"A lenha esperando o Novo Ano"
Mário Silva Mário Silva
"A lenha esperando o Novo Ano"

A Espera da Chama Nova
O carrinho verde está parado, mas não inativo.
Não é um abandono, é uma pausa sagrada.
Carrega sobre si o peso de Outono e o cheiro a suor e a serra.
Na sua concavidade metálica, a lenha repousa: toros de carvalho e castanheiro, cada um com a sua história, cada um com dias de sol condensado em fibra e casca.
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A lenha espera o Novo Ano.
E esta espera é uma virtude silenciosa.
Não espera pelo fogo, pois sabe que o fogo virá; o seu destino é a chama, o seu propósito é o calor.
A lenha, com a sua paciência ancestral, aguarda a noite em que o frio é mais exigente, a noite em que o velho se despede e o novo irrompe.
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Olhamos para o caminho que sobe, esbatido na relva, e percebemos que a espera da lenha é a espera do Homem.
Passámos o ano a caminhar, a carregar o fardo, a acumular memórias (a nossa "lenha").
Agora, à porta de janeiro, o trabalho parou.
O carrinho de mão está em descanso merecido.
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A lenha, na sua imobilidade, sabe que o Novo Ano será aceso por ela.
Serão as suas brasas que nos aquecerão os pés gelados na madrugada da promessa.
Será o seu crepitar que abafará o silêncio pesado da mudança.
Ela é a guardiã da transição: o calor que honra o que passou e a faísca que saúda o que está para vir.
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E assim, entre o chão húmido e as rodas paradas, a lenha dorme, sonhando com o fulgor do dia em que se tornará a primeira fogueira de 2026, acendendo o primeiro alento e a primeira esperança de uma nova volta ao sol.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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