"Aquelas Janelas ... e os vasos ao sol" … e uma estória
Mário Silva Mário Silva
"Aquelas Janelas ... e os vasos ao sol"
… e uma estória

Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "Aquelas Janelas ... e os vasos ao sol" (Nozelos - Valpaços - Portugal), apresenta uma secção da fachada de um edifício, focando-se em duas janelas retangulares idênticas.
A parede, de cor clara e com uma textura rugosa e ligeiramente envelhecida, sugere reboco.
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Ambas as janelas possuem estores venezianos de cor creme, que estão parcialmente descidos.
O estore da janela da esquerda está quase totalmente fechado, enquanto o da direita está ligeiramente mais levantado na parte inferior, revelando um pequeno pedaço de vidro da janela por baixo.
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Abaixo de cada janela, há um suporte de pedra saliente, de formato curvo e rústico, onde repousa um vaso de barro.
O vaso da esquerda é de cor castanha e contém o que parecem ser plantas secas ou sem folhas, de aspeto espigado.
O vaso da direita é de cor vermelha ou terracota mais intensa e também alberga plantas semelhantes, secas e esguias.
A luz do sol incide sobre a fachada, criando algumas sombras e realçando as texturas.
A imagem transmite uma sensação de quietude, um pouco de abandono, e a passagem do tempo num cenário rural.
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A Estória: O Mistério dos Vasos Sedentos e a Greve dos Estores
Na pacata aldeia de Nozelos, onde o sol de Valpaços bronzeava as paredes e a vida seguia um ritmo próprio, havia uma casa que era a conversa da freguesia, não por ser a mais bonita ou a mais velha, mas pelas suas janelas peculiares e, mais ainda, pelos seus vasos "ao sol".
Mário Silva, com a sua câmara, captou na perfeição o palco deste drama silencioso e hilariante.
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As janelas, com os seus estores cremes, eram a face da D. Custódia, uma senhora octogenária com o humor tão apurado quanto a sua vista já era fraca.
- Custódia tinha uma relação de amor-ódio com o sol.
Adorava-o para secar a roupa e curtir as azeitonas, mas detestava-o por desbotar as suas cortinas e aquecer a casa mais do que o necessário.
Daí a greve permanente dos estores, quase sempre a meio mastro, como bandeiras de rendição perante o calor.
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Mas o verdadeiro espetáculo eram os vasos.
Sim, aqueles vasos!
Um castanho discreto, o outro um vermelho vivo, ambos orgulhosamente empoleirados nas suas prateleiras de pedra como troféus.
O problema?
Os seus habitantes.
- Custódia, com a melhor das intenções, decidira que ter plantas à janela trazia alegria.
O que ela não previra era que as suas "plantas" tinham uma vida útil bastante... limitada.
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"São plantas exóticas, daquelas que só precisam de sol!", garantia ela aos vizinhos curiosos, com uma piscadela de olho.
A verdade era que D. Custódia se esquecia da rega com uma regularidade impressionante.
Assim, as pobres plantinhas, outrora viçosas, transformavam-se rapidamente em espigões secos e estóicos, parecendo pequenos ramos de vassoura em miniatura.
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Um dia, a neta de D. Custódia, a jovem Beatriz, veio visitá-la.
Mal pôs os olhos nos vasos, desatou a rir.
- Avó! - exclamou,
- Mas o que é isto? Parecem palitos com folhagem!"
Custódia, ofendida, pôs as mãos na anca.
- Ora, menina! Não vês que são umas raras Espiga-Seca-do-Sol? Precisam de muito sol e pouca água! São a última moda em Lisboa, disseram-me!" (A "última moda em Lisboa" era a desculpa que D. Custódia usava para tudo o que não tinha explicação).
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A piada correu pela aldeia.
Os homens na tasca apostavam quanto tempo demoraria a "Espiga-Seca-do-Sol" do vaso vermelho a virar pó.
As mulheres comentavam, entre risos abafados, sobre a "mão verde seca" da D. Custódia.
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Certo domingo, após a missa, um grupo de vizinhas mais atrevidas decidiu confrontar D. Custódia.
- D. Custódia, não acha que as suas plantas precisam de um bocado de água? - perguntou a D. Glória, com um sorriso matreiro.
Custódia, que por acaso tinha os seus óculos bem postos nesse dia, olhou para os vasos.
Eram apenas gravetos secos.
De repente, a luz acendeu-se nos seus olhos.
Ela olhou para as vizinhas, para os vasos, e depois para os estores, que teimosamente continuavam a meio.
- Ah, mas que distração a minha! -exclamou, batendo na testa.
- Estas são as minhas plantas de inverno! Esqueci-me de as trocar! As de verão, as verdadeiras, são umas que dão umas flores roxas lindíssimas, mas só aparecem quando os estores estão totalmente abertos! E, como sabem, com este sol, os estores andam em greve!"
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A gargalhada geral que se seguiu ecoou por Nozelos, e a história da "Greve dos Estores" e das "Espiga-Seca-do-Sol" tornou-se mais uma lenda da D. Custódia.
E assim, na fotografia de Mário Silva, aquelas janelas e os vasos ao sol não eram apenas um registo de uma fachada, mas um instantâneo de um pedaço de vida, de humor e de uma criatividade inesgotável em manter as aparências, mesmo quando a verdade era tão seca quanto as plantas nos vasos.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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