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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

15
Nov25

"Ufff... um gato preto" ... e uma estória


Mário Silva Mário Silva

"Ufff... um gato preto" ... e uma estória

15Nov DSC02658_ms

A fotografia de Mário Silva é um retrato de um felino, capturado num enquadramento rústico.

A imagem foca-se num gato preto de pelo denso e lustroso, que está enrolado e confortavelmente aninhado na abertura de uma janela ou nicho em pedra rústica.

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O gato está em repouso, com os olhos parcialmente fechados, parecendo ligeiramente ensonado ou incomodado pela luz que entra.

A sua cor negra contrasta drasticamente com a escuridão total do interior do nicho e com a pedra clara e trabalhada da moldura da janela, que é banhada pela luz solar.

O enquadramento em pedra é grosso e antigo, realçando as texturas e o contraste entre o animal e o ambiente.

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Ufff... Um Gato Preto. A Estória do "Porteiro" Faustino

O título da fotografia, "Ufff... um gato preto", sugere um misto de alívio e talvez uma pitada de superstição bem-humorada.

E é exatamente isso que Faustino, o gato em questão, causa na pequena aldeia de Favas do Tempo.

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Faustino não era apenas um gato; era o Porteiro Não Oficial da Rua da Amargura (assim chamada por ser a mais íngreme).

E tinha a mais importante das funções: sentar-se na janela da velha casa de granito, a de Dona Piedade, e julgar quem passava.

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O seu pelo era tão negro que, quando se aninhava na sombra da sua alcova de pedra, como na fotografia, era virtualmente invisível.

Isto causava uma série de pequenos sustos matinais.

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Um dia, o Sr. Custódio, o padeiro, vinha a subir a rua carregando a primeira fornada de broas de milho.

O sol tinha acabado de bater na janela e, ao ver a silhueta negra imóvel, o padeiro parou a meio do passo.

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"Ufff... um gato preto," sussurrou Custódio, fazendo o sinal da cruz. "Que o azar não me vire as broas."

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Faustino, que estava apenas a tentar desfrutar do seu sono da manhã, abriu um olho dourado, deu um miar de preguiça — um som que mais parecia um "deixa-me em paz" profundo — e virou a cabeça para o sol.

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Custódio, aliviado por o "mau presságio" não ter fugido (sinal de que não era assim tão mau, pensou ele), sorriu.

"Ah, Faustino! Bom dia! Pensei que me tinhas pregado um susto, bicho do Demo. Anda cá, toma uma fatia de salpicão, para abençoar o dia."

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E foi assim que Faustino não só se tornou o felino mais bem-alimentado da aldeia (aceitando o salpicão como compensação pelo esforço de não lhes dar azar), como também o principal motivo de suspiros e exclamações matinais.

O "Ufff... um gato preto" deixou de ser um prenúncio e passou a ser o cumprimento não oficial de Favas do Tempo.

E Faustino, o seu guardião ensonado, continuava a dominar a sua escuridão de granito, aceitando a sua importância cómica com a dignidade que só um gato preto pode ter.

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Estória & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Out25

“Cavalo de crinas doiradas”


Mário Silva Mário Silva

“Cavalo de crinas doiradas”

11Out DSC05887_ms

A fotografia de Mário Silva retrata um cavalo de crinas doiradas num campo verdejante.

O animal, que é um pónei, com a sua pelagem castanho-clara, está de perfil, com as crinas e a cauda num tom loiro brilhante, destacando-se intensamente contra o fundo.

A iluminação dourada e intensa do sol da tarde ilumina o animal e a erva amarelada à sua volta, fazendo com que as suas crinas e cauda pareçam quase a brilhar.

O enquadramento é amplo, mostrando o animal no seu ambiente natural, com árvores e um campo ao fundo.

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Estória: O Cavalo das Crinas de Ouro

Num vale escondido entre as colinas de Trás-os-Montes, vivia um pónei.

Não era um pónei como os outros.

As suas crinas e a sua cauda eram de um tom loiro tão claro que pareciam ter sido tecidas com fios de sol.

As crianças da aldeia, encantadas, chamavam-lhe o Cavalo das Crinas de Ouro.

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O cavalo, embora pequeno, tinha uma grande missão.

Ele era o guardião do segredo da luz.

Todas as manhãs, quando o sol nascia, ele corria pelo campo, as suas crinas a brilhar ao vento, e, com um bater de cascos, trazia a luz para a terra.

Ao entardecer, ele parava no campo, a sua pelagem a misturar-se com a cor da terra, e as suas crinas, como fios de ouro, guardavam os últimos raios do sol antes que a noite chegasse.

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Uma vez, um pintor da cidade visitou a aldeia.

Ficou fascinado com o Cavalo das Crinas de Ouro.

Tentou pintá-lo, mas a beleza do animal era tão etérea que as tintas do seu pincel pareciam pálidas.

O pintor percebeu então que a beleza do cavalo não estava na sua forma, mas na sua alma.

Era a sua pureza e a sua conexão com a natureza que o tornavam especial.

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A fotografia de Mário Silva capturou um desses momentos.

Não apenas a imagem de um cavalo, mas a essência do seu espírito.

O Cavalo das Crinas de Ouro, com o seu olhar sereno e as suas crinas a brilhar, era a prova viva de que a beleza está na natureza e que a luz do sol é um dom que devemos sempre proteger.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
02
Out25

“A palmeira na rua Cimo de Vila” - Águas Frias - Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

“A palmeira na rua Cimo de Vila”

Águas Frias - Chaves - Portugal

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A fotografia de Mário Silva retrata uma cena bucólica numa rua de uma aldeia portuguesa, com uma luz dourada de fim de tarde.

Em primeiro plano, uma palmeira imponente estende as suas frondes sobre uma casa com um telhado vermelho e paredes de cor creme.

Um muro baixo de pedra e um arbusto verde frondoso separam a casa da rua de cimento.

A rua, em curva, conduz o olhar para o fundo da imagem, onde é possível vislumbrar as colinas e o céu.

A iluminação suave realça a textura das paredes, o verde das plantas e o ambiente de tranquilidade rural.

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O Segredo da Palmeira Centenária

A pequena rua de Cimo de Vila, na aldeia de Águas Frias, era um lugar de poucas novidades e muitas histórias.

Mas de todas as histórias, a mais falada era a da palmeira que se erguia à porta da casa de Dona Laida.

Diziam que aquela palmeira era a mais velha da aldeia, plantada por um marinheiro que tinha regressado das colónias há mais de cem anos.

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Dona Laida, uma mulher de sorrisos discretos e olhos azuis, vivia naquela casa há quase toda a sua vida.

A palmeira era a sua companheira, a sua guardiã.

O seu “telhado” de folhas era como um chapéu de sol, e a sua sombra, no verão, era um bálsamo para o calor.

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Mas o que ninguém sabia, exceto Dona Laida, era o segredo daquela árvore.

A palmeira, à medida que envelhecia, tinha adquirido a estranha capacidade de guardar as memórias das pessoas que passavam por ali.

As histórias dos namorados que deram as mãos, os risos das crianças que correram pela rua, as confidências dos vizinhos que se encontraram no fim do dia — tudo ficava lá, nas suas folhas verdes.

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Dona Laida, nos seus fins de tarde, sentava-se na varanda e ouvia a palmeira.

Não com os ouvidos, mas com o coração.

As memórias sussurravam nas frondes, um eco de todas as vidas que a palmeira tinha testemunhado.

Ouvia a canção de embalar que a sua mãe lhe cantava, o primeiro “olá” que o seu marido lhe deu, as promessas de futuro que a sua filha lhe fazia.

A palmeira era a sua arca do tesouro, o seu diário vivo, o seu elo com o passado.

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A fotografia de Mário Silva, com a sua luz suave e dourada, capturou um desses momentos.

Não apenas a beleza da casa e da árvore, mas a história silenciosa que ali se guardava.

A palmeira, naquele instante, era um farol de memórias, um testemunho vivo de todas as vidas que se tinham cruzado sob a sua sombra protetora.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
25
Set25

“Fonte de mergulho” - Oucidres - Planalto de Monforte – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Fonte de mergulho”

Oucidres - Planalto de Monforte – Chaves – Portugal

25Set DSC03651_ms

A fotografia de Mário Silva, “Fonte de mergulho” (Oucidres, Planalto de Monforte, Chaves, Portugal), mostra uma pequena estrutura de pedra antiga, que é um abrigo para uma fonte.

A estrutura, feita de pedras rústicas e musgosas, tem um telhado de duas águas e uma abertura arqueada na frente.

Há uma grade de ferro enferrujada à sua frente, que impede o acesso ao interior escuro.

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Por trás da estrutura, ergue-se um muro alto de pedras irregulares, coberto de vegetação rasteira.

O solo em frente é de terra batida, com algumas ervas e pedras soltas.

A imagem tem uma tonalidade sépia, que realça a antiguidade e a história do local.

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Estória: Uma fonte de amor

Alonso era um homem de poucas palavras, mas de um coração imenso.

Todos os dias, passava pela Fonte de Mergulho a caminho do campo.

A fonte era um local antigo e misterioso, um portal para memórias de uma Chaves que já não existia.

Alonso nunca parava para a admirar, mas a sua alma gravava-lhe cada pormenor: as pedras musgosas, a grade de ferro que a protegia, a entrada escura que guardava os segredos de gerações.

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Até que um dia, a sua rotina foi interrompida.

Uma jovem, com um vestido florido e os cabelos ao vento, estava sentada no muro de pedra, a desenhar a fonte num pequeno caderno.

Alonso, que sempre se sentira invisível, sentiu o seu coração a bater com força.

Ele parou, indeciso, mas ela, com um sorriso, olhou para ele e disse:

- Não se preocupe, não estou a roubar o seu caminho.

Alonso, envergonhado, apenas murmurou um “Não, de todo”, e seguiu em frente.

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Nos dias que se seguiram, Alonso esperou por ela, a caminho do campo.

E ela estava sempre lá.

Primeiro, apenas se cumprimentavam.

Depois, começaram a trocar breves palavras.

Ela chamava-se Clara, e era uma artista de Lisboa que se apaixonou pela calma da região.

A fonte de mergulho era a sua musa, um símbolo do amor que ela queria expressar na sua arte.

Alonso, tímido, escutava as suas palavras com atenção, descobrindo um mundo novo, de cores e emoções.

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Um dia, choveu.

Alonso abrigou-se sob a fonte, para evitar a intempérie.

Clara juntou-se a ele, e o pequeno espaço, protegido pela pedra e pelo tempo, tornou-se o seu refúgio.

Foi ali, naquele abrigo antigo e seguro, que Alonso e Clara se apaixonaram.

A fonte de mergulho, que antes guardava os segredos de gerações, guardava agora a história de um amor que florescia, um amor tão puro e eterno quanto a água que um dia a fonte guardou.

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Anos mais tarde, Alonso e Clara, casados, passavam pela fonte de mergulho, de mãos dadas.

Clara, com um sorriso, disse-lhe:

- Lembras-te? Foi aqui que tudo começou.

Alonso, com o coração cheio de ternura, respondeu:

- Sempre que te vejo, sinto que voltei a encontrar-me de novo.

E ali, debaixo daquele muro de pedra, a fonte de mergulho testemunhou mais um momento de amor, um amor que se tornara tão forte e eterno quanto a própria pedra.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
23
Set25

“O banho do passarito”


Mário Silva Mário Silva

“O banho do passarito”

23Set DSC04323_ms

Esta fotografia, capturada por Mário Silva, retrata um adorável pássaro pequeno, provavelmente um pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula), num momento de puro deleite aquático.

O passarito, com o seu peito laranja-avermelhado e penas castanhas ligeiramente eriçadas pela humidade, está imerso numa poça rasa de água cristalina, cercado por solo húmido e pedras irregulares.

Folhas verdes e frescas emolduram a cena, contrastando com a terra castanha e a água reflexiva que captura tons dourados da luz ambiente.

O pássaro olha diretamente para a câmara com olhos curiosos e brilhantes, a sua plumagem molhada e fofa sugerindo um banho revigorante após uma manhã de explorações.

A composição é íntima e serena, destacando a inocência e a vitalidade da natureza num instante congelado.

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Estória: A Aventura do Pequeno Banho

Numa clareira escondida no coração de uma floresta portuguesa, onde o sol da manhã filtrava através das folhas dançantes, vivia um jovem pisco-de-peito-ruivo chamado Tito.

Com apenas algumas semanas de vida, Tito era um explorador incansável, pulando de galho em galho em busca de insetos reluzentes e bagas suculentas.

Mas naquela manhã de outono, após uma perseguição animada a uma borboleta travessa que o levou através de arbustos espinhosos e riachos murmurantes, Tito viu-se coberto de poeira e folhas secas.

As suas penas, outrora vibrantes, agora pareciam um manto empoeirado, e ele sentia um peso invisível nas suas asas.

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Ofegante e sedento, Tito avistou uma poça mágica – uma pequena lagoa formada pela chuva noturna, rodeada por pedras lisas e musgos verdes que sussurravam segredos antigos.

Sem hesitar, ele aproximou-se, com os seus olhinhos castanhos brilhando de excitação.

Com um pulinho ousado, mergulhou na água fresca, sentindo o choque revigorante contra a sua pele.

As gotas salpicavam ao seu redor como diamantes voadores, limpando a sujidade da aventura e revelando novamente o peito laranja flamejante que o tornava o orgulho da sua família.

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Enquanto se banhava, Tito imaginou-se como um grande navegador dos céus, conquistando oceanos de folhas e montanhas de troncos caídos.

Ele batia as asas com vigor, criando ondas minúsculas que dançavam na superfície, e cantava uma melodia alegre que ecoava pela clareira, atraindo borboletas curiosas e esquilos admirados.

De repente, um raio de sol tocou a poça, transformando a água num espelho dourado, e Tito sentiu-se invencível – pronto para voar mais alto, explorar mais longe.

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Mas o perigo espreitava!

Um corvo mal-humorado, atraído pelo barulho, pairava nas sombras, com os seus olhos famintos fixos no pequeno banhista.

Com o coração acelerado, Tito emergiu da poça, as suas penas agora limpas e secas pelo vento suave.

Com um último olhar desafiador para o intruso, ele abriu as asas e alçou voo, deixando para trás apenas um rastro de gotas brilhantes e a promessa de novas aventuras.

Naquele banho simples, Tito não só se purificou, mas descobriu a coragem que o levaria a horizontes inexplorados, provando que até os menores atos de alegria podem impulsionar grandes jornadas.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
22
Set25

“Rio Tuela” – Torre de Dona Chama - Mirandela - Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Rio Tuela”

Torre de Dona Chama - Mirandela - Portugal

22Set  DSC04175_ms

Esta fotografia de Mário Silva retrata o Rio Tuela, com as suas margens densamente arborizadas.

A imagem, com o seu reflexo na água, evoca a serenidade do rio e a beleza da paisagem.

O rio, com a sua água escura e calma, flui entre as margens.

A luz do sol, que incide sobre a vegetação, cria um efeito de brilho e de sombra.

A fotografia, com a sua luz e a sua cor, é um retrato da beleza natural de Portugal.

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Estória: O Sussurro do Rio

O Rio Tuela, com as suas águas escuras e profundas, era o guardião de segredos.

Ao longo dos anos, ele tinha ouvido as estórias dos amantes, os lamentos dos solitários e as promessas dos viajantes.

A sua vida era um conto de silêncio e de murmúrio, com o seu nome a ser ecoado por cada folha, por cada pedra e por cada ave.

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Uma manhã, o rio, com as suas águas calmas, ouviu o lamento de uma jovem.

O nome dela era Estrelinha, e a sua vida era um conto de dor e de saudade.

Ela tinha perdido o seu amor, e o seu coração, como o rio, tinha-se tornado um túmulo para as suas memórias.

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O rio, com a sua voz calma, sussurrou-lhe a estória do tempo.

- O tempo - disse ele - não para. As águas do rio, como as nossas lágrimas, vão para o mar. Mas as nossas memórias, como as pedras do rio, ficam para sempre.

Estrelinha, que tinha ouvido o lamento do rio, sentou-se na margem.

O sol, com os seus raios, incidiu sobre o rio e sobre as folhas.

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Estrelinha, com a sua mão, tocou na água.

A sua dor, que era como uma tempestade, começou a dissipar-se.

O rio, com o seu murmúrio, disse-lhe:

- Não te esqueças de mim. A tua estória está no meu coração, e eu, como o teu amor, vou estar sempre contigo.

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A fotografia de Mário Silva é um retrato do encontro entre a natureza e a alma humana.

O rio Tuela não é apenas um curso de água, mas um espelho da nossa alma.

O seu poder, o seu silêncio e a sua beleza são uma lembrança de que, mesmo na nossa solidão, a natureza tem o poder de nos confortar e de nos curar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
17
Set25

“Riacho” - Nuzedo de Baixo - Vale das Fontes – Vinhais – Bragança – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Riacho”

Nuzedo de Baixo - Vale das Fontes –

Vinhais – Bragança – Portugal

15Set DSC03812_ms

A fotografia "Riacho" de Mário Silva retrata um pequeno curso de água.

A água, límpida e calma, reflete as árvores e a vegetação das margens.

A margem do riacho é coberta de ervas altas, juncos e pedras, com algumas árvores e arbustos.

No fundo, vislumbra-se uma ponte rústica e um pequeno edifício.

A luz do sol da tarde ilumina a cena, criando um ambiente tranquilo e sereno.

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Estória Lírica: A Canção das Águas

Em Nuzedo de Baixo, a vida corria ao ritmo do riacho.

As suas águas não eram apenas um recurso; eram uma canção, uma melodia que embalava a vida da aldeia.

A fotografia de Mário Silva capturou a sua essência, a sua alma.

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O riacho era o coração da paisagem, o seu espelho.

As águas calmas, com os seus reflexos, pareciam contar histórias de um mundo que Mário Silva capturou com a sua lente.

Histórias de sol, de vento, de chuva, de vida.

As ervas altas nas margens eram as suas notas, o murmúrio da água era a sua melodia.

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A ponte, que se vislumbra ao fundo, era o seu verso, a sua promessa de que a vida continua, que a água encontra sempre o seu caminho.

A fotografia de Mário Silva era um lembrete de que a vida é um ciclo.

Que o riacho, que nasce na montanha e corre para o mar, é a vida, que nasce na infância e corre para a eternidade.

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A cada pedra no riacho, a cada folha que caía na água, a canção mudava, mas a melodia permanecia.

Era a canção da natureza, a canção da vida.

Era uma canção de paz, de esperança, de amor.

Uma canção que nos ensinava que a vida, tal como a água, deve ser vivida com serenidade, com calma, com amor.

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A fotografia de Mário Silva era uma ode a esta canção.

Era uma melodia visual, um poema pintado com luz e cor.

Era uma lembrança de que a beleza da vida não está nas coisas grandes, mas nas pequenas.

No brilho do sol na água, na calma do riacho, na serenidade da paisagem.

E que a nossa missão, tal como a do riacho, é correr para a frente, mas com um coração em paz.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
13
Set25

Ponte junto à Fonte dos Namorados - Faiões – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Ponte junto à Fonte dos Namorados

Faiões – Chaves – Portugal

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A fotografia "Ponte junto à Fonte dos Namorados" de Mário Silva retrata uma pequena ponte de pedra com um arco, por baixo da qual corre um riacho.

A estrutura, de cantaria, parece antiga e rústica.

O riacho, com águas calmas, reflete as árvores e a ponte, e as suas margens são de terra batida e vegetação.

A luz do sol da tarde incide sobre a paisagem, criando sombras e reflexos dourados na água.

A imagem transmite uma sensação de tranquilidade e de história.

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Estória: O Segredo da Ponte dos Namorados

Em Faiões, uma pequena aldeia no norte de Portugal, havia uma ponte que não era apenas uma passagem, mas um portal para o coração.

A aldeia chamava-lhe "A Ponte dos Namorados", e a sua lenda era tão antiga como as suas pedras.

A fotografia de Mário Silva capturou a sua beleza e o seu mistério.

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A lenda dizia que a ponte tinha sido construída por um amor proibido.

Uma princesa e um pastor tinham-se apaixonado, mas o pai dela, um rei cruel, tinha-lhes proibido o casamento.

O rei ordenou que a princesa fosse trancada numa torre e que o pastor fosse expulso do reino.

Mas a princesa, que amava o pastor, tinha-lhe prometido: "Encontra-me no rio, no lugar onde as águas são mais límpidas, e eu te esperarei."

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O pastor, com o coração partido, procurou pelo rio.

Andou por dias, sem comer nem beber, até que, exausto, chegou a um riacho.

A água, límpida e calma, refletia as estrelas do céu, e o pastor soube que tinha encontrado o lugar.

Ele sentou-se na margem do riacho e chorou.

As suas lágrimas caíram na água e transformaram-se em pequenas pedras preciosas.

O riacho, que antes era uma passagem, tornou-se uma ponte de amor.

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A princesa, que tinha escapado da torre, correu pela floresta e encontrou o riacho.

Ela viu o pastor a dormir, exausto, e viu a ponte de pedra que ele tinha construído.

Ela soube, naquele instante, que o seu amor era mais forte que a maldição.

Ela atravessou a ponte, e o pastor acordou.

Ele viu-a, e eles abraçaram-se, prometendo nunca mais se separarem.

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A fotografia de Mário Silva era um lembrete do poder do amor.

A ponte de pedra, com a sua arquitetura antiga, era a prova do amor que sobreviveu ao tempo.

 As águas calmas do riacho, com os seus reflexos dourados, eram o espelho da felicidade dos amantes.

E a ponte, que antes era uma passagem, era agora um símbolo, um lugar onde os amantes vinham para se abraçarem, para se beijarem e para prometerem o seu amor eterno.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Set25

"Passeio a cavalo (passado) e passeio de mota (presente)" Tinhela, Valpaços, Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Passeio a cavalo (passado) e passeio de mota (presente)"

Tinhela, Valpaços, Portugal

11Set  DSC03688_ms

A fotografia "Passeio a cavalo (passado) e passeio de mota (presente)" de Mário Silva capta um momento na estrada rural entre Tinhela e Alvarelhos, em Valpaços, Portugal.

A imagem mostra duas mulheres, lado a lado, montadas em cavalos brancos.

Uma delas usa um boné e a outra um capacete de equitação.

Ao lado delas, na mesma estrada, um motociclista está sentado na sua mota, de costas para a câmara, a observar as mulheres a cavalo.

A paisagem de fundo é composta por colinas cobertas de árvores e vegetação, enquanto o primeiro plano tem um caminho de terra com erva amarelada.

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Estória: O Encontro do Tempo

Tinhela e Alvarelhos eram duas aldeias que o tempo tinha esquecido.

As suas estradas, estreitas e sinuosas, eram as artérias de uma terra que vivia ao seu próprio ritmo.

A fotografia de Mário Silva, com a sua composição única, parecia capturar o encontro de duas épocas, o passado e o presente.

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As duas mulheres a cavalo eram Maria e Ana, as duas netas do velho Manuel.

Elas, que tinham crescido na cidade, vinham todos os verões à aldeia, e a sua paixão era cavalgar.

Para elas, cavalgar era mais do que um desporto; era um ato de amor, uma ligação à sua herança, uma celebração do seu passado.

Na fotografia, com os seus cavalos brancos e os seus sorrisos no rosto, elas eram a beleza e a serenidade do passado.

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O motociclista, que Mário Silva capturou de costas, era o Diogo, um jovem da aldeia que tinha regressado da cidade.

Ele, com a sua mota preta e o seu capacete, era a personificação do presente.

Ele amava a sua aldeia, mas não se sentia ligado às suas tradições.

Para ele, o futuro era a cidade, o progresso, a tecnologia.

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Naquele dia, os dois mundos, o passado e o presente, colidiram.

O som da mota de Diogo quebrou o silêncio da estrada, e o som dos cascos dos cavalos de Maria e Ana ecoou no ar.

Diogo, que nunca tinha visto as duas a cavalgar, parou a mota e olhou para elas, fascinado.

Ele viu a alegria nos seus rostos, a paz nos seus corações, e a serenidade daquele momento.

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Ele percebeu que o passado não era um fardo; era uma herança.

Que a tradição não era um peso; era uma força.

E que a sua mota, que ele pensava ser o seu futuro, era apenas uma forma de se mover no presente.

A verdadeira viagem, ele percebeu, era a viagem interior, a viagem do coração, a viagem do espírito.

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A fotografia de Mário Silva era um lembrete de que o passado e o presente não são inimigos, mas companheiros de viagem.

E que o futuro, tal como a estrada, está à nossa frente, mas as nossas raízes, a nossa história, a nossa essência, estão sempre connosco.

E Diogo, com um sorriso, ligou a sua mota e seguiu o seu caminho, mas o som dos cascos dos cavalos de Maria e Ana permaneceu no seu coração, uma melodia do passado que lhe recordava que a vida, afinal, é um eterno encontro entre o passado e o presente.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
09
Set25

"Árvore seca e solitária"


Mário Silva Mário Silva

"Árvore seca e solitária"

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A fotografia "Árvore seca e solitária" de Mário Silva foca numa paisagem árida, onde uma árvore solitária, com a maioria dos seus galhos despidos e secos, destaca-se no topo de uma colina coberta por vegetação de cor ocre.

A luz do sol incide sobre a vegetação, criando um efeito de brilho intenso e sombras profundas.

O céu, em tons de azul e cinzento claro, contrasta com as cores da paisagem.

A imagem, com a sua composição simples e minimalista, realça a beleza da solidão e da resiliência da natureza.

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Estória: O Guardião Silencioso da Colina

A colina, que Mário Silva capturou na sua fotografia, era um lugar de lendas.

A aldeia chamava-lhe "a Colina da Esperança", e a árvore que se erguia no seu cume era o seu guardião silencioso.

Para os aldeões, a árvore não era apenas um pinheiro; era um símbolo de resiliência, de força e de esperança.

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A árvore tinha visto tudo.

Tinha visto o sol a nascer e a pôr-se, a chuva a cair e o vento a soprar.

Tinha visto a vida a passar lá em baixo, a aldeia a crescer, as crianças a brincar, as gerações a virem e a irem.

Ela era a testemunha silenciosa da história da aldeia, o seu coração e a sua alma.

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A fotografia de Mário Silva capturou a sua beleza e a sua solidão.

O seu tronco, cinzento e rugoso, era a prova da sua idade e da sua força.

Os seus galhos, despidos e secos, eram os seus braços estendidos para o céu, uma prece por mais um ano de vida.

A vegetação de cor ocre, que Mário Silva capturou com a sua luz intensa, era a vida que se agarrava à terra, a prova de que mesmo num lugar árido, a vida encontra sempre um caminho.

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A lenda dizia que a árvore tinha um segredo.

A sua alma, dizia-se, estava escondida num pequeno ninho de pássaros que se encontrava no seu tronco.

A lenda dizia que, se alguém com o coração puro subisse a colina e sussurrasse o seu desejo no ninho, o desejo seria realizado.

Mas ninguém o tinha feito.

O medo e a superstição eram mais fortes que a fé.

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A fotografia de Mário Silva era um lembrete de que, mesmo em tempos difíceis, a esperança permanece.

A árvore, com a sua solidão, era um farol, um guia para a aldeia.

E os aldeões, que olhavam para a fotografia, sentiam uma profunda gratidão.

A árvore, o seu guardião, estava ali, a protegê-los, a dar-lhes força, a ser o seu farol.

E eles, a sua aldeia, estavam ali, a protegê-la, a dar-lhe vida, a ser o seu porto seguro.

A árvore e a aldeia eram uma só, unidas por uma lenda, uma história, e uma fotografia.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
08
Set25

"Frutos de Lonicera periclymenum"


Mário Silva Mário Silva

"Frutos de Lonicera periclymenum"

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A fotografia "Frutos de Lonicera periclymenum" de Mário Silva foca num pequeno ramo de bagas vermelhas de madressilva.

As bagas, que são redondas e brilhantes, formam pequenos cachos.

A fotografia é tirada num fundo escuro e desfocado, que realça a vivacidade e a cor dos frutos.

A luz incide diretamente sobre o ramo, criando um brilho intenso nas bagas e nas poucas folhas verdes visíveis.

Uma teia de aranha fina e delicada é visível perto da haste principal.

A imagem é assinada digitalmente no canto inferior direito.

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Estória: O Segredo das Bagas de Ouro

Na floresta, havia um arbusto de madressilva, um arbusto de lendas e de segredos.

A fotografia de Mário Silva capturou a sua beleza e o seu mistério.

O arbusto, que florescia no verão, dava no outono pequenos frutos vermelhos, as suas "bagas de ouro", como a velha Inácia, a curandeira da aldeia, lhes chamava.

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Inácia, que conhecia a floresta como a palma da sua mão, sabia que aquelas bagas eram mais do que apenas frutos.

Eram os corações de um antigo amor, a essência de um velho conto.

A lenda dizia que a madressilva tinha sido criada por uma fada para proteger um amor proibido entre uma princesa e um plebeu.

A fada, para os proteger da fúria do rei, transformou-os em dois arbustos de madressilva, que se entrelaçaram e deram frutos, as "baga de ouro", que se tornaram o símbolo do seu amor eterno.

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A teia de aranha, que Mário Silva capturou na fotografia, era o véu que a fada tinha lançado sobre o arbusto, um véu de proteção e de mistério.

As gotas de orvalho que brilhavam nas bagas eram as lágrimas de alegria da fada, por ter conseguido salvar o amor dos dois amantes.

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Inácia acreditava que, se alguém com o coração puro comesse uma daquelas bagas, o amor verdadeiro viria à sua vida.

Ela nunca as colheu; apenas as admirava.

A sua beleza, a sua lenda, a sua história, eram o seu tesouro.

Ela acreditava que a vida, tal como a floresta, era cheia de segredos e de milagres.

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Um dia, uma jovem da aldeia, de coração partido, foi ter com a velha curandeira.

- Inácia - disse ela - o meu coração está vazio. O que faço?

Inácia, sem dizer uma palavra, pegou na mão da jovem e levou-a para a floresta.

Ela mostrou-lhe o arbusto de madressilva, com as suas bagas vermelhas a brilhar no escuro.

- As bagas - disse ela - não são para ser comidas, mas para serem admiradas. A sua beleza é a prova de que o amor, mesmo quando parece perdido, continua a viver. O seu amor não está vazio, está apenas a dormir. E a vida, como a floresta, precisa de tempo para curar e para renascer.

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A jovem, com um sorriso, olhou para as bagas.

Ela não sentiu o desejo de as comer, mas apenas de as admirar.

E ela soube, naquele instante, que o amor verdadeiro não é uma coisa que se procura, mas uma coisa que se sente.

E que a sua beleza, tal como a das bagas, estava dentro dela.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
06
Set25

"Amanhã é outro dia ...” e uma estória


Mário Silva Mário Silva

"Amanhã é outro dia ...”

e uma estória

06Set DSC03433_ms

Esta fotografia de Mário Silva capta um pôr do sol dramático, com o sol a mergulhar por detrás de uma cadeia de montanhas.

O céu está pintado em tons intensos de laranja, vermelho e amarelo, criando um contraste vibrante com as silhuetas escuras da paisagem.

As montanhas, em tons de azul-cinzento, parecem estar a dormir, enquanto as árvores e os arbustos em primeiro plano, completamente escuros, parecem estar a celebrar o momento.

A luz do sol, no seu último suspiro, cria uma linha de fogo no horizonte.

A imagem transmite uma sensação de tranquilidade e de esperança, como se o dia, com as suas dificuldades, estivesse a chegar ao fim, e o amanhã, com as suas promessas, estivesse prestes a nascer.

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Estória: O Encontro com o Sol

O velho Joaquim sentou-se na sua cadeira de madeira, o corpo cansado e o coração pesado.

O dia tinha sido longo e cheio de preocupações.

A terra, seca e rachada, precisava de chuva.

A colheita, que deveria ser abundante, estava a murchar.

O peso do mundo parecia estar nos seus ombros.

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O sol, um enorme disco de fogo, começou a descer por detrás da serra.

Joaquim, com a sua voz rouca, olhou para a sua neta, Ana, que estava sentada ao seu lado.

- Olha, minha neta - disse ele - O sol está a ir embora. Amanhã, no seu lugar, haverá uma nuvem cinzenta e pesada, e a chuva virá.”

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Ana, uma jovem da cidade, com a cabeça cheia de stress, não percebeu.

- Avô, o sol é só o sol. A chuva é só a chuva. A vida é só a vida.”

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Joaquim sorriu, um sorriso triste e sábio.

- Não, minha neta. O sol é a esperança. É a promessa. A vida é um ciclo.

O sol, ele não vai embora para sempre. Ele vai embora para renascer.

E a vida, ela não acaba quando o dia termina. Ela recomeça.

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O sol, com os seus últimos raios, pintou o céu com cores de fogo e de ouro.

E Joaquim, com a sua mão enrugada, apontou para o céu.

- Vês, minha neta? O sol, ele está a dizer-nos “não te preocupes, amanhã é outro dia”.

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Ana, pela primeira vez na sua vida, olhou para o pôr do sol com olhos novos.

Não viu apenas a beleza de um quadro, mas a beleza da vida.

A luz do sol era a luz de um novo começo, de uma nova oportunidade.

As sombras das árvores eram as sombras dos seus problemas, que o sol ia queimar e dissolver.

A paisagem, que parecia estar a dormir, era a promessa de que, no amanhã, ela estaria cheia de vida.

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Joaquim fechou os olhos.

A sua voz, antes cansada, tinha a melodia da paz.

- O sol, minha neta. Ele é o nosso amigo. Ele mostra-nos que, por mais que o dia seja difícil, o amanhã está sempre à espera de nós.

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A fotografia de Mário Silva não é apenas um retrato de um pôr do sol.

É um retrato de um momento de esperança.

É um lembrete de que, mesmo na escuridão, a luz, mesmo que seja apenas um feixe, tem o poder de nos guiar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
05
Set25

"Real Pombal" - Vila Frade - Lamadarcos (ou Lama de Arcos), Chaves, Portugal


Mário Silva Mário Silva

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"Real Pombal"

Vila Frade - Lamadarcos (ou Lama de Arcos)

Chaves, Portugal

05Set DSC07593_ms

Esta fotografia de Mário Silva mostra um pombal de pedra, de forma cilíndrica e com o topo em forma de coroa de castelo, localizado num campo.

A estrutura, que já foi um magnífico pombal, está agora desgastada pelo tempo.

O edifício está rodeado por um campo de palha ceifada, em tons de amarelo e castanho, o que contrasta com a cor da sua pele.

Uma pequena porta de madeira, com a sua cor escura, é a única entrada para o interior do pombal.

A imagem, com a sua arquitetura única e a sua história de abandono, transmite uma sensação de melancolia e de saudade de um tempo que já foi.

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Estória: A Maldição do Engenheiro

Houve um tempo em que o pombal, que o Mário Silva fotografou, era o centro do mundo.

Milhares de pombas, com as suas penas de cor de pérola e de cinza, viviam no seu interior.

O pombal era o seu lar, o seu santuário, e as pombas eram a voz da aldeia.

Quando voavam, era como se o céu cantasse.

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Mas um dia, um engenheiro agrícola, com o seu chapéu na cabeça e o seu ar de sapiência, chegou à aldeia.

- Os excrementos das pombas - disse ele - prejudicam a criação de gado bovino e ovino.

 A sua voz, antes fina e suave, transformou-se num trovão.

E, por conselho dele, o pombal, que antes era o lar das pombas, transformou-se num local de criação de águias de asa redonda e outras aves de rapina.

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As águias, com as suas asas de fogo e os seus olhos de diamante, tomaram o lugar das pombas.

O canto do pombal, que antes era suave, tornou-se um grito.

As pombas, assustadas e feridas, fugiram.

E a aldeia, que antes era cheia de vida, tornou-se silenciosa.

A maldição do engenheiro, como a chamavam, tinha chegado.

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A velha Rufina, que morava perto, olhava para o pombal com o coração pesado.

O pombal, que antes era um símbolo de vida, era agora um símbolo de morte.

As pombas, que tinham sido os seus amigos, tinham-se ido embora.

O pombal, com as suas paredes de pedra e o seu topo em forma de coroa, era apenas um túmulo para as memórias.

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O tempo passou, e as águias, que tinham sido criadas no pombal, foram para outros lugares.

O pombal, agora vazio, era um castelo abandonado, com as suas paredes a cair e o seu telhado a desmoronar.

A maldição do engenheiro tinha-se concretizado.

O pombal, que antes era o lar de pombas, era agora o lar da saudade.

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A fotografia de Mário Silva capta o pombal como ele é agora.

A imagem é um lembrete de que, por mais que a nossa intenção seja boa, as nossas ações podem ter consequências imprevisíveis.

E a estória do pombal é um conto sobre a perda, a mudança e a importância de não nos esquecermos das lições do passado.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
04
Set25

"Borboletas (Limenitis reducta)” … e uma estória


Mário Silva Mário Silva

"Borboletas (Limenitis reducta)”

… e uma estória

04Set DSC03174_ms

A fotografia de Mário Silva capta um momento de tranquilidade na vida de duas borboletas, da espécie Limenitis reducta, que repousam numa superfície de pequenas pedras.

As borboletas, com as suas asas de cor escura, são adornadas com um padrão de manchas brancas, que se destacam contra a tonalidade bege e acinzentada do chão.

Uma das borboletas, em primeiro plano e com as asas abertas, parece estar a ser observada por uma segunda, em segundo plano, que está com as asas fechadas.

A fotografia, com a luz do sol a incidir sobre a cena, realça a delicadeza dos insetos e a textura da superfície em que se encontram.

A imagem evoca a sensação de um momento de paz e de descanso na vida selvagem.

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Estória: O Encontro nas Pedras

As borboletas, com as suas asas pintadas em tons de noite e de leite, eram um casal de almas gémeas.

Ele, com as suas asas abertas, mostrava a sua coragem.

Ela, com as suas asas fechadas, escondia a sua fragilidade.

O nome dele era Luz, o nome dela era Sombra.

A vida, para eles, era uma viagem, uma dança, uma busca.

A sua busca era pelo néctar das flores, pelo calor do sol, e pela presença um do outro.

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Um dia, depois de uma longa e perigosa viagem, eles encontraram-se numa superfície de pequenas pedras.

Ali, no meio do nada, com o sol a incidir sobre eles, encontraram um refúgio.

Ali, podiam descansar, respirar e celebrar a sua presença.

O lugar, que para os humanos era apenas um caminho, para eles era um santuário.

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Luz, com as suas asas abertas, estava a celebrar a sua chegada.

Ele tinha lutado contra os ventos fortes, os predadores e a exaustão.

Mas a sua coragem era grande, e a sua vontade de encontrar Sombra era ainda maior.

E agora, ele estava ali, com as suas asas abertas, a mostrar a Sombra que estava vivo, que estava seguro e que a amava.

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Sombra, com as suas asas fechadas, estava a ouvir.

Ela tinha passado a sua vida a esconder-se, a proteger-se e a sobreviver.

A sua fragilidade era o seu fardo, mas a sua capacidade de sobreviver era a sua força.

Ela tinha chegado ali por acaso, mas sabia que não era um acaso.

Era o destino.

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A fotografia de Mário Silva capta o momento em que a Sombra, com as suas asas fechadas, decide abri-las.

Era o momento em que a borboleta decide ter a coragem de ser vulnerável.

E o momento em que a borboleta decide que, com Luz ao seu lado, o mundo não era apenas um lugar perigoso, mas um lugar de beleza e de esperança.

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A estória das borboletas, Luz e Sombra, é um conto sobre o amor e a coragem.

É um lembrete de que, mesmo nas nossas vidas mais frágeis, a nossa capacidade de amar e de lutar é a nossa maior força.

E de que, no final do caminho, a nossa recompensa não é apenas a beleza, mas a presença da nossa alma gémea.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
02
Set25

Flor de “Campanula lusitânica” …  e uma estória


Mário Silva Mário Silva

Flor de “Campanula lusitânica”

…  e uma estória

02Set DSC00038 (2)_ms

Esta fotografia de Mário Silva capta um plano aproximado de uma flor de "Campanula lusitânica" em plena floração.

A flor, de cor roxa intensa, apresenta cinco pétalas abertas em forma de estrela, com o centro em tons de branco e rosa.

As pétalas, com as suas linhas finas e delicadas, destacam-se contra o fundo desfocado e em tons de verde e amarelo.

A flor, suspensa por um caule fino, parece flutuar na imagem.

À sua volta, outros caules finos e uma flor mais pequena e ainda por desabrochar, sugerem a presença de outras flores na mesma planta.

A fotografia, com a sua luz suave e o fundo difuso, realça a delicadeza, a beleza e a cor vibrante da flor.

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Estória: A Estrela Roxa da Sombra

No canto mais sombrio da encosta, onde o sol lutava para chegar, vivia uma pequena flor de "Campanula lusitânica".

Ela era a única de um roxo tão intenso que parecia ter roubado a cor do céu noturno e a força de um pôr do sol.

Mário Silva capturou-a na sua fotografia, suspensa no ar, um pequeno milagre de beleza e resiliência.

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A pequena flor não tinha nome.

Era apenas "A Roxa" para as abelhas que a visitavam e "A Bela" para as borboletas que passavam.

Ela era a prova de que a beleza podia nascer nos lugares mais inóspitos.

A sua vida era uma melodia de silêncio e de paciência.

Esperava pelo vento para lhe trazer a notícia do mundo lá fora e pelas abelhas para lhe darem a promessa da vida.

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O seu vizinho, um velho cardo espinhoso e resmungão, passava os dias a queixar-se.

- A vida é dura - dizia ele com a sua voz rouca e espinhosa. - O sol não chega, a terra está seca, e o mundo lá fora é um perigo.

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A pequena flor ouvia-o, mas não se deixava abalar.

A sua missão não era queixar-se, mas ser bela.

Com as suas cinco pétalas abertas, ela era como uma estrela que tinha caído do céu e se tinha fixado na terra.

O seu centro, uma pequena mancha branca e rosa, era o seu coração, um coração que batia ao ritmo da natureza.

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Um dia, uma abelha, esgotada pelo calor e pela distância, pousou no seu centro.

- Oh, que bom que cheguei a tempo! - exclamou a abelha. - Estava quase a desistir. Mas vi a sua luz, a sua cor, e segui-a.

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A pequena flor sentiu o seu coração bater mais forte.

Ela, que pensava estar sozinha, era um farol.

Ela, que pensava ser apenas uma flor, era a esperança de alguém.

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A abelha, depois de beber o seu néctar, disse-lhe:

- Obrigado, pequena estrela. A sua beleza não é em vão. Ela dá-nos a força para continuar.

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A partir desse dia, a pequena flor deixou de ser apenas A Roxa ou A Bela.

Ela era "A Esperança".

A sua cor, que parecia roubada ao céu noturno, era a prova de que mesmo na sombra mais profunda, a beleza podia florescer e inspirar.

Ela florescia não apenas para si, mas para o mundo que a rodeava, um pequeno ponto de cor e de vida que dizia, silenciosamente, que a esperança estava sempre à espera de ser encontrada, mesmo nos caminhos mais difíceis.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
01
Set25

"À espera de novas férias” ... e uma estória


Mário Silva Mário Silva

"À espera de novas férias”

... e uma estória

01Set DSC03303_ms

Esta fotografia de Mário Silva capta uma pequena paragem de autocarro, com uma estrutura simples de pedra e madeira, num dia de sol.

O abrigo, com o seu telhado de telha de barro, tem dois pilares de madeira que sustentam a parte da frente, enquanto a parte de trás e a lateral são feitas de pedra.

O chão é de cimento e está coberto por algumas folhas secas.

A luz do sol da tarde projeta a sombra dos pilares de madeira na parede lateral.

A paragem, com um banco de madeira no seu interior, está vazia, o que transmite uma sensação de abandono e de espera.

Ao fundo, uma estrada de alcatrão, casas e vegetação rasteira completam a paisagem.

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Estória: A Paragem da Esperança

O abrigo de pedra e madeira, que o Mário Silva fotografou, não era apenas uma paragem de autocarro.

Era a "Paragem da Esperança", como a velha Maria a chamava.

Todos os anos, no fim das férias de verão, era ali que ela e o seu marido, Manuel, esperavam pelo autocarro.

Era ali que se despediam dos netos que vinham do estrangeiro, e que regressavam à sua terra com as malas cheias de recordações e de esperanças.

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O abrigo era um santuário de memórias.

No verão, era o ponto de encontro.

Os netos, que chegavam, vinham com as mochilas cheias de presentes, de histórias e de sotaques diferentes.

Os vizinhos, que passavam, paravam para conversar e para dar as boas-vindas.

A paragem de autocarro, outrora vazia, era agora um lugar de vida, de festa e de alegria.

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Mas o final de agosto chegava sempre.

As malas, que antes vinham cheias, iam agora cheias de doces caseiros, de queijo e de vinho.

Os abraços eram longos e cheios de lágrimas.

A tristeza misturava-se com a gratidão.

O abrigo, que antes era cheio de vozes, tornava-se novamente silencioso.

E a velha Maria, com o seu lenço na cabeça, ficava ali, à espera.

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Ela não estava à espera do autocarro.

Estava à espera do próximo verão.

À espera de novas férias.

Ela sabia que o tempo era um rio que corria, e que as águas que iam, um dia, voltariam.

A fotografia de Mário Silva capta esse momento de espera, de saudade e de esperança.

A paragem, vazia, não era um símbolo de abandono, mas um símbolo da promessa de que, no próximo ano, a vida e a alegria voltariam.

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A paragem de autocarro, para a velha Maria, era a sua âncora.

O lugar onde podia voltar a ligar-se à sua família, à sua terra e às suas raízes.

Era o lugar onde, mesmo na solidão, ela se sentia acompanhada.

Era o lugar onde ela sabia que, apesar da distância, o amor e a esperança permaneceriam, à espera de um novo verão.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
29
Ago25

"Lagarto pintado. Quem te pintou? Foi uma Velha que, por Aqui, passou”


Mário Silva Mário Silva

"Lagarto pintado. Quem te pintou?

Foi uma Velha que, por Aqui, passou”

29Ago DSC05216_ms

Esta fotografia de Mário Silva capta um plano aproximado de um lagarto, a “Lagartixa-de-bocage” (Podarcis bocagei), em tons de castanho e verde, que repousa sobre a areia do caminho.

O lagarto está a olhar para a direita, com a cabeça levantada e o corpo esticado.

A sua pele, com um padrão de manchas escuras, contrasta com o tom claro da areia.

A fotografia, com a luz do sol a incidir sobre o animal, realça a textura da sua pele e a sua forma.

A imagem transmite uma sensação de quietude, mas ao mesmo tempo de alerta, como se o lagarto estivesse pronto para se mover a qualquer momento.

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Estória: A Velha e o Lagarto

O lagarto, com a sua pele pintada em tons de castanho e verde, era o lagarto mais famoso do monte.

O seu nome era Verdelho, mas as crianças da aldeia, quando o viam, cantavam a canção que o Mário Silva mais tarde transformaria em título de fotografia: "Lagarto pintado. Quem te pintou? Foi uma velha que, por aqui, passou.”

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A história da velha era uma lenda.

Diziam que, há muito tempo, uma velha curandeira vivia na aldeia.

Era uma mulher sábia e bondosa, que curava as doenças com ervas e com a sua voz suave.

Um dia, um pequeno lagarto, ferido e triste, arrastou-se até à sua casa.

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A velha, com as suas mãos macias, pegou no lagarto.

Ela viu a sua pele, que antes era de uma cor única e deslavada.

Para lhe dar coragem e um pouco de alegria, a velha, com os seus dedos finos, pintou-lhe a pele.

Usou a cor do musgo para o seu corpo, e a cor da terra para as suas manchas.

No final, o lagarto estava pintado.

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O lagarto, pela primeira vez na sua vida, sentiu-se especial.

A sua pele, antes aborrecida, era agora uma obra de arte.

Ele tinha um propósito: era o guardião do segredo da velha.

E o seu corpo, com as suas cores, era a prova viva de que a beleza podia nascer da bondade.

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O lagarto viveu por muito tempo, e quando as suas crias nasciam, vinham com as mesmas cores do pai.

As manchas escuras, a cor do musgo, a cor da terra.

E a lenda da velha, que tinha pintado o lagarto com os seus dedos sábios, continuava a ser contada.

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A fotografia de Mário Silva capta o lagarto Verdelho, um descendente daquele lagarto original.

Ele está na areia, a olhar para o mundo, um pequeno rei no seu reino de pedras e de sol.

A sua pele pintada é a prova de que a beleza não é algo que se encontra, mas que se cria.

A estória do lagarto é um lembrete de que, com a bondade e com a sabedoria, podemos transformar o mais simples dos seres numa obra de arte, e que a história mais simples pode tornar-se uma lenda.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
26
Ago25

"Do verde ao azul das águas quentes e calmas” … e uma breve estória


Mário Silva Mário Silva

"Do verde ao azul das águas quentes e calmas”

… e uma breve estória

26Ago DSC04416_ms

Esta fotografia de Mário Silva, capta a beleza de uma paisagem de praia tranquila.

A imagem é dominada por um mar sereno, com a água a mudar de cor, passando do verde-claro na margem para o azul mais escuro no horizonte.

Pequenas e suaves ondas quebram na praia de areia clara, criando uma fina faixa de espuma branca.

À direita, a costa é delimitada por uma área rochosa e uma pequena floresta, enquanto no fundo, avistam-se montanhas a perder de vista.

O céu é de um azul límpido e com poucas nuvens, refletindo-se na água e acentuando a sensação de calma e de paz.

A fotografia transmite uma atmosfera de tranquilidade e a beleza natural do lugar.

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Estória: A Viagem de uma Concha

A concha, um pequeno milagre da natureza, era o lar de um caranguejo ermita há anos.

Mas o caranguejo, cansado de uma vida de medos e de se esconder, tinha decidido que era tempo de partir.

Deixou a concha na areia da praia, um pequeno trono de substância calcária brilhante e rosada da concha.

A fotografia de Mário Silva, com a sua paisagem de águas verdes e azuis, capturou o momento em que a concha, pela primeira vez na sua longa vida, se viu livre.

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A concha, na sua solidão, sentiu o sol quente e a água calma a beijar-lhe o corpo.

As ondas, que antes eram uma ameaça, tornaram-se um amigo, que a embalava e a levava em pequenos passeios pela areia.

A sua vida de concha era monótona, mas a sua alma era cheia de curiosidade. Queria saber o que havia para além do mar, para lá das montanhas distantes que se viam no horizonte.

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Um dia, uma onda, mais forte do que as outras, apanhou-a e levou-a para o mar aberto.

A concha sentiu um medo profundo.

Estava sozinha e longe da segurança da praia.

Mas, com a luz do sol a brilhar nas suas costas, ela decidiu que era tempo de ter coragem.

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Flutuou no mar, observando as cores que mudavam do verde na margem para o azul no horizonte.

Viu peixes coloridos, medusas transparentes, e ouviu o som de barcos que passavam.

Ela era pequena e frágil, mas a sua coragem era grande.

A sua viagem era um sonho, uma aventura.

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O mar era um mundo de maravilhas.

A concha, que antes era apenas um lar, tornara-se um viajante.

As suas costas, outrora lisas, foram polidas pelas ondas, e o seu nácar brilhou com a luz do sol.

Ela estava a viver, não a sobreviver.

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Depois de dias, talvez semanas, de viagem, uma corrente mais forte do que as outras, atirou-a para uma praia distante.

A concha, exausta, mas feliz, pousou na areia quente.

Olhou à sua volta e viu um novo mundo.

Um novo porto.

As águas, que antes eram verdes e azuis, eram agora de um tom diferente, mas a sua beleza era a mesma.

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A fotografia de Mário Silva é a imagem daquele momento de transição.

É a imagem da concha, que tinha deixado o seu passado para trás e tinha a coragem de começar uma nova vida.

A sua estória é uma chamada de atenção de que, por mais pequenas que sejamos, a nossa coragem e a nossa vontade de explorar o desconhecido podem levar-nos aos lugares mais bonitos e mais pacíficos.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
23
Ago25

Dedaleira (Digitalis purpurea) … e uma estória


Mário Silva Mário Silva

Dedaleira (Digitalis purpurea)

… e uma estória

23Ago DSC03793_ms

A fotografia de Mário Silva, intitulada "Dedaleira (Digitalis purpurea)", é um plano aproximado de uma planta com flores em tons de rosa e magenta.

As flores, em forma de campânula ou dedal, estão dispostas num caule alto e reto, e mostram os seus pormenores e o interior em tons de branco.

As flores em primeiro plano estão abertas, enquanto as do topo, ainda em botão, sugerem a continuidade da floração.

A planta está inserida numa paisagem com o chão em tons de castanho e uma vegetação verde e desfocada em segundo plano.

A luz suave e a composição da imagem realçam a beleza e a delicadeza da flor.

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Estória: O Segredo da Dedaleira

No coração da serra, onde o ar era puro e o sol acariciava as encostas, crescia uma planta de dedaleira.

A sua beleza, capturada com tanta delicadeza na fotografia de Mário Silva, era um engano.

Cada flor, um dedal de cor rosa e magenta, escondia um segredo sombrio.

E era um segredo que a velha Maria Coxa, a curandeira da aldeia, conhecia bem.

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A Maria Coxa era uma mulher de poucas palavras, com as mãos enrugadas pela vida e os olhos sábios que tinham visto o tempo passar.

O seu conhecimento das ervas e das plantas era lendário.

Ela sabia que a dedaleira, apesar da sua aparência inocente, era uma assassina silenciosa.

As suas folhas, os seus caules, as suas flores — tudo nela era veneno.

Mas também sabia que, nas mãos certas, a planta podia ser a salvação.

Uma pequena dose do seu extrato podia curar um coração fraco, um coração que batia sem força e sem esperança.

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O seu neto, o pequeno Tiago, um rapazinho de olhos escuros e um sorriso que iluminava a aldeia, tinha nascido com o coração fraco.

A sua respiração era curta, os seus passos lentos.

Os médicos da cidade tinham dito que não havia esperança.

Mas a Maria Coxa, com a sua sabedoria ancestral, não desistiu.

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Ela ia todos os dias à serra, à procura da sua dedaleira.

Escolhia cuidadosamente as folhas, colhia-as com um respeito que era quase uma oração.

A cada folha, pedia perdão à planta pela sua transgressão, e pedia que ela tivesse piedade do coração do seu neto.

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Um dia, enquanto a Maria Coxa colhia as folhas, um estranho da cidade apareceu.

Ele era um homem alto, com um chapéu de palha e a arrogância dos que pensam que sabem tudo.

- Que bela flor! - exclamou ele, aproximando-se da planta. - Vou levar um ramo para a minha mulher. Ela vai adorar a cor."

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A Maria Coxa sentiu um arrepio de medo.

A beleza da dedaleira era uma armadilha.

A sua mão, rápida como um raio, agarrou a do homem.

- Não! - disse ela, a voz baixa, mas firme. - Esta flor... ela não é para enfeitar. Ela é perigosa. O seu perfume é doce, mas o seu segredo é amargo."

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O homem riu-se, uma risada que parecia oco.

- Velha supersticiosa. É só uma flor."

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Maria Coxa, com o seu olhar sábio, olhou-o nos olhos.

- É a “dedaleira”, meu caro. O seu nome diz tudo. É um “dedal” para a morte. Apenas um curandeiro sabe a dose para a vida."

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O homem, embora hesitante, ouviu o aviso.

Virou costas, rindo e balançando a cabeça.

A Maria Coxa, com o coração a bater forte, pegou nas suas folhas e voltou para casa, para preparar a poção que salvaria o coração do seu neto.

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A beleza da dedaleira na fotografia de Mário Silva é um lembrete de que, mesmo nas formas mais belas da natureza, o perigo e a cura coexistem.

A estória da Maria Coxa e do seu neto Tiago é um conto sobre a sabedoria ancestral, a humildade e a linha ténue entre a vida e a morte.

Uma linha que a dedaleira, com o seu segredo, nos ensina a respeitar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
18
Ago25

"O mar enrola na areia ..." e uma estória


Mário Silva Mário Silva

"O mar enrola na areia ..."

e uma estória

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A fotografia de Mário Silva, intitulada "O mar enrola na areia ...", capta uma vista panorâmica de uma baía tranquila.

A imagem é dominada pelo mar, com águas de um azul-claro suave que se misturam com tons de verde.

As ondas, pequenas e suaves, quebram na praia de areia clara, criando uma faixa de espuma branca que se estende por toda a largura da imagem.

À direita, a costa é delimitada por uma área rochosa e uma colina coberta de pinheiros.

No fundo, do lado esquerdo, avistam-se colinas distantes.

O céu, de um azul límpido e com poucas nuvens, reflete-se na água, criando uma atmosfera de calma e serenidade.

A fotografia transmite uma sensação de paz e a beleza natural e intocada da costa.

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Estória: A Memória do Mar

O mar, para o pequeno Afonso, não era apenas água e areia.

Era uma memória.

Uma memória que vivia no som das ondas, no cheiro a sal e na luz que, como Mário Silva um dia capturaria na sua fotografia, pintava a baía de uma paz irreal.

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Afonso, que agora passava os seus setenta verões, sentava-se na varanda da sua casa, com vista para a mesma praia que Mário Silva havia fotografado.

Os anos tinham-lhe enrugado o rosto e curvado os ombros, mas os seus olhos continuavam a brilhar com a mesma vivacidade de um miúdo quando olhava para o mar.

Naquele verão, a sua neta, Laura, tinha vindo visitá-lo.

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Laura, uma jovem da cidade, com a cabeça cheia de ideias de tecnologia e pressa, sentia-se entediada na aldeia pacata do avô.

O mar era bonito, sim, mas era sempre o mesmo.

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- Avô, por que é que gostas tanto disto? Não é sempre o mesmo? - perguntou Laura, com a voz tingida de uma impaciência que Afonso conhecia bem.

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Afonso sorriu, um sorriso que lhe enrugou os olhos ainda mais.

- Não, minha neta. Não é o mesmo. O mar, ele muda a cada dia, a cada hora. E ele guarda as nossas memórias.

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Laura revirou os olhos.

- Histórias de velho - pensou.

Afonso compreendeu a sua neta.

- Vem comigo - disse ele, levantando-se com alguma dificuldade.

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Caminharam pela areia macia, em direção à praia rochosa à direita da fotografia.

O sol da tarde pintava as ondas de um dourado suave, e a espuma branca enrolava-se na areia com um sussurro constante.

Chegaram perto das rochas, onde o avô se sentou.

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- Vês estas rochas, Laura? - perguntou ele, apontando para uma rocha escura e coberta de musgo. - Foi aqui que aprendi a pescar com o meu pai. E foi aqui que, anos mais tarde, te ensinei a apanhar búzios."

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Afonso pegou num pequeno búzio, com as suas linhas intrincadas e cores desbotadas, e entregou-o à neta.

- Ouve. Ouve o que o mar tem para te contar.

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Laura levou o búzio ao ouvido, e ouviu o som familiar do mar.

Mas desta vez, parecia diferente.

Não era apenas um ruído.

Parecia o eco de uma história.

Do avô a rir com o pai, da sua própria voz de criança a exclamar de alegria ao encontrar um búzio perfeito.

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Afonso apontou para o vasto horizonte, onde o céu e o mar se encontravam numa linha difusa.

- O mar, Laura, é o nosso álbum de família. Cada onda que quebra é uma página virada. Ele enrola na areia, sim, mas nunca a mesma areia, nunca a mesma onda. E em cada uma, há uma lembrança. O primeiro beijo da minha Maria, o primeiro mergulho dos teus pais, a nossa primeira caminhada aqui..."

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Laura olhou para o mar com olhos novos.

Viu as ondas a quebrar, a espuma a formar-se e a desaparecer.

Mas agora, não via apenas água e areia.

Via a história da sua família, a história da sua aldeia, a história da sua própria vida, tudo enrolado naquele eterno e inconstante movimento.

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O mar continuava a enrolar na areia.

Mas para Laura, já não era o mesmo.

Era uma memória, uma promessa e um lembrete de que, por mais longe que a sua vida a levasse, as suas raízes estavam ali, na luz suave, no som das ondas, e na história silenciosa daquele mar.

A fotografia de Mário Silva não era apenas a imagem de uma praia, mas a imortalização daquela memória.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

Dezembro 2025

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