“O pardalito curioso” ... e uma fábula
Mário Silva Mário Silva
“O pardalito curioso”

A fotografia de Mário Silva capta o momento em que um pequeno pardal (Passer domesticus), com as penas em tons de castanho e cinzento, espreita entre as folhas de um arbusto, louro-cerejeiro (Prunus laurocerasus).
As folhas, grandes e verdes, enquadram a ave, que se destaca no centro da imagem.
O fundo é desfocado em tons de castanho e laranja, o que realça o foco no pardal.
A luz suave e a composição simples da fotografia conferem uma sensação de intimidade e tranquilidade.
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Fábula: O Pardalito Curioso e o Mundo
Num jardim, vivia um pequeno pardal chamado Pipico.
Ao contrário dos seus irmãos, que passavam os dias a voar e a cantar, Pipico era um pardalito muito curioso.
Ele passava o seu tempo a observar o mundo.
Ele espreitava por entre as folhas do louro-cerejeiro, a árvore que era a sua casa.
A fotografia de Mário Silva capta o seu espírito curioso.
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Um dia, a sua mãe, a velha Pardala, voou até ele.
- Pipico - disse ela - porque não voas com os teus irmãos? Porque passas o teu tempo a espreitar?
Pipico, sem se mover, respondeu:
- Mãe, eu quero saber. Eu quero saber o que é a vida. Quero saber o que há para além do meu jardim.
A mãe, com um sorriso, disse-lhe:
- Pipico, a vida não se encontra a espreitar, mas a viver. O mundo não se encontra a observar, mas a voar.
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Mas Pipico não a ouviu.
Ele continuou a espreitar.
Ele viu a joaninha a caminhar pela folha, a formiga a transportar um pedaço de pão, o caracol a deixar a sua trilha de prata.
Ele viu a vida a acontecer, a mover-se.
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Um dia, um velho gavião, um Gavião que tinha visto o mundo inteiro, pousou no ramo ao lado.
Pipico, que tinha medo dos Gaviões, tremeu, mas a sua curiosidade era maior que o seu medo.
- Ó, Gavião - disse ele - o que é o mundo?
O Gavião, que tinha visto a guerra, a fome e a dor, sorriu.
- O mundo, pequeno pardal, é um lugar assustador. Mas também é um lugar de amor, de paz e de beleza.
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Pipico, que só tinha visto o lado bonito do mundo, ficou confuso.
- Mas como pode ser? - perguntou ele.
O Gavião, que tinha visto o que Pipico não podia ver, disse-lhe:
- O mundo, pequeno pardal, não é o que se vê, mas o que se sente. A vida não é o que se encontra, mas o que se vive. Voa, pequeno pardal, voa. Vive o mundo, não o observes.
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Pipico, com o coração a bater, olhou para os seus irmãos a voar e a cantar.
E, naquele instante, ele soube.
Ele abriu as suas asas e voou.
Ele não tinha medo.
Ele sentiu o sol na sua pele, o vento nas suas penas, a liberdade no seu coração.
E ele soube, naquele instante, que a vida não é uma coisa que se procura, mas uma coisa que se vive.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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