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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

28
Jan26

“Águas Frias e ar gélido (mesmo com sol)" - Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

“Águas Frias e ar gélido (mesmo com sol)"

Mário Silva

28JanDSC09282_ms.JPG

Esta é uma perspetiva panorâmica e vibrante de Mário Silva, capturada na aldeia de Águas Frias, em Chaves.

A imagem ilustra com mestria o rigor e a beleza do inverno transmontano.

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A fotografia apresenta uma vista elevada sobre o casario da aldeia de Águas Frias.

O olhar é imediatamente atraído pelo mar de telhados cor de laranja, que contrastam vivamente com o cinzento das paredes de granito e o verde seco das encostas circundantes.

No topo da aldeia, destaca-se a torre branca da igreja, erguendo-se como uma sentinela sobre a comunidade.

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A composição é emoldurada por ramos de árvores despidos, cujos contornos escuros sugerem a dormência da natureza.

Apesar da luminosidade intensa e do céu que se adivinha limpo, a nitidez das sombras e a crueza da paisagem confirmam a premissa do título: é um dia de sol, mas de um frio cortante, típico das "terras altas" do norte de Portugal.

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O Sol que Não Aquece e a Rocha que Resiste

O Batismo do Gelo

Há nomes que são destinos, e Águas Frias é um deles.

Localizada no concelho de Chaves, esta aldeia não é apenas um lugar no mapa; é um manifesto da resistência humana contra os elementos.

O título de Mário Silva, "Águas Frias e ar gélido (mesmo com sol)", capta a grande dualidade transmontana: a luz que deslumbra, mas não afaga.

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Nesta imagem, o sol não é um abraço, mas sim um refletor.

Ele incide sobre as telhas cerâmicas e o granito secular, revelando cada textura, cada fenda, cada detalhe da arquitetura popular.

Contudo, é um sol de "pouca dura", um visitante luminoso que se recusa a derreter o hálito gelado que desce das montanhas.

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A Fortaleza de Telhados e Granito

Vista de cima, a aldeia parece um organismo vivo, encolhido sobre si mesmo em busca de calor.

As casas, encostadas umas às outras, formam um escudo contra o vento que fustiga o vale.

O granito, extraído da própria terra, serve de alicerce e armadura.

É uma estética da sobrevivência que, através da lente do fotógrafo, se transforma em arte épica.

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Os ramos secos que enquadram a fotografia funcionam como garras do inverno, lembrando-nos que, fora do abrigo das lareiras de pedra, a natureza reclama o seu domínio.

O ar é tão límpido que parece cristalizar a paisagem, permitindo-nos ver até ao último detalhe das hortas e dos campos que esperam pela primavera.

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A Alma do Norte

Águas Frias é um testemunho da têmpera de um povo.

O artigo que esta imagem escreve silenciosamente é sobre a persistência.

Numa terra onde o nome evoca o gelo, o calor encontra-se no interior das paredes grossas e na resiliência de quem habita este anfiteatro de pedra.

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A fotografia de Mário Silva não é apenas um registo geográfico; é o retrato de um instante eterno onde o tempo parece parado pelo frio, mas a vida pulsa sob o manto laranja dos telhados, sob o olhar atento de uma torre que aponta para um céu azul e gélido.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
27
Jan26

“A hera que era ... trepadeira, desde pequenina" – Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

“A hera que era ... trepadeira, desde pequenina"

Mário Silva

27Jan DSC09189_ms.JPG

Esta é uma bela composição de Mário Silva, que joga com a textura e a persistência da natureza.

A imagem apresenta uma imponente rocha de granito, típica das paisagens rurais portuguesas, servindo de suporte a uma exuberante hera variegada (tons de verde e creme).

A planta cai sobre a pedra como um manto orgânico, contrastando a dureza mineral com a suavidade das folhas.

No plano de fundo, vislumbram-se troncos de árvores despidos ou cobertos de líquenes, sugerindo uma atmosfera de inverno.

A luz solar incide lateralmente, realçando as cores vibrantes da hera e as sombras profundas sob a rocha.

O chão está coberto por um tapete de folhas secas e erva rasteira, conferindo à cena uma organicidade serena e intemporal.

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A Vocação da Hera e o Tempo da Pedra

O Destino Escrito no Caule

O título escolhido por Mário Silva, “A hera que era ... trepadeira, desde pequenina”, encerra em si uma doçura quase infantil, mas também uma verdade biológica e metafórica profunda.

Ao personificar a planta, o fotógrafo convida-nos a olhar para a hera não como um invasor, mas como um ser que cumpre o seu destino.

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A hera não escolhe subir; ela é a própria ascensão.

Desde que brota, a sua natureza impele-a a procurar apoio, a abraçar o que é sólido para alcançar a luz.

Nesta fotografia, a rocha de granito — estática e eterna — oferece o palco perfeito para essa coreografia lenta e persistente.

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O Contraste entre o Mineral e o Vegetal

Visualmente, a obra vive do contraste.

O granito representa o tempo geológico, frio e imutável.

A hera, por sua vez, representa o tempo biológico, o ciclo do crescimento e a adaptação.

O facto de ser uma hera variegada, com as suas margens claras, confere uma luminosidade extra à composição, como se a planta estivesse a iluminar a própria pedra.

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A frase "desde pequenina" remete para a ideia de vocação.

Tal como os seres humanos nascem com inclinações e talentos, esta hera nasceu com a "vontade" de trepar.

Onde outros veriam apenas uma pedra no caminho, a hera viu uma oportunidade de elevação.

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A Persistência como Arte

Mário Silva capta o momento em que a planta já conquistou o seu espaço.

Há uma harmonia na forma como as folhas se moldam às irregularidades do granito.

A fotografia torna-se, assim, uma lição sobre a resiliência: a vida encontra sempre uma forma de florescer, mesmo sobre a rocha mais dura, desde que se mantenha fiel à sua essência "trepadeira".

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Esta imagem é um tributo à paciência da natureza.

Lembra-nos que, independentemente da nossa escala, todos temos um impulso intrínseco — uma "raiz" que nos orienta para onde devemos crescer.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
23
Jan26

"Já foi um lar..." - Mário Silva


Mário Silva Mário Silva

"Já foi um lar..."

23Jan DSC09710_ms.jpg

Esta é uma imagem que toca profundamente na alma do Portugal interior, capturando a fragilidade do tempo e a memória de outros dias.

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Já foi um lar...", retrata uma casa tradicional em ruínas na aldeia de Águas Frias, Chaves.

A imagem foca-se na estrutura esquelética de uma varanda de madeira que, outrora vibrante, agora se desfaz sob o peso do abandono e das intempéries.

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As robustas paredes de granito, típicas da região transmontana, contrastam com a madeira apodrecida e lascada da galeria.

No piso inferior, vislumbram-se restos de palha e algumas abóboras, sugerindo que o espaço, antes habitado por pessoas, serviu por último como armazém agrícola antes de ser entregue ao silêncio.

A luz solar incide lateralmente, criando sombras dramáticas que acentuam as texturas das pedras e a fragilidade das tábuas suspensas, enquanto uma moldura escura (vinheta) envolve a cena, conferindo-lhe um tom nostálgico e quase fúnebre.

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O Eco das Paredes Vazias – Quando o Tempo Apaga o Lar

O título escolhido pelo fotógrafo — "Já foi um lar..." — não é apenas uma descrição; é um lamento em forma de reticências.

Em Águas Frias, como em tantas outras aldeias de Trás-os-Montes, as casas não são apenas amontoados de pedra e madeira; são baús de memórias que, lentamente, se deixam vencer pelo esquecimento.

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A Anatomia do Abandono

Olhar para esta fotografia é testemunhar a finitude das coisas humanas.

A varanda, que outrora poderá ter sido o lugar onde se via o pôr-do-sol ou se trocavam palavras com o vizinho, é hoje um esqueleto de madeira que desafia a gravidade por pouco tempo.

O Granito: Permanece firme, como a espinha dorsal de uma história que se recusa a cair totalmente.

A Madeira: Cede e lasca-se, representando a vida que se retirou e a fragilidade do que é orgânico.

Os Frutos da Terra: As abóboras e a palha no rés-do-chão são os últimos vestígios de utilidade, um eco distante da subsistência que ali pulsava.

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A Saudade do que foi

Relacionar o tema com o título é falar de Saudade.

Quando Mário Silva diz que "já foi um lar", ele convida-nos a imaginar o fumo a sair da chaminé, o cheiro do caldo ao lume e o som de passos no soalho que agora range sob o nada.

Esta imagem é o retrato da desertificação do interior, mas também uma homenagem à dignidade dessas ruínas que, mesmo no fim, mantêm uma beleza melancólica e severa.

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Esta fotografia serve como um espelho de um país que envelhece e de casas que, ao perderem os seus habitantes, perdem a sua alma, restando apenas a luz do sol a iluminar o pó do que um dia foi vida.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Jan26

“Pedra Bolideira” - Planalto de Monforte – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Pedra Bolideira”

Planalto de Monforte – Chaves – Portugal

22Jan Pedra Bolideira_ms.jpg

Esta é uma belíssima composição que nos transporta para o misticismo das terras altas transmontanas.

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Pedra Bolideira", captura a alma do Planalto de Monforte, em Chaves, sob o rigor de um inverno rigoroso.

A imagem destaca-se pela sua atmosfera etérea, onde o nevoeiro denso funde o céu e a terra num branco infinito.

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No centro da composição, as monumentais massas de granito — cobertas por musgo e agora salpicadas por uma fina camada de neve ou geada — impõem-se pela sua robustez.

Em primeiro plano, um conjunto de mesa e bancos de pedra surge solitário, convidando à contemplação do silêncio.

O tratamento artístico, com uma vinheta suave e uma tonalidade fria, acentua o isolamento e a quietude deste lugar emblemático, transformando a paisagem geológica num cenário quase onírico.

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O Equilíbrio Mágico da Pedra Bolideira

O título da obra transporta-nos imediatamente para um dos fenómenos geológicos mais fascinantes de Portugal: a Pedra Bolideira.

Situada no Planalto de Monforte, esta não é apenas uma rocha colossal; é um símbolo de equilíbrio improvável e um guardião de lendas ancestrais.

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O Mistério do Movimento

A "Pedra Bolideira" deve o seu nome à sua característica mais singular: apesar de pesar várias dezenas de toneladas, diz-se que um pequeno impulso humano num ponto específico é capaz de a fazer oscilar (ou "bolir").

Na fotografia de Mário Silva, este gigante parece repousar numa fragilidade silenciosa, desafiando as leis da gravidade sob o manto branco do inverno de Chaves.

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A Paisagem Transmontana no Inverno

O Planalto de Monforte é uma região de beleza crua e resiliente.

O artigo visual proposto pelo fotógrafo realça o binómio entre a dureza e a suavidade:

A Dureza: Representada pelo granito eterno e pelas árvores despidas, símbolos de uma terra que resiste ao tempo.

A Suavidade: Transmitida pelo nevoeiro e pela geada, que suavizam as arestas da rocha e criam uma sensação de paz absoluta.

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Mais que Geologia, uma Identidade

Relacionar o tema da fotografia com o seu título é falar da identidade de Trás-os-Montes.

A Pedra Bolideira é um ponto de paragem obrigatório, um local onde a natureza parece querer comunicar connosco.

O mobiliário de pedra em primeiro plano, vazio, mas presente, sugere que este ritual de visitar a "pedra que bole" é uma tradição partilhada por gerações, mesmo quando o frio afasta os visitantes e deixa a paisagem entregue aos seus próprios mistérios.

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A lente de Mário Silva não regista apenas um local turístico; imortaliza o “genius loci” (o espírito do lugar) de Monforte, onde a pedra ganha vida e o tempo parece ter parado para nos deixar ouvir o silêncio do planalto.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
19
Jan26

"O marco geodésico" - Águas Frias – Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

"O marco geodésico"

Águas Frias – Chaves - Portugal

19Jan DSC03054_ms.JPG

Esta obra da coleção de Mário Silva convida-nos a olhar para as alturas e para a ciência que moldou a nossa compreensão do território.

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A fotografia apresenta um vórtice ou marco geodésico de betão, implantado estrategicamente sobre um imponente conjunto de penedos de granito.

A estrutura, de forma cilíndrica na base com um topo cónico truncado, destaca-se contra um céu de um azul límpido e profundo, que ocupa a metade superior da composição.

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A paisagem em redor é tipicamente transmontana: uma vasta extensão de terrenos agrícolas e pastagens em tons de castanho e ocre, sugerindo o repouso da terra no inverno.

Ao fundo, vislumbra-se o casario branco da aldeia de Casas de Monforte, aninhado na encosta das montanhas.

A imagem equilibra a solidez da rocha, a precisão da engenharia humana e a amplitude do horizonte, captando a essência de um ponto que é, simultaneamente, um lugar físico e uma coordenada matemática.

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O Marco Geodésico – Sentinela do Espaço e do Tempo

Muitas vezes ignorados por quem percorre os trilhos de Chaves, os marcos geodésicos, como o captado por Mário Silva em Águas Frias, são muito mais do que simples colunas de betão.

São os pilares invisíveis sobre os quais se construiu o mapa de Portugal.

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No Passado: A Construção do Mapa

Antes da era dos satélites e do sinal digital, a única forma de mapear um país com precisão era através da triangulação.

Pontos de Vigia: Estes marcos eram erguidos nos pontos mais altos e com maior visibilidade para que os topógrafos pudessem avistar outros marcos a quilómetros de distância.

Cálculo Matemático: Através da medição dos ângulos entre estes pontos, era possível calcular distâncias e altitudes com uma precisão notável para a época.

A Rede Geodésica Nacional: Portugal foi um dos pioneiros na criação de uma rede estruturada, essencial para definir fronteiras, planear estradas e gerir o território agrícola e florestal.

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No Presente: Da Estática ao GPS

Poder-se-ia pensar que, com a chegada do GPS e do sistema Galileo, estas estruturas seriam obsoletas.

Pelo contrário, a sua importância mantém-se, embora tenha evoluído:

Pontos de Calibração: Os equipamentos de alta precisão utilizados em engenharia civil e cartografia moderna precisam de pontos físicos de referência para calibrar os sinais de satélite.

Monitorização da Crosta: Alguns destes marcos são utilizados para medir movimentos impercetíveis da terra, ajudando a estudar a atividade sísmica.

Património e Identidade: Hoje, são também marcos de lazer.

Estar junto a um marco geodésico significa, quase sempre, estar num local de vista privilegiada, servindo como destino para caminhantes e amantes da natureza.

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A Simbiose entre Homem e Natureza

Na fotografia de Mário Silva, o marco assenta no granito.

Esta imagem é uma metáfora poderosa: a ciência (o betão) apoia-se na natureza (a rocha).

O marco geodésico de Águas Frias é uma "âncora" no espaço; ele diz-nos exatamente onde estamos num mundo em constante mudança.

Enquanto a aldeia ao fundo cresce e se transforma, o marco permanece imóvel, garantindo que o território continua devidamente medido e reconhecido.

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"Um marco geodésico é o local onde a terra se deixa medir pela inteligência humana, oferecendo em troca a melhor vista sobre o horizonte."

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
18
Jan26

Cruzeiro do Senhor dos Milagres – Águas Frias – Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

Cruzeiro do Senhor dos Milagres

Águas Frias – Chaves - Portugal

18Jan DSC00161_ms.JPG

A fotografia, captada de um ângulo superior (picado), apresenta um cruzeiro monumental protegido por uma estrutura de abrigo típica da arquitetura religiosa popular.

Quatro pilares de granito robustos sustentam um telhado piramidal de quatro águas, revestido com telha cerâmica envelhecida, que exibe manchas de líquenes e musgo.

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No centro da estrutura, destaca-se um painel de azulejos azul e branco com a imagem de Cristo Crucificado — o Senhor dos Milagres.

Na base, pequenos vasos com flores cor-de-rosa e brancas testemunham a manutenção viva do culto e a gratidão da comunidade.

O cruzeiro situa-se na berma do largo da Junta, alcatroada, delimitado por um gradeamento de ferro e um muro de pedra tradicional, inserindo-se harmoniosamente num cenário de vegetação outonal e ruralidade.

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O Cruzeiro – Uma Sentinela de Fé na Berma do Caminho

Os cruzeiros e alminhas são elementos indissociáveis da paisagem transmontana.

Na fotografia de Mário Silva em Águas Frias, o "Cruzeiro do Senhor dos Milagres" surge como mais do que um monumento: é uma coordenada espiritual que liga o viajante ao divino.

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A Arquitetura do Amparo

Diferente dos cruzeiros simples de pedra isolada, este exemplar possui uma cobertura.

Esta arquitetura não é apenas estética; simboliza o amparo e a proteção.

O telhado que guarda a imagem do Senhor dos Milagres reflete a ideia de que a fé deve ser preservada das intempéries, tal como a comunidade se protege sob a crença nos seus milagres.

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O Granito: Representa a perenidade e a dureza da vida na montanha.

O Azulejo: O azul e branco introduzem uma nota de luz e serenidade no cinzento da pedra.

As Flores: São o elo de ligação entre o sagrado e o quotidiano, representando promessas feitas ou agradecimentos alcançados.

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O Senhor dos Milagres: Esperança Comunitária

O título da fotografia remete para uma das invocações mais queridas do povo português.

O "Senhor dos Milagres" é a figura a quem se recorre nas horas de maior incerteza — seja por questões de saúde, colheitas ou proteção dos entes queridos.

Em Águas Frias, este cruzeiro funciona como um altar público, onde a religião sai das paredes da igreja para se encontrar com as pessoas no seu trajeto diário.

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Património e Identidade

Preservar um cruzeiro como este é manter viva a identidade de uma aldeia.

Num mundo que se move cada vez mais depressa, a fotografia de Mário Silva obriga-nos a abrandar.

Ela mostra que, na berma de uma estrada moderna, ainda há lugar para o silêncio, para a oração e para a memória dos antepassados que ergueram aquela estrutura.

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A originalidade desta imagem reside na perspetiva: ao olhar de cima, o fotógrafo coloca-nos numa posição de observadores protegidos, destacando a geometria do telhado e a humildade das ofertas florais, lembrando-nos que o sagrado está presente nos detalhes mais simples.

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"Um cruzeiro na estrada é um lembrete de que nunca caminhamos sozinhos;

há sempre um lugar de paragem para a alma."

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
12
Jan26

Uma casa típica transmontana - Paradela de Monforte – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Uma casa típica transmontana

Paradela de Monforte – Chaves – Portugal

12Jan DSC05086_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva transporta-nos para o coração de Trás-os-Montes, apresentando uma habitação que é um exemplo vivo da arquitetura vernácula regional.

A composição destaca a robustez do granito, material predominante na base da casa, onde as marcas do tempo e o musgo conferem uma textura orgânica à construção.

O elemento central é a escadaria exterior de pedra, que conduz ao piso superior (a zona habitacional), protegida por um corrimão de ferro forjado com um desenho geométrico simples.

No sopé das escadas, um pequeno portão de ferro pintado de tons avermelhados delimita o espaço.

As paredes do andar superior são rebocadas e caiadas de branco, contrastando com o peso da pedra do rés-do-chão, enquanto o telhado de telha cerâmica tradicional completa este quadro de autenticidade e memória.

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A Casa Transmontana – Onde a Pedra Guarda a História

A arquitetura tradicional de Trás-os-Montes, como a captada em Paradela de Monforte, não é apenas uma escolha estética; é uma lição de sobrevivência e adaptação ao clima rigoroso e à geografia da região "para lá dos montes".

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A Anatomia da Casa Típica

A casa transmontana clássica, particularmente na zona de Chaves, segue uma organização funcional muito específica que espelha o modo de vida agrícola de outrora:

Rés-do-chão (Lojas): Construído em granito grosso para suportar o peso e isolar. Antigamente, servia para guardar o gado, alfaias agrícolas e a adega. O calor dos animais ajudava a aquecer o piso superior.

Piso Superior: A zona de habitação da família. É aqui que se encontra a cozinha (o centro da casa com a sua lareira) e os quartos.

Escada Exterior: Um elemento iconográfico. Como o piso inferior era para os animais e trabalho, o acesso à casa fazia-se por fora, muitas vezes culminando num patamar chamado "balcão".

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A Simbiose com a Paisagem

Estas casas parecem brotar diretamente do chão.

O uso do granito local não só facilitava a construção, como permitia que a habitação tivesse uma inércia térmica fundamental: manter o fresco nos verões tórridos do interior e preservar o calor durante os invernos gelados.

O reboco branco no andar superior, visível na fotografia de Mário Silva, tinha também uma função prática e social.

A cal protegia as paredes e refletia a luz, conferindo uma sensação de limpeza e dignidade à moradia.

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Um Património em Preservação

Hoje, estas casas são mais do que habitações; são contentores de memória.

Em aldeias como Paradela de Monforte, a preservação destes detalhes — o portão de ferro, a pequena lanterna sobre a porta, a disposição das janelas — é o que mantém viva a identidade cultural do norte de Portugal.

Ver uma fotografia destas é recordar um tempo em que o ritmo da vida era ditado pelas estações e pela terra, e onde a casa era o refúgio seguro contra a dureza da montanha.

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"Trás-os-Montes não é apenas um lugar no mapa, é um estado de espírito gravado na pedra das suas casas."

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
04
Jan26

“Igreja de São Cristóvão” - Outeiro Jusão – Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Igreja de São Cristóvão”

Outeiro Jusão – Chaves - Portugal

04Jan DSC03477_ms.JPG

A fotografia apresenta uma perspetiva solene e textural da Igreja de São Cristóvão, um exemplar notável do românico português.

A composição de Mário Silva destaca-se pela utilização magistral da luz, que incide sobre o granito austero, revelando a rugosidade da pedra e as marcas do tempo.

Captada de um ângulo que privilegia o portal principal, a imagem enfatiza a robustez da construção.

Há uma quietude intrínseca na fotografia.

O céu, muitas vezes límpido ou com nuvens suaves, contrasta com a solidez da pedra, criando um diálogo entre o eterno e o efémero.

A lente foca-se na simplicidade das linhas — as frestas estreitas, a sineira que se ergue contra o horizonte e a pureza do arco de volta perfeita.

Não há artifícios; a beleza reside na geometria sagrada e na integração da igreja com a paisagem rural de Chaves.

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Outeiro Jusão e a Fé de Granito: A Igreja de São Cristóvão

Um Legado Românico no Coração do Alto Tâmega

No sopé das montanhas que abraçam o vale de Chaves, a aldeia de Outeiro Jusão guarda um dos tesouros mais autênticos do património religioso do Norte de Portugal: a Igreja de São Cristóvão.

Mais do que um local de culto, esta pequena edificação é um testemunho vivo da Idade Média e da resistência do granito transmontano.

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Arquitetura e Simbolismo

A Igreja de São Cristóvão é um exemplo clássico do românico tardio, caracterizado por uma arquitetura robusta, quase defensiva.

A sua estrutura de nave única e a cabeceira retangular transportam o visitante para um tempo onde a simplicidade era a máxima expressão da espiritualidade.

O portal, com as suas arquivoltas despojadas, convida ao recolhimento.

No interior, o silêncio é apenas interrompido pela luz que atravessa as estreitas frestas, desenhadas não só para iluminar, mas para manter o ambiente fresco e seguro.

A dedicação a São Cristóvão, o padroeiro dos viajantes, é particularmente significativa numa região que, historicamente, foi um ponto de passagem e de fronteira.

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A Fotografia como Preservação do Olhar

O trabalho de Mário Silva sobre esta igreja não é meramente documental.

Ao escolher este tema, o fotógrafo imortaliza a identidade de um povo que moldou a paisagem com as mãos e a fé.

Em Chaves, o património não se limita às famosas termas romanas ou ao castelo; reside também nestas pequenas igrejas de aldeia que pontuam o território.

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Conclusão

Visitar (ou contemplar através da arte) a Igreja de São Cristóvão de Outeiro Jusão é fazer uma viagem ao passado.

É compreender que a beleza não necessita de ornamentos excessivos quando possui a força da história e a dignidade da pedra.

Este monumento permanece como uma sentinela do tempo, recordando-nos da importância de preservar as raízes que definem o Portugal profundo.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
28
Dez25

“Felizes os que esperam no Senhor e seguem os seus caminhos.” Capela S. Cristóvão - Ervedosa – Vinhais


Mário Silva Mário Silva

“Felizes os que esperam no Senhor

e seguem os seus caminhos.”

Capela S. Cristóvão - Ervedosa – Vinhais

28Dez Falram 3 dias_ms.jpg

A fotografia, capturada por Mário Silva, oferece um retrato sóbrio e emotivo da Capela de São Cristóvão, situada em Ervedosa, Vinhais.

A composição é dominada pela simplicidade arquitetónica da pequena ermida, em primeiro plano.

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A capela apresenta paredes brancas caiadas que se destacam sob uma luz difusa, possivelmente de um final de tarde, com a atmosfera levemente turva, quiçá por névoa ou orvalho.

O telhado, de telha tradicional de barro, é rematado por uma cruz singela e dois pináculos de pedra.

A porta principal, em madeira escura, é ladeada por dois pequenos óculos circulares, típicos de construções rurais e religiosas da região de Trás-os-Montes.

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Em frente à capela, encontra-se uma pequena área de acesso e patamar construída em granito rústico, com degraus largos.

No lado direito, um muro baixo de pedra irregular serve de guarda e assento, conferindo à entrada um ar de acolhimento e repouso.

Em ambos os lados, colunas robustas e trabalhadas em granito, com a sua pátina do tempo, emolduram a entrada.

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O fundo da imagem é preenchido por um horizonte rural, onde se vislumbra uma zona arborizada de pinheiros e vegetação dispersa, tudo envolto numa aura de calma e isolamento.

A terra à volta da capela é seca, de tons castanhos e amarelados, reforçando o cenário de ambiente interiorano.

A luz e o grão da imagem sugerem uma atmosfera quase intemporal, sublinhada pela citação que a acompanha, "Felizes os que esperam no Senhor e seguem os seus caminhos."

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O Santuário da Espera

"Felizes os que esperam no Senhor e seguem os seus caminhos."

No coração da terra ancestral de Trás-os-Montes, onde o granito guarda as histórias de séculos e o vento sopra a melodia dos pinhais, ergue-se a Capela de São Cristóvão em Ervedosa.

Não é um templo de fausto, mas um santuário da espera, um marco de fé plantado na simplicidade.

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A imagem capturada por Mário Silva não é apenas uma fotografia; é uma meditação sobre o Salmo que a intitula.

A frase, "Felizes os que esperam no Senhor e seguem os seus caminhos", ressoa na quietude da paisagem, transformando a capela num farol de paciência e propósito.

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As paredes brancas da ermida, lavadas pela chuva ou pelo tempo, são um reflexo da alma despojada que busca abrigo.

A porta escura, fechada, mas não trancada, sugere a intimidade do encontro — a entrada para o silêncio interior, onde a verdadeira espera acontece.

É no limiar, nos degraus de pedra gasta, que o caminhante de hoje encontra a sombra dos peregrinos de outrora, aqueles que, como São Cristóvão, transportavam o peso do mundo em busca de uma luz maior.

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O granito rude que sustenta a varanda não cede ao tempo; ele ensina a perseverança.

Ele murmura sobre os caminhos percorridos, os de Trás-os-Montes, acidentados e longos, e os da própria vida, cheios de incertezas.

A felicidade prometida não está no destino final apressado, mas no caminhar consciente, no seguir a senda com a certeza invisível da fé.

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Esperar no Senhor não é estagnação, mas um ato de confiança ativa.

É saber que, mesmo quando a luz é difusa e o horizonte se esbate nas árvores distantes, há uma cruz simples no topo do telhado a orientar.

É o reconhecimento de que cada passo é sustentado por uma promessa que transcende a paisagem visível.

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A capela de Ervedosa, solitária e serena, lembra-nos que a verdadeira felicidade reside na humildade da jornada e na fidelidade à direção.

É a poesia da fé anónima, do rito simples, que faz do esperar a forma mais elevada do seguir.

É um convite ao repouso da alma, antes de retomar o caminho com o coração renovado pela esperança.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
04
Dez25

"O Abrigo e a Fraga" - Águas Frias - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"O Abrigo e a Fraga"

Águas Frias - Chaves – Portugal

04Dez DSC03398_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva capta uma estrutura rústica e primitiva no campo, um pequeno abrigo construído sob uma enorme fraga (rocha de grandes dimensões), que reflete a interação ancestral do homem com o ambiente agreste de Trás-os-Montes.

A Fraga (A Rocha Mãe): O elemento dominante é uma fraga massiva e arredondada, que forma o telhado natural do abrigo.

A sua superfície é rugosa, coberta por musgos e líquenes em tons de castanho e verde-claro.

A sua imponência contrasta com a pequenez da entrada.

O Abrigo (A Construção): Por baixo da fraga, encontra-se uma pequena abertura de entrada retangular, cujas paredes laterais são construídas com blocos de granito bruto, dispostos verticalmente.

O lintel da porta é também uma pedra maciça.

O telhado, onde a fraga não chega, é rematado com telhas de barro onduladas, que ajudam a vedar e a proteger a abertura.

O Ambiente: A estrutura está implantada numa zona de vegetação rasteira seca e arbustos (possivelmente urze ou carrasco) e árvores caducas de folhagem castanha-dourada, indicando o final do outono ou início do inverno.

O céu é de um azul intenso, realçando a luz solar clara e a sombra escura do interior do abrigo.

O Significado: O conjunto evoca uma sensação de primitivismo, solidez e harmonia entre a obra humana e a geologia.

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O Abrigo e a Fraga – Arquitetura da Sobrevivência em Terras de Granito

A imagem "O Abrigo e a Fraga" é um testemunho da arquitetura vernácula de Trás-os-Montes, em particular da Terra Fria Chaves, onde a geologia do granito se impõe e dita as regras da construção.

Este pequeno abrigo, edificado na base de uma rocha colossal, é uma ode à engenharia da necessidade e à profunda ligação do povo transmontano à sua terra.

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A Lição da Fraga: Imponência e Proteção

A fraga nesta paisagem não é apenas uma rocha; é um recurso.

Com a sua massa e solidez, ela oferece naturalmente uma proteção inigualável contra os ventos frios, a chuva intensa e as temperaturas extremas do interior.

Ao utilizar a rocha como telhado e parede natural, o construtor original demonstrou um profundo conhecimento do ambiente e uma economia de esforço notável.

Estes abrigos, comuns em zonas de pastoreio ou de mato, serviam tradicionalmente para guardar ferramentas, proteger os pastores durante as intempéries ou alojar rebanhos. Simbolizam a permanência e o caráter imutável da terra.

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O Abrigo: O Gesto Humano

O elemento construído, com as suas paredes de pedra encaixadas e o remate de telha, é a marca da presença humana.

É um gesto de apropriação e adaptação.

Ao vedar a abertura, o homem transforma o espaço natural em espaço habitável (ou utilizável).

Este tipo de construção revela a filosofia de máximo rendimento com o mínimo de intervenção, uma ética ecológica intrínseca ao mundo rural.

A obra humana não compete com a natureza; ela coopera com a força geológica, utilizando o que a terra já oferece de forma grandiosa.

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Harmonia no Contraste

A fotografia realça o contraste dramático:

Luz e Sombra: A luz do sol bate forte na fraga, enquanto o interior do abrigo permanece numa escuridão profunda, simbolizando o mistério e a segurança que ele oferece.

Rugosidade e Função: A rugosidade primitiva da rocha contrasta com a funcionalidade das paredes e do telhado, resultando num objeto de simplicidade escultural.

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O Abrigo e a Fraga representam a essência de Trás-os-Montes: uma paisagem onde a dureza da pedra inspira a resiliência humana e onde a inteligência da sobrevivência se manifesta na arte de se abrigar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Nov25

"O granito na construção rural transmontana"


Mário Silva Mário Silva

"O granito na construção rural transmontana"

22Nov DSC09096_ms

A fotografia de Mário Silva é um close-up angular que foca na fachada e na lateral de uma estrutura rural antiga, provavelmente um celeiro, adega ou habitação, construída integralmente em pedra de granito.

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O edifício é maciço e apresenta uma cantaria de granito irregular e não polida, com pedras de diferentes tamanhos e formatos, ligadas com argamassa.

A parede demonstra uma solidez impressionante, característica das construções de Trás-os-Montes.

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Aberturas: São visíveis duas aberturas na fachada.

Uma delas, mais antiga, é uma porta de madeira vertical no rés-do-chão, com uma pequena soleira de granito e um lintel também em pedra.

A outra abertura é um vão de porta ou janela, com caixilhos de madeira (uma porta) e uma moldura em pedra mais regular na lateral.

Textura e Cor: A pedra, de tom cinzento-claro a ocre, está coberta em alguns pontos por musgos e líquenes verdes, o que atesta a sua idade e a humidade do ambiente.

O telhado, parcialmente visível, é de telha tradicional e confere um toque de cor quente.

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O enquadramento angular realça a robustez e a verticalidade da construção.

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O Granito na Construção Rural Transmontana: A Essência da Robustez e Identidade

A fotografia de Mário Silva capta a mais pura expressão da arquitetura popular transmontana: o uso dominante do granito.

Em Trás-os-Montes, onde este material é abundante, o granito transcendeu a sua função geológica para se tornar o elemento definidor da paisagem construída, simbolizando a robustez, a durabilidade e a identidade cultural da região.

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Funcionalidade: A Resposta ao Clima e ao Solo

O granito foi a escolha óbvia na construção rural transmontana por razões estritamente funcionais.

A sua extrema dureza e densidade garantem:

Isolamento Térmico: A espessura das paredes de granito oferece um isolamento natural, mantendo as casas frescas no verão quente e protegidas do frio intenso do inverno transmontano.

Durabilidade e Estabilidade: O material é praticamente indestrutível, conferindo às estruturas uma longevidade que ultrapassa séculos.

As casas e celeiros são construídos para durar gerações, resistindo ao vento, à chuva e às intempéries.

Disponibilidade: A abundância de afloramentos graníticos na região (sendo Trás-os-Montes uma área predominantemente granítica) tornava-o o material de construção mais acessível, extraído e trabalhado pelos próprios lavradores e pedreiros locais.

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Estética e Identidade Cultural

A estética do granito na construção rural é o oposto do polimento e da perfeição.

A cantaria irregular e a justaposição de blocos de diferentes tamanhos na fotografia refletem uma arquitetura de subsistência e adaptação, onde a beleza reside na honestidade do material.

A cor da pedra, que envelhece gradualmente ganhando musgos e patinas (como se vê na imagem), integra a construção na paisagem natural.

As aldeias de granito fundem-se com os maciços montanhosos, formando um todo coeso.

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O granito, assim, não é apenas um material; é uma afirmação cultural.

Ele representa a tenacidade do povo transmontano — duro, resiliente e profundamente enraizado na sua terra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
19
Nov25

"A ponte de pedra - a ligação entre margens"


Mário Silva Mário Silva

"A ponte de pedra - a ligação entre margens"

19Nov DSC08943_ms

A fotografia, representada pela imagem de uma ponte rústica sobre um pequeno rio, exibe uma ponte de lajes de pedra de construção antiga e simples, que se estende sobre um curso de água sereno.

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A ponte é suportada por três pilares maciços de granito irregular, visíveis dentro da água, sobre os quais assentam grandes lajes de pedra, formando o tabuleiro.

A sua construção é utilitária e primitiva, refletindo a engenharia popular.

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O rio é estreito e tem águas escuras, mas com reflexos da vegetação circundante, nomeadamente os ramos nus das árvores nas margens.

As margens estão densamente cobertas por vegetação rasteira e arbustos verde-escuros, criando um ambiente húmido e sombrio.

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A luz, provavelmente do final do dia, incide sobre as árvores ao fundo, deixando a área da ponte na penumbra, o que realça o caráter intemporal e isolado da estrutura.

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A Ponte de Pedra: A Ligação Eterna Entre Margens, Corações e Tempos

A ponte de pedra, com a sua arquitetura simples e robusta, é mais do que um mero trajeto funcional; é, no coração de Portugal rural, uma metáfora para a própria vida e a sua perpétua busca por união.

A fotografia capta a essência desta ligação, onde a pedra ancestral desafia a corrente do rio e a passagem do tempo.

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A Funcionalidade Transfigurada em Sentimento

A origem de toda a ponte reside na necessidade: a de ultrapassar um obstáculo, de evitar o isolamento.

No entanto, o que a mão humana constrói com pedra e esforço transcende rapidamente essa primeira função.

A ponte rústica torna-se o testemunho silencioso de todas as travessias que testemunhou:

A Travessia do Trabalho: O caminho diário do lavrador e do pastor, levando os animais e as colheitas.

A Travessia do Encontro: O ponto onde os namorados se encontravam e os vizinhos se saudavam.

A Travessia da Saudade: O local onde se via partir e onde se esperava o regresso.

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A pedra, batida pela chuva e pelo sol, guarda a memória desses passos.

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A Força da Ligação

O verdadeiro poder da ponte é unir o que o rio, na sua natureza de separação e fluxo, tenta manter à distância.

Ela representa a vitória da vontade sobre a natureza implacável.

Os pilares, firmemente cravados no leito do rio, são âncoras de estabilidade num mundo em constante movimento.

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As duas margens não são apenas terra; são dois mundos, duas vidas, dois corações.

A ponte é o voto de que a distância será sempre vencida, que a separação é apenas temporária.

Ela oferece uma via segura, mesmo quando a vida corre agitada e escura, como as águas refletidas na imagem.

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Um Portal no Tempo

Olhar para esta ponte de pedra é entrar num portal.

As lajes gastas não nos ligam apenas à outra margem do rio, mas também à outra margem do tempo.

Sentimo-nos ligar aos que a construíram e aos que por ela passaram há gerações.

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Ela ensina-nos que as ligações mais valiosas não são as mais elaboradas ou modernas, mas sim as que são construídas com materiais simples, mas com a firmeza da convicção e o propósito de unir.

A ponte de pedra é a lição de que o essencial na vida é a união, a perseverança e o regresso seguro.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
09
Nov25

Igreja de São Martinho – Ervedosa – Vinhais – Bragança – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Igreja de São Martinho

Ervedosa – Vinhais – Bragança – Portugal

09Nov DSC04079_ms

A fotografia de Mário Silva retrata a Igreja de São Martinho, na aldeia de Ervedosa, no concelho de Vinhais, distrito de Bragança.

A igreja é uma construção em granito rústico, com uma tonalidade dourada, banhada pela luz intensa do final da tarde, que projeta sombras nítidas.

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A fachada principal é marcada por uma torre sineira de dupla abertura, que se eleva acima do telhado de telha vermelha, e está coroada por uma cruz de pedra.

Na parte superior da fachada, no topo da empena, é visível um relógio de parede embutido na pedra.

A entrada principal, com uma porta de madeira escura, é ladeada por cantaria bem trabalhada.

A construção combina o granito à vista com paredes laterais caiadas de branco.

Um espelho de trânsito convexo em primeiro plano, no centro-direito, reflete a fachada de forma distorcida, introduzindo um elemento moderno no contexto histórico.

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São Martinho: Do Soldado Romano ao Patrono da Generosidade e do Vinho Novo

A Igreja de São Martinho em Ervedosa (Vinhais) é um testemunho da profunda e antiga devoção portuguesa a este santo, cujo culto está intrinsecamente ligado à época do outono e à celebração do vinho novo.

A história de São Martinho de Tours, que se tornou um dos santos mais populares da Europa, explica a origem do famoso "Verão de São Martinho" e do ritual do Magusto.

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A Origem do Culto: O Manto e a Caridade

O culto a São Martinho (316–397 d.C.) tem origem numa lenda que se tornou um símbolo de generosidade e misericórdia cristã.

Segundo a história, Martinho era um jovem soldado romano na Gália.

Num dia de inverno rigoroso, encontrou um mendigo quase nu à porta da cidade de Amiens.

Sem ter nada para oferecer, Martinho cortou a sua capa militar (o manto) a meio com a espada e deu metade ao mendigo.

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Naquela noite, Martinho sonhou com Jesus, vestido com a metade do manto que havia dado.

Ao acordar, Martinho compreendeu que o ato de caridade era a sua verdadeira vocação, e a partir desse momento, dedicou a sua vida à fé.

Acabou por ser batizado e, mais tarde, nomeado Bispo de Tours, na França.

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O Milagre do Verão de São Martinho

O dia da sua celebração, 11 de novembro, marca um período de melhoria climática no outono europeu, conhecido em Portugal como o Verão de São Martinho.

A lenda diz que o milagre da capa (o corte e a entrega do manto) foi recompensado por Deus com três dias de sol e calor inesperados para aquecer o pobre mendigo.

Este período é esperado anualmente em Portugal e celebrado com alegria.

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O Magusto: Vinho Novo e Castanhas

A data de 11 de novembro coincide com o final das colheitas e o início da prova do vinho novo.

Assim, o culto a São Martinho ligou-se naturalmente ao ritual do Magusto, em que as famílias e comunidades se reúnem para assar castanhas na fogueira (em Trás-os-Montes, como em muitas outras regiões) e beber o vinho acabado de fazer ou a água-pé.

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A Igreja de São Martinho em Ervedosa, com a sua arquitetura de granito, representa este pilar da tradição: um local de fé que resiste ao tempo e que, todos os anos, se torna o centro espiritual de uma festa que celebra a bondade, a memória do santo e a renovação dos frutos da terra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
03
Nov25

Torre dos Clérigos - Porto - Portugal


Mário Silva Mário Silva

Torre dos Clérigos

Porto - Portugal

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A fotografia de Mário Silva retrata a icónica Torre dos Clérigos, um dos símbolos mais reconhecíveis da cidade do Porto.

A imagem é capturada de baixo para cima, o que enfatiza a monumentalidade e a altura da torre.

A luz é intensa e dourada, sugerindo o final da tarde, banhando a pedra de granito com um brilho quente que realça os pormenores arquitetónicos barrocos e rococós.

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A torre, de estilo barroco, domina o centro, com os seus vários registos de cantaria detalhada.

No primeiro plano, o enquadramento é feito por três oliveiras de copas volumosas e verde-douradas, que criam um contraste natural com a rigidez da pedra e o azul límpido do céu.

As copas das árvores, parcialmente iluminadas pelo sol poente, emolduram a base da torre e separam o monumento dos edifícios circundantes, visíveis à direita e à esquerda.

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A Torre dos Clérigos: O Farol Barroco que Define o Horizonte do Porto

A Torre dos Clérigos, em pleno coração da cidade do Porto, é muito mais do que um edifício alto; é o marco que define a identidade da cidade e um dos mais notáveis exemplos do Barroco e Rococó em Portugal.

A sua presença imponente, capturada com a dignidade da luz dourada na fotografia de Mário Silva, é um testemunho da ambição artística e da religiosidade do século XVIII.

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A Obra-Prima de Nicolau Nasoni

A torre é parte integrante do conjunto da Igreja dos Clérigos, mas ganhou vida própria.

Foi projetada pelo arquiteto italiano Nicolau Nasoni, que deixou uma marca indelével na arquitetura do Norte de Portugal.

Concluída por volta de 1763, a torre é uma obra-prima de engenharia e decoração.

Com os seus 75,6 metros de altura, foi, durante muito tempo, a construção mais alta do país.

A sua estrutura em granito, decorada com festões, balaustradas e urnas, demonstra a fluidez e a teatralidade do estilo barroco.

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O Símbolo da Cidade

A Torre dos Clérigos desempenhou um papel vital na vida do Porto.

A sua altura não era apenas para exibição; a torre servia como farol para os navios que entravam na barra do Douro, guiando os marinheiros, e também como um ponto de referência visual inconfundível para os viajantes.

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Hoje, ela mantém a sua função simbólica.

É o ponto de onde se tem uma das vistas mais espetaculares da cidade, do rio Douro e do oceano.

Subir os seus mais de 225 degraus é um ritual obrigatório para quem visita o Porto.

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A Torre na Cultura Portuense

A Torre dos Clérigos está profundamente enraizada na cultura popular portuense.

A sua imagem é imediatamente reconhecível e está ligada à resiliência e ao espírito bairrista da cidade.

Ela resistiu a séculos, a guerras, e ao progresso urbano, mantendo-se firme como um guardião de pedra.

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A fotografia, ao enquadrar a torre entre as oliveiras, sublinha a sua ligação à terra e à natureza, mostrando-a não apenas como um monumento histórico, mas como uma parte viva e pulsante do quotidiano da cidade.

A Torre dos Clérigos é, de facto, o farol que ilumina o património e a alma do Porto.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
26
Out25

Capela da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro - Fiães – Valpaços – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Capela da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

Fiães – Valpaços – Portugal

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A fotografia de Mário Silva, intitulada “Capela da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro" em Fiães, Valpaços, Portugal, capta uma cena de arquitetura religiosa e popular com uma tonalidade sépia e quente.

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O elemento central é a Capela, uma estrutura rústica, mas sólida, construída em cantaria de granito de cor ocre.

A fachada apresenta uma série de arcos arredondados (dois visíveis), que conduzem à entrada. O telhado é coberto por telha de barro avermelhada, que se destaca contra o céu esbranquiçado.

Na frontaria da capela, eleva-se uma pequena torre sineira ou campanário, também em granito, rematada por uma cruz.

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Em primeiro plano e à direita, destaca-se um cruzeiro ou padrão robusto, feito do mesmo granito, com uma cruz no topo.

À sua base, um vaso preto com flores rosadas e verdes adiciona um toque de cor e vida.

No lado esquerdo, nota-se uma construção mais moderna e simples, com paredes de blocos de cimento e um telhado de telha vermelha, que ladeia a capela, ilustrando o convívio entre o passado e o presente.

O chão é de terra batida e passeio de pedra.

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O Refúgio de Pedra e a Fé Diária: A Capela de Fiães

A Capela da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Fiães, Valpaços, não é apenas um edifício; é um santuário de resistência e devoção na paisagem transmontana.

A fotografia de Mário Silva capta a essência desta fé simples e profunda, onde o granito e a pedra não são apenas materiais de construção, mas guardiões de séculos de orações.

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A Arquitetura do Amparo

O que impressiona na Capela de Fiães é a sua sobriedade ancestral.

A cantaria de granito, robusta e ligeiramente desgastada pelo tempo, confere-lhe um ar de permanência inabalável.

As aberturas em arco de volta perfeita convidam o fiel ao recolhimento, sugerindo um abraço protetor.

O nome da padroeira, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, espelha-se perfeitamente na sua arquitetura: a capela é um refúgio constante numa terra de vida árdua.

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A pequena torre sineira não precisa de ser alta para ser importante.

O seu sino, por séculos, marcou o ritmo da vida na aldeia: o tempo da missa, o tempo do trabalho e o tempo da partida e do regresso.

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O Diálogo entre o Sagrado e o Comunitário

A imagem é rica em detalhes que unem o sagrado ao quotidiano.

O Cruzeiro no primeiro plano, com a sua cruz tosca de pedra, serve como um marco visual e espiritual para os que chegam, simbolizando a proteção de Cristo sobre a comunidade.

A presença das flores frescas na sua base é um sinal de que a devoção é viva e mantida com carinho pelos habitantes de Fiães.

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O contraste com a construção moderna à esquerda é eloquente.

A capela antiga não foi demolida nem substituída; foi integrada no tecido contemporâneo da aldeia.

Isto demonstra que, em Fiães, a história e a fé não são relíquias do passado, mas pilares ativos da vida presente.

O lar e o templo coexistem, sublinhando a forma como a fé está intrinsecamente ligada ao lar e à vizinhança na cultura transmontana.

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Perpétuo Socorro: A Fé Resiliente

Valpaços, tal como grande parte de Trás-os-Montes, é uma região que soube o que é a dificuldade, a emigração e o trabalho duro na terra.

A devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, cuja iconografia representa o auxílio constante e imediato, é particularmente significativa aqui.

A imagem da Virgem, mesmo que não visível na foto, é o centro do amparo.

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Esta capela, com a sua simplicidade de pedra, não celebra o luxo, mas a resiliência.

É o lugar onde as gentes de Fiães trazem as suas alegrias e, principalmente, as suas aflições, buscando a força para continuar.

É um monumento à esperança, construído não por grandes mestres, mas pelo esforço coletivo e pela fé inabalável de uma comunidade que sabe que, mesmo sob um céu por vezes cinzento, há um socorro que é, e sempre será, perpétuo.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
25
Out25

“A Fraga e o Castelo de Monforte de Rio Livre”


Mário Silva Mário Silva

“A Fraga e o Castelo de Monforte de Rio Livre”

Águas Frias - Chaves - Portugal

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A fotografia de Mário Silva, capturada em Águas Frias, Chaves, é uma composição que estabelece um forte diálogo entre o elemento natural e o construído.

Em primeiro plano, domina uma gigantesca fraga (rocha) de granito de tonalidade quente, amarelada pelo sol, ocupando o terço inferior e direito da imagem.

A sua superfície lisa e arredondada contrasta com a vegetação rasteira e arbustos em primeiro plano, alguns secos e escuros.

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O olhar é conduzido por esta rocha, subindo a paisagem, onde se encontra uma colina densamente arborizada com vegetação baixa e matagal.

No topo desta elevação, recortando-se contra um céu azul-claro e límpido, ergue-se o Castelo de Monforte de Rio Livre.

Apenas visível é a sua Torre de Menagem quadrada e robusta, um símbolo de resistência e vigilância, que domina o horizonte.

A luz do sol, possivelmente no meio-dia, ilumina a pedra do castelo e a fraga, criando um ambiente de sossego histórico e isolamento.

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A Vigília Silenciosa: História, Fraga e Horizonte em Monforte

O Castelo e a Fraga: Uma História de Oposição e Aliança

A imagem capturada por Mário Silva em Águas Frias não é apenas uma fotografia; é uma síntese visual da história de Trás-os-Montes.

A cena coloca em perspetiva dois protagonistas intemporais: a Fraga, símbolo da permanência geológica e da natureza indomável da região, e o Castelo de Monforte de Rio Livre, a marca do poder humano, da defesa e da civilização.

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Em Monforte, o castelo não foi erguido contra a natureza, mas em aliança com ela.

A posição do castelo no cume da colina, aproveitando o relevo para a sua defesa, reflete a sabedoria estratégica medieval.

É uma sentinela de pedra que, ao longo de séculos, vigiou as fronteiras, testemunhando batalhas e a consolidação do reino.

A sua Torre de Menagem, que se ergue altiva no horizonte, é o coração desta vigília, um símbolo de soberania que resistiu a ventos, invasões e ao esquecimento.

 

O Poder do Silêncio e da Perspetiva

O que torna esta imagem particularmente envolvente é o papel da Fraga em primeiro plano.

A sua massa monumental atua como um observador silencioso, quase um "guardião geológico" que impede uma visão desimpedida do castelo.

Esta fraga representa a ancestralidade e a força telúrica da terra que precede qualquer muralha humana.

Ela lembra-nos que, por mais imponente que seja o castelo, ele é apenas um ponto na imensidão do tempo e da geologia.

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Este elemento em primeiro plano cria uma profundidade notável.

Ao enquadrar o castelo através da fraga e da vegetação, o fotógrafo convida-nos a parar e a perscrutar, a sentir a distância — não só física, mas temporal — que nos separa da época em que o castelo era o centro vibrante da vida local.

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O Legado da Fronteira

O Castelo de Monforte de Rio Livre está intrinsecamente ligado à identidade de fronteira de Chaves e de toda a região transmontana.

Foi um baluarte crucial na defesa contra castelhanos, desempenhando um papel vital na Guerra da Restauração no século XVII.

A paisagem que o rodeia — a mata densa, os céus amplos e as colinas rochosas — é a mesma que viu os soldados portugueses guardarem os limites do reino.

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Hoje, o castelo é mais do que uma ruína; é um monumento à perseverança.

A sua silhueta no alto da colina, observada a partir da fraga de Águas Frias, convida à reflexão sobre a resiliência.

A natureza, representada pela rocha e pela vegetação, abraçou a estrutura, não para a consumir, mas para a integrar na paisagem.

A fortaleza de pedra e a fraga de granito permanecem lado a lado, como guardiões silenciosos, ensinando que a verdadeira força reside na capacidade de resistir ao tempo, seja pela pedra talhada ou pela pedra nascida da terra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
24
Jul25

Entrada da Fortaleza de Valença (Portugal) ... e uma estória histórica


Mário Silva Mário Silva

Entrada da Fortaleza de Valença (Portugal)

... e uma estória histórica

24Jul DSC04322_ms

A fotografia de Mário Silva, intitulada "Entrada da Fortaleza de Valença (Portugal)", apresenta um close-up impressionante de um dos portões de entrada desta notável fortificação.

A imagem foca-se na monumentalidade e na riqueza de detalhes arquitetónicos em pedra.

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Ao centro, domina um arco de volta perfeita, construído em blocos de granito bem aparelhados e envelhecidos, exibindo manchas claras de líquenes e musgo, testemunhos da passagem do tempo e da exposição aos elementos.

O túnel escuro por trás do arco sugere a profundidade das muralhas.

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Acima do arco, a estrutura é adornada com um brasão de armas esculpido em pedra, com uma coroa no topo e volutas barrocas que lhe conferem um ar solene e imponente.

Este brasão é ladeado por dois pináculos esféricos que repousam sobre pedestais, adicionando simetria e grandiosidade à composição.

Abaixo do brasão principal, um escudo menor com um desenho diferente também está esculpido.

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A estrutura de pedra do portão emerge de uma muralha robusta e irregular, feita de pedras de diferentes tamanhos, que se estende para os lados e para cima.

No topo da muralha, vislumbra-se alguma vegetação rasteira e erva seca, indicando que a fortaleza está inserida num ambiente natural.

A iluminação realça as texturas da pedra e a tridimensionalidade dos elementos esculpidos, conferindo à imagem uma atmosfera de história e imponência.

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A Estória Histórica: O Portal dos Dois Reinos

A Fortaleza de Valença, um colosso de pedra que se ergue orgulhosamente sobre o rio Minho, não é apenas um conjunto de muralhas; é um livro aberto da história, e a sua entrada principal, magnificamente captada na fotografia de Mário Silva, é a capa desse livro.

Erguida ao longo de séculos, esta fortaleza testemunhou inúmeras batalhas, tratados de paz e a passagem de gerações.

O brasão que coroa o portão, com as suas volutas barrocas e a sua imponência real, é mais do que um ornamento: é o símbolo de uma identidade forjada na fronteira.

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No século XVII, com a Restauração da Independência de Portugal, a Fortaleza de Valença assumiu um papel estratégico crucial.

O seu posicionamento fronteiriço com a Galiza, em Espanha, fez dela um bastião inexpugnável, um olho atento sobre o vizinho do lado.

O portão que vemos na fotografia, embora com remodelações posteriores, já era a principal boca da fortaleza, o ponto de passagem para comerciantes, soldados e espiões.

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Corria o ano de 1658, e a Guerra da Restauração arrastava-se.

Portugal, sob o domínio filipino por 60 anos, lutava para garantir a sua soberania.

Valença, por estar na linha da frente, era palco de constantes escaramuças e cercos.

As suas muralhas resistiram, mas a vida dentro delas era uma mistura de tensão e resiliência.

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O Governador de Valença, D. Gonçalo de Castelo Branco, um homem de ferro e fé, supervisionava pessoalmente a manutenção do portão.

Sabia que por ali passaria o destino da fortaleza.

O brasão, recentemente esculpido e ainda com o brilho da pedra nova, era uma lembrança constante da coroa portuguesa que defendiam.

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Uma manhã fria de inverno, um emissário espanhol, um fidalgo arrogante de nome Dom Rodrigo, apresentou-se no portão.

Trazia uma mensagem do General espanhol, que exigia a rendição imediata de Valença.

"Vossa Majestade Espanhola não tolerará mais esta insolência", terá dito Dom Rodrigo, com um desdém nos olhos que roçava a ofensa.

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  1. Gonçalo, que o esperava junto ao arco maciço, ouviu-o em silêncio, os seus olhos fixos no brasão real acima.

Quando Dom Rodrigo terminou, D. Gonçalo apontou para o escudo e para a coroa.

"Dizei ao vosso General, Dom Rodrigo, que este portão e estas pedras são a fronteira inexpugnável de um reino.

Enquanto este brasão erguer-se sobre nós, e enquanto houver um único soldado português dentro destas muralhas, Valença não se renderá. Passareis por este arco apenas com a nossa permissão e nunca como vitoriosos."

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Dom Rodrigo, furioso, virou costas.

Dias depois, as tropas espanholas tentaram um assalto, mas a Fortaleza de Valença, com o seu portão imponente e as suas muralhas robustas, resistiu bravamente, como sempre fizera.

 Os canhões trovejaram, as armas chocaram, mas o portão, guardado por bravos portugueses, nunca cedeu.

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A fotografia de Mário Silva, com a sua luz a incidir sobre a pedra gasta e o brasão orgulhoso, captura não só a arquitetura, mas o espírito daquele tempo.

É a porta para um passado de coragem e determinação, uma recordação de que cada fenda na pedra, cada mancha de líquen, conta uma história de resistência e de orgulho nacional.

É o portal onde Portugal se ergueu, pedra a pedra, face ao seu vizinho, um símbolo eterno da sua soberania e do seu povo inquebrantável.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
20
Jul25

Igreja de Nossa Senhora da Assunção – Tinhela (Valpaços – Portugal)


Mário Silva Mário Silva

Igreja de Nossa Senhora da Assunção

Tinhela (Valpaços – Portugal)

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Igreja de Nossa Senhora da Assunção" em Tinhela, Valpaços, Portugal, apresenta a fachada principal de uma igreja de características rurais, construída em blocos de granito de cor clara.

A igreja é um exemplo da arquitetura religiosa tradicional portuguesa.

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A fachada principal é dominada por um portal de entrada de madeira, pintado num tom alaranjado-avermelhado vibrante, que contrasta com a pedra clara.

Acima do portal, encontra-se uma pequena rosácea ou óculo circular, que serve como uma fonte de luz para o interior.

A fachada é coroada por uma sineira de dupla arcada, típica da região, onde se podem observar dois sinos pendurados.

No topo da sineira, uma cruz latina remata a estrutura, simbolizando a fé cristã.

Pequenos pináculos decorativos adornam as extremidades superiores da fachada.

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Em frente à igreja, um largo pavimentado com lajes de pedra estende-se, e ao centro, um tapete de flores coloridas (vermelhas, brancas, amarelas e verdes) forma um caminho que se dirige à entrada da igreja, sugerindo a celebração da festividade religiosa, como o Corpus Christi.

Ao fundo, para além da igreja, vislumbram-se construções rústicas com telhados de telha, integrando a igreja no ambiente da aldeia.

O céu é azul com nuvens brancas, e um pássaro solitário pode ser visto a voar à direita da sineira, adicionando um elemento dinâmico à cena.

A imagem transmite uma sensação de tradição, fé e celebração comunitária.

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A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Tinhela, Valpaços, é um exemplar notável de arquitetura religiosa que, apesar da sua aparente simplicidade, incorpora elementos do período maneirista, embora com uma base de planimetria tradicional portuguesa.

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A igreja segue a organização espacial comum na arquitetura religiosa portuguesa, caracterizada por uma nave única e uma capela-mor mais estreita, mas da mesma altura da nave.

Esta configuração linear e hierárquica é uma herança das tipologias medievais e românicas, que persistiram e foram adaptadas ao longo dos séculos.

A simplicidade na planimetria reflete a funcionalidade e, muitas vezes, a economia de recursos, comum em contextos rurais.

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A nave única proporciona um espaço congregacional unificado, favorecendo a audição e a participação dos fiéis.

A capela-mor, mais estreita e com a mesma altura, cria uma transição suave e uma sensação de continuidade entre o espaço dos fiéis e o espaço sagrado do altar-mor.

Esta disposição, embora tradicional, permite no Maneirismo uma exploração da perspetiva e da profundidade, mesmo que de forma contida.

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A menção de tetos de madeira no interior é um elemento comum na arquitetura religiosa popular e maneirista portuguesa.

A madeira, material abundante na região, oferece não só uma solução construtiva prática e económica, mas também contribui para uma acústica mais suave e para um ambiente interior mais acolhedor e menos austero do que as abóbadas de pedra.

Os tetos de madeira poderiam ser em forma de caixotões, ou mais simples, em forma de quilha de barco, ou abobadados, por vezes pintados ou decorados, adicionando um toque artístico ao interior.

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A iluminação interior é um aspeto crucial na arquitetura religiosa.

Na Igreja de Tinhela, a luz provém do vão axial (o óculo circular acima do portal principal, visível na fotografia) e de vãos laterais.

Esta estratégia de iluminação é típica, permitindo que a luz natural realce o altar-mor e crie um ambiente de recolhimento.

No Maneirismo, a luz era frequentemente manipulada para criar efeitos dramáticos e enfatizar certos pontos focais, mesmo em igrejas modestas.

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A presença de uma sacristia adossada à fachada lateral direita é uma adição funcional padrão em muitas igrejas.

A sacristia serve como espaço de preparação para as cerimónias e para guardar os paramentos e utensílios litúrgicos.

A sua localização lateral é prática e comum, integrando-se discretamente na volumetria geral do edifício.

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Embora a imagem da fachada principal apresente uma simplicidade rural, os elementos maneiristas podem ser subtis.

O Maneirismo, como transição entre o Renascimento e o Barroco, tendia a uma maior sobriedade e a uma busca por uma beleza "culta" e por vezes mais tensa.

Na Igreja de Tinhela, os elementos como o óculo redondo, a composição da sineira e a forma como a pedra é trabalhada (sem excesso de ornamentação, mas com precisão) podem refletir uma influência maneirista na proporção e na geometria.

A robustez da pedra e a aparente ausência de ornamentos barrocos exuberantes reforçam esta característica.

A solidez e a volumetria cúbica do corpo da igreja, com o contraste da sineira mais leve, também podem ser interpretadas sob uma ótica maneirista de busca de equilíbrios e contrastes formais.

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Em suma, a Igreja de Nossa Senhora da Assunção em Tinhela é um belo exemplo de como a arquitetura maneirista se manifestou em contextos rurais portugueses, adaptando as suas premissas de sobriedade formal e busca de proporção a uma planimetria tradicional e aos materiais locais, resultando num edifício de grande dignidade e beleza intemporal.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
09
Jul25

"O casinhoto na fraga"


Mário Silva Mário Silva

"O casinhoto na fraga"

09Jul DSC08407_ms

No coração do Alto Tâmega, onde a história se entrelaça com a paisagem granítica, em Águas Frias, nas terras de Chaves, existia um lugar que parecia ter parado no tempo.

Não era uma casa imponente, nem uma ruína grandiosa, mas sim um modesto casinhoto na fraga, um abrigo nascido da própria pedra, da resiliência de um povo e da sabedoria de gerações.

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As fragas, enormes blocos de granito arredondados pela ação do tempo e dos elementos, dominavam a paisagem.

Algumas pareciam gigantes adormecidos, outras guardiões silenciosos.

E foi entre duas dessas fragas monumentais que o casinhoto encontrou o seu refúgio.

Não foi construído, mas sim encaixado, aproveitando a cavidade natural que o granito oferecia.

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As paredes laterais eram as próprias rochas nuas, frias no inverno e frescas no verão.

A entrada, baixa e retangular, era delimitada por pedras mais pequenas, empilhadas com mestria, sem argamassa aparente, como se tivessem sido colocadas ali por mãos que conheciam os segredos da pedra.

Sobre a abertura, um lintel robusto de granito apoiava a estrutura do telhado.

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E o telhado!

Era a parte mais humana do casinhoto, uma calha de telhas de barro, velhas e escuras, cobertas por uma patina de musgo e líquen que lhes dava uma cor terrosa, quase igual à da própria rocha.

Dispostas em filas ordenadas, as telhas curvadas pareciam as escamas de um animal antigo, protegendo o interior das intempéries.

Havia um toque de improviso, de engenho, na forma como se apoiavam sobre algumas travessas de madeira, já escurecidas pelo sol e pela chuva.

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À volta do casinhoto, a natureza reivindicava o seu espaço.

Ervas altas e secas, com as suas sementes prontas para a próxima estação, balançavam suavemente com a brisa, desenhando sombras alongadas na entrada escura.

Alguns arbustos e árvores pequenas, adaptados à aridez e à presença da rocha, espreitavam por trás das fragas, os seus verdes um contraste vivo com o cinzento do granito.

No topo da fraga maior, quase a coroá-la, um carvalho teimava em crescer, as suas folhas a murmurar segredos ao vento.

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Quem o teria construído? E para quê?

Seria um abrigo para pastores, que por ali levavam os seus rebanhos em tempos passados?

Um esconderijo para caçadores, que aguardavam a sua presa na solidão do monte?

Ou talvez, um lugar de repouso para os agricultores que trabalhavam a terra árida e pedregosa de Águas Frias, procurando refúgio do sol a pino ou da chuva inesperada?

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A entrada escura do casinhoto convidava à imaginação.

O que haveria lá dentro?

Ferramentas antigas?

Um leito de palha?

Ou estaria vazio, à espera de um novo visitante, de uma nova história para contar?

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Para Mário Silva, o fotógrafo, este casinhoto não era apenas um aglomerado de pedras e telhas.

Era um testemunho silencioso da vida rural portuguesa,foto da capacidade do homem de se adaptar e de coexistir com a natureza mais selvagem.

Era um portal para um passado não tão distante, um sussurro de memórias de trabalho árduo, de simplicidade e de uma profunda ligação à terra.

E ali, na imensidão das fragas de Águas Frias, o pequeno casinhoto continuava a resistir, guardando os seus segredos, um pedaço intemporal da alma transmontana.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
24
Fev25

"Se as pedras falassem..."


Mário Silva Mário Silva

"Se as pedras falassem..."

24Fev DSC01568_ms

A fotografia de Mário Silva, intitulada "Se as pedras falassem...", captura a essência da arquitetura rural transmontana, com foco numa casa de pedra.

A imagem apresenta uma fachada de granito, com uma pequena janela e uma porta de madeira, coberta por um telhado de telha.

A casa está parcialmente escondida por uma sebe, que se entrelaça nas pedras e confere à imagem um ar de mistério e abandono.

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A composição da fotografia é vertical, com a casa ocupando a maior parte da imagem.

A perspetiva adotada permite apreciar a textura da pedra e a volumetria da construção.

A linha diagonal da sebe conduz o olhar do espectador para o interior da imagem, convidando-o a explorar os detalhes da fachada.

A luz natural incide sobre a fachada da casa, criando sombras que acentuam a textura da pedra e a irregularidade das paredes.

A combinação de luz e sombra confere à imagem uma atmosfera de nostalgia e de tempo passado.

A paleta de cores é marcada pela sobriedade dos tons de cinza, castanho e verde, que evocam a sensação de rusticidade e de enraizamento no solo.

A casa de pedra, com as suas paredes grossas e a sua porta de madeira, é um símbolo de resistência e de tradição.

A vegetação que cresce nas paredes e no telhado representa o ciclo da vida e a força da natureza.

O título da fotografia, "Se as pedras falassem...", convida o observador a imaginar a história da casa e das pessoas que a habitaram.

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As casas de granito são um elemento característico da arquitetura rural transmontana.

Estas construções, com as suas paredes grossas e resistentes, foram erguidas com o objetivo de proteger os seus habitantes das intempéries e de garantir a sua segurança.

O granito, uma rocha abundante na região, era o material de construção mais utilizado, devido à sua durabilidade e resistência.

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A preservação do património construído, como as casas de pedra de Águas Frias, é fundamental para a salvaguarda da identidade cultural de uma região.

Estas construções são testemunhas da história e da forma de vida das comunidades locais, e a sua destruição representaria uma perda irreparável para o património nacional.

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Em resumo, a fotografia "Se as pedras falassem..." de Mário Silva é uma obra que nos convida a refletir sobre a importância do património construído e sobre a necessidade de preservar as nossas raízes.

A imagem, com a sua beleza simples e a sua carga simbólica, é um testemunho da sabedoria ancestral e da capacidade do homem de se adaptar ao meio ambiente.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

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