"O mar enrola na areia ..."
e uma estória
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A fotografia de Mário Silva, intitulada "O mar enrola na areia ...", capta uma vista panorâmica de uma baía tranquila.
A imagem é dominada pelo mar, com águas de um azul-claro suave que se misturam com tons de verde.
As ondas, pequenas e suaves, quebram na praia de areia clara, criando uma faixa de espuma branca que se estende por toda a largura da imagem.
À direita, a costa é delimitada por uma área rochosa e uma colina coberta de pinheiros.
No fundo, do lado esquerdo, avistam-se colinas distantes.
O céu, de um azul límpido e com poucas nuvens, reflete-se na água, criando uma atmosfera de calma e serenidade.
A fotografia transmite uma sensação de paz e a beleza natural e intocada da costa.
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Estória: A Memória do Mar
O mar, para o pequeno Afonso, não era apenas água e areia.
Era uma memória.
Uma memória que vivia no som das ondas, no cheiro a sal e na luz que, como Mário Silva um dia capturaria na sua fotografia, pintava a baía de uma paz irreal.
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Afonso, que agora passava os seus setenta verões, sentava-se na varanda da sua casa, com vista para a mesma praia que Mário Silva havia fotografado.
Os anos tinham-lhe enrugado o rosto e curvado os ombros, mas os seus olhos continuavam a brilhar com a mesma vivacidade de um miúdo quando olhava para o mar.
Naquele verão, a sua neta, Laura, tinha vindo visitá-lo.
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Laura, uma jovem da cidade, com a cabeça cheia de ideias de tecnologia e pressa, sentia-se entediada na aldeia pacata do avô.
O mar era bonito, sim, mas era sempre o mesmo.
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- Avô, por que é que gostas tanto disto? Não é sempre o mesmo? - perguntou Laura, com a voz tingida de uma impaciência que Afonso conhecia bem.
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Afonso sorriu, um sorriso que lhe enrugou os olhos ainda mais.
- Não, minha neta. Não é o mesmo. O mar, ele muda a cada dia, a cada hora. E ele guarda as nossas memórias.
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Laura revirou os olhos.
- Histórias de velho - pensou.
Afonso compreendeu a sua neta.
- Vem comigo - disse ele, levantando-se com alguma dificuldade.
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Caminharam pela areia macia, em direção à praia rochosa à direita da fotografia.
O sol da tarde pintava as ondas de um dourado suave, e a espuma branca enrolava-se na areia com um sussurro constante.
Chegaram perto das rochas, onde o avô se sentou.
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- Vês estas rochas, Laura? - perguntou ele, apontando para uma rocha escura e coberta de musgo. - Foi aqui que aprendi a pescar com o meu pai. E foi aqui que, anos mais tarde, te ensinei a apanhar búzios."
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Afonso pegou num pequeno búzio, com as suas linhas intrincadas e cores desbotadas, e entregou-o à neta.
- Ouve. Ouve o que o mar tem para te contar.
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Laura levou o búzio ao ouvido, e ouviu o som familiar do mar.
Mas desta vez, parecia diferente.
Não era apenas um ruído.
Parecia o eco de uma história.
Do avô a rir com o pai, da sua própria voz de criança a exclamar de alegria ao encontrar um búzio perfeito.
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Afonso apontou para o vasto horizonte, onde o céu e o mar se encontravam numa linha difusa.
- O mar, Laura, é o nosso álbum de família. Cada onda que quebra é uma página virada. Ele enrola na areia, sim, mas nunca a mesma areia, nunca a mesma onda. E em cada uma, há uma lembrança. O primeiro beijo da minha Maria, o primeiro mergulho dos teus pais, a nossa primeira caminhada aqui..."
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Laura olhou para o mar com olhos novos.
Viu as ondas a quebrar, a espuma a formar-se e a desaparecer.
Mas agora, não via apenas água e areia.
Via a história da sua família, a história da sua aldeia, a história da sua própria vida, tudo enrolado naquele eterno e inconstante movimento.
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O mar continuava a enrolar na areia.
Mas para Laura, já não era o mesmo.
Era uma memória, uma promessa e um lembrete de que, por mais longe que a sua vida a levasse, as suas raízes estavam ali, na luz suave, no som das ondas, e na história silenciosa daquele mar.
A fotografia de Mário Silva não era apenas a imagem de uma praia, mas a imortalização daquela memória.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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