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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

31
Jul25

"A protetora das Rias Baixas" (Sanxenxo - Espanha)


Mário Silva Mário Silva

"A protetora das Rias Baixas"

(Sanxenxo - Espanha)

31Jul DSC09071_ms

Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "A protetora das Rias Baixas" (Sanxenxo - Espanha), retrata uma escultura intrigante e etérea, imersa nas águas de uma Ria Baixa.

A figura, de bronze, apresenta uma forma alongada e esguia, com uma postura curvada, como se estivesse a inclinar-se ou a espreitar algo na água.

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A sua cabeça tem uma forma invulgar, com projeções que se assemelham a antenas ou chifres alongados, conferindo-lhe um ar místico ou de criatura marinha.

Uma das mãos da figura segura uma concha grande e detalhada, enquanto a outra parece tocar ou apontar para a superfície da água.

Os pés da escultura repousam sobre uma formação rochosa, que serve de base e está parcialmente submersa.

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A paisagem envolvente é dominada pelo mar, com as águas calmas e um pouco escuras, onde boias amarelas flutuam, possivelmente marcando uma área de navegação ou banhos.

Ao fundo, uma linha costeira com edifícios urbanos, incluindo casas e prédios de apartamentos, estende-se, revelando a proximidade da cidade.

O céu é nublado, com tons de cinzento claro, criando uma atmosfera suave e um pouco melancólica.

A imagem transmite uma sensação de mistério, ligando o elemento humano à natureza marinha e à paisagem urbana.

 

A Lenda: A Guardiã dos Sussurros do Mar

Nas Rias Baixas da Galiza, onde a terra beija o Atlântico e as marés trazem consigo histórias de navegantes e lendas milenares, emerge das águas de Sanxenxo uma figura de bronze, esguia e enigmática.

Mário Silva capturou a sua essência na fotografia "A Protetora das Rias Baixas", mas a sua verdadeira história, a lenda que os pescadores mais antigos sussurram ao anoitecer, é muito mais profunda.

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Conta-se que, há incontáveis séculos, quando as Rias eram habitadas por criaturas mágicas e os homens viviam em harmonia com o mar, uma sereia de nome Xoana, diferente das suas irmãs, nasceu com uma paixão inigualável pela terra.

Enquanto as outras sereias se deliciavam nas profundezas, Xoana sentia-se atraída pelos murmúrios da costa, pelas canções dos homens e pelo cheiro dos pinhais.

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O seu amor pelo mundo humano levou-a a desobedecer às leis do Mar Profundo.

Passava os dias a observar os pescadores, a ouvir as suas preces por boas capturas, a sentir as suas alegrias e tristezas.

As suas antenas, antes finas e translúcidas, tornaram-se mais robustas, capazes de captar os mais ténues sussurros do vento e das ondas, e a sua cauda de peixe começou a transformar-se em pernas quando se aproximava da costa.

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Um dia, uma grande tempestade, a mais violenta de que havia memória, abateu-se sobre as Rias.

Os barcos dos pescadores eram atirados contra as rochas, e as ondas gigantes ameaçavam destruir as aldeias costeiras.

Xoana, angustiada, implorou ao Deus do Mar, Neptuno, para que poupasse os humanos que tanto amava.

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Neptuno, furioso pela desobediência de Xoana, negou-lhe o pedido.

- Tu escolheste o mundo dos homens, agora suporta as suas tormentas!

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Desesperada, Xoana fez um sacrifício supremo.

Pegou na concha mais bela que alguma vez encontrara, uma concha mágica que continha todos os sons e segredos do oceano, e ergueu-a em direção ao céu.

- Eu dou-vos a minha voz, o meu canto e a minha forma de sereia - suplicou aos céus e ao mar, - se em troca poupardes estas gentes e as suas terras!

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No momento em que as suas palavras se perderam no vento, um raio atingiu Xoana, transformando-a na mesma estátua de bronze que hoje vemos.

A sua forma ficou congelada entre o mar e a terra, as suas antenas esticadas para o céu, a concha mágica firmemente apertada na mão, um gesto eterno de súplica e proteção.

A tempestade acalmou, o mar serenou, e as Rias foram salvas.

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Desde então, Xoana, a "Protetora das Rias Baixas", vigia a costa.

Os pescadores dizem que, nas noites de nevoeiro, quando o mar está em fúria, se ouvirmos com atenção, podemos escutar um fraco sussurro vindo da concha que ela segura.

É a sua voz de sereia, transformada em oração silenciosa, a guiar os barcos e a proteger a costa das intempéries.

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Acredita-se que, se alguém com um coração puro se aproximar da estátua e sussurrar um desejo à concha, Xoana, na sua forma de bronze, levará esse desejo às profundezas do oceano, e ele será atendido se for para o bem de todos.

E assim, a estátua em Sanxenxo não é apenas uma obra de arte; é o testemunho vivo de um amor abnegado e da magia que ainda reside nas águas e nas lendas das Rias Baixas.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
30
Jul25

"O Lampião do Cruzeiro do Senhor dos Milagres" (Águas Frias - Chaves - Portugal) e uma estorinha fantástica


Mário Silva Mário Silva

"O Lampião do Cruzeiro do Senhor dos Milagres"

(Águas Frias - Chaves - Portugal)

... e uma estorinha fantástica

30Jul DSC08262_ms

Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "O Lampião do Cruzeiro do Senhor dos Milagres" (Águas Frias - Chaves - Portugal), é uma composição minimalista e atmosférica que foca um lampião suspenso.

A imagem é dominada por um plano de fundo em tons de cinzento claro e escuro, que representa o pavimento, subindo em direção a um horizonte onde se vislumbram tons mais claros, quase etéreos, de luz dourada.

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No lado esquerdo, uma coluna do cruzeiro de pedra robusta, com uma textura granular e cor acastanhada clara, enquadra a cena, sugerindo que o lampião está pendurado numa estrutura maior, o cruzeiro do Senhor dos Milagres.

Pendurado por uma corrente fina, no lado direito do pilar de pedra, encontra-se um lampião antigo.

Este é feito de metal escuro, com as suas faces de vidro amareladas, indicando que uma luz amarela bruxuleia no seu interior.

O design do lampião é clássico, com uma estrutura metálica que envolve os painéis de vidro.

 A parte superior tem uma argola de suspensão e um pequeno chapéu.

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A luz dourada no horizonte parece ser a fonte de iluminação, criando um halo de mistério e talvez o pôr do sol.

A composição é simples, mas evocativa, transmitindo uma sensação de quietude, observação e a passagem do tempo, com um toque de misticismo conferido pela luz e pelo próprio lampião.

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A Estória Fantástica: O Lampião dos Desejos Perdidos

Em Águas Frias, para além dos caminhos de pedra e dos muros antigos, há um lugar especial: o Cruzeiro do Senhor dos Milagres.

É um cruzeiro antigo, feito de granito gasto pelo tempo, e sobre ele pendia um lampião de ferro e vidro, o mesmo que Mário Silva capturou na sua fotografia, quase suspenso entre dois mundos.

Não era um lampião comum.

Este lampião, dizia a lenda, guardava os desejos perdidos.

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Havia muito, muito tempo, quando as estrelas caíam para a terra como orvalho e as fadas dançavam nas névoas da manhã, um jovem artesão de nome Gabriel foi incumbido de forjar o lampião para o recém-erguido Cruzeiro.

Gabriel era um sonhador, com o coração cheio de desejos que pareciam impossíveis: queria que a sua amada, Lisa, que partira para terras distantes, regressasse; queria que a sua aldeia, tão pobre, florescesse; queria que as pessoas nunca perdessem a esperança.

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Enquanto forjava o lampião, Gabriel infundiu cada batida do martelo com um desses desejos.

Quando o lampião foi pendurado, na primeira noite, uma luz amarela e bruxuleante acendeu-se sozinha no seu interior, mesmo sem chama visível.

Não era o fogo comum, mas a essência dos desejos de Gabriel.

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A partir desse dia, sempre que alguém em Águas Frias perdia um desejo – um sonho que parecia inalcançável, uma esperança que desvanecia – essa luz do lampião aumentava de intensidade.

Era como se o lampião recolhesse a energia desses desejos esquecidos, armazenando-os na sua pequena alma de vidro e metal.

Os anciãos da aldeia diziam que o lampião era um repositório de sonhos, um farol para almas perdidas.

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Mas a lenda tinha um pequeno "senão".

O lampião só libertaria um desejo perdido se uma alma pura, num momento de desespero genuíno, pedisse algo não para si, mas para outro.

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Séculos passaram.

A luz do lampião flutuava, ora mais intensa, ora mais ténue, à medida que os desejos se perdiam e se acumulavam.

As pessoas viam o lampião como um símbolo, mas poucos se lembravam da sua verdadeira magia.

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Até que, numa noite fria e escura, a pequena Inês, uma criança com o coração mais puro de Águas Frias, sentou-se junto ao cruzeiro.

A sua avó, a última da sua família, estava muito doente, e Inês desejava com toda a sua força que ela ficasse bem.

Mas não pediu por si.

Pediu pela alegria da avó, pelas suas histórias e pelo seu sorriso.

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- Ó lampião - sussurrou Inês, com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto - Eu não peço que a minha avó fique bem para mim.

Peço que ela se cure para que possa ver as flores da primavera, contar mais histórias às outras crianças e sentir o sol na sua pele. Que a sua alegria volte.

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Mal acabou de falar, a luz do lampião, que Mário Silva mais tarde capturaria com os seus raios dourados no fundo, intensificou-se subitamente.

Uma onda de calor e uma melodia suave, quase impercetível, emanaram do lampião.

As águas frias do ribeiro, que davam nome à aldeia, pareceram cintilar com um novo brilho.

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Na manhã seguinte, a avó de Inês acordou, sentindo-se melhor do que nunca em anos.

O seu sorriso, que se perdera por tanto tempo, regressou.

E ninguém em Águas Frias percebeu o que tinha acontecido, a não ser Inês e, talvez, o velho cruzeiro.

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Desde então, o Lampião do Cruzeiro do Senhor dos Milagres, capturado na fotografia como um ponto de luz no vasto desconhecido, continua a recolher desejos perdidos.

Mas agora, os habitantes de Águas Frias, inspirados pela história de Inês, olham para ele com um novo entendimento.

Sabem que, em algum lugar, na sua luz amarelada e bruxuleante, reside a magia da esperança e o poder dos desejos que são oferecidos sem egoísmo, prontos a serem libertados por uma alma que saiba pedir, não para si, mas para o amor do outro.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
29
Jul25

“Flor amarela” (Reichardia picroides) e uma estorieta


Mário Silva Mário Silva

“Flor amarela” (Reichardia picroides)

... e uma estorieta

29Jul DSC08183_ms

Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "Flor amarela” (Reichardia picroides), apresenta um close-up vibrante e detalhado de uma flor de tonalidade amarela intensa.

A flor ocupa a parte central da imagem, destacando-se claramente contra um fundo desfocado e luminoso, que sugere um ambiente natural.

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A flor é do tipo composta, com múltiplas pétalas (lígulas) finas e alongadas, dispostas radialmente a partir de um centro.

A cor amarela é uniforme e brilhante, evocando a luz do sol.

O centro da flor, ligeiramente mais alaranjado ou acastanhado, mostra os estames e pistilos em espiral, com texturas delicadas.

Algumas das pétalas parecem ter pequenas marcas ou variações de cor nas suas extremidades.

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O desfoque do fundo, com pontos de luz que criam um efeito “bokeh”, faz com que toda a atenção seja direcionada para a beleza e a complexidade da flor, realçando os seus detalhes e a sua cor.

A imagem transmite uma sensação de otimismo, simplicidade e a beleza intrínseca da natureza.

 

A Estória: O Sonho Dourado da Reichardia

Num vasto campo de Chaves, onde o sol beijava a terra e o vento contava histórias antigas, vivia uma pequena flor amarela.

Não era uma rosa majestosa, nem uma orquídea exótica.

Era uma “Reichardia picroides”, humilde na sua origem, mas com uma cor tão vibrante que parecia ter roubado os raios do próprio sol.

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Mário Silva, viu nela a essência da alegria.

A sua imagem capturava-a em toda a sua glória: as pétalas a estenderem-se como braços abertos, o centro a revelar um coração dourado, tudo contra um fundo etéreo e indistinto, onde o mundo parecia desvanecer-se para que ela brilhasse.

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Esta flor, que carinhosamente era chamada "Estrela Dourada" pelos insetos que a visitavam, tinha um sonho.

Ao contrário das suas irmãs, que se contentavam em florescer e morrer no mesmo pedaço de terra, a Estrela Dourada sonhava em ser notada, em iluminar mais do que apenas o seu pequeno canto.

Queria que a sua cor, a sua alegria, chegasse longe, muito longe.

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Os dias passavam, e a Estrela Dourada florescia com todo o seu esplendor, esperando.

As abelhas zumbiam os seus segredos, os grilos cantavam canções monótonas, mas ninguém parecia ver o seu sonho.

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Até que um dia, um pequeno besouro, que se dizia ser um viajante do mundo, pousou na sua pétala.

- Estrela Dourada - disse ele, com uma voz rouca - A tua cor é tão intensa que ilumina todo o campo. Mas porquê essa melancolia nas tuas pétalas?"

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A flor suspirou, um leve agitar das suas pétalas.

- Eu desejo que a minha cor vá para além deste campo. Quero ser vista, inspirar alegria em corações distantes.

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O besouro riu, um riso suave que fez as pétalas tremerem.

- Pequena flor, não percebes? A tua beleza não precisa de viajar para ser vista. A tua cor, a tua essência, é tão pura que atrai os olhos. Há um homem, Mário, que anda pelos campos com uma caixa mágica. Ele vê a luz nas coisas mais simples, e a tua cor já o cativou.

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E de facto, alguns dias depois, Mário Silva regressou.

Ele ajoelhou-se, observou a Estrela Dourada por um longo tempo, e depois, com um clique suave, capturou a sua imagem.

A flor sentiu um calor, uma espécie de vibração, como se uma parte dela tivesse sido levada para voar.

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A fotografia da Estrela Dourada foi exibida em galerias, em livros, em ecrãs em todo o mundo.

A sua cor vibrante trouxe sorrisos a rostos cansados, inspirou artistas e lembrou a muitos a beleza da simplicidade.

Pessoas de cidades distantes, que nunca teriam visto um campo de Reichardia picroides, admiraram a sua beleza.

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A pequena flor, ainda no seu campo em Chaves, sentiu o eco da sua viagem.

Não precisou de arrancar as suas raízes ou voar pelo vento.

A sua essência, a sua cor, a sua alegria, haviam sido levadas pelo olhar de um homem e pela magia da sua máquina.

E assim, a Estrela Dourada percebeu que o seu sonho se realizara.

A sua alegria não estava apenas no florescer, mas na capacidade de ser vista, de inspirar, de ser um pequeno raio de sol no vasto mundo.

E, a partir desse dia, brilhou ainda mais forte, sabendo que a sua beleza, por mais humilde que fosse, tinha o poder de iluminar muito além do seu próprio campo.

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NOTA: “Bokeh” é um termo usado na fotografia referente às áreas fora de foco e distorcidas, produzidas por lentes fotográficas. (in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bokeh

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
28
Jul25

"A Aldeia e os idosos resistentes" (Águas Frias - Chaves - Portugal) e uma estorieta


Mário Silva Mário Silva

"A Aldeia e os idosos resistentes"

(Águas Frias - Chaves - Portugal)

... e uma estorieta

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "A Aldeia e os idosos resistentes" (Águas Frias - Chaves - Portugal), apresenta um sinal de trânsito e uma placa de localidade, enquadrados por uma vegetação luxuriante e um pouco selvagem.

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Em primeiro plano, destaca-se uma placa retangular branca com a inscrição em letras pretas maiúsculas: "Águas Frias".

Esta placa está fixada em dois postes de metal, sugerindo a entrada da localidade.

Acima desta, num poste mais alto, encontra-se um sinal de perigo triangular, com uma orla vermelha.

O interior do triângulo é branco e mostra a silhueta de dois idosos: um homem com uma bengala e uma mulher, caminhando juntos.

Este sinal alerta os condutores para a presença de pessoas idosas na via, uma característica comum em zonas rurais com populações envelhecidas.

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O fundo da imagem é preenchido por uma densa vegetação, composta por arbustos de folhagem verde escura à esquerda e, à direita, uma mistura de fetos e ervas mais altas em tons de verde e castanho, indicando um ambiente natural e, talvez, um pouco menos cuidado.

A luz do sol incide sobre a vegetação, criando alguns brilhos e sombras.

A fotografia, com a combinação dos sinais e do ambiente natural, evoca a quietude das aldeias, a passagem do tempo e a persistência das suas comunidades mais idosas.

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A Estória Realista: A Resiliência de Águas Frias

Em Águas Frias, uma pequena aldeia encaixada nas terras altas de Chaves, a vida parecia fluir ao ritmo lento das suas gentes mais velhas.

A fotografia de Mário Silva capturava não só a entrada da aldeia, mas a sua própria alma: um sinal de trânsito alertando para a presença de idosos e uma vegetação que, tal como os seus habitantes, resistia teimosamente ao esquecimento.

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Marinela, com os seus oitenta e muitos anos, era uma das figuras mais emblemáticas daquele sinal.

Todos os dias, fizesse sol ou chuva, ela e o seu amigo Joaquim, um septuagenário com uma bengala de madeira que parecia parte da sua própria história, desciam a estrada principal para ir à fonte buscar água ou simplesmente para "esticar as pernas", como diziam.

O sinal, para eles, não era um aviso, mas um reconhecimento, uma espécie de medalha de honra.

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- Olha lá, Joaquim - disse Marinela um dia, enquanto se aproximavam do sinal. "

- Ainda cá estamos, a dar trabalho aos motoristas apressados!

Joaquim riu, um riso rouco que vinha das profundezas do seu peito.

- E hão de cá estar por muitos anos, Marinela. Somos as raízes desta terra, não somos?

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Águas Frias, como tantas aldeias do interior de Portugal, via os seus jovens partirem.

Os campos, outrora cultivados com esmero, davam agora lugar à vegetação selvagem que invadia as margens da estrada, tal como na fotografia.

As casas, muitas delas fechadas e com persianas a meio, contavam a história de famílias que tinham partido em busca de uma vida melhor.

Mas Marinela e Joaquim, e outros como eles, recusavam-se a abandonar.

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A sua resistência não era uma luta contra o progresso, mas uma teimosa afirmação de vida.

Continuavam a cultivar as suas pequenas hortas, a cuidar dos seus castanheiros, a encontrar consolo nas conversas à porta e no calor do sol de Trás-os-Montes.

As suas rugas eram mapas de vidas vividas com intensidade, e os seus passos lentos, mas firmes, eram a pulsação da aldeia.

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Um dia, uma equipa da televisão veio a Águas Frias para fazer uma reportagem sobre o despovoamento do interior.

Entrevistaram Marinela e Joaquim junto ao sinal.

- Não se sentem sós? - perguntou a jornalista, com um ar compadecido.

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Marinela olhou para Joaquim, depois para o sinal, e para as árvores robustas que os rodeavam.

- Sós? - respondeu, com um brilho nos olhos.

- Sóis estamos nós quando nos esquecemos de quem somos. Aqui, temos a terra, temos as memórias, e temos uns aos outros.

- E este sinal?

- Este sinal é para lhes lembrar que ainda cá estamos, a guardar as nossas águas frias, e que não é preciso andar tão depressa para se chegar a algum lado.

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Joaquim assentiu, encostado à sua bengala.

- A vida tem o seu próprio ritmo, menina. E o nosso é o ritmo desta aldeia. Lento, sim, mas cheio de vida, como as árvores que voltam a crescer nos campos abandonados.

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A reportagem foi para o ar, e a imagem de Marinela e Joaquim junto ao sinal de "idosos resistentes" tocou muitos corações.

Não era uma história de tristeza, mas de uma resiliência serena, de uma teimosia em florescer onde a vida parecia recuar.

Em Águas Frias, a resistência não era um grito, mas um sussurro contínuo, a certeza de que a dignidade da velhice e o amor pela terra natal eram as verdadeiras fontes de vida, tão claras e refrescantes quanto as águas que davam nome à aldeia.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
27
Jul25

"Em Portugal há mais Católicos do que cristãos” - Uma reflexão


Mário Silva Mário Silva

"Em Portugal há mais Católicos do que cristãos”

Uma reflexão

27Jul DSC01674_ms

Em Portugal, a frase “há mais católicos do que cristãos” pode, à primeira vista, parecer paradoxal, uma vez que o catolicismo é uma expressão do cristianismo.

No entanto, a afirmação carrega uma profundidade que nos leva a uma reflexão sobre identidade religiosa, prática espiritual e o contexto sociocultural do país.

Esta breve reflexão propõe-se explorar o significado desta frase, analisando as nuances entre ser católico por tradição e viver autenticamente os princípios cristãos, num país onde a religião tem desempenhado um papel central na formação da sua identidade.

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Portugal é historicamente um país de forte influência católica.

Desde a fundação da nacionalidade, a Igreja Católica moldou a cultura, a política e a sociedade portuguesa.

Eventos como as peregrinações a Fátima, as festas populares em honra de santos e a presença de igrejas centenárias em quase todas as localidades atestam a relevância do catolicismo.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), cerca de 80% da população portuguesa identificava-se como católica em 2011, embora este número tenha vindo a diminuir com o avanço da secularização.

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Ser católico em Portugal, para muitos, é mais do que uma escolha religiosa consciente; é uma herança cultural.

Batismos, casamentos e funerais católicos são práticas enraizadas, muitas vezes realizadas por convenção social, independentemente do grau de fé ou compromisso espiritual.

Esta realidade levanta a questão: quantos dos que se identificam como católicos vivem de facto os valores cristãos no seu dia a dia?

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A distinção entre “católicos” e “cristãos” na frase proposta pode ser interpretada como uma separação entre a identidade cultural e a prática espiritual.

O cristianismo, na sua essência, baseia-se nos ensinamentos de Jesus Cristo, que enfatizam o amor ao próximo, a humildade, a compaixão e a busca por uma vida de integridade moral.

Ser cristão implica, portanto, um compromisso ativo com esses valores, que transcendem rituais ou afiliações institucionais.

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Por outro lado, o catolicismo cultural em Portugal muitas vezes manifesta-se em práticas formais – como a frequência à missa, a participação em sacramentos ou a celebração de tradições religiosas – sem que haja necessariamente uma interiorização dos princípios cristãos.

É comum encontrar quem se identifique como católico por razões de pertença social ou familiar, mas cuja vida quotidiana não reflita os valores do Evangelho.

Esta dissonância pode explicar a perceção de que há “mais católicos do que cristãos”.

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Nas últimas décadas, Portugal tem assistido a um processo de secularização, especialmente entre as gerações mais jovens.

A diminuição da frequência à missa e o aumento de pessoas que se declaram não religiosas ou ateias são sinais claros desta transformação.

Contudo, mesmo neste contexto, a identidade católica permanece forte, ainda que muitas vezes desprovida de uma prática espiritual ativa.

Este fenómeno reforça a ideia de que o catolicismo em Portugal é, para muitos, uma marca cultural, mais do que uma vivência religiosa profunda.

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Por outro lado, há quem, mesmo não se identificando com a Igreja Católica, viva os valores cristãos de forma autêntica, seja através de ações de solidariedade, de um compromisso ético ou de uma espiritualidade pessoal.

Estes “cristãos sem Igreja” desafiam a dicotomia entre catolicismo e cristianismo, sugerindo que a essência do cristianismo pode ser vivida fora das estruturas institucionais.

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A frase “Em Portugal há mais católicos do que cristãos” convida-nos a questionar o que significa ser religioso num mundo em mudança.

Num contexto de crescente pluralismo e secularização, a Igreja Católica enfrenta o desafio de revitalizar a sua mensagem, aproximando-a dos valores cristãos essenciais que podem ressoar com as novas gerações.

Ao mesmo tempo, a sociedade portuguesa é desafiada a refletir sobre o papel da religião: será apenas um pilar cultural ou uma força transformadora na vida das pessoas?

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Concluindo, a predominância do catolicismo cultural sobre a vivência cristã em Portugal revela uma tensão entre tradição e autenticidade.

Ser católico pode ser uma identidade herdada, mas ser cristão exige uma escolha consciente de viver segundo os ensinamentos de Cristo.

Esta reflexão não é um julgamento, mas um convite para que cada pessoa avalie o que a sua fé – ou a ausência dela – significa na construção de uma sociedade mais justa e compassiva.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
26
Jul25

"Castelo medieval de Santo Estevão” (Chaves - Portugal) … e uma estória histórica


Mário Silva Mário Silva

"Castelo medieval de Santo Estêvão” (Chaves - Portugal)

… e uma estória histórica

26Jul DSC01947_ms

A fotografia de Mário Silva, intitulada "Castelo medieval de Santo Estevão” (Chaves - Portugal), apresenta uma imponente torre de menagem de um castelo medieval, construída em pedra de granito robusta e de tonalidade acastanhada.

A torre é o elemento central e mais proeminente da imagem, erguendo-se contra um céu azul claro com poucas nuvens.

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A estrutura da torre é de planta quadrada, com muros espessos e alvenaria irregular, mas sólida.

No topo, exibe ameias dentadas, características das fortificações medievais, que serviam para defesa.

Possui várias aberturas estreitas e altas, com arcos, que funcionariam como frestas ou janelas, dando-lhe um aspeto austero.

Na base da torre, é visível uma pequena porta em arco, de madeira escura, a qual é acedida por uma escadaria de pedra.

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Em frente à torre, um portão de ferro forjado de cor escura, com um design simples, delimita o acesso.

À direita do portão, um arbusto com flores rosadas/lilás (possivelmente uma Lagerstroemia indica) adiciona um toque de cor e vida.

À esquerda, uma árvore de folhagem verde-amarelada vibrante contrasta com a pedra escura do castelo.

O chão em primeiro plano é de calçada irregular, e no fundo, colinas verdes escuras sob um céu claro completam a paisagem.

A fotografia transmite uma sensação de história, força e intemporalidade.

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A Estória Histórica: O Guardião Silencioso de Santo Estêvão

O Castelo de Santo Estêvão, em Chaves, é mais do que um amontoado de pedras antigas.

É um guardião silencioso, uma sentinela do tempo, cujas muralhas e a imponente torre de menagem, tão bem retratada na fotografia de Mário Silva, contam a história de séculos de batalhas e de vida fronteiriça.

Erguido algures entre os séculos XII e XIII, nascida das necessidades de defesa de um reino em formação, esta fortaleza foi um ponto estratégico vital no controlo do vale do Tâmega e da fronteira com a Galiza.

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No século XIV, o Reino de Portugal e Castela viviam em constante tensão.

As incursões e escaramuças eram diárias, e o Castelo de Santo Estêvão, com a sua torre inexpugnável, era a primeira e última linha de defesa.

Naquela época, o alcaide do castelo era D. Vasco Martins, um veterano de muitas guerras, cuja lealdade ao Rei D. Fernando era inabalável.

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Corria o ano de 1383, um ano que ficaria gravado a ferro e fogo na memória de Portugal.

A morte de D. Fernando sem herdeiro varão mergulhou o reino numa crise de sucessão que duraria dois anos e ficaria conhecida como a Crise de 1383-1385.

A filha de D. Fernando, D. Beatriz, era casada com D. João I de Castela, e muitos viam nela a legítima herdeira, o que significaria a anexação de Portugal a Castela.

Mas o povo e parte da nobreza preferiam o Mestre de Avis, D. João, meio-irmão do rei falecido.

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  1. Vasco Martins, apesar das pressões castelhanas e da incerteza que se espalhava pelo reino, manteve-se fiel à causa portuguesa, à independência.

A sua torre, altiva e inabalável, tornara-se um símbolo da resistência.

Os mensageiros chegavam exaustos, com notícias de cidades que se rendiam, de traições e de intrigas.

Mas a cada notícia, D. Vasco subia ao cimo da torre, olhava para a bandeira portuguesa que tremulava orgulhosamente e reforçava a sua determinação.

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Numa manhã de outono, um exército castelhano, menor mas determinado, apareceu à vista do castelo.

Não era um grande cerco, mas uma provocação, um teste à lealdade de D. Vasco.

O mensageiro castelhano, na base da torre, gritou exigindo a rendição.

"O Castelo de Santo Estêvão é da Rainha D. Beatriz e de D. João de Castela! Rendei-vos e salvareis a vossa vida e a da vossa gente!"

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  1. Vasco, com a sua voz rouca de comando, respondeu do alto da torre:

"Este castelo é de Portugal! E enquanto eu for o seu alcaide, ele defenderá este reino até ao último fôlego! Não há Castela que nos dobre!"

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A torre de menagem resistiu.

As flechas choveram, as pedras foram arremessadas, mas a fortificação manteve-se firme.

O exército castelhano, frustrado, acabou por retirar, levando a mensagem da inquebrantável lealdade de D. Vasco e da resistência de Santo Estêvão.

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A fotografia de Mário Silva capta essa essência.

A torre, com as suas ameias a desenhar-se no céu, as suas frestas como olhos vigilantes, e a pequena porta de acesso que foi palco de tantos momentos de decisão, é um eco da história.

A bandeira no topo, mesmo que não seja a original, é um lembrete da soberania que ali foi defendida.

O Castelo de Santo Estêvão, mais do que uma estrutura militar, é um monumento à persistência e à coragem de um povo que, mesmo nos momentos mais sombrios, soube defender a sua terra e a sua identidade.

É, de facto, o guardião silencioso de uma história que continua a ressoar nas suas pedras.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
25
Jul25

"A ponte romana do Arquinho” (Chaves - Portugal) … e uma lendária estória


Mário Silva Mário Silva

"A ponte romana do Arquinho” (Chaves - Portugal)

… e uma lendária estória

25Jul DSC01792_ms

A fotografia de Mário Silva, intitulada "A ponte romana do Arquinho” (Chaves - Portugal), exibe uma encantadora ponte de arco único, construída em pedra rústica, que atravessa um pequeno curso de água.

A ponte, visivelmente antiga, apresenta blocos de granito que mostram o desgaste do tempo e estão cobertos por musgo e líquenes, o que lhe confere um ar pitoresco e histórico.

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A forma do arco é bem definida, criando uma moldura natural através da qual se vê o rio Arcossó.

A água do riacho é pouco profunda, revelando um leito de pedras e areia, e a luz do sol, que penetra através da folhagem, cria reflexos e padrões luminosos na superfície da água.

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A vegetação circundante é exuberante, com árvores de troncos grossos e folhagem densa a flanquear as margens do riacho e a crescer ao redor da ponte, criando um ambiente sombrio e natural.

Fetos e outras plantas rasteiras verdejantes emergem das pedras da ponte e das margens.

A iluminação geral da fotografia, com raios de sol a filtrar-se pelas árvores, realça a textura da pedra e a serenidade do local, evocando uma sensação de paz e intemporalidade.

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A Estória Lendária: O Encontro Secreto do Arquinho

Na distante e mística terra de Chaves, onde as águas termais sussurravam segredos antigos e as fragas guardavam lendas esquecidas, existia uma pequena ponte de pedra, conhecida como o Arquinho.

Não era a grande ponte romana da cidade, mas um modesto arco sobre um ribeiro que serpenteava por um vale escondido.

Mário Silva, com a sua câmara, capturou não só a beleza da sua pedra milenar e da água que por ali corria, mas a aura de um tempo em que o amor e a magia andavam de mãos dadas.

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Diz a lenda que há muitos séculos, quando o Império Romano governava estas terras, e os deuses antigos ainda caminhavam entre os mortais, vivia em Chaves uma jovem patrícia romana chamada Lívia.

Era bela como as deusas e de espírito tão livre quanto os ventos da serra.

Do outro lado do rio, nas florestas profundas onde os lusitanos ainda resistiam aos conquistadores, vivia um jovem guerreiro, Andreo, com o coração tão puro quanto a água que corria sob o Arquinho e a coragem de um leão.

 

Os mundos de Lívia e Andreo eram proibidos.

Romanos e Lusitanos eram inimigos, separados por muralhas e desconfiança.

Mas o destino, ou talvez um deus travesso, uniu-os.

Encontravam-se secretamente junto ao Arquinho, a pequena ponte que era o único ponto de passagem seguro entre os seus dois mundos.

Ali, sob o arco de pedra, trocavam juras de amor eterno, os seus corações a bater ao ritmo das águas.

A ponte tornou-se o seu santuário, o testemunho silencioso de um amor que desafiava todas as convenções.

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Conta-se que uma noite, quando a lua cheia iluminava o vale e a água cintilava como prata, Lívia e Andreo encontraram-se no Arquinho.

Tinham descoberto que as suas famílias planeavam casá-los com outros, selando o seu destino em casamentos de conveniência.

Desesperados, fizeram um pacto.

"Se o nosso amor for verdadeiro, e se os céus nos quiserem juntos", disse Lívia, "que esta ponte nos proteja e nos una para sempre."

Andreo anuiu, com os seus olhos cheios de lágrimas.

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Naquela mesma noite, uma tempestade súbita e violenta abateu-se sobre o vale.

O ribeiro, geralmente tão manso, transformou-se numa torrente furiosa, ameaçando arrastar tudo à sua passagem.

As árvores vergavam, o chão tremia.

 As famílias de ambos correram para o Arquinho, temendo o pior.

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Quando a manhã raiou, o vale estava devastado.

Árvores caídas, margens desfeitas.

Mas o Arquinho, para espanto de todos, estava intocado.

A sua estrutura de pedra, robusta e inabalável, permanecia ali, inquebrável.

No entanto, Lívia e Andreo haviam desaparecido sem rasto.

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Os aldeões, entre o espanto e a tristeza, começaram a sussurrar a lenda.

Diziam que o Arquinho, sensibilizado pelo amor puro dos jovens, os havia transformado.

Alguns acreditavam que se tinham tornado parte da própria ponte, as suas almas entrelaçadas nas pedras que resistiam ao tempo.

Outros, mais românticos, contavam que o ribeiro os levara para um reino escondido sob as suas águas, onde poderiam amar em paz para toda a eternidade.

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Desde então, o Arquinho é considerado um lugar sagrado para os amantes.

Dizem que, se um casal apaixonado atravessar a ponte de mãos dadas ao pôr do sol, e o seu amor for verdadeiro, ouvirão um sussurro nas águas do ribeiro e sentirão a força do amor de Lívia e Andreo a abençoá-los.

E a cada vez que o sol se filtra pelas árvores e se reflete na água, como na fotografia de Mário Silva, é o brilho do amor eterno que reside no coração do Arquinho, a ponte que, um dia, uniu dois mundos e duas almas para sempre.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
24
Jul25

Entrada da Fortaleza de Valença (Portugal) ... e uma estória histórica


Mário Silva Mário Silva

Entrada da Fortaleza de Valença (Portugal)

... e uma estória histórica

24Jul DSC04322_ms

A fotografia de Mário Silva, intitulada "Entrada da Fortaleza de Valença (Portugal)", apresenta um close-up impressionante de um dos portões de entrada desta notável fortificação.

A imagem foca-se na monumentalidade e na riqueza de detalhes arquitetónicos em pedra.

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Ao centro, domina um arco de volta perfeita, construído em blocos de granito bem aparelhados e envelhecidos, exibindo manchas claras de líquenes e musgo, testemunhos da passagem do tempo e da exposição aos elementos.

O túnel escuro por trás do arco sugere a profundidade das muralhas.

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Acima do arco, a estrutura é adornada com um brasão de armas esculpido em pedra, com uma coroa no topo e volutas barrocas que lhe conferem um ar solene e imponente.

Este brasão é ladeado por dois pináculos esféricos que repousam sobre pedestais, adicionando simetria e grandiosidade à composição.

Abaixo do brasão principal, um escudo menor com um desenho diferente também está esculpido.

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A estrutura de pedra do portão emerge de uma muralha robusta e irregular, feita de pedras de diferentes tamanhos, que se estende para os lados e para cima.

No topo da muralha, vislumbra-se alguma vegetação rasteira e erva seca, indicando que a fortaleza está inserida num ambiente natural.

A iluminação realça as texturas da pedra e a tridimensionalidade dos elementos esculpidos, conferindo à imagem uma atmosfera de história e imponência.

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A Estória Histórica: O Portal dos Dois Reinos

A Fortaleza de Valença, um colosso de pedra que se ergue orgulhosamente sobre o rio Minho, não é apenas um conjunto de muralhas; é um livro aberto da história, e a sua entrada principal, magnificamente captada na fotografia de Mário Silva, é a capa desse livro.

Erguida ao longo de séculos, esta fortaleza testemunhou inúmeras batalhas, tratados de paz e a passagem de gerações.

O brasão que coroa o portão, com as suas volutas barrocas e a sua imponência real, é mais do que um ornamento: é o símbolo de uma identidade forjada na fronteira.

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No século XVII, com a Restauração da Independência de Portugal, a Fortaleza de Valença assumiu um papel estratégico crucial.

O seu posicionamento fronteiriço com a Galiza, em Espanha, fez dela um bastião inexpugnável, um olho atento sobre o vizinho do lado.

O portão que vemos na fotografia, embora com remodelações posteriores, já era a principal boca da fortaleza, o ponto de passagem para comerciantes, soldados e espiões.

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Corria o ano de 1658, e a Guerra da Restauração arrastava-se.

Portugal, sob o domínio filipino por 60 anos, lutava para garantir a sua soberania.

Valença, por estar na linha da frente, era palco de constantes escaramuças e cercos.

As suas muralhas resistiram, mas a vida dentro delas era uma mistura de tensão e resiliência.

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O Governador de Valença, D. Gonçalo de Castelo Branco, um homem de ferro e fé, supervisionava pessoalmente a manutenção do portão.

Sabia que por ali passaria o destino da fortaleza.

O brasão, recentemente esculpido e ainda com o brilho da pedra nova, era uma lembrança constante da coroa portuguesa que defendiam.

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Uma manhã fria de inverno, um emissário espanhol, um fidalgo arrogante de nome Dom Rodrigo, apresentou-se no portão.

Trazia uma mensagem do General espanhol, que exigia a rendição imediata de Valença.

"Vossa Majestade Espanhola não tolerará mais esta insolência", terá dito Dom Rodrigo, com um desdém nos olhos que roçava a ofensa.

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  1. Gonçalo, que o esperava junto ao arco maciço, ouviu-o em silêncio, os seus olhos fixos no brasão real acima.

Quando Dom Rodrigo terminou, D. Gonçalo apontou para o escudo e para a coroa.

"Dizei ao vosso General, Dom Rodrigo, que este portão e estas pedras são a fronteira inexpugnável de um reino.

Enquanto este brasão erguer-se sobre nós, e enquanto houver um único soldado português dentro destas muralhas, Valença não se renderá. Passareis por este arco apenas com a nossa permissão e nunca como vitoriosos."

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Dom Rodrigo, furioso, virou costas.

Dias depois, as tropas espanholas tentaram um assalto, mas a Fortaleza de Valença, com o seu portão imponente e as suas muralhas robustas, resistiu bravamente, como sempre fizera.

 Os canhões trovejaram, as armas chocaram, mas o portão, guardado por bravos portugueses, nunca cedeu.

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A fotografia de Mário Silva, com a sua luz a incidir sobre a pedra gasta e o brasão orgulhoso, captura não só a arquitetura, mas o espírito daquele tempo.

É a porta para um passado de coragem e determinação, uma recordação de que cada fenda na pedra, cada mancha de líquen, conta uma história de resistência e de orgulho nacional.

É o portal onde Portugal se ergueu, pedra a pedra, face ao seu vizinho, um símbolo eterno da sua soberania e do seu povo inquebrantável.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
23
Jul25

Alvéola-branca (Motacilla alba) … e uma estória


Mário Silva Mário Silva

Alvéola-branca (Motacilla alba)

… e uma estória

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Alvéola-branca (Motacilla alba)", captura uma alvéola-branca num momento peculiar e visualmente interessante.

O pássaro está empoleirado no topo de um cone de um remate de telhado laranja, que se destaca vibrantemente contra um fundo claro e desfocado, que pode ser o céu ou uma superfície muito iluminada.

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A alvéola-branca, identificável pelas suas cores distintas (preto, branco e cinzento), é vista de perfil, com a sua cauda longa e elegante a apontar para baixo.

O seu bico está ligeiramente aberto, e parece ter algo que acabou de caçar ou recolher – possivelmente um inseto – o que sugere um momento de alimentação ou de transporte de alimento para os seus jovens.

Os detalhes das penas são nítidos, e o olho do pássaro está focado, transmitindo uma sensação de alerta e vivacidade.

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O cone laranja, com a sua textura áspera e algumas manchas escuras, serve como um pedestal inesperado e moderno para a ave, criando um contraste fascinante entre a natureza selvagem e um objeto criado pelo homem.

A composição minimalista, com o foco total no pássaro e no cone, realça a beleza da alvéola-branca e a estranheza do seu poleiro incomum.

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A Estória: O Rei do Cone Laranja

Na movimentada cidade, onde o cinzento do asfalto reinava supremo e os prédios arranhavam o céu, havia um pequeno cone de trânsito.

Laranja berrante, desgastado por mil carros e esquecido numa berma, parecia um ponto de exclamação perdido no grande livro da cidade.

Mas para Piu-Piu, uma alvéola-branca de penas impecáveis e olhos astutos, aquele cone não era um obstáculo; era um trono.

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Piu-Piu era uma alvéola diferente.

Enquanto as suas irmãs se contentavam com telhados e fios elétricos, ele ansiava por um poleiro que lhe desse uma perspetiva única sobre o mundo.

E foi assim que descobriu o cone laranja.

De longe, parecia uma montanha colorida, e de perto, era o poleiro perfeito para o seu plano: tornar-se o melhor caçador de insetos da cidade.

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Todos os dias, ao amanhecer, Piu-Piu voava para o seu trono laranja.

A partir dali a sua visão era imbatível.

Observava o zumbido das moscas, o rastejar dos besouros e o voo errático das borboletas.

E com uma precisão que faria inveja a qualquer falcão, ele mergulhava, apanhava a sua presa – um minúsculo inseto, mal visível para o olho humano – e regressava triunfante ao seu cone.

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Mário Silva, o fotógrafo, passou semanas a tentar captar este momento.

Piu-Piu era esquivo, rápido.

Mas naquele dia, com o sol a nascer e o céu a pintar-se de um branco suave, Piu-Piu pousou no seu trono.

No bico, trazia o seu pequeno prémio da manhã.

Ele olhou para o horizonte, com o seu olhar de rei, a sua cauda a balançar com a autoconfiança de um monarca.

Era o momento perfeito.

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A fotografia, quando revelada, tornou-se a lenda de Piu-Piu.

"O Rei do Cone Laranja", diziam.

As outras alvéolas, que antes o olhavam com estranheza, agora admiravam-no.

Aprenderam que, às vezes, o melhor lugar para ser o que se é, não é onde se espera, mas onde a ousadia nos leva.

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Mas Piu-Piu tinha um segredo hilariante que ninguém sabia.

Ele não escolhera o cone apenas pela vista privilegiada.

A verdade é que, um dia, ao voar apressado, tinha embatido com o bico no cone e, para sua surpresa, o impacto tinha libertado um cheiro a... pizza!

Parece que, na noite anterior, um desavisado transeunte tinha deixado cair um pedaço de pizza na base do cone, e o calor do sol havia fermentado um aroma que atraía os insetos mais suculentos de toda a cidade.

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Então, enquanto todos viam em Piu-Piu um símbolo de perspicácia e adaptabilidade, ele, no seu trono laranja, ria-se baixinho com o seu segredo de caça: a pizza esquecida que fazia do seu poleiro não só o mais alto, mas também o mais... apetitoso.

E assim, Piu-Piu continuou a reinar, o seu pequeno império de insetos garantido pela mais improvável das iscas, um verdadeiro “gourmand” da natureza no coração da cidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Jul25

"Os vasos floridos nas escaleiras de pedra" (Águas Frias – Chaves – Portugal) … … e uma estória


Mário Silva Mário Silva

"Os vasos floridos nas escaleiras de pedra"

(Águas Frias – Chaves – Portugal)

… e uma estória

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Os vasos floridos nas escaleiras de pedra", apresenta uma cena encantadora e pitoresca, utilizando a técnica de cor seletiva para realçar elementos específicos.

O fundo da imagem é predominantemente em preto e branco, mostrando uma parede de pedra rústica e uma escadaria também de pedra, com um corrimão de ferro forjado.

As pedras são grandes e irregulares, conferindo um aspeto tradicional e sólido ao ambiente.

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No entanto, o que imediatamente capta a atenção, são os vasos de flores e as próprias flores, que foram deixados nas suas cores originais, vibrantes e quentes, contrastando fortemente com o monocromatismo do restante.

Vários vasos de terracota, em tons de laranja e vermelho, estão dispostos ao longo dos degraus e em pequenas saliências.

Estes vasos contêm gerânios (e plantas similares) com folhas verdes e flores vermelhas e rosadas intensas, que se destacam vivamente.

Um dos vasos maiores, cor laranja, está no pilar de pedra no início das escadas.

As plantas parecem exuberantes, crescendo e pendendo sobre os degraus, conferindo um ar de vida e cuidado à estrutura de pedra.

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A composição cria uma sensação de aconchego e hospitalidade, convidando o olhar a percorrer os detalhes coloridos que se espalham pela escadaria.

A técnica de cor seletiva acentua a beleza e a vivacidade das flores, transformando um cenário comum num quadro artístico e apelativo.

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A Estória: O Segredo da Cor na Escadaria de Pedra

Na aldeia de Penedos Altos, onde as casas eram feitas de pedra e o tempo parecia mover-se mais devagar, vivia uma bela senhora chamada Maria.

A sua casa era igual a todas as outras, com paredes de granito robusto e uma escadaria exterior que levava à porta principal, feita das mesmas pedras gastas pelo tempo.

Mas havia algo que tornava a casa de Maria única, algo que Mário Silva capturou na sua fotografia com uma magia que só ele conhecia: a explosão de cor na escadaria monocromática.

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Para os forasteiros, era apenas uma escadaria antiga com vasos de flores.

Mas para Maria, e para a própria escadaria, era uma história de vida e resiliência.

Maria tivera uma vida algo difícil, marcada por perdas e tristezas que haviam pintado o seu mundo de cinzento, tal como a fotografia, antes das flores, mostrava.

Os dias pareciam blocos de pedra sobrepostos, frios e inertes.

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Um dia, depois de mais uma tarde cinzenta, Maria olhou para a sua escadaria.

Parecia tão dura, tão sem vida, tal como ela própria se sentia.

Foi então que uma ideia lhe surgiu, como um pequeno raio de sol: iria plantar flores.

Não apenas um vaso, mas muitos.

Vasos de gerânios, as flores que a sua mãe tanto amava, com as suas cores vivas e a sua capacidade de resistir ao sol forte e às noites frias.

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Começou com um único vaso, o grande de terracota que agora repousava no pilar da escada.

 Depois, vieram outros, pequenos, médios, de barro e de cerâmica, cada um com as suas tonalidades de vermelho, laranja e rosa.

Cada vez que plantava uma nova flor, Maria sentia um pequeno brilho acender-se dentro de si.

Era como se estivesse a pintar a sua própria vida de novo, uma pétala de cada vez.

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As flores cresceram, derramando-se pelos degraus, abraçando o corrimão de ferro que parecia um braço protetor.

As suas cores vibrantes contrastavam com o cinzento austero da pedra, criando um espetáculo que atraía os olhares de todos os que passavam.

Os vizinhos começaram a chamar a casa de Maria "A Casa da Escadaria Florida".

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Mas o verdadeiro segredo da cor era que ela só aparecia para quem a procurava.

Tal como na fotografia de Mário Silva, onde o mundo em volta se tornava preto e branco para que as flores pudessem brilhar.

Maria costumava dizer ao seu neto: "O mundo pode parecer cinzento, meu querido, mas há sempre uma cor, um pequeno milagre à espera de ser visto. Basta olhar com o coração."

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E assim, a escadaria de pedra de Maria tornou-se mais do que um mero caminho para a sua porta.

Transformou-se num farol de esperança, uma lembrança viva de que mesmo nas estruturas mais sólidas e nos corações mais endurecidos pelo tempo, a beleza, a vida e a cor podem sempre florescer, se forem cultivadas com amor e persistência.

E a cada novo dia, as flores, no seu esplendor vibrante, sussurravam a todos os que passavam o segredo da cor na escadaria de pedra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
21
Jul25

"Aquelas Janelas ... e os vasos ao sol" … e uma estória


Mário Silva Mário Silva

"Aquelas Janelas ... e os vasos ao sol"

… e uma estória

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Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "Aquelas Janelas ... e os vasos ao sol" (Nozelos - Valpaços - Portugal), apresenta uma secção da fachada de um edifício, focando-se em duas janelas retangulares idênticas.

A parede, de cor clara e com uma textura rugosa e ligeiramente envelhecida, sugere reboco.

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Ambas as janelas possuem estores venezianos de cor creme, que estão parcialmente descidos.

O estore da janela da esquerda está quase totalmente fechado, enquanto o da direita está ligeiramente mais levantado na parte inferior, revelando um pequeno pedaço de vidro da janela por baixo.

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Abaixo de cada janela, há um suporte de pedra saliente, de formato curvo e rústico, onde repousa um vaso de barro.

O vaso da esquerda é de cor castanha e contém o que parecem ser plantas secas ou sem folhas, de aspeto espigado.

O vaso da direita é de cor vermelha ou terracota mais intensa e também alberga plantas semelhantes, secas e esguias.

A luz do sol incide sobre a fachada, criando algumas sombras e realçando as texturas.

A imagem transmite uma sensação de quietude, um pouco de abandono, e a passagem do tempo num cenário rural.

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A Estória: O Mistério dos Vasos Sedentos e a Greve dos Estores

Na pacata aldeia de Nozelos, onde o sol de Valpaços bronzeava as paredes e a vida seguia um ritmo próprio, havia uma casa que era a conversa da freguesia, não por ser a mais bonita ou a mais velha, mas pelas suas janelas peculiares e, mais ainda, pelos seus vasos "ao sol".

Mário Silva, com a sua câmara, captou na perfeição o palco deste drama silencioso e hilariante.

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As janelas, com os seus estores cremes, eram a face da D. Custódia, uma senhora octogenária com o humor tão apurado quanto a sua vista já era fraca.

  1. Custódia tinha uma relação de amor-ódio com o sol.

Adorava-o para secar a roupa e curtir as azeitonas, mas detestava-o por desbotar as suas cortinas e aquecer a casa mais do que o necessário.

Daí a greve permanente dos estores, quase sempre a meio mastro, como bandeiras de rendição perante o calor.

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Mas o verdadeiro espetáculo eram os vasos.

Sim, aqueles vasos!

Um castanho discreto, o outro um vermelho vivo, ambos orgulhosamente empoleirados nas suas prateleiras de pedra como troféus.

O problema?

Os seus habitantes.

  1. Custódia, com a melhor das intenções, decidira que ter plantas à janela trazia alegria.

O que ela não previra era que as suas "plantas" tinham uma vida útil bastante... limitada.

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"São plantas exóticas, daquelas que só precisam de sol!", garantia ela aos vizinhos curiosos, com uma piscadela de olho.

A verdade era que D. Custódia se esquecia da rega com uma regularidade impressionante.

Assim, as pobres plantinhas, outrora viçosas, transformavam-se rapidamente em espigões secos e estóicos, parecendo pequenos ramos de vassoura em miniatura.

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Um dia, a neta de D. Custódia, a jovem Beatriz, veio visitá-la.

Mal pôs os olhos nos vasos, desatou a rir.

- Avó! - exclamou,

- Mas o que é isto? Parecem palitos com folhagem!"

Custódia, ofendida, pôs as mãos na anca.

- Ora, menina! Não vês que são umas raras Espiga-Seca-do-Sol? Precisam de muito sol e pouca água! São a última moda em Lisboa, disseram-me!" (A "última moda em Lisboa" era a desculpa que D. Custódia usava para tudo o que não tinha explicação).

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A piada correu pela aldeia.

Os homens na tasca apostavam quanto tempo demoraria a "Espiga-Seca-do-Sol" do vaso vermelho a virar pó.

As mulheres comentavam, entre risos abafados, sobre a "mão verde seca" da D. Custódia.

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Certo domingo, após a missa, um grupo de vizinhas mais atrevidas decidiu confrontar D. Custódia.

- D. Custódia, não acha que as suas plantas precisam de um bocado de água? - perguntou a D. Glória, com um sorriso matreiro.

Custódia, que por acaso tinha os seus óculos bem postos nesse dia, olhou para os vasos.

Eram apenas gravetos secos.

De repente, a luz acendeu-se nos seus olhos.

Ela olhou para as vizinhas, para os vasos, e depois para os estores, que teimosamente continuavam a meio.

- Ah, mas que distração a minha! -exclamou, batendo na testa.

- Estas são as minhas plantas de inverno! Esqueci-me de as trocar! As de verão, as verdadeiras, são umas que dão umas flores roxas lindíssimas, mas só aparecem quando os estores estão totalmente abertos! E, como sabem, com este sol, os estores andam em greve!"

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A gargalhada geral que se seguiu ecoou por Nozelos, e a história da "Greve dos Estores" e das "Espiga-Seca-do-Sol" tornou-se mais uma lenda da D. Custódia.

E assim, na fotografia de Mário Silva, aquelas janelas e os vasos ao sol não eram apenas um registo de uma fachada, mas um instantâneo de um pedaço de vida, de humor e de uma criatividade inesgotável em manter as aparências, mesmo quando a verdade era tão seca quanto as plantas nos vasos.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
19
Jul25

"Aldraba inclinada" e mais uma breve estória


Mário Silva Mário Silva

"Aldraba inclinada"

e mais uma breve estória

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Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "Aldraba inclinada", oferece um close-up detalhado de uma antiga aldraba de metal, montada numa porta de madeira envelhecida.

A aldraba, feita de ferro forjado, apresenta um design simples e robusto, com uma argola em forma de "U" invertido que termina num batente esférico na parte inferior.

A sua superfície está visivelmente enferrujada, com tons de castanho-avermelhado e vestígios de oxidação, o que lhe confere um aspeto rústico e uma sensação de passagem do tempo.

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A aldraba está fixada a uma placa de metal quadrada, também enferrujada, que por sua vez está presa à porta com pregos.

O facto de ser descrita como "inclinada" sugere que a aldraba ou a placa de montagem não estão perfeitamente alinhadas verticalmente, ou que a perspetiva da fotografia a faz parecer assim, adicionando um toque de carácter à imagem.

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A porta de madeira, que serve de fundo, é igualmente marcada pelo tempo.

Apresenta uma textura rugosa com veios visíveis, fissuras e descolorações que indicam exposição aos elementos.

Alguns pregos antigos, também enferrujados, estão cravados na madeira, reforçando a antiguidade da peça.

A iluminação realça as texturas e os detalhes da ferrugem e da madeira, criando uma imagem que evoca histórias e uma sensação de história e mistério.

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A Estória: A Aldraba da Memória

Na aldeia de Fontelas, perdida entre colinas verdejantes, havia uma casa que todos conheciam como "A Casa da Aldraba Torta".

Não era a maior, nem a mais imponente, mas a sua porta de madeira, castigada pelo sol e pela chuva, guardava uma aldraba de ferro que se inclinava ligeiramente para a esquerda.

Era essa pequena imperfeição que lhe dava um ar de mistério e, para alguns, de melancolia.

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A fotografia de Mário Silva capturava essa aldraba com uma honestidade quase dolorosa.

O ferro enferrujado, as estrias da madeira envelhecida, os pregos cravados como cicatrizes de um tempo longínquo.

Não era apenas uma aldraba; era um portal para o passado, para as histórias que a casa testemunhara.

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Para o pequeno Tiago, que passava os seus verões em Fontelas com a avó, a Aldraba Torta era mais do que um simples puxador.

Era a guardiã dos segredos da sua bisavó, Ana.

A avó de Tiago, Maria, costumava contar-lhe que Ana, uma mulher de fibra e riso fácil, tinha mandado fazer aquela aldraba ao ferreiro da aldeia, o Sr. Joaquim, um homem tão torto de corpo quanto hábil com o ferro.

A inclinação da aldraba, dizia-se, era um reflexo da inclinação da sua própria alma.

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A lenda na família era que cada vez que a aldraba era batida, ela não chamava apenas quem estava dentro; chamava também uma memória.

O som seco e ressonante que ecoava pelos corredores da velha casa trazia consigo ecos de gargalhadas de crianças, de discussões apaixonadas, de canções entoadas nas noites de festa. Para Tiago, o som da aldraba era a voz da sua bisavó.

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Certa manhã de verão, Tiago, já adolescente e com os seus próprios dilemas, sentou-se no degrau da porta da Casa da Aldraba Torta.

A sua vida na cidade parecia tão distante, tão cheia de escolhas difíceis.

Ele tocou a aldraba enferrujada, sentindo a rugosidade do ferro sob os seus dedos.

Imaginou as mãos da bisavó Ana a fazer o mesmo, os seus dedos gastos pelo trabalho na terra.

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Com um suspiro, Tiago ergueu a aldraba e deixou-a cair.

O toc-toc ressoou, e por um instante, o ar na aldeia pareceu vibrar.

Não ouviu vozes, mas sentiu uma quietude diferente.

Uma sensação de paz e aceitação.

Olhou para a aldraba, ligeiramente torta, mas forte, resistente ao tempo.

Percebeu que a sua inclinação não era um defeito, mas uma característica, uma parte da sua história e da sua identidade.

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Naquele momento, Tiago compreendeu que, tal como a aldraba, a vida nem sempre é perfeita ou reta.

Há inclinações, desafios, e marcas do tempo.

Mas são essas imperfeições que contam a história, que dão caráter, que a tornam única.

A Aldraba Torta não era um sinal de fragilidade, mas de resiliência.

E, como a sua bisavó Ana, Tiago sentiu que podia enfrentar as suas próprias "inclinações" com a mesma força e com um sorriso no rosto.

O segredo da Aldraba da Memória não era trazer o passado, mas ensinar a viver o presente com a sabedoria dos que vieram antes.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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18
Jul25

"Caminho para onde?" e uma estorieta


Mário Silva Mário Silva

"Caminho para onde?"

e uma estorieta

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Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "Caminho para onde?", convida à contemplação e à imaginação, apresentando um caminho de terra batida que serpenteia por um cenário natural exuberante.

O caminho divide-se em dois trilhos paralelos, sugerindo a passagem de veículos ou a formação devido ao uso contínuo, e está ladeado por vegetação densa.

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Em ambos os lados do caminho, predominam fetos e arbustos de um verde vibrante, que parecem estar no auge da sua folhagem, preenchendo grande parte do quadro e criando uma sensação de natureza selvagem e intocada.

O caminho é irregular, com algumas poças de água que refletem o céu, indicando que pode ter chovido recentemente ou que o terreno é propenso a acumulação de água.

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Ao longe, o caminho desaparece numa curva, insinuando mistério e a promessa de algo além.

No horizonte, avista-se uma linha de árvores mais altas e densas que formam um bosque ou floresta, contribuindo para a profundidade da imagem.

O céu, visível na parte superior, é parcialmente nublado, com tons de branco e cinzento claro, mas com a luminosidade suficiente para realçar o verde da vegetação.

A imagem transmite uma sensação de tranquilidade e aventura, convidando o observador a imaginar os destinos que este caminho pode levar.

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A Estória: O Sussurro do Caminho Esquecido

O caminho, com os seus dois trilhos paralelos de terra molhada e poças cintilantes, estendia-se como um convite silencioso para o desconhecido.

Chamavam-lhe "O Caminho Esquecido", pois poucos se aventuravam por entre os fetos altos e as densas moitas que o ladeavam.

Mas para Lúcia, uma jovem de espírito inquieto e alma de exploradora, era o caminho para todas as perguntas e todas as respostas.

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Todos os verões, Lúcia voltava à casa da avó, aninhada à beira da floresta, e o Caminho Esquecido era o seu primeiro destino.

Não era um caminho para chegar a algum lugar em particular – uma aldeia vizinha, um ribeiro secreto – não.

Era um caminho que se destinava apenas a ser percorrido, a ser sentido.

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Hoje, as poças eram mais brilhantes, refletindo um céu que prometia sol, mas ainda guardava nuvens de uma chuva recente.

Lúcia sentiu a terra macia sob os seus velhos ténis e respirou fundo o cheiro a terra molhada e a vegetação selvagem.

Os fetos, luxuriantes e quase da sua altura, pareciam sussurrar segredos antigos enquanto ela passava.

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Lúcia imaginava as histórias que aqueles trilhos poderiam contar.

Quantos pés já as haviam pisado?

Caçadores, pastores, talvez até amantes que se encontravam em segredo nas profundezas da floresta.

O caminho ondulava à sua frente, desaparecendo numa curva misteriosa, sempre a prometer algo mais.

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Um dia, quando era apenas uma criança, Lúcia atreveu-se a ir mais longe do que o habitual.

Seguindo o caminho para além da terceira curva, encontrou uma clareira escondida, onde um velho carvalho se erguia majestoso, com um banco de pedra gasto pela erosão aninhado nas suas raízes.

Não havia sinal de que alguém ali fosse há anos, mas o lugar emanava uma paz profunda.

Ali, sob o carvalho, ela tinha encontrado o seu refúgio, o lugar onde a curiosidade a levara a uma serenidade inesperada.

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Agora, dezoito anos depois, Lúcia regressava ao Caminho Esquecido não só para reviver memórias, mas para encontrar novas direções na sua própria vida.

Aos trinta anos, com decisões importantes a tomar sobre a sua carreira e o seu futuro, o barulho da cidade parecia sufocá-la.

A quietude do caminho, os sussurros dos fetos e a promessa do que estava para além da próxima curva eram um bálsamo.

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Ela caminhou sem pressa, deixando que a natureza a guiasse.

Ao chegar à terceira curva, o familiar vislumbre do carvalho e do banco de pedra acenou-lhe.

Sentou-se ali, fechou os olhos e sentiu a brisa suave.

A resposta não veio numa voz, mas numa sensação – a mesma sensação de clareza e de possibilidade que sentira quando era criança.

O caminho não a levava a um lugar físico, mas a um estado de espírito, à certeza de que, tal como os trilhos sinuosos, a vida também se desdobra em caminhos inesperados, e que o importante não é saber para onde se vai, mas ter a coragem de continuar a caminhar.

O Caminho Esquecido era, afinal, o caminho para si mesma.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
17
Jul25

Borboleta-pequena-das-couves (Pieris rapae) e a estorinha


Mário Silva Mário Silva

Borboleta-pequena-das-couves (Pieris rapae)

e uma estorinha

17Jul DSC01553_ms

Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "A borboleta-pequena-das-couves (Pieris rapae)", apresenta um plano aproximado de uma borboleta da espécie “Pieris rapae” repousando sobre uma folha verde.

A borboleta é capturada de perfil, revelando as suas asas de um tom amarelado pálido ou creme, com finas nervuras escuras que se destacam.

As asas mostram uma textura levemente aveludada e um brilho subtil.

O corpo da borboleta é coberto por uma penugem clara, e as suas antenas, finas e com as pontas engrossadas, estendem-se para a frente.

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A folha verde que serve de pouso à borboleta é o elemento dominante no fundo, preenchendo a maior parte da imagem.

A sua superfície é lisa e exibe um tom de verde intenso, com algumas áreas mais iluminadas e outras em sombra.

A luz incide de forma a criar uma sombra nítida da borboleta na folha, adicionando profundidade à composição.

A fotografia realça a delicadeza da borboleta e a simplicidade elegante do seu “habitat”, transmitindo uma sensação de quietude e observação da natureza em detalhe.

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A Estória: O Segredo da Pequena Peregrina

Naquele recanto do jardim, onde as folhas de couve se estendiam em vastos tapetes verdes, vivia uma pequena borboleta, uma “Pieris rapae” com asas de seda amarela pálida.

Não era a mais vistosa das borboletas, sem os desenhos vibrantes das suas primas tropicais, mas possuía uma beleza discreta e uma curiosidade insaciável.

Chamava-se Clara.

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Clara passava os seus dias a planar entre as folhas, saboreando o néctar das flores vizinhas, mas o seu coração ansiava por mais.

Ao contrário das suas irmãs, que se contentavam com o ciclo previsível do jardim, Clara sonhava com as histórias que o vento sussurrava sobre terras distantes, sobre montanhas azuis e rios prateados que serpenteavam por vales desconhecidos.

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Um dia, enquanto repousava sobre uma folha de couve, aquecida pelo sol da tarde, uma rajada de vento mais forte do que o habitual apanhou-a de surpresa.

Em vez de resistir, Clara abriu as suas asas, permitindo que a corrente a levasse.

Não sabia para onde ia, mas a emoção do desconhecido encheu-a de uma coragem inesperada.

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Voou por campos dourados de trigo, sobre ribeiros onde peixes prateados saltavam, e por florestas densas onde as árvores pareciam tocar o céu.

As suas asas, outrora tão comuns, agora pareciam um mapa, com as suas nervuras finas a desenhar as rotas que já tinha percorrido e as que ainda iria desbravar.

Cada pouso, mesmo que breve numa folha desconhecida, era uma nova revelação.

Descobriu o sabor de novas flores, ouviu o canto de pássaros que nunca vira e sentiu a frescura de orvalhos matinais em altitudes elevadas.

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Numa dessas paragens, numa folha de um verde intenso e desconhecido, Clara parou para descansar.

As suas antenas tremelicavam, absorvendo os aromas do novo ambiente.

Sentiu-se pequena, mas ao mesmo tempo imensa, parte de algo muito maior do que o seu jardim de origem.

A sombra das suas asas na folha era uma memória da sua jornada, da sua persistência.

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Clara nunca mais voltou ao jardim das couves.

Tornou-se uma verdadeira peregrina, a pequena borboleta das couves que voou para lá dos horizontes conhecidos.

As suas asas pálidas, outrora vistas como simples, tornaram-se o estandarte da sua liberdade, e cada nova folha em que pousava era um novo capítulo na sua extraordinária história de aventura.

E assim, a borboleta-pequena-das-couves provou que mesmo o mais humilde dos seres pode esconder um espírito grandioso e um desejo insaciável de descobrir o mundo.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
16
Jul25

"O tanque de água esverdeada e os jarros brancos" e uma estoriazinha


Mário Silva Mário Silva

"O tanque de água esverdeada e os jarros brancos"

e uma estoriazinha

16Jul DSC01441_ms

Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "O tanque de água esverdeada e os jarros brancos", retrata um canto da natureza que combina elementos de beleza e um certo abandono.

Em primeiro plano, destacam-se vários jarros brancos (Zantedeschia aethiopica), com as suas elegantes espatas brancas e folhas verdes vibrantes, que crescem abundantemente à beira de um tanque.

A composição dos jarros, alguns em plena floração e outros mais jovens, confere um toque de frescura e vida à cena.

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O tanque ocupa grande parte do centro da imagem e apresenta uma superfície de água completamente coberta por algas esverdeadas, criando uma textura densa e um tom uniforme de verde-lima.

As paredes do tanque são visíveis, com musgo e sinais de humidade e tempo.

Ao fundo, para além do tanque, observa-se um terreno elevado, possivelmente um campo ou terreno agrícola, com vegetação de tons castanhos e verdes.

Uma pequena parte de uma árvore ou arbusto com folhagem verde escura é visível no canto superior direito, adicionando um elemento vertical.

A luz na fotografia sugere um dia claro, realçando as cores e as texturas.

A imagem convida à reflexão sobre a coexistência entre a beleza da flora e a natureza que lentamente reclama as estruturas criadas pelo homem.

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A Estória: O Segredo do Velho Tanque

Na velha propriedade dos avós, entrelaçada com as raízes de um passado esquecido, jazia um tanque de água esverdeada.

Não era um verde vibrante de floresta, mas um verde leitoso e denso, como um tapete de musgo sobre as águas paradas, um espelho de tempo e negligência.

As suas paredes de pedra, outrora fortes e limpas, agora estavam cobertas por um manto húmido de líquenes, e pequenas fissuras denunciavam os anos de inverno e verão.

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Para os netos que visitavam a casa nas férias grandes, o tanque era um mistério proibido.

"Não se aproximem!" - alertava a avó, com um brilho nos olhos que era metade preocupação, metade memória.

Diziam que as suas águas eram profundas e que o lodo no fundo escondia segredos.

Mas o que mais prendia o olhar eram os jarros brancos que, como pequenas e elegantes sentinelas, cresciam à beira do tanque.

As suas flores, de um branco imaculado, contrastavam dramaticamente com o verde estagnado, parecendo anjos caídos que velavam sobre algo.

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Entre os jarros, havia um particularmente belo, com a sua haste longa e a sua espata branca a desdobrar-se em perfeição.

Era o jarro favorito de Ana, a neta mais curiosa.

Ela passava horas sentada perto dele, imaginando o que o tanque esverdeado poderia esconder.

Seria um portal para um mundo subaquático?

Um tesouro de moedas antigas que o avô, outrora um homem de muitos contos, teria deixado cair por descuido?

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Uma tarde, enquanto a brisa soprava sussurrando segredos entre as folhas das árvores, Ana decidiu desafiar a proibição da avó.

Não para entrar no tanque, mas para se aproximar um pouco mais, para sentir o cheiro da água parada, para tocar a pétala suave do seu jarro favorito.

Ao esticar a mão, os seus dedos roçaram algo duro e frio, escondido entre as raízes dos jarros. Era uma pequena caixa de madeira, envelhecida pelo tempo, quase fundida com a terra.

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Com o coração a bater forte, Ana abriu a caixa.

Dentro, não havia ouro nem joias, mas um conjunto de cartas amareladas e um pequeno medalhão de prata com uma gravação desvanecida: "Para a minha amada L. no nosso lugar secreto."

As cartas eram do seu avô para a avó, escritas nos tempos de juventude, falando de um amor proibido e encontros furtivos junto a este mesmo tanque, que então seria cristalino e convidativo.

O tanque, afinal, não guardava tesouros de piratas, mas o tesouro mais valioso de todos: a história de um amor puro e secreto que floresceu, tal como os jarros brancos, à margem da vida e do tempo.

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Ana fechou a caixa com um sorriso nos lábios.

O tanque esverdeado já não era um mistério assustador, mas um santuário de memórias, um testemunho silencioso de um amor que resistiu ao tempo, assim como os jarros brancos resistiam à água turva, florindo em beleza e esperança.

Ela percebeu que, às vezes, os maiores segredos não são os que se escondem em profundidades escuras, mas aqueles que se revelam na simplicidade e na beleza de um canto esquecido do mundo.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
15
Jul25

"A Fraga Bolideira" (Chaves - Portugal)


Mário Silva Mário Silva

"A Fraga Bolideira" e suas lendas

(Chaves - Portugal)

15Jul DSC07002_ms

Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "A Fraga Bolideira", apresenta um impressionante conjunto de grandes formações rochosas num ambiente natural.

No centro da imagem, destacam-se duas enormes rochas arredondadas, que parecem estar uma sobre a outra ou muito próximas, dando a ideia de um equilíbrio precário, o que justifica o nome "Bolideira".

Ambas as rochas mostram sinais de musgo ou líquenes, indicando a sua antiguidade e exposição aos elementos.

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As rochas estão assentes num terreno irregular coberto por erva seca e alguma vegetação rasteira, sugerindo um clima de transição.

Ao fundo, vê-se alguma folhagem de árvores, incluindo um carvalho com folhas recortadas no lado direito superior, e outras árvores mais distantes que adicionam profundidade à paisagem.

O céu é azul com algumas nuvens brancas esparsas, contribuindo para uma atmosfera de dia claro e ensolarado.

A fotografia capta a majestade e a quietude destas formações geológicas, convidando à contemplação da natureza e da sua história.

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A Fraga Bolideira, localizada perto de Chaves, em Portugal, é um local envolto em mistério e lendas que se perderam um pouco no tempo, mas que ainda ecoam na memória popular.

Embora não exista uma lenda única e amplamente divulgada como as de outras pedras famosas em Portugal, a característica mais marcante da Fraga Bolideira – a sua aparente instabilidade e o facto de "baloiçar" (ou poder ter baloiçado em tempos) – deu origem a algumas crenças e histórias.

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Uma das versões mais comuns da lenda está ligada à força e ao desafio.

Conta-se que a Fraga Bolideira só poderia ser movida por pessoas de grande pureza de espírito, ou por aqueles que possuíssem uma força sobrenatural ou mágica.

Havia quem acreditasse que apenas os justos, os inocentes ou as pessoas de coração puro conseguiriam fazer a rocha baloiçar, enquanto os pecadores ou aqueles com más intenções jamais conseguiriam fazê-lo.

Este teste de "pureza" ou "virtude" atribuía à pedra uma qualidade quase mística, funcionando como um oráculo silencioso.

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Outra vertente da lenda, talvez mais ligada ao folclore local, sugere que a Fraga Bolideira foi colocada ali por gigantes ou por seres mitológicos num tempo primordial.

Estes seres teriam moldado a paisagem, e a forma como a rocha superior se equilibra sobre a inferior seria uma prova da sua colossal força e da sua capacidade de desafiar as leis da física.

Em algumas variações, estes gigantes seriam responsáveis por outras formações rochosas peculiares na região.

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Havia também quem associasse a Fraga Bolideira a tesouros escondidos ou passagens secretas.

A ideia de uma pedra que "baloiça" ou que pode ser movida levava à crença de que debaixo dela poderia estar escondido um valioso tesouro, talvez de mouros ou de antigas civilizações, ou até mesmo a entrada para um reino subterrâneo.

No entanto, o tesouro só seria revelado àqueles que conseguissem mover a pedra, o que, como na primeira lenda, adicionava um elemento de desafio e de virtude.

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Embora estas lendas não sejam tão famosas como as de outras pedras sagradas ou encantadas em Portugal, elas refletem a forma como as comunidades locais tentavam dar sentido e atribuir significado a fenómenos naturais impressionantes.

A Fraga Bolideira, com a sua imponência e o seu nome sugestivo, continua a ser um testemunho da capacidade humana de criar histórias e mistérios em torno da natureza.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
14
Jul25

"Os morangos"


Mário Silva Mário Silva

"Os morangos"

05Jul DSC03287_ms

A fotografia apresenta um “close-up” vibrante de vários morangos maduros, ainda presos às suas plantas, sob uma iluminação que realça as suas cores e texturas.

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A composição é dominada pelos morangos em diferentes planos, criando uma sensação de profundidade e abundância.

Há um foco nítido nos frutos, com as folhas e o fundo ligeiramente desfocados para dirigir a atenção para os morangos.

Os morangos estão dispostos de forma orgânica, com alguns pendurados e outros mais visíveis em primeiro plano.

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A paleta de cores é rica e saturada.

Os morangos exibem um vermelho intenso e brilhante, que é o ponto focal da imagem.

As sépalas (folhas verdes na coroa do morango) e os caules são de um verde fresco e vibrante, contrastando lindamente com o vermelho dos frutos.

O fundo é escuro, quase preto em algumas áreas, com tons de castanho e verde escuro, o que faz com que os morangos "saltem" visualmente para fora da imagem.

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A iluminação é dramática e direcionada.

Parece vir de uma fonte de luz pontual, possivelmente artificial (“flash”), que incide diretamente sobre os morangos, criando brilhos nas suas superfícies e realçando a sua textura.

As sombras profundas no fundo e nas áreas não iluminadas contribuem para o contraste e a sensação de profundidade.

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Os morangos são o elemento principal.

Estão em diferentes estágios de maturação aparente, com uma textura visível na sua superfície, incluindo os pequenos "aquénios" (as sementes) que pontilham a casca vermelha.

Alguns morangos mostram vestígios de pequenas imperfeições ou gotas, o que lhes confere um aspeto natural e apetitoso.

O brilho da luz sobre a pele dos morangos é muito evidente.

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As folhas da planta de morango, em tons de verde, são visíveis em segundo plano e ao redor dos frutos, adicionando contexto.

Os caules finos e verdes ligam os morangos à planta-mãe.

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O fundo escuro e desfocado sugere um ambiente de cultivo, mas sem detalhes que distraiam a atenção dos morangos.

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A assinatura "Mário Silva" está visível no canto inferior esquerdo.

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A fotografia "Os morangos" de Mário Silva é uma imagem visualmente impactante e apetitosa, que celebra a beleza e a vivacidade deste fruto.

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O “close-up” é muito eficaz, preenchendo a moldura com os sujeitos principais e criando uma sensação de imersão.

A escolha de um enquadramento escuro e um foco seletivo realça os morangos de forma espetacular.

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A saturação das cores é um dos pontos mais fortes da imagem.

O vermelho intenso dos morangos é quase hiper-realista, tornando-os extremamente atraentes e convidativos.

Este tratamento de cor é uma escolha artística que visa maximizar o impacto visual do fruto.

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A iluminação é magistralmente utilizada para acentuar a forma e a textura dos morangos.

Os brilhos refletidos nas superfícies dos frutos dão-lhes um aspeto suculento e fresco.

As sombras, por sua vez, conferem volume e drama à cena.

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A fotografia é altamente sensorial.

Quase se consegue sentir o sabor adocicado e a frescura dos morangos.

É uma imagem que evoca prazer, vitalidade e a simplicidade da natureza.

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A obra pode ser interpretada como uma celebração da abundância, da natureza e da colheita.

Sugere a perfeição natural e a beleza dos alimentos frescos.

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A nitidez nos morangos e o desfoque suave no fundo demonstram um bom controlo da profundidade de campo.

A qualidade da luz e a riqueza das cores indicam uma boa técnica fotográfica e, possivelmente, um pós-processamento cuidadoso para realçar os atributos visuais.

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Em resumo, a fotografia "Os morangos" de Mário Silva é uma imagem que capta de forma excecional a beleza e o apelo visual dos morangos.

É uma fotografia que não só "regala o olhar" como também "abre o apetite", demonstrando a capacidade do fotógrafo em transformar um objeto simples num ícone vibrante de frescura e vitalidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
13
Jul25

Igreja de São Gonçalo – Segirei – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Igreja de São Gonçalo

Segirei – Chaves – Portugal

DSC01256

A fotografia "Igreja de São Gonçalo" de Mário Silva, capturada em Segirei, Chaves, Portugal, apresenta uma visão pormenorizada e evocativa de uma pequena igreja rural.

A imagem foca-se na estrutura superior do edifício, destacando o campanário e parte do telhado, enquadrada por vegetação densa que adiciona um contraste natural ao cenário.

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O campanário, feito de pedra desgastada pelo tempo, exibe uma cruz no topo, um símbolo religioso central, e abriga um sino visível através do arco aberto.

A pedra mostra sinais de envelhecimento, com musgo e erosão, sugerindo uma construção antiga e bem integrada no ambiente natural.

O telhado de telhas vermelhas complementa a estética tradicional portuguesa, enquanto os ornamentos nas extremidades adicionam um toque decorativo.

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À frente da igreja, há uma mistura de arbustos verdes e plantas com folhas avermelhadas, possivelmente indicativas de uma estação de transição, como o outono.

Esta vegetação cobre parcialmente a base da estrutura, criando um efeito de fusão entre a construção e a natureza, o que reforça a sensação de isolamento rural.

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A luz natural, provavelmente captada durante o dia com céu claro, ilumina suavemente a cena, destacando os tons terrosos da pedra e o verde e vermelho da folhagem.

A paleta de cores é quente e harmoniosa, transmitindo uma sensação de tranquilidade.

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A fotografia é tirada de um ângulo baixo, enfatizando a verticalidade do campanário e dando uma sensação de imponência à estrutura, apesar do seu tamanho modesto.

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A composição é equilibrada, com a vegetação a servir como um quadro natural que guia o olhar para o campanário.

A escolha do ângulo baixo é eficaz para destacar a arquitetura e o simbolismo religioso.

A textura da pedra e a paleta de cores criam uma narrativa visual de história e serenidade, típica de aldeias portuguesas.

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A fotografia parece celebrar a simplicidade e a resiliência das construções tradicionais portuguesas, refletindo uma ligação profunda entre a comunidade local e seu património.

O contraste entre a natureza viva e a arquitetura estática sugere um ciclo de renovação e permanência.

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Em suma, a imagem de Mário Silva é uma captura sensível e bem executada, que combina elementos naturais e arquitetónicos de forma harmoniosa.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
12
Jul25

"Espreitando o castelo de Monforte de Rio Livre" em Águas Frias, Chaves, Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Espreitando o castelo de Monforte de Rio Livre"

Águas Frias - Chaves - Portugal

12Jul DSC03387_ms

Naquele fim de tarde de julho, a luz dourada do sol de Trás-os-Montes banhava as colinas e os vales, desenhando sombras longas e misteriosas.

O ar, pesado com o aroma dos pinheiros e do rosmaninho, trazia consigo o eco de séculos de história.

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Num ponto elevado, quase escondido entre a densa vegetação que teimava em reclamar o seu espaço, erguia-se, imponente e silencioso, o Castelo de Monforte de Rio Livre.

Daquela perspetiva, captada pela lente atenta de Mário Silva, ele não se revelava por completo, mas sim espreitava, como um segredo bem guardado.

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À frente, em primeiro plano, uma sebe de giestas cobria o campo, as suas flores amarelas, vibrantes e alegres, contrastavam com o verde mais escuro dos arbustos.

Os seus ramos finos e emaranhados formavam uma cortina natural, por entre a qual se vislumbrava a fortaleza.

Havia um quê de mistério nesta visão parcial, como se a natureza estivesse a proteger os segredos daquele monumento ancestral.

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Por trás da cortina verde e amarela, a torre de menagem do castelo surgia, majestosa e robusta.

Construída em pedra granítica, as suas paredes grossas e irregulares falavam de batalhas travadas, de cercos superados e de sentinelas que outrora vigiavam as fronteiras.

O telhado, de um tom avermelhado, adicionava um toque de cor ao cinzento severo da pedra, como uma coroa de dignidade.

Uma pequena e escura abertura na torre, talvez uma seteira ou uma janela, parecia um olho a observar a paisagem, testemunha silenciosa de tudo o que se passava lá em baixo.

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Ao lado da torre, parte da muralha do castelo estendia-se, firme e sólida, protegida por uma vegetação mais rasteira.

A paisagem em redor, uma mistura de carvalhos e arbustos selvagens, envolvia a fortificação, tornando-a parte integrante do ambiente, quase como se tivesse nascido da própria terra.

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O Castelo de Monforte de Rio Livre não era apenas um aglomerado de pedras antigas.

Era um bastião da identidade transmontana, uma lembrança viva da linha da frente, da defesa do reino, das gentes que ali viveram e lutaram.

Cada pedra, cada torre, ecoava os passos de cavaleiros, os gritos de batalha, as vozes de camponeses que procuravam refúgio dentro dos seus muros.

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Espreitar o castelo por entre as giestas era como vislumbrar um pedaço de história através de um véu.

Sugeria que, apesar da passagem do tempo e do avanço da natureza, a essência daquele lugar permanecia intocada.

O silêncio que o envolvia era preenchido por histórias não contadas, por lendas que se perdiam na memória coletiva.

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Para Mário Silva, esta fotografia era mais do que um mero registo de um monumento.

Era a captura de um momento em que a natureza e a história se encontravam, em que o passado se revelava de forma subtil, convidando à imaginação.

Era um convite a olhar para além do óbvio, a desvendar os segredos que as paisagens portuguesas guardam, e a sentir a profunda ligação entre a terra, a história e as gentes de Monforte de Rio Livre, ali, nas terras de Chaves.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Jul25

"Pela rua Cimo de Vila" - Águas Frias - Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Pela rua Cimo de Vila"

Águas Frias - Chaves - Portugal

11Jul DSC08527_ms

A Rua Cimo de Vila, em Águas Frias, Chaves, era mais do que uma simples artéria de passagem; era um livro aberto sobre a alma da aldeia, um testemunho vivo de tempos passados e da resiliência das suas gentes.

Ao amanhecer, a luz do sol de julho esgueirava-se sobre os telhados, espreitando por entre as copas das árvores no topo da colina, e beijava as pedras que formavam a rua e as paredes.

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Era uma calçada de paralelepípedos, ou "cubos" como lhe chamam por estas bandas, que subia em suave inclinação, cada pedra polida pelo passar dos anos, dos carros de bois, dos passos apressados e dos passeios lentos.

As suas juntas, por vezes preenchidas por musgo teimoso ou por pequenas ervas, contavam a história de uma manutenção constante, mas também de uma vida que persistia.

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À esquerda, um muro imponente de pedras de granito, robustas e irregulares, erguia-se, formando a lateral de uma antiga habitação.

As pedras, umas mais claras, outras mais escuras, encaixavam-se com uma precisão que só as mãos de mestres canteiros sabiam dar, sem argamassa aparente em muitos pontos, mas firmes como a própria montanha.

Era uma parede que respirava história, que tinha testemunhado invernos rigorosos e verões abrasadores, que tinha acolhido famílias e guardado segredos.

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Junto a este muro, numa faixa estreita de terra que parecia desafiar a robustez da pedra, a vida brotava em abundância.

Malvas-rosas (Alcea rosea), algumas de um rosa delicado, outras em tons mais vibrantes de fúcsia, estendiam-se para o céu, os seus botões e flores abertas a trazer cor a um cenário dominado pelo granito e pelo verde escuro.

Ao lado delas, repolhos e couves, de folhas largas e um verde intenso, cresciam vigorosos, plantados ali com a praticidade de quem aproveita cada palmo de terra.

Era um pequeno jardim à beira da rua, um reflexo da simbiose entre a vida rural e a habitação.

Uma janela de madeira simples, com as suas portadas fechadas, interrompia a parede, sugerindo uma vida interior, talvez uma cozinha acolhedora ou um quarto com vista para o vale.

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À direita, a rua continuava, com um muro semelhante, embora menos visível, a delimitar outros terrenos e casas mais à frente.

A perspetiva da rua, que se perdia na distância, subia suavemente, ladeada por mais vegetação, e ao longe, vislumbrava-se o topo de uma casa mais moderna e os verdes densos da floresta que coroava a encosta.

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A Rua Cimo de Vila não era uma atração turística grandiosa, mas sim um pedaço autêntico de Portugal profundo.

As pedras, as plantas, os muros – tudo falava de uma vida simples, enraizada na terra e nas tradições.

O cheiro a terra húmida misturava-se com o aroma das flores e o sussurro do vento entre as folhas, criando uma sinfonia natural que convidava à contemplação.

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Para Mário Silva, este local era mais do que uma fotografia.

Era a captura de um instante de eternidade, a beleza da arquitetura popular e da natureza que insiste em florescer onde menos se espera.

Era um convite a desacelerar, a sentir a textura das pedras sob os pés, a respirar o ar puro e a deixar-se envolver pela tranquilidade e pela história que cada recanto da Rua Cimo de Vila, em Águas Frias, tinha para oferecer.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

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