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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

04
Dez25

Em novembro de 2025


Mário Silva Mário Silva

Em novembro de 2025

Em novembro de 2025, Portugal viveu um mês decisivo na esfera política com a aprovação final do Orçamento do Estado, enquanto Lisboa voltou a ser o centro mundial da tecnologia.

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Aqui estão os principais acontecimentos:

Política e Economia

Aprovação do Orçamento do Estado para 2026:

No dia 27 de novembro, a Assembleia da República aprovou o Orçamento do Estado para 2026 na votação final global.

O documento passou com os votos a favor do PSD e CDS-PP e a abstenção do PS, o que foi crucial para a viabilização do governo da AD (Aliança Democrática).

Os restantes partidos votaram contra.

Medidas chave: O orçamento confirmou o aumento do Salário Mínimo Nacional para 920€ em 2026, novas tabelas de retenção de IRS e o alargamento da isenção de IMT para jovens.

Agitação Social: O mês foi marcado por contestação nas ruas.

No dia 8 de novembro, realizou-se uma grande manifestação em Lisboa contra o "pacote laboral" do Governo.

Adicionalmente, a UGT convocou uma Greve Geral (agendada para dezembro), intensificando a pressão sindical.

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Inovação e Sociedade

Web Summit 2025: De 10 a 13 de novembro, Lisboa acolheu mais uma edição da Web Summit.

O evento reforçou o estatuto da capital como hub tecnológico europeu, com foco especial em Inteligência Artificial e regulação digital.

Comemorações: No final do mês, a 26 de novembro, assinalou-se o Dia Mundial da Oliveira, com várias iniciativas a norte e sul do país a promover o turismo sustentável e o património agrícola.

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Desporto

Seleção Nacional (Qualificação Mundial 2026): A Seleção Portuguesa teve um mês de "duas caras" na qualificação para o Mundial:

Derrota: Perdeu contra a República da Irlanda (0-2) em Dublin, a 13 de novembro.

Goleada Histórica: Redimiu-se em casa, no Porto, com uma vitória expressiva de 9-1 contra a Arménia no dia 16 de novembro.

Liga Portuguesa: No campeonato nacional, o FC Porto fechou o mês na liderança isolada, após vencer o Estoril (1-0).

O Sporting manteve a perseguição no segundo lugar, terminando novembro com uma vitória clara sobre o Estrela da Amadora (4-0).

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Texto & Vídeo: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
30
Nov25

Altar-mor da Igreja dos Carmelitas (Descalços) – Porto – Portugal (estilo barroco/rococó sem embelezamento recente)


Mário Silva Mário Silva

Altar-mor da Igreja dos Carmelitas (Descalços)

Porto – Portugal

(estilo barroco/rococó sem embelezamento recente)

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A fotografia de Mário Silva é um plano vertical que capta o Altar-mor de uma igreja, destacando a impressionante riqueza da sua talha dourada em estilo Barroco/Rococó.

O altar é um monumento à opulência artística do Norte de Portugal.

A Talha Dourada: O elemento dominante é a profusão de talha dourada que cobre todo o retábulo e o arco do altar.

A talha é extremamente detalhada, apresentando volutas, querubins, anjos, cornucópias e motivos vegetais e orgânicos, típicos dos períodos Barroco e Rococó.

A iluminação focada realça o brilho intenso do ouro, criando uma sensação de deslumbramento e peso.

Estrutura Central: No centro do altar, encontra-se uma estrutura de vários níveis ou andares em talha, que se eleva em forma de pirâmide, culminando num pequeno nicho superior.

Esta estrutura está emoldurada por colunas salomónicas laterais, também ricamente douradas.

O Plano de Fundo: Por trás da estrutura central, está um pano de fundo ou cortinado em tecido azul-escuro (ou veludo), que serve para sublinhar e contrastar a cor intensa do ouro.

As Imagens: Pequenas imagens de santos estão colocadas em nichos nas bases das colunas laterais, acrescentando os elementos figurativos ao cenário escultural.

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A imagem transmite a força visual e a densidade decorativa da arte sacra portuguesa, onde o ouro, usado com exuberância, visa glorificar o divino.

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O Altar-Mor em Talha Dourada – O Teatro de Ouro do Barroco Portuense

O Altar-mor da Igreja dos Carmelitas Descalços, magnificamente capturado nesta fotografia, é um dos testemunhos mais eloquentes da época de ouro do Barroco e Rococó no Porto.

Este estilo, onde a talha dourada domina o espaço sagrado, não é apenas decoração; é uma linguagem, uma filosofia e uma expressão profunda da fé e do poder económico de um período.

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O Esplendor Sem Embelezamento Recente: A Pureza Histórica

A menção a ser um altar "sem embelezamento recente" é crucial.

Na verdade, a riqueza da talha dourada aqui apresentada, com a sua complexidade de formas e a sua saturação de ouro, é um exemplo de como o Barroco (e a sua evolução para o Rococó) atingiu o seu auge em Portugal, em grande parte financiado pela riqueza do ouro e dos diamantes do Brasil.

A ausência de "embelezamento recente" significa que o altar se mantém como um documento histórico e artístico autêntico.

A sua intenção original era criar um ambiente celestial, onde o excesso e a opulência visual servissem para transportar o fiel para a glória divina, contrastando a pobreza material da Ordem dos Carmelitas Descalços com a riqueza do seu culto.

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Barroco e Rococó: O Drama e o Movimento

A estrutura é um exemplo claro de transição e coexistência de estilos:

Barroco (Estrutural): Visível nas colunas salomónicas (retorcidas) e na forte sensação de drama e movimento que a estrutura imponente confere ao espaço.

Rococó (Decorativo): Manifesta-se na leveza, assimetria e na profusão de motivos orgânicos, conchas e volutas que parecem "derramar-se" pela estrutura, suavizando a rigidez anterior e dando à talha um aspeto mais "aéreo".

O conjunto funciona como um grande teatro sacro, com o foco de luz na área central a intensificar o mistério e a reverência perante o sacrário.

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O Altar-mor dos Carmelitas é, portanto, a cristalização em ouro da identidade religiosa e artística do Porto do século XVIII: um lugar de contemplação onde a materialidade do ouro convida à transcendência espiritual.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
29
Nov25

"O Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata) e a pinha (Pinus pinaster)"


Mário Silva Mário Silva

"O Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata)

e a pinha (Pinus pinaster)"

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A fotografia de Mário Silva é um close-up que enquadra uma pequena ave num ramo, lado a lado com uma pinha, com um fundo luminoso e desfocado, típico do outono.

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A Ave (Muscicapa striata): No centro-direito do plano, encontra-se uma pequena ave pousada num ramo.

A ave é de cor cinzenta-acastanhada clara no dorso e mais clara no peito e abdómen.

A sua postura é vertical e a cabeça é proporcionalmente grande em relação ao corpo, características compatíveis com o Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata), embora os detalhes da risca da testa não sejam totalmente nítidos.

A Pinha (Pinus pinaster): No lado esquerdo, e pendurada num ramo que se cruza, está uma pinha grande e escura.

A pinha é alongada, com as suas escamas lenhosas bem visíveis, sugerindo que pertence a um pinheiro-bravo (Pinus pinaster), comum em Portugal.

A Composição e Cor: A ave e a pinha estão em equilíbrio num ramo escuro e fino.

O fundo é dominado por uma desfocagem (bokeh) de cores quentes, sobretudo amarelo-dourado e verde-claro, que remete para a luz do outono a filtrar-se pela folhagem.

Este fundo confere à cena uma atmosfera de serenidade e calor.

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O Papa-Moscas e o Pinhal – A Vida Aérea e o Repouso Resinoso

A justaposição do Papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata) e da pinha (Pinus pinaster) na fotografia de Mário Silva é um retrato da ecologia do pinhal português, um ecossistema que oferece abrigo, alimento e um ponto de pausa para a vida selvagem.

Esta imagem celebra dois elementos que definem a dinâmica do Norte e do Centro do país: a migração e a resina.

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O Viajante Incansável: O Papa-Moscas-Cinzentos

O Papa-moscas-cinzento é um dos grandes símbolos da migração e do verão português.

É uma ave insectívora que chega a Portugal (e à Europa) na primavera para nidificar e passa o inverno na África subsaariana.

A sua presença no ramo, talvez nos meses de outono, sugere um momento crucial: o repouso final antes da longa viagem para sul.

O Papa-moscas é conhecido pela sua postura discreta e pela sua técnica de caça, permanecendo imóvel num posto de vigia (como o ramo na foto) para, de repente, voar e capturar insetos em pleno ar.

A sua silhueta discreta contrasta com a sua vitalidade e o seu instinto de viajante.

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O Ponto de Apoio: A Pinha e a Resina

Ao lado da ave, a pinha do pinheiro-bravo (Pinus pinaster) é o símbolo da estabilidade, da semente e da resistência.

O pinhal, com a sua madeira e a sua resina, é uma cultura de rendimento crucial em muitas zonas rurais portuguesas.

A pinha é o fruto que alberga a semente e que oferece uma fonte de alimento para outras aves e roedores.

A sua presença na imagem, grande e robusta, ancorando o observador no local, contrasta com a natureza ligeira e efémera da ave.

Juntos, no mesmo ramo, representam a interdependência da Natureza: o pinhal providencia o substrato da vida e os insetos (alimento do papa-moscas) contribuem para o equilíbrio do ecossistema.

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A fotografia, com o seu fundo dourado, capta a harmonia silenciosa entre a ave migrante, que se prepara para voar, e o fruto resinado do pinhal, que se prepara para semear a próxima geração, tudo sob o calor efémero da luz outonal.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
28
Nov25

"A folha pendente - meados de outono" – Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"A folha pendente - meados de outono"

Mário Silva

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A fotografia de Mário Silva é um close-up que foca numa folha de árvore caduca, possivelmente de Liquidâmbar (Liquidambar styraciflua), capturada no auge da sua transformação outonal.

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A Folha: A folha é o elemento central, apresentando a sua característica forma estrelada ou lobada com cinco pontas proeminentes.

A cor é notavelmente intensa, exibindo uma transição vibrante: o centro é de um vermelho profundo e carmesim, que se esbate para tons de amarelo e dourado nas extremidades e veios.

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A Pêndula: A folha está suspensa por um pecíolo fino, quase invisível, ligada a um pequeno ramo, que a mantém no ar.

Este detalhe sublinha o momento de pendência, o instante de transição entre a ligação à árvore e a queda iminente.

Fundo e Contraste: O fundo é um suave “bokeh” (desfocagem) em tons de verde e amarelo-esbatido, que contrasta intensamente com o vermelho e o dourado da folha, realçando-a dramaticamente e isolando-a do seu contexto mais amplo.

Composição: O foco nítido na folha e o fundo desfocado criam uma sensação de vulnerabilidade e beleza efémera, capturando o esplendor de meados de outono.

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A Folha Pendente – Elogio da Fragilidade e do Esplendor do Outono

A fotografia "A folha pendente - meados de outono" é mais do que um registo da Natureza; é uma meditação visual sobre a mudança, o desapego e a beleza do ciclo da vida.

A folha, suspensa entre o ramo e o chão, torna-se uma embaixadora da estação, encarnando o momento mais melancólico e mais colorido do ano.

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O Esplendor da Despedida

Em meados de outono é o período em que as árvores caducas em Portugal, especialmente no interior e no Norte, atingem o seu máximo cromático.

A folha, transformada quimicamente, arde em cores (carotenoides e antocianinas) que estiveram escondidas sob o verde da clorofila durante o verão.

Esta exibição de vermelho, ouro e laranja é, ironicamente, o prelúdio da sua morte.

O momento de "pendência" (ou suspensão) capturado na imagem é a celebração do efémero.

A folha está ali, em toda a sua glória final, antes de se juntar ao tapete castanho que cobre o chão da floresta.

É um lembrete de que o maior esplendor é muitas vezes atingido no limiar do fim.

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A Metáfora do Desapego

Na sua pose solitária e suspensa, a folha oferece uma profunda metáfora para o desapego.

A sua ligação ao ramo é ténue, um mero fio que se prepara para se romper.

Este momento espelha o ciclo necessário de libertação na vida, onde a natureza, sem resistência ou lamento, se despoja do que já não serve para se preparar para o repouso e a renovação.

O outono, simbolizado por esta folha, ensina-nos que deixar ir é um ato de vitalidade, não de derrota.

O ciclo da Natureza exige o despojamento para que a energia possa ser preservada no tronco e nas raízes, garantindo o florescimento na próxima primavera.

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A Fragilidade Solitária

A luz suave do outono, capturada na fotografia, enfatiza a vulnerabilidade da folha.

Isolada contra o fundo desfocado, ela é o centro do universo fotográfico, mas está à mercê do mais leve sopro de vento.

Esta fragilidade é a sua força poética, convidando o observador a pausar e a apreciar a complexidade e a beleza de um único e pequeno elemento antes que a gravidade a reclame de volta à terra.

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A Folha Pendente é, assim, o retrato da transitoriedade e da dignidade com que a Natureza completa os seus ciclos.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
27
Nov25

"O largo; a sede da Junta de Freguesia; o cruzeiro de Nosso Sr. dos Milagres" - Águas Frias - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"O largo; a sede da Junta de Freguesia;

o cruzeiro de Nosso Sr. dos Milagres"

Águas Frias - Chaves – Portugal

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A fotografia de Mário Silva capta um amplo plano do largo principal da aldeia de Águas Frias, onde se encontram os elementos cívicos, administrativos e religiosos da comunidade, sob a luz clara de um dia de outono.

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A Sede da Junta de Freguesia: No lado esquerdo do plano, domina um edifício de dois pisos, com as paredes em pedra (granito) e uma varanda no piso superior.

O telhado é de telha tradicional.

O rés-do-chão apresenta inscrições identificativas ("Junta de Freguesia de Águas Frias") e algumas aberturas.

A estrutura é robusta e utilitária, tipicamente rural.

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O Cruzeiro: No lado direito, sob a sombra das árvores, encontra-se uma pequena estrutura religiosa que funciona como cruzeiro de rua.

Esta consiste num nicho emoldurado por um pequeno telhado sustentado por colunas, abrigando uma imagem de culto, Nosso Senhor dos Milagres, dado ser um cruzeiro.

A sua presença demarca o espaço sagrado no largo.

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O Largo e a Vegetação: O largo propriamente dito é um espaço amplo de pavimento simples, que serve de ponto de encontro e estacionamento.

Árvores de grande porte, com folhagem de outono em tons de verde, amarelo-dourado e vermelho intenso, emolduram a cena, sugerindo a transição da estação.

 O céu é limpo e azul.

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O Coração da Aldeia Transmontana – A Tripla Identidade do Largo

O largo principal de Águas Frias, Chaves, imortalizado na fotografia de Mário Silva, é o palco onde se manifestam os três pilares que estruturam a vida social e cultural da aldeia transmontana: o poder cívico (Junta), a fé (Cruzeiro) e a comunidade (Largo).

Este espaço é o verdadeiro coração da freguesia, um ponto de convergência de todos os caminhos.

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A Junta de Freguesia: O Poder Terreno

O edifício da Sede da Junta de Freguesia representa a autoridade local e a voz da comunidade.

Não se trata de uma simples repartição administrativa, mas sim do polo onde se resolvem os problemas quotidianos, se organizam os festejos e se mantêm as tradições.

Na arquitetura de granito e de linhas simples, o edifício simboliza a solidez e a resiliência das instituições rurais.

É o elo de ligação entre a aldeia e o município, garantindo que as necessidades dos habitantes, desde o arranjo dos caminhos à distribuição de água, sejam atendidas.

É o símbolo da vida organizada e da gestão coletiva.

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O Cruzeiro: O Elo com o Sagrado

A presença do Cruzeiro de Nosso Senhor dos Milagres lado a lado com a administração civil sublinha a profunda raiz religiosa que ainda impera nas comunidades transmontanas.

Estes pequenos altares ao ar livre são pontos de devoção espontânea e local.

O cruzeiro é um farol de fé, onde os lavradores, antes ou depois do trabalho, podem fazer uma breve oração.

Simboliza a esperança, a proteção e a constante busca por milagres que amparem a vida, muitas vezes dura, do campo.

É um lembrete de que a vida da aldeia é regida não só pelas leis humanas, mas também pelas leis divinas.

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O Largo: O Espaço da Comunidade

Por fim, o Largo é o palco da vida social.

É onde se dão os encontros após a missa, onde as crianças brincam e onde se realizam as festas anuais.

Rodeado pela vegetação do outono em tons vibrantes, este espaço aberto representa a liberdade, a partilha e o convívio.

O largo é o ponto de partida e o ponto de chegada.

Ao unir a administração (Junta) e a fé (Cruzeiro), este espaço encapsula a identidade completa da aldeia: uma comunidade que se apoia na organização prática, mas que encontra o seu conforto e a sua força na espiritualidade e na tradição.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
26
Nov25

Gotinhas d'Água (poema) – Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

Gotinhas d'água (poema)

Mário Silva

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I

Lá no orvalho, ou na chuvada

Que passou, leve e fugaz,

A natureza acorda, encharcada,

Com mil espelhos de paz.

Nos fios finos, quase invisíveis,

A água suspensa, a repousar.

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II

Cada gota, um mundo breve e lento,

Redonda e plena de luar,

Reflete o sol do firmamento

Antes que a sede a vá sugar.

Em cada esfera, um brilho de prata,

Num verde leito que a aguenta.

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III

Ficou-se a chuva, no silêncio breve,

Onde o musgo e a folha se encontraram.

Deixou a vida, leve e quase neve,

Nos caules que se entrelaçaram.

E o ar respira, puro e sem defeito,

Obrigado ao que foi feito.

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IV

Na solidão da sua forma pura,

A gota aguarda o fim do tempo seu,

Um instante, frágil e sem cura,

Que ao mundo inteiro se ofereceu.

É o cristal que pende, quase a cair,

Pronto a tombar, ou a sumir.

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V

São pérolas postas, sem artifício,

Na ponta de um verde, humilde e chão.

É a promessa, é o sacrifício,

Da seiva que corre sem perdão.

E o sol de longe, tímido as beija,

Como quem a vida almeja.

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VI

E assim a vida, em Trás-os-Montes nossa,

É feita de gotas a brilhar;

Pequenos gestos, sem grande pressa,

Que o dia a dia vem alimentar.

A beleza está ali, na humilde gota,

Pequena e simples, mas que não se esgota.

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Poema & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
25
Nov25

Laccaria laccata solitário – Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"Laccaria laccata" solitário

Mário Silva

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A fotografia de Mário Silva é um close-up em plano baixo que destaca um único cogumelo, um Laccaria laccata, emergindo de um denso tapete verde no solo.

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O Cogumelo: O exemplar é solitário e o seu chapéu é de cor laranja-acastanhada a tijolo (característica da espécie), com uma forma ligeiramente convexa aplanada.

A margem do chapéu é notavelmente irregular e ondulada.

O pé (estipe) é fino, cilíndrico e da mesma cor do chapéu, surgindo verticalmente.

A Base Vegetal: O cogumelo está firmemente enraizado num solo coberto por um tapete denso de pequenas folhas de trevo e outras plantas rasteiras de um verde vibrante.

O contraste entre o laranja quente do fungo e o verde fresco do solo é muito acentuado.

Detalhes do Chão: Entre o verde, são visíveis pequenos raminhos e detritos escuros, o que sublinha o ambiente florestal e húmido.

Gotículas de água ou orvalho brilham levemente sobre as folhas, sugerindo um ambiente húmido, ideal para a micologia.

Composição: O enquadramento em plano baixo enfatiza a altura e a presença do cogumelo, elevando-o sobre o tapete verde e transmitindo uma sensação de descoberta.

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O Laccaria laccata Solitário – Humildade e Abundância no Reino Fúngico

O Laccaria laccata, vulgarmente conhecido como Cogumelo-Laca ou simplesmente Laca-Comum, é uma das espécies mais ubíquas e resilientes dos ecossistemas florestais de Portugal.

A fotografia "Laccaria laccata solitário" celebra a humildade e a discrição desta espécie, que, apesar de ser modesta na dimensão, é gigantesca na sua importância ecológica.

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O Mestre da Adaptação

O Laccaria laccata é um verdadeiro mestre da adaptação.

É um cogumelo micorrízico, o que significa que estabelece uma relação de simbiose vital com as raízes das árvores (carvalhos, pinheiros, etc.).

Este cogumelo fornece nutrientes e água à planta, recebendo em troca açúcares essenciais.

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A sua cor, que varia entre o laranja-pálido e o tijolo (daí o nome laccata, que significa lacado ou envernizado), permite-lhe prosperar em diversos ambientes, desde o solo ácido de sobreiros e carvalhos, como é comum em Trás-os-Montes, até à base de coníferas.

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A Lição do Solitário

Embora o Laccaria laccata surja frequentemente em grupos (o que contraria o título, que pode ser uma forma poética do fotógrafo ou a captura de um exemplar inicial), o seu aparecimento solitário na fotografia remete para a perseverança individual e para o ciclo discreto da natureza.

O cogumelo que vemos é apenas o corpo frutífero; o verdadeiro organismo, o micélio, está escondido sob o solo, numa vasta e complexa rede que liga a vida da floresta.

O exemplar solitário, emergindo do tapete de trevos, é uma manifestação fugaz de um sistema subterrâneo vasto e interligado, lembrando-nos que a maior parte da vida e do trabalho da natureza ocorre em silêncio e nas profundezas.

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Valor e Sabor Escondido

Apesar de ser um cogumelo de pequeno porte e de ser frequentemente ignorado por catadores em busca de espécies maiores, o Laccaria laccata é comestível e valorizado pelo seu sabor suave e ligeiramente terroso.

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A fotografia, ao concentrar-se na sua beleza vibrante contra o verde intenso, não só o valoriza esteticamente, mas também nos convida a prestar atenção aos detalhes mais modestos do reino fúngico, que garantem a saúde da floresta e enriquecem a biodiversidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
24
Nov25

"Depois da chuvada" – Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"Depois da chuvada"

Mário Silva

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A fotografia de Mário Silva capta uma cena de natureza, um pequeno ribeiro a correr suavemente por uma área de bosque, sob a luz difusa que se segue a uma precipitação.

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O Curso de Água: O elemento central é a água do riacho, que corre cristalina sobre um leito de pedras e seixos arredondados.

A água é rasa e espelha a luz do céu e as árvores nas margens, criando reflexos ténues e cintilantes.

O nível da água, ligeiramente elevado, e a presença de lodo húmido e folhas caídas nas margens sugerem que a chuvada acabou de cessar.

As Margens: A margem esquerda está densamente coberta por vegetação verde escura, musgo, e terra encharcada, destacando-se as raízes expostas das árvores que se agarram ao solo.

A Luz: A iluminação é de final de tarde, com o sol baixo (ou a sair por detrás das nuvens) a atravessar a folhagem das árvores mais altas na parte superior direita.

Esta luz quente, em contraste com o ambiente húmido e escuro do ribeiro, confere uma atmosfera de serenidade e renovação.

O Enquadramento: O enquadramento em plano picado (de cima para baixo) acentua o brilho e a fluidez da água, transmitindo uma sensação de quietude e ar puro, típica do momento "Depois da chuvada".

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A Chuvada e a Alma Transmontana — O Ciclo da Renovação

Em Trás-os-Montes, a chuvada não é apenas um fenómeno meteorológico; é um acontecimento fundamental que molda a paisagem, a economia e o temperamento das suas gentes.

A fotografia "Depois da chuvada" representa o momento exato em que a natureza respira aliviada, um instante de tranquilidade e saturação de vida que é essencial para a identidade desta região do Norte de Portugal.

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O Inverno Húmido e a Benção da Água

Trás-os-Montes, especialmente a Terra Fria, é caraterizada por um clima continental que traz invernos rigorosos e, crucialmente, períodos de precipitação intensa.

O granito, o solo e o sistema agrícola da região dependem diretamente desta afluência de água:

Vitalidade Agrícola: É a chuva que nutre os soutos (castanheiros), os carvalhais e as culturas de sequeiro.

A cena do ribeiro a correr suavemente após a chuvada simboliza a reposição da água nas ribeiras e nas nascentes, garantindo a vitalidade dos campos.

O Sabor da Terra: A qualidade dos produtos transmontanos, desde a castanha até aos cogumelos (cuja aparição é determinada pela humidade), está intrinsecamente ligada à sazonalidade e à pluviosidade.

A chuva é a promessa de uma boa colheita e de um solo fértil.

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A Sensação de "Depois da Chuvada"

O momento capturado na fotografia é rico em emoções e sensações que são universais, mas agudizadas na rusticidade transmontana:

O Aroma da Terra: O cheiro a terra molhada, a “petricor”, é a fragrância da floresta purificada.

A Quietude: O som da chuva intensa cede lugar ao murmúrio suave do ribeiro e ao silêncio das árvores encharcadas.

A Limpeza: A água remove o pó do verão e revela as cores mais saturadas da vegetação e das pedras.

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A Metáfora da Resiliência

Na cultura transmontana, o ciclo da água reflete a resiliência do seu povo.

Tal como as raízes das árvores se agarram à terra húmida para resistir à erosão (como se vê na margem do ribeiro), o povo da região agarra-se à sua terra, resistindo à adversidade.

A chuvada, por vezes avassaladora, é sempre seguida pela serenidade e pela renovação — um ciclo perpétuo de dificuldade e superação.

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A cena do riacho, iluminada pelo sol que regressa, é um lembrete de que, mesmo após as tempestades mais fortes, a luz e a vida voltam a fluir, prometendo a fertilidade e a continuidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
23
Nov25

"Lindos altares laterais" (2008) – Águas Frias – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Lindos altares laterais" (2008)

Águas Frias – Chaves – Portugal

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A fotografia de Mário Silva oferece um vislumbre do interior da igreja de Águas Frias, Chaves, concentrando-se na disposição simétrica de dois altares secundários ou colaterais, enquadrados por arcos.

A composição revela a confluência de estilos e materiais que caracterizam a arte sacra portuguesa em espaços rurais, nomeadamente no Norte.

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Elementos Estruturais e Enquadramento Arquitetónico

Simetria e Arcos: A composição é marcada pela simetria de dois nichos ou capelas laterais, inseridos na parede da nave, cada um enquadrado por um arco de volta perfeita ou arco pleno.

Estes arcos definem o espaço sagrado dedicado aos cultos secundários.

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Retábulos de Talha: Ambos os altares são dominados por retábulos de madeira, pintada e dourada, de um estilo que remete para o final do Barroco ou inícios do Rococó, período em que a decoração em talha se popularizou nas igrejas paroquiais de Portugal.

O retábulo é composto por molduras, colunas e painéis que enquadram as figuras centrais.

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Iconografia e Imagens Sacras

Altar Esquerdo (Sacro Coração): O nicho da esquerda acolhe a figura de Jesus Cristo, possivelmente na invocação de Sagrado Coração de Jesus.

A imagem de Cristo está vestida com um manto branco e vermelho, num fundo de cor intensa (vermelho) que realça a figura central.

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Altar Direito (Crucificação e Devoções Marianas): O nicho da direita apresenta uma imagem de Jesus Crucificado, também em fundo azul escuro, uma cor frequentemente associada ao luto e ao mistério.

Ao lado do retábulo direito, numa peanha ou tribuna separada, está uma imagem de Nossa Senhora, provavelmente na invocação de Imaculada Conceição ou Nossa Senhora de Fátima (pela cor branca do hábito e a coroa), destacando a devoção mariana.

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Elementos Decorativos e Azulejaria

Revestimento Cerâmico: A parte inferior das paredes e a base dos altares estão revestidas com azulejos de padrão, típicos da produção portuguesa.

A presença de azulejos azuis e brancos, com desenhos geométricos e florais, é um elemento de grande importância na arte religiosa portuguesa, servindo tanto para decoração como para proteção das paredes.

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Mobiliário e Ornamentos: Em primeiro plano, destaca-se a balaustrada ou o comungatório em madeira, separando a nave do espaço dos altares.

Nos altares, as toalhas brancas de altar (possivelmente em renda ou bordado) e os arranjos florais naturais (rosas, amarelos e laranjas) sublinham a importância litúrgica e festiva dos altares.

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Iluminação e Efeito Espacial

Luz e Atmosfera: A iluminação é dramática, com uma grande janela a banhar o espaço com luz natural intensa no centro da imagem.

Este foco de luz cria um forte contraste entre a claridade exterior e o ambiente mais sombrio do primeiro plano (onde estão os bancos da nave), realçando o mistério e a sacralidade do interior do templo.

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A Arte e Religiosidade em comunhão

(de mãos dadas entre o Passado, o Presente e o Futuro)

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Texto & Fotografia (2008): ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Nov25

"O granito na construção rural transmontana"


Mário Silva Mário Silva

"O granito na construção rural transmontana"

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A fotografia de Mário Silva é um close-up angular que foca na fachada e na lateral de uma estrutura rural antiga, provavelmente um celeiro, adega ou habitação, construída integralmente em pedra de granito.

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O edifício é maciço e apresenta uma cantaria de granito irregular e não polida, com pedras de diferentes tamanhos e formatos, ligadas com argamassa.

A parede demonstra uma solidez impressionante, característica das construções de Trás-os-Montes.

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Aberturas: São visíveis duas aberturas na fachada.

Uma delas, mais antiga, é uma porta de madeira vertical no rés-do-chão, com uma pequena soleira de granito e um lintel também em pedra.

A outra abertura é um vão de porta ou janela, com caixilhos de madeira (uma porta) e uma moldura em pedra mais regular na lateral.

Textura e Cor: A pedra, de tom cinzento-claro a ocre, está coberta em alguns pontos por musgos e líquenes verdes, o que atesta a sua idade e a humidade do ambiente.

O telhado, parcialmente visível, é de telha tradicional e confere um toque de cor quente.

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O enquadramento angular realça a robustez e a verticalidade da construção.

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O Granito na Construção Rural Transmontana: A Essência da Robustez e Identidade

A fotografia de Mário Silva capta a mais pura expressão da arquitetura popular transmontana: o uso dominante do granito.

Em Trás-os-Montes, onde este material é abundante, o granito transcendeu a sua função geológica para se tornar o elemento definidor da paisagem construída, simbolizando a robustez, a durabilidade e a identidade cultural da região.

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Funcionalidade: A Resposta ao Clima e ao Solo

O granito foi a escolha óbvia na construção rural transmontana por razões estritamente funcionais.

A sua extrema dureza e densidade garantem:

Isolamento Térmico: A espessura das paredes de granito oferece um isolamento natural, mantendo as casas frescas no verão quente e protegidas do frio intenso do inverno transmontano.

Durabilidade e Estabilidade: O material é praticamente indestrutível, conferindo às estruturas uma longevidade que ultrapassa séculos.

As casas e celeiros são construídos para durar gerações, resistindo ao vento, à chuva e às intempéries.

Disponibilidade: A abundância de afloramentos graníticos na região (sendo Trás-os-Montes uma área predominantemente granítica) tornava-o o material de construção mais acessível, extraído e trabalhado pelos próprios lavradores e pedreiros locais.

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Estética e Identidade Cultural

A estética do granito na construção rural é o oposto do polimento e da perfeição.

A cantaria irregular e a justaposição de blocos de diferentes tamanhos na fotografia refletem uma arquitetura de subsistência e adaptação, onde a beleza reside na honestidade do material.

A cor da pedra, que envelhece gradualmente ganhando musgos e patinas (como se vê na imagem), integra a construção na paisagem natural.

As aldeias de granito fundem-se com os maciços montanhosos, formando um todo coeso.

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O granito, assim, não é apenas um material; é uma afirmação cultural.

Ele representa a tenacidade do povo transmontano — duro, resiliente e profundamente enraizado na sua terra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
20
Nov25

“Fonte dos Leões e como fundo as igrejas do Carmo e a dos Carmelitas” (Porto – Portugal)


Mário Silva Mário Silva

“Fonte dos Leões e como fundo as igrejas do Carmo e a dos Carmelitas” (Porto – Portugal)

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A fotografia de Mário Silva é uma composição noturna ou de final de tarde que justapõe um elemento escultórico moderno ou do século XIX (a fonte) com o complexo arquitetónico religioso do Porto (as igrejas).

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Primeiro Plano: A Fonte e a Cor

O primeiro plano é dominado pela escultura de um leão da fonte, que está coberto por uma iluminação artificial intensa, em tom azul-elétrico.

Este leão, com uma expressão feroz e juba trabalhada, tem a sua cabeça e parte do corpo em destaque.

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O Jato de Água:  Da boca do leão, emerge um jato de água forte e longo, que se projeta em arco, criando um risco de luz que se estende para o centro da imagem.

Textura e Brilho: A cor azul da escultura, combinada com o brilho da água que escorre e dos jatos de luz, confere um caráter dramático e quase irreal à fonte.

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Segundo Plano e Fundo: O Complexo Religioso

Atrás da fonte e servindo como pano de fundo, está a fachada de uma das igrejas, provavelmente a Igreja do Carmo (ou Carmelitas Descalços), conhecida pela sua exuberante decoração.

Arquitetura Barroca/Rococó: A fachada apresenta uma riqueza de talha em pedra (cantaria) com relevos, nichos, pilastras e elementos decorativos de grande detalhe, típicos do estilo Barroco e Rococó do Norte de Portugal.

Iluminação da Fachada: O edifício histórico está iluminado em tons quentes e naturais (diferentes do azul da fonte), o que destaca a sua textura e as complexas molduras.

A iluminação confere profundidade e contrasta a permanência da arquitetura com o movimento da água e a cor da fonte.

Ambiente Noturno: O céu escuro e o uso de luz artificial acentuam a justaposição de elementos — o dinamismo da água e da cor, em oposição à solidez e antiguidade da pedra histórica.

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A fotografia cria um diálogo entre a arte escultórica urbana e o património arquitetónico do Porto, realçando a beleza dos monumentos sob a luz noturna.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
19
Nov25

"A ponte de pedra - a ligação entre margens"


Mário Silva Mário Silva

"A ponte de pedra - a ligação entre margens"

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A fotografia, representada pela imagem de uma ponte rústica sobre um pequeno rio, exibe uma ponte de lajes de pedra de construção antiga e simples, que se estende sobre um curso de água sereno.

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A ponte é suportada por três pilares maciços de granito irregular, visíveis dentro da água, sobre os quais assentam grandes lajes de pedra, formando o tabuleiro.

A sua construção é utilitária e primitiva, refletindo a engenharia popular.

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O rio é estreito e tem águas escuras, mas com reflexos da vegetação circundante, nomeadamente os ramos nus das árvores nas margens.

As margens estão densamente cobertas por vegetação rasteira e arbustos verde-escuros, criando um ambiente húmido e sombrio.

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A luz, provavelmente do final do dia, incide sobre as árvores ao fundo, deixando a área da ponte na penumbra, o que realça o caráter intemporal e isolado da estrutura.

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A Ponte de Pedra: A Ligação Eterna Entre Margens, Corações e Tempos

A ponte de pedra, com a sua arquitetura simples e robusta, é mais do que um mero trajeto funcional; é, no coração de Portugal rural, uma metáfora para a própria vida e a sua perpétua busca por união.

A fotografia capta a essência desta ligação, onde a pedra ancestral desafia a corrente do rio e a passagem do tempo.

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A Funcionalidade Transfigurada em Sentimento

A origem de toda a ponte reside na necessidade: a de ultrapassar um obstáculo, de evitar o isolamento.

No entanto, o que a mão humana constrói com pedra e esforço transcende rapidamente essa primeira função.

A ponte rústica torna-se o testemunho silencioso de todas as travessias que testemunhou:

A Travessia do Trabalho: O caminho diário do lavrador e do pastor, levando os animais e as colheitas.

A Travessia do Encontro: O ponto onde os namorados se encontravam e os vizinhos se saudavam.

A Travessia da Saudade: O local onde se via partir e onde se esperava o regresso.

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A pedra, batida pela chuva e pelo sol, guarda a memória desses passos.

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A Força da Ligação

O verdadeiro poder da ponte é unir o que o rio, na sua natureza de separação e fluxo, tenta manter à distância.

Ela representa a vitória da vontade sobre a natureza implacável.

Os pilares, firmemente cravados no leito do rio, são âncoras de estabilidade num mundo em constante movimento.

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As duas margens não são apenas terra; são dois mundos, duas vidas, dois corações.

A ponte é o voto de que a distância será sempre vencida, que a separação é apenas temporária.

Ela oferece uma via segura, mesmo quando a vida corre agitada e escura, como as águas refletidas na imagem.

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Um Portal no Tempo

Olhar para esta ponte de pedra é entrar num portal.

As lajes gastas não nos ligam apenas à outra margem do rio, mas também à outra margem do tempo.

Sentimo-nos ligar aos que a construíram e aos que por ela passaram há gerações.

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Ela ensina-nos que as ligações mais valiosas não são as mais elaboradas ou modernas, mas sim as que são construídas com materiais simples, mas com a firmeza da convicção e o propósito de unir.

A ponte de pedra é a lição de que o essencial na vida é a união, a perseverança e o regresso seguro.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
18
Nov25

Cogumelo (Amanita muscaria) e bolotas (Quercus)


Mário Silva Mário Silva

Cogumelo (Amanita muscaria) e bolotas (Quercus)

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A fotografia de Mário Silva é um close-up que capta dois símbolos distintos do outono e do ecossistema florestal no solo.

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O elemento central da imagem é um cogumelo, com um grande chapéu de cor laranja-avermelhada intensa.

O chapéu é plano e exibe pequenas escamas brancas ou amarelas dispersas, características do género Amanita.

O pé (estipe) do cogumelo, parcialmente visível, é branco e robusto.

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Em primeiro plano, no solo, encontram-se várias bolotas, frutos da família Quercus (carvalhos).

As bolotas têm a sua característica cúpula (chapéu) escamosa e castanha, e o fruto em si é de cor castanho-claro.

O fundo é composto por um leito de folhas secas, raminhos e terra em tons castanhos e ocre, um ambiente típico de floresta caduca no outono.

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O Contraste da Floresta: Veneno e Sustento no Solo do Outono

A fotografia de Mário Silva, ao colocar lado a lado o Amanita muscaria e as bolotas do Quercus, sintetiza o dualismo da natureza outonal: a presença de um espetáculo visual de advertência e, simultaneamente, de um tesouro nutritivo.

A cena é uma micro-paisagem que representa a interconexão e os perigos do ecossistema florestal.

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O Amanita muscaria: Beleza, Mito e Alerta

O cogumelo do género Amanita, com o seu chapéu vermelho-vivo e pontos brancos, é uma das espécies mais icónicas e reconhecíveis do mundo micológico.

Contudo, é fundamental notar que esta espécie, em particular o Amanita muscaria (apesar de haver variações regionais e ser por vezes referida como tóxica ou psicoativa), pertence a uma família que inclui espécies fatalmente venenosas (como a Amanita phalloides, o chapéu-da-morte).

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Em Portugal, a regra de ouro na apanha de cogumelos é a cautela, pois a sua cor chamativa e o seu aspeto quase de fantasia atuam como um aviso.

Na mitologia e folclore europeu, o Amanita muscaria está frequentemente ligado a contos de fadas, duendes e rituais xamânicos, devido aos seus efeitos alucinogénicos, transformando-o num símbolo do mistério e da natureza intocada da floresta.

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As Bolotas (Quercus): O Sustento da Floresta

Em contraste direto com o cogumelo potencialmente tóxico, as bolotas são o símbolo da fertilidade, da resiliência e da alimentação na floresta.

Sendo o fruto dos carvalhos e sobreiros (Quercus), as bolotas eram e continuam a ser uma fonte de alimento crucial:

Para a Fauna: São a base da alimentação para muitos animais selvagens (esquilos, javalis, veados) durante o outono e inverno.

Para a Pecuária: Em muitas regiões de Portugal, as bolotas são essenciais para a alimentação de gado, especialmente o porco (nomeadamente o porco de raça Alentejana), contribuindo para o sabor e a qualidade dos enchidos e presuntos.

Uso Humano: Embora menos comum hoje, a farinha de bolota foi historicamente usada na alimentação humana, especialmente em tempos de escassez.

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Uma Cena de Outono Português

A junção destes dois elementos na fotografia é, em última análise, um retrato do outono português, onde a natureza oferece os seus contrastes: a beleza e o perigo lado a lado, o alimento essencial e a chamada de atenção para a prudência.

A imagem celebra o renascimento e a decomposição que ocorrem no solo da floresta.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
17
Nov25

"Original puxador de porta" - Tinhela – Valpaços – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Original puxador de porta"

Tinhela – Valpaços – Portugal

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A fotografia de Mário Silva é um close-up de um detalhe de arquitetura rural, capturado em Tinhela, Valpaços.

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O foco da imagem está num puxador de porta de ferro forjado que apresenta uma forma artística e incomum, assemelhando-se a uma figura humana estilizada ou a um lagarto/macaco com braços e pernas longos e curvos.

O ferro é de cor castanho-ferrugem e está pregado a uma porta de madeira pintada num tom azul-pálido e gasta pelo tempo.

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A superfície da porta é composta por tábuas verticais, com a pintura desbotada e desgastada, o que confere ao conjunto uma atmosfera rústica e antiga.

No lado esquerdo, é visível uma fechadura ou buraco da chave em latão, contrastando com o puxador rústico.

A luz incide suavemente, destacando a textura áspera e irregular do ferro forjado.

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O Puxador de Porta: Onde a Funcionalidade Encontra a Alma Artesanal

A fotografia de Mário Silva, que destaca um puxador de porta artesanal na aldeia de Tinhela (Valpaços), celebra a beleza singular do ferro forjado e a forma como a funcionalidade mais básica — abrir e fechar — pode ser elevada a uma expressão de arte popular.

Este tipo de detalhe arquitetónico é uma marca da identidade das aldeias rurais portuguesas, especialmente no interior transmontano.

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A Originalidade da Necessidade

Em ambientes rurais, a produção de objetos quotidianos era, por natureza, artesanal.

O serralheiro ou ferreiro local não se limitava a replicar modelos industriais; ele infundia a sua criatividade e as tradições locais em cada peça.

O puxador retratado, com a sua forma orgânica e quase animada (que evoca, talvez, a figura de um macaco, um lagarto ou um homem em movimento), transcende o utilitarismo.

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Originalidade: Este tipo de puxador demonstra uma liberdade formal invulgar, transformando a porta numa tela para a escultura funcional.

Cada peça é única, contando uma história silenciosa daquele lar.

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Contraste Material: A escolha da madeira pintada de azul gasta em contraste com o ferro envelhecido pela ferrugem sublinha a passagem do tempo, a resiliência dos materiais e a beleza que nasce da imperfeição e do uso diário.

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Funcionalidade e Simbolismo

Apesar da sua aparência decorativa, a principal função do puxador é, obviamente, ser um ponto de contacto, um ponto de transição entre o exterior e o interior.

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A Ergonomia Rústica: O ferro forjado, embora duro, era moldado para que a pega fosse firme.

As formas curvas garantiam que a mão pudesse agarrar o objeto com facilidade e segurança.

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O Simbolismo na Porta: Em muitas culturas, a porta e os seus acessórios (puxadores, aldravas, dobradiças) tinham um valor simbólico, atuando por vezes como amuletos.

Formas de animais ou figuras humanas podiam ser vistas como guardiões da casa, conferindo um caráter protetor ao portal de entrada.

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A fotografia de Mário Silva não é apenas sobre um puxador; é sobre a poesia da ferraria tradicional, onde a arte da forja se misturava com as necessidades do quotidiano, deixando um legado de funcionalidade e originalidade nas portas das casas de Portugal.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
16
Nov25

“Igreja de São Lourenço” – Vilartão – Bouçoães – Valpaços – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Igreja de São Lourenço”

Vilartão – Bouçoães – Valpaços – Portugal

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A fotografia de Mário Silva retrata o interior do templo em Vilartão, Bouçoães, no concelho de Valpaços.

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A imagem foca-se no altar-mor, que é dominado por um retábulo ricamente ornamentado de talha dourada.

O estilo é de transição entre o Barroco e o Rococó, com grande profusão de detalhes, colunas salomónicas e ornamentos folheados a ouro.

O altar central é ladeado por nichos e figuras de santos, e o arco do altar tem um acabamento em pedra escura.

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Pendurado no centro da nave está um grande e vistoso candelabro de cristal, que reflete a luz interior.

O piso da igreja é de madeira escura e, em primeiro plano, estão visíveis os bancos de madeira da nave, em filas paralelas.

A luz artificial e o brilho da talha dourada criam um ambiente de solenidade e riqueza artística, contrastando com a simplicidade da vida rural em Trás-os-Montes.

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São Lourenço: O Guardião dos Tesouros e o Mártir na Grelha

A Igreja de São Lourenço, com a sua talha dourada no interior, é um dos muitos templos em Portugal dedicados a este santo, cuja vida e martírio ressoam na história da Igreja Católica.

São Lourenço (ou São Lourenço de Roma) é uma das figuras mais veneradas do cristianismo primitivo, conhecido pela sua inteligência, caridade e coragem inabalável.

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Vida e Função na Igreja Primitiva

Lourenço nasceu em Hispânia (atual Espanha) no século III, mas a sua vida destacou-se em Roma.

Foi um dos sete Diáconos da Igreja Romana, numa época em que o cristianismo ainda era perseguido.

Como arquidiácono, Lourenço tinha uma função crucial: era o guardião do tesouro da Igreja e o responsável pela sua administração, incluindo a distribuição de esmolas e a assistência aos pobres, aos órfãos e às viúvas.

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O Tesouro de Lourenço

O momento mais famoso e definidor da sua vida ocorreu durante a perseguição do Imperador Valeriano, por volta de 258 d.C..

O Imperador exigiu que Lourenço entregasse os tesouros da Igreja, esperando encontrar ouro, prata e objetos preciosos.

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Lourenço pediu três dias para reunir os "tesouros".

Ao fim desse tempo, em vez de ouro, apresentou à frente das autoridades imperiais os pobres, os coxos, os cegos e os enfermos que ele ajudava.

Declarou então: "Estes são os verdadeiros tesouros da Igreja."

Este ato de desafio, que colocava o valor humano e a caridade acima da riqueza material, selou o seu destino.

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O Martírio na Grelha

Como punição pela sua audácia e fé, São Lourenço foi condenado a uma das formas de martírio mais brutais da época: foi colocado numa grelha de ferro e assado vivo.

Reza a lenda que, mesmo sob tortura, Lourenço manteve a sua serenidade e bom humor.

No auge do seu sofrimento, terá dito aos seus algozes: "Podeis virar-me, pois este lado já está bem assado.".

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Devido ao seu martírio na grelha, São Lourenço é o patrono dos cozinheiros, assadores e bombeiros.

A sua festa litúrgica celebra-se a 10 de agosto, e a sua história é um poderoso testemunho da prioridade do serviço, da caridade e da fé inquebrável.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
15
Nov25

"Ufff... um gato preto" ... e uma estória


Mário Silva Mário Silva

"Ufff... um gato preto" ... e uma estória

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A fotografia de Mário Silva é um retrato de um felino, capturado num enquadramento rústico.

A imagem foca-se num gato preto de pelo denso e lustroso, que está enrolado e confortavelmente aninhado na abertura de uma janela ou nicho em pedra rústica.

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O gato está em repouso, com os olhos parcialmente fechados, parecendo ligeiramente ensonado ou incomodado pela luz que entra.

A sua cor negra contrasta drasticamente com a escuridão total do interior do nicho e com a pedra clara e trabalhada da moldura da janela, que é banhada pela luz solar.

O enquadramento em pedra é grosso e antigo, realçando as texturas e o contraste entre o animal e o ambiente.

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Ufff... Um Gato Preto. A Estória do "Porteiro" Faustino

O título da fotografia, "Ufff... um gato preto", sugere um misto de alívio e talvez uma pitada de superstição bem-humorada.

E é exatamente isso que Faustino, o gato em questão, causa na pequena aldeia de Favas do Tempo.

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Faustino não era apenas um gato; era o Porteiro Não Oficial da Rua da Amargura (assim chamada por ser a mais íngreme).

E tinha a mais importante das funções: sentar-se na janela da velha casa de granito, a de Dona Piedade, e julgar quem passava.

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O seu pelo era tão negro que, quando se aninhava na sombra da sua alcova de pedra, como na fotografia, era virtualmente invisível.

Isto causava uma série de pequenos sustos matinais.

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Um dia, o Sr. Custódio, o padeiro, vinha a subir a rua carregando a primeira fornada de broas de milho.

O sol tinha acabado de bater na janela e, ao ver a silhueta negra imóvel, o padeiro parou a meio do passo.

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"Ufff... um gato preto," sussurrou Custódio, fazendo o sinal da cruz. "Que o azar não me vire as broas."

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Faustino, que estava apenas a tentar desfrutar do seu sono da manhã, abriu um olho dourado, deu um miar de preguiça — um som que mais parecia um "deixa-me em paz" profundo — e virou a cabeça para o sol.

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Custódio, aliviado por o "mau presságio" não ter fugido (sinal de que não era assim tão mau, pensou ele), sorriu.

"Ah, Faustino! Bom dia! Pensei que me tinhas pregado um susto, bicho do Demo. Anda cá, toma uma fatia de salpicão, para abençoar o dia."

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E foi assim que Faustino não só se tornou o felino mais bem-alimentado da aldeia (aceitando o salpicão como compensação pelo esforço de não lhes dar azar), como também o principal motivo de suspiros e exclamações matinais.

O "Ufff... um gato preto" deixou de ser um prenúncio e passou a ser o cumprimento não oficial de Favas do Tempo.

E Faustino, o seu guardião ensonado, continuava a dominar a sua escuridão de granito, aceitando a sua importância cómica com a dignidade que só um gato preto pode ter.

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Estória & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
14
Nov25

O Bosque Despido (poema)


Mário Silva Mário Silva

O Bosque Despido

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De tronco esguio, erguido ao frio,

Veste o carvalho a nudez crua,

E a floresta, num mar vazio,

Espera a folha que recua.

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A rede de ramos ao alto,

Desenha o céu limpo e distante,

Um véu tecido em desalento,

De um inverno que é gigante.

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No chão dorme a cor de castanho,

A seda que o outono teceu,

Tudo em repouso, tudo estranho,

A glória que em pó se perdeu.

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Caminha o olhar pela linha,

Dos troncos que o tempo deixou,

A lição que a seiva ensina,

Na força que a vida guardou.

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Haverá um sol, uma prece,

Que chame a folha e o verde-novo,

E a vida que sempre acontece,

No chão deste humilde povo.

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Aguarda a terra, em paz serena,

O beijo da chuva que venha,

E o bosque, na sua cena plena,

Será de novo um ninho e lenha.

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Poema & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
13
Nov25

Azeitonas pretas de “Olea europaea”


Mário Silva Mário Silva

Azeitonas pretas de “Olea europaea”

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A fotografia de Mário Silva é um close-up que celebra o fruto maduro da oliveira, capturado no ramo antes da colheita.

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A imagem foca-se em três azeitonas pretas e lustrosas, que pendem de um pequeno ramo.

As azeitonas são de cor negra profunda e apresentam um brilho intenso na sua pele, refletindo a luz solar.

Estão cercadas pelas folhas verde-escuras e prateadas típicas da oliveira, que proporcionam um contraste cromático e de textura.

Os ramos são esguios e a luz incide diretamente, realçando o formato oval e a superfície lisa dos frutos.

O fundo é suavemente desfocado (bokeh), num tom de verde-claro a amarelo-suave, o que isola o fruto e o ramo, tornando a azeitona a protagonista da composição.

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A Azeitona Negra: O Fruto da Longevidade e o Ouro Líquido de Portugal

A fotografia de Mário Silva capta o auge da maturação da azeitona preta, o fruto da oliveira (Olea europaea), a "Árvore da Vida" ou "Árvore da Paz", um dos símbolos mais enraizados da cultura mediterrânica e portuguesa.

A azeitona negra, cheia de cor e brilho, é a promessa do tesouro mais valioso da oliveira: o azeite.

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A Oliveira: Um Símbolo de Resiliência e Tradição

A oliveira é uma cultura milenar em Portugal, adaptada aos solos pobres e aos longos verões quentes.

Árvore de crescimento lento e de excecional longevidade

- muitas oliveiras portuguesas contam séculos de existência;

- simboliza a resiliência e a permanência das tradições agrícolas.

É no final do outono e início do inverno que as azeitonas, depois de passarem pelo estágio verde, adquirem o seu pigmento escuro, indicando a máxima concentração de azeite.

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O Processo de Maturação e as Azeitonas Negras

A azeitona preta da fotografia é um fruto que atingiu a sua plena maturação.

Enquanto as azeitonas verdes são colhidas mais cedo e tendem a ter um sabor mais amargo e um azeite mais picante (com mais polifenóis), as azeitonas negras possuem um sabor mais suave e oleoso.

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No entanto, a sua cor negra não é apenas importante para a produção de azeite; é também fundamental para o consumo direto:

Azeitona de Mesa: As azeitonas pretas são sujeitas a processos de cura para remover o amargo (oleuropeína) e são um acompanhamento essencial na mesa portuguesa, seja em saladas, petiscos ou como ingrediente em pratos tradicionais.

Azeite: O azeite virgem e o azeite virgem extra, extraídos destas azeitonas maduras, são o "ouro líquido" do país, valorizado pela sua qualidade e sabor.

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Da Colheita à Mesa

A imagem é uma chamada de atenção para o trabalho que está para vir: a apanha da azeitona (tradicionalmente por varejamento ou métodos mais modernos), seguida da moagem nos lagares.

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Em suma, a fotografia de Mário Silva capta a azeitona negra no seu momento de glória — um fruto que é a materialização de uma cultura de séculos, um alimento essencial e um produto vital para o património gastronómico e económico de Portugal.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
12
Nov25

Chrysanthemum “Anna Marie”


Mário Silva Mário Silva

Chrysanthemum “Anna Marie”

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A fotografia de Mário Silva é um close-up de um grupo de flores que se destacam num fundo escuro e neutro, com um foco nítido na textura e cor das pétalas.

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A imagem é dominada por três crisântemos de cor branca e amarela.

A flor central é a maior, exibindo uma profusão de pequenas pétalas brancas e densas, que formam um centro amarelo-vivo.

As duas flores laterais são ligeiramente menores e menos densas, permitindo que as pétalas longas e brancas se destaquem.

O contraste é dramático, com o fundo em tons escuros de verde-preto, o que enfatiza a luminosidade e a fragilidade das flores.

A luz parece incidir de cima, realçando o miolo amarelo dos crisântemos.

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O Crisântemo “Anna Marie”: A Beleza que Desafia a Despedida do Outono

A fotografia de Mário Silva, ao imortalizar o Crisântemo “Anna Marie”, não regista apenas uma flor de beleza formal; capta um símbolo de resiliência, homenagem e transição cultural, especialmente em Portugal.

Esta flor, pertencente ao género Chrysanthemum, floresce no final do outono, quando a maioria das outras plantas já se prepara para o inverno.

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A Rainha do Outono e o Seu Significado

O crisântemo é frequentemente apelidado de "Rainha do Outono" e possui uma rica história cultural.

Originário da Ásia (China e Japão), onde é visto como símbolo de longevidade, alegria e perfeição, o crisântemo encontrou o seu lugar também na cultura ocidental.

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Em Portugal e em muitos países europeus, a sua floração coincide com o Dia de Todos os Santos e o Dia de Fiéis Defuntos (1 e 2 de novembro).

Por esta razão, o crisântemo, muitas vezes na sua variante branca ou amarela, tornou-se a flor tradicionalmente escolhida para adornar as sepulturas, simbolizando a homenagem, a saudade e a memória dos entes queridos.

A “Anna Marie”, com as suas pétalas brancas, representa a pureza e a inocência, cores frequentemente associadas a esta função.

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A Resiliência na Natureza

O que torna o crisântemo tão especial no contexto do outono é a sua resistência.

A sua capacidade de florescer quando as temperaturas descem e os dias encurtam é uma metáfora poderosa para a perseverança.

Ele oferece um último e exuberante espetáculo de cor antes da chegada do frio mais intenso, provando que a beleza pode florescer mesmo nas condições mais adversas.

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A Fotografia como Homenagem

Mário Silva, ao enquadrar a flor num plano próximo contra um fundo escuro, isola-a do ambiente.

Este método não só realça a sua forma geométrica e a intensidade das cores, mas também confere-lhe uma dignidade solene.

A flor central, robusta, é a manifestação da força, enquanto as flores laterais, ligeiramente inclinadas, sugerem a gentileza e o aceno de despedida à estação que finda.

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O Crisântemo “Anna Marie” é, assim, uma celebração da vida que persiste e da memória que perdura no tempo.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Nov25

"Castanha transmontana e Magusto"


Mário Silva Mário Silva

"Castanha transmontana e Magusto"

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A fotografia de Mário Silva é um close-up que foca a atenção no fruto do castanheiro no seu invólucro natural.

A imagem apresenta um ouriço (a casca espinhosa) parcialmente aberto, ainda pendurado num ramo, com as suas castanhas já visíveis no interior.

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O ouriço é de cor verde-limão e amarelo-pálido, coberto por uma miríade de espinhos longos e finos.

No seu interior, revelam-se duas castanhas de cor castanho-avermelhada e brilhante, com a ponta clara, prontas para serem colhidas.

O fundo é composto por folhagem verde-escura e alguma vegetação desfocada (bokeh), o que destaca as cores ricas e as texturas contrastantes da castanha e do ouriço.

A fotografia celebra a prontidão da colheita e a beleza do fruto antes de ser apanhado.

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A Castanha Transmontana: O "Pão da Pobreza" e a Festa do Magusto

A castanha, magistralmente retratada por Mário Silva no seu ouriço protetor, é um dos mais importantes símbolos culturais e económicos de Trás-os-Montes.

Durante séculos, o fruto do castanheiro (Castanea sativa) foi mais do que um alimento; foi o pilar da subsistência em muitas regiões de montanha, valendo-lhe o cognome de "pão da pobreza" ou "pão da serra".

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O Valor Histórico e Económico

O castanheiro, introduzido ou expandido pelos Romanos e cultivado em tradicionais soutos, prospera nos solos ácidos e no clima frio de Trás-osMontes e Beiras.

Antes da chegada da batata e da expansão do milho, a castanha servia como principal fonte de carboidratos, sendo consumida cozida, assada, seca (conhecida como "castanha pilada") ou moída em farinha.

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Hoje, a Castanha da Terra Fria (variedades como a Longal e a Judia) possui uma reputação de qualidade superior, sendo valorizada tanto para consumo “in natura” como para a exportação e a indústria de ultracongelados.

A colheita, que ocorre no outono, mobiliza as comunidades e representa uma fatia importante da economia local.

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O Magusto: A Festa da Partilha e da Identidade

O ponto alto do ciclo da castanha é a celebração do Magusto, um ritual ancestral de convívio e agradecimento, que em Portugal está tradicionalmente associado ao Dia de São Martinho (11 de novembro).

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O Magusto é a festa onde a castanha, após o trabalho da apanha, é finalmente saboreada de forma comunitária (ou era):

O Fogo e o Ritual: Acendem-se fogueiras para assar as castanhas (fazendo o magusto), que se comem quentes e, muitas vezes, ainda com o fumo a sair.

A Bebida Tradicional: A castanha assada é tradicionalmente acompanhada por vinho novo (o vinho acabado de fazer da vindima anterior) ou por jeropiga (uma bebida doce feita com mosto de uva).

O Convívio: O Magusto é (ou era) uma cerimónia de partilha, onde as castanhas, o vinho e a água-pé correm livremente, e o convívio, os cânticos e as brincadeiras (como enfarruscar os rostos uns dos outros com as cinzas da fogueira) reforçam (ou reforlavam) os laços comunitários.

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Em Trás-os-Montes, a castanha é, portanto, o laço que une o passado e o presente, e o Magusto é o momento em que a comunidade celebra (ou celebrava) a generosidade da terra e a sua própria identidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

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