheita não é apenas um ato económico; é um ritual social que reforça (ou reforçava) os laços comunitários.

O produto final, a castanha, era, e em muitas zonas ainda é, uma reserva vital para o inverno, utilizada em inúmeras receitas doces e salgadas.

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Da Terra à Mesa: O Magusto

O clímax da época da castanha é a celebração do Magusto, tipicamente no Dia de São Martinho (11 de novembro).

É um momento festivo onde as castanhas, assadas no fogo, são partilhadas (ou eram), acompanhadas por vinho novo ou jeropiga.

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A fotografia de Mário Silva é um registo intemporal desta cultura.

As mãos que trabalham, a roupa prática, o balde e o saco, tudo aponta para a importância da castanha como pilar da vida rural, um tesouro que a terra oferece anualmente e que, com o esforço e o suor, garante a sobrevivência e a celebração em Trás-os-Montes.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
06
Nov25

"Outono e os castanheiros transmontanos"


Mário Silva Mário Silva

"Outono e os castanheiros transmontanos"

06Nov DSC09006_ms

A fotografia de Mário Silva retrata uma paisagem florestal dominada pela transformação sazonal.

O cenário é um souto de castanheiros sob a luz do outono, que realça a riqueza de cores da estação.

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As árvores, com os seus troncos robustos e escuros, têm a folhagem em plena mudança, apresentando uma paleta que varia do verde escuro (em algumas árvores mais à direita) ao amarelo e vermelho vivo (especialmente nas árvores mais à esquerda, banhadas pela luz do sol).

O sol, vindo de cima ou da lateral superior esquerda, cria um efeito de raios de luz que atravessam as copas, iluminando o ambiente.

O chão está completamente forrado por uma espessa camada de folhas caídas em tons de castanho e ocre, e as sombras projetadas pelos troncos alongam-se pelo terreno.

A cena evoca uma sensação de tranquilidade e de colheita.

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Os Castanheiros: Colunas Vivas da Identidade Transmontana no Outono

A imagem capturada por Mário Silva dos castanheiros transmontanos no esplendor do outono não é apenas uma fotografia de uma floresta; é um retrato da alma da região de Trás-os-Montes.

O castanheiro (Castanea sativa) é uma das árvores mais emblemáticas e economicamente vitais do interior de Portugal, e a sua presença marca a paisagem, a cultura e a economia local.

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A Coroa Dourada do Outono

O castanheiro é um dos protagonistas visuais do outono.

Na região transmontana, o clima e o solo favorecem o seu desenvolvimento, e é nesta estação que as suas folhas, antes de caírem para forrar o solo (como se vê na fotografia), se transformam num magnífico espetáculo de tons amarelos e vermelhos, que parecem competir com o sol.

A queda das folhas é o anúncio de que a verdadeira riqueza, o fruto, está pronta para ser colhida.

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Mais que um Fruto, um Tesouro

A castanha é o "pão" de Trás-os-Montes, e o outono é o tempo de festa da colheita.

Antigamente, a castanha era um alimento fundamental na dieta das populações rurais, funcionando como um substituto do cereal em tempos de escassez.

Hoje, mantém a sua importância económica e gastronómica, sendo celebrada em feiras e festas como o magusto, onde é assada e acompanhada por jeropiga ou vinho novo.

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O processo de apanha — a abertura dos ouriços espinhosos no solo, o som das castanhas a cair e a corrida para as recolher — é um ritual social que une famílias e vizinhos.

A qualidade das castanhas de Trás-os-Montes, especialmente as variedades da Terra Quente (como a Longal e a Judia), é reconhecida e valorizada.

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A Cultura do Souto

O bosque de castanheiros é tradicionalmente chamado de souto.

Estes soutos não são florestas selvagens, mas sim espaços cultivados e cuidadosamente mantidos ao longo de séculos.

Os troncos robustos e centenários, como os da fotografia, testemunham a longevidade destas árvores, que são passadas de geração em geração.

A sua gestão é uma forma de património cultural, que demonstra o profundo respeito e a ligação das gentes transmontanas à sua terra e aos seus recursos.

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O outono, com a sua luz mágica e o tapete de folhas, celebra o momento em que a natureza partilha o seu fruto, reafirmando o castanheiro como um símbolo da resiliência, da tradição e da abundância transmontana.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
04
Nov25

"Dióspiro"


Mário Silva Mário Silva

"Dióspiro"

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Dióspiro", é um close-up (plano próximo) que celebra a cor e a textura deste fruto de outono.

A imagem foca-se em três dióspiros maduros, pendurados por um pequeno ramo seco.

Os frutos apresentam uma cor laranja-viva e intensa, com uma pele suave e brilhante, e as suas formas arredondadas dominam o centro da composição.

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As folhas do cálice, que se parecem com pequenas coroas secas, ainda estão agarradas ao caule.

Uma folha seca, em tons de castanho-avermelhado, também se agarra ao cacho.

O fundo está desfocado (bokeh), num tom castanho-esverdeado suave e neutro, o que realça o brilho e a cor vibrante dos dióspiros.

A cena transmite a sensação de um fruto pronto para ser colhido e consumido.

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O Dióspiro: O "Fruto dos Deuses" e a Essência do Outono Tardio

A fotografia de Mário Silva capta a beleza simples e a cor radiante do dióspiro (Diospyros kaki), um fruto que, em Portugal, marca a transição do outono para o inverno.

O seu nome científico, que se traduz como "fruto dos deuses", atesta a estima em que este fruto era tido nas culturas orientais e, progressivamente, no Ocidente.

Em Portugal, o dióspiro é um símbolo da generosidade da natureza no final do ciclo agrícola.

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Características e Variedades

O dióspiro é conhecido pelas suas duas principais variedades em termos de consumo:

Adstringente (de "petinga"): Esta variedade necessita de ser consumida muito madura, quando a polpa atinge uma consistência quase gelatinosa, eliminando a adstringência (sensação de "secar a boca").

É o sabor da tradição, muitas vezes comido à colher.

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Não Adstringente (Rochas ou Fuyu): Esta variedade pode ser consumida rija, à semelhança da maçã.

A sua introdução permitiu uma maior versatilidade no consumo e comercialização do fruto.

 

A cor laranja-intensa, tão bem retratada na fotografia, deve-se à alta concentração de carotenoides, os mesmos pigmentos encontrados nas cenouras, que são precursores da Vitamina A.

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O Ritmo do Campo no Outono

O dióspiro é um fruto que amadurece tardiamente, muitas vezes após a queda da maioria das folhas.

Os dióspiros a amadurecer nas árvores despidas, como se fossem lanternas cor de fogo, tornam-se um dos espetáculos visuais mais bonitos do outono tardio.

Em muitas quintas portuguesas, a sua colheita é um dos últimos atos agrícolas antes da chegada do frio mais intenso, marcando o encerramento das colheitas.

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Valor Nutricional e Gastronomia

Para além da sua beleza, o dióspiro é rico em fibras, antioxidantes e vitaminas, sendo um aliado importante para a saúde.

Na gastronomia portuguesa, é consumido in natura, mas também é utilizado no fabrico de doces, geleias e, por vezes, licores caseiros.

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A imagem de Mário Silva é uma celebração da riqueza do outono e do papel do dióspiro como um dos últimos "presentes" da terra antes do rigor do inverno.

É uma pequena obra-prima que nos lembra a importância dos ciclos da natureza e o prazer simples dos seus frutos.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
24
Out25

“Rosa foetida” no meio do campo


Mário Silva Mário Silva

“Rosa foetida” no meio do campo

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No campo seco, a terra já lavrada,

O sol de outono, ou tardio verão.

Uma roseira, teimosa e isolada,

Desafia o tempo, a seca e o grão.

E surge a rosa, um ponto de fulgor,

Um amarelo vivo, contra o calor.

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Não é o vermelho ardente da paixão,

Nem o branco discreto da inocência;

Mas um oiro breve, na solidão,

A "Rosa foetida", na sua essência.

Levanta a face ao céu, que se desbota,

Pequeno lume que o vento não nota.

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No fundo, a encosta dorme, verde e ocre,

Casario rasteiro, longe, a descansar.

A luz do dia, em tom que não se cobre,

Cria sombras longas, sem se apressar.

O campo aberto é a tela do momento,

E a rosa, a prova viva do alento.

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A haste altiva, o botão a prometer,

Um mistério verde ao lado, em formação.

É a força da vida a querer crescer,

Perante a vastidão da plantação.

Um detalhe mínimo, sob o olhar atento,

Do fotógrafo que capta o sentimento.

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Não se faz notar com pompa ou barulho,

Mas brilha mais que um farol no mar.

Em cada pétala, guarda o seu orgulho,

A enfrentar o mundo, sem desviar.

É a beleza simples que Mário Silva encontra,

Neste instante fugaz, que a alma desponta.

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Assim se revela a “Rosa foetida” ao mundo,

Um gesto de cor no meio da quietude.

Que a sua força, do campo mais profundo,

Nos lembre a arte da serenidade.

Pois mesmo só, e sob a luz mais crua,

A sua graça o tempo não descontinua.

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Poema & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
21
Out25

Cogumelos (Lactarius decipiens)


Mário Silva Mário Silva

Cogumelos (Lactarius decipiens)

21Out DSC01903_ms

A fotografia de Mário Silva, intitulada "Cogumelos (Lactarius decipiens)", capta um grupo de pequenos cogumelos a emergir da cama da floresta.

O foco está nos corpos frutíferos, que possuem chapéus de cor bege-claro a salmão pálido, e as suas lâminas (estruturas debaixo do chapéu) são visíveis, dispostas de forma organizada.

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Os cogumelos parecem ser jovens, com os seus pés curtos e suaves.

O ambiente é de outono, com o chão coberto por folhas secas e detritos castanhos, que formam um contraste com a tonalidade clara dos cogumelos e alguns pequenos fios de relva verde que espreitam no fundo.

A luz suave e difusa realça as texturas do solo e a fragilidade dos cogumelos.

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A Vida Silenciosa do Reino Fúngico: A Jornada de um Cogumelo

A fotografia de Mário Silva, que nos mostra a delicadeza dos cogumelos (Lactarius decipiens) a surgir da terra, revela apenas a ponta do iceberg de um dos reinos mais fascinantes e essenciais da natureza: o Reino Fúngico.

A vida de um cogumelo é uma jornada discreta, mas de profunda importância para o equilíbrio de qualquer ecossistema.

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O Micélio: A Vida Invisível

A verdadeira "planta" do cogumelo não é o que vemos à superfície.

O corpo frutífero (o cogumelo em si) é apenas o órgão reprodutor.

O organismo vivo principal é o micélio, uma vasta rede subterrânea de filamentos finos chamados hifas.

Esta teia subterrânea pode estender-se por quilómetros quadrados, vivendo silenciosamente sob as nossas florestas, alimentando-se de matéria orgânica ou estabelecendo parcerias vitais com as árvores.

Para o Lactarius decipiens, assim como para muitos outros, o micélio é o centro de comando que passa a maior parte do ano a acumular energia e a decompor a folhagem da floresta.

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A Eclosão: O Corpo Frutífero

Quando as condições ambientais são perfeitas — geralmente humidade elevada e temperaturas amenas, típicas do outono —, o micélio decide que é hora de se reproduzir.

É neste momento que a energia acumulada se concentra e faz emergir, da terra, o corpo frutífero, o cogumelo que vemos na fotografia.

O propósito deste corpo é único: produzir e dispersar esporos, as sementes microscópicas que garantirão a continuidade da espécie.

O Lactarius decipiens, como indica o seu nome, pertence a um grupo conhecido por libertar um látex (líquido leitoso) quando cortado, um mecanismo de defesa ou um subproduto do seu metabolismo.

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O Papel Vital na Floresta

A importância do cogumelo para a floresta é inegável:

Decomposição: Muitos fungos são decompositores primários.

Eles quebram a matéria orgânica morta (folhas, troncos, detritos), reciclando os nutrientes essenciais e devolvendo-os ao solo.

Sem este processo, a vida vegetal seria rapidamente asfixiada.

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Simbiose (Micorrizas): Outros, como os que formam micorrizas, estabelecem uma relação simbiótica crucial com as raízes das árvores.

O fungo ajuda a árvore a absorver água e minerais, enquanto a árvore fornece açúcares produzidos pela fotossíntese ao fungo.

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A curta e colorida vida do cogumelo, que Mário Silva tão bem documenta, é uma chamada de atenção de que os organismos mais efémeros são, muitas vezes, os mais fundamentais para a saúde da nossa natureza.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
17
Out25

Trepadeiras (Parthenocissus quinquefólia) invadem as ruínas da casa


Mário Silva Mário Silva

Trepadeiras (Parthenocissus quinquefólia)

invadem as ruínas da casa

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A fotografia de Mário Silva, intitulada “Trepadeiras (Parthenocissus quinquefólia) invadem as ruínas da casa", é uma imagem poderosa que celebra o vigor da natureza sobre o tempo e a construção humana.

A foto apresenta um muro antigo, possivelmente de uma casa em ruínas, construído com pedra rústica e visivelmente desgastado.

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O elemento mais marcante é a trepadeira que cobre quase toda a parede, exibindo um espetáculo de cores de outono, que variam entre o vermelho vivo e o verde escuro, com as tonalidades mais intensas a dominarem o primeiro plano.

A luz do sol incide lateralmente, realçando a textura da pedra e a vivacidade das folhas.

No topo da parede, à direita, é visível uma chaminé e parte de um telhado, sugerindo que a casa ainda mantém alguma estrutura.

A composição é um forte contraste entre a solidez da pedra e a efemeridade e força da vida vegetal.

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O Abraço Selvagem: A Poesia da Ruína e a Força da Parthenocissus quinquefólia

A imagem capturada por Mário Silva é um testemunho silencioso de uma batalha, não travada com violência, mas com paciência: a batalha entre o trabalho humano e o poder inesgotável da natureza.

As ruínas de uma casa, outrora um lar de paredes sólidas, são agora o palco para o espetáculo da trepadeira Parthenocissus quinquefólia, que as envolve num abraço de fogo e vida.

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A Ruína como Tela

Na região de Trás-os-Montes e outras áreas rurais de Portugal, não é raro encontrar antigas casas de pedra abandonadas, onde o tempo se encarregou de desvanecer a presença humana.

Estas ruínas, longe de serem apenas símbolos de decadência, tornam-se telas para a natureza.

A solidez do granito serve de base para o crescimento de plantas que, gradualmente, recuperam o espaço que lhes foi tomado.

A Parthenocissus quinquefólia, vulgarmente conhecida como vinha virgem ou hera americana, é uma das protagonistas deste processo.

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A Magia do Outono: O Fogo na Parede

O momento em que a trepadeira mais se destaca é no outono.

É nesta estação que a clorofila se retira e revela os pigmentos vermelhos e carmesins que se tornam a assinatura da planta.

A cor intensa não é apenas um adeus ao verão, mas uma demonstração de vitalidade.

Na fotografia, este "fogo" que se espalha pela parede de pedra é uma metáfora poderosa: a vida persiste, e fá-lo com uma beleza espetacular.

O verde que ainda se agarra à estrutura atesta a luta e a resiliência contínua.

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Importância Ecológica e Simbólica

Ecologicamente, as trepadeiras nas ruínas não são destrutivas, mas sim benéficas.

Elas ajudam a estabilizar as paredes de pedra e a criar um micro-habitat para insetos, pássaros e pequenos animais.

As ruínas, assim, transformam-se em pequenos oásis de biodiversidade.

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Simbolicamente, a imagem da Parthenocissus a cobrir a ruína é profundamente poética.

Representa a impermanência de tudo o que é feito pelo homem e a eternidade dos ciclos da natureza.

O que o homem abandona, a natureza reclamará, e fá-lo-á com uma beleza que transcende a tristeza da perda.

A ruína, invadida pelo verde e pelo vermelho, deixa de ser um local de esquecimento para se tornar um hino à vida selvagem e persistente.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
13
Out25

"Natureza morta - Outono"


Mário Silva Mário Silva

"Natureza morta - Outono"

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Natureza morta - Outono", é uma composição rica em texturas e cores que celebra a abundância do final do ano agrícola.

A imagem, capturada de perto, exibe vários elementos rústicos e frutos da época sobre uma superfície de madeira.

Em destaque, cachos de uvas, tanto brancas (amareladas e douradas) quanto pretas (azul-escuras), dominam o fundo.

Em primeiro plano, dois figos — um verde-claro e um roxo-avermelhado — juntam-se à composição.

O elemento central e inesperado é uma ferradura de ferro antiga e enferrujada, colocada no meio, ligando o ambiente rural à simbologia da sorte e do trabalho no campo.

O contraste entre o doce dos frutos e o rústico do ferro e da madeira define a atmosfera outonal.

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Frutos de Ouro e Púrpura: A Celebração dos Frutos Outonais em Portugal

O outono em Portugal não é apenas a estação das folhas douradas; é, acima de tudo, a época da abundância e do fecho de um ciclo de trabalho.

É o tempo em que a terra generosa oferece os seus frutos mais ricos e saborosos, tornando-se uma verdadeira festa para os sentidos.

A fotografia de Mário Silva, com a sua natureza morta, é um retrato fiel desta transição, onde os frutos outonais assumem o papel principal.

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As Uvas: A Coroa da Vindima

As uvas são, inegavelmente, o símbolo máximo do outono e do fim da vindima.

Sejam elas brancas, que se transformam em vinhos frescos e dourados, ou pretas, que dão origem aos tintos encorpados, as uvas são a recompensa do trabalho árduo.

O seu sabor, que varia do doce e melado ao levemente ácido, anuncia a transformação em vinho, a bebida que une as gentes transmontanas e portuguesas em todas as celebrações.

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Os Figos: Doçura e Tradição

O figo, com a sua pele delicada e polpa doce, é outro fruto emblemático do outono.

Em muitas regiões, como o Algarve e o Alentejo, a sua colheita marca o final do verão.

Consumido fresco, seco ou em doces, o figo faz parte da dieta tradicional e é frequentemente associado à fartura e à memória da infância.

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Um Banquete de Sabor e História

Para além das uvas e dos figos, o outono traz um leque de outros frutos e sabores que definem a estação:

Castanhas: Talvez o fruto outonal mais icónico, celebradas no Dia de São Martinho, onde são assadas no fogo e comidas com água-pé ou jeropiga.

Nozes e Amêndoas: Ricas em energia, estas oleaginosas são usadas em inúmeras sobremesas tradicionais e servem como reservas nutritivas para o inverno.

Dióspiros e Romãs: Com as suas cores quentes e formas exóticas, estes frutos dão um toque final à paleta da estação.

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A natureza morta de Mário Silva capta a essência desta época: o contraste entre a doçura da vida e a aspereza do trabalho no campo (simbolizada pela ferradura rústica), e a promessa de fartura antes da chegada do frio.

É uma celebração do que a terra nos oferece e um relembrar do valor dos ciclos da natureza.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
07
Out25

“Uvas após a vindima” - Águas Frias - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Uvas após a vindima”

Águas Frias - Chaves – Portugal

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A fotografia de Mário Silva é uma representação vibrante e detalhada de uvas recém-colhidas.

A imagem, tirada de perto, mostra uma mistura de cachos de uvas brancas e uvas pretas, com a luz do sol a incidir sobre elas, realçando as cores e as texturas.

É possível ver a pele fina das uvas brancas e o aspeto aveludado das uvas pretas, que formam um contraste de cores e luzes.

As uvas brancas, com os seus tons dourados e translúcidos, são o ponto focal da foto, iluminadas de forma intensa.

A composição celebra a riqueza da colheita e a abundância da natureza.

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A Vindima em Trás-os-Montes: Mais do que uma Colheita, uma Tradição de Vida

A vindima, a colheita das uvas, é um dos momentos mais importantes do calendário agrícola em Portugal, e na região de Trás-os-Montes, como em Águas Frias, é um evento com um significado que vai muito além da simples agricultura.

Para as gentes transmontanas, a vindima é um ritual de vida, um tempo de união, de esforço e de celebração.

É a altura em que a terra generosa recompensa o trabalho de um ano inteiro.

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O Esforço e a Cooperação

A vindima é um trabalho que exige a participação de todos.

Não é apenas uma tarefa individual, mas uma ação de comunidade.

Famílias inteiras, vizinhos e amigos juntam-se para apanhar os cachos de uvas, como os que a fotografia de Mário Silva retrata.

O ambiente é de camaradagem, com as conversas e as canções a preencherem o ar.

As mãos calejadas, os braços cansados e a coluna dolorida são o preço que se paga por cada cesto de uvas cheias.

Mas a recompensa é um sentimento de pertença e de realização que não tem preço.

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O Património Cultural e a Identidade

A vindima é uma celebração das raízes e da identidade transmontana.

O conhecimento de quando e como colher as uvas é transmitido de geração para geração, um legado oral que se mantém vivo e que garante a qualidade dos vinhos da região.

As tradições, como o almoço partilhado na vinha ou o lanche, são parte integrante do ritual.

A vindima não é apenas um ato de colher, mas também de honrar o passado e de transmitir os valores da terra e do trabalho.

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A Emoção da Colheita e a Promessa do Vinho

Quando os cestos se enchem de uvas, como as brancas e pretas da foto, há um sentimento de alegria e de alívio.

A colheita representa a conclusão de um ciclo, o fim de meses de preocupação com o tempo, a chuva e o sol.

É um momento de esperança, pois cada cacho é uma promessa de vinho.

Para as gentes de Trás-os-Montes, o vinho é mais do que uma bebida.

É um símbolo de convivência, de partilha e de hospitalidade.

Ele está presente em todas as mesas, nas festas de família e nas celebrações da aldeia.

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Em suma, a vindima é um espelho da alma transmontana: resiliente, trabalhadora e profundamente ligada à sua terra e às suas tradições.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
06
Out25

“A cerca rústica e a vaquinha”


Mário Silva Mário Silva

“A cerca rústica e a vaquinha”

06Out DSC09219_ms

A fotografia de Mário Silva retrata uma cena campestre serena e com um toque de nostalgia.

Em primeiro plano, uma cerca rústica de madeira crua domina a parte inferior da imagem, com um poste de madeira e uma corda que segura a travessa.

Esta cerca serve como uma moldura natural para a cena do fundo.

No plano intermédio, uma pequena vaca de pelagem branca e preta, com a cabeça levantada, observa o ambiente.

O prado em que se encontra é de tons verdes e castanhos, e as árvores, ao fundo, apresentam cores de outono, amareladas.

A atmosfera da imagem é calma, e a luz sugere um final de tarde tranquilo.

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A Vaquinha e a Cerca da Felicidade

Numa colina suave, banhada pela luz dourada do final de um dia de outono, vivia uma pequena vaca chamada Carmina.

Não era uma vaca como as outras.

Carmina, de pelagem branca e manchas pretas que pareciam nuvens escuras no céu da manhã, tinha uma visão muito particular do mundo.

A sua vida era medida pelos dias que se sucediam e pelo sabor da erva fresca, mas o seu coração pertencia à cerca rústica que delimitava o seu prado.

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A cerca não era bonita.

Era feita de troncos toscos e cordas gastas, e os seus nós e rachaduras contavam histórias de chuvas e de sóis.

Mas para Carmina, aquela cerca era a fronteira da felicidade.

Do seu lado, tinha o pasto verde, a água fresca de um riacho e a companhia das outras vacas.

Era ali, junto à cerca, que ela se sentia segura e em paz.

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Muitas vezes, parava perto do tronco mais velho e, com a cabeça erguida, olhava para o que se passava do outro lado.

Via as árvores mudarem de cor com a chegada do outono, as raposas que passavam ao longe e as nuvens que navegavam lentamente no céu.

Às vezes, os “resistentes” da aldeia, que passavam no caminho, paravam para a observar, e Carmina ficava quieta, sentindo-se a guardiã daquele espaço.

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Houve um dia em que o dono da quinta decidiu arranjar a cerca.

Carmina observou-o a trocar os troncos velhos por novos, mais direitos e polidos.

Sentiu uma ponta de tristeza.

Aquela cerca antiga, com todas as suas imperfeições, era a sua casa.

Mas o dono da quinta, com um gesto simples, pegou nas antigas travessas e deixou-as de lado, sem as deitar fora.

No final, o novo espaço era bonito, mas Carmina sentia que o seu antigo lugar, o seu cantinho, tinha desaparecido.

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O que ela não sabia é que o dono, com a sua sabedoria de homem do campo, pegou nas antigas travessas e construiu uma nova cerca, mais pequena, à volta de um campo de flores silvestres.

A Carmina não viu, mas sabia que, mesmo com um novo aspeto, a cerca antiga continuava a proteger um mundo de beleza.

E assim, a vaquinha de Carmina, que a fotografia de Mário Silva capturou, era, no fundo, a vaquinha da cerca, a guardiã silenciosa de um mundo de paz e simplicidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

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