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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

16
Dez25

"Pseudofrutos (cinorródio) de uma roseira-brava (Rosa canina)"


Mário Silva Mário Silva

"Pseudofrutos (cinorródio) de uma roseira-brava (Rosa canina)"

16Dez DSC05125_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva é uma composição de natureza que captura a beleza subtil da flora de inverno contra um céu atmosférico.

O Primeiro Plano: O lado direito da imagem é preenchido por um emaranhado de ramos finos e espinhosos, despidos de folhagem, pertencentes a um arbusto de roseira-brava.

Estes ramos estão pontilhados por dezenas de pequenos frutos ovais de cor vermelho-vivo (os cinorródios).

A cor vibrante dos frutos contrasta com os tons castanhos e secos da madeira.

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O Céu e a Luz: O fundo é um céu de azul-pálido, atravessado por nuvens brancas e cinzentas.

As nuvens estão iluminadas por uma luz suave e dourada, sugerindo o final da tarde ou o nascer do sol, o que confere uma tonalidade quente e nostálgica à cena.

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A Composição: A disposição dos ramos, que se estendem da direita para o centro, cria um equilíbrio com o espaço vazio do céu à esquerda, transmitindo uma sensação de ar livre e leveza.

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Cinorródios – Os Rubis de Inverno da Roseira-Brava

Quando o outono despe as árvores e o inverno pinta a paisagem de tons cinzentos e castanhos, a natureza reserva-nos pequenas surpresas cromáticas.

A fotografia de Mário Silva, destacando os cinorródios da Rosa canina, é a prova de que a vida e a cor persistem mesmo nas estações frias.

Estes pequenos "frutos" vermelhos são as joias da roseira-brava, essenciais tanto para a biodiversidade como para a tradição popular.

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O Falso Fruto

Botanicamente, o que vemos na imagem não é um fruto verdadeiro, mas sim um pseudofruto (ou cinorródio).

Após a queda das pétalas das rosas silvestres na primavera e verão, o recetáculo da flor desenvolve-se, ganha esta cor vermelha ou alaranjada intensa e guarda no seu interior os verdadeiros frutos (aquénios), que são as sementes duras e peludas..

A Rosa canina, comum nas sebes e matos de Portugal, é uma planta resistente e espinhosa, muitas vezes usada como barreira natural em terrenos agrícolas.

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Uma Bomba de Vitamina C

Historicamente, estes cinorródios foram um recurso valioso.

Eles são extraordinariamente ricos em Vitamina C (tendo uma concentração muito superior à da laranja ou do limão).

Em tempos de escassez ou guerra, quando a fruta fresca era rara, as populações rurais recolhiam estes frutos para fazer xaropes, chás e compotas, prevenindo o escorbuto e constipações.

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A Brincadeira de Infância

Para muitos portugueses criados no campo, a roseira-brava traz memórias de infância, mas por um motivo mais travesso.

As sementes no interior do cinorródio estão rodeadas por pelos finos que, quando em contacto com a pele, causam uma comichão intensa.

Quem nunca abriu um destes frutos para fazer o famoso "pó de comichão" e atirá-lo para dentro da camisola de um amigo?

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Alimento para a Fauna

Na fotografia, os ramos carregados destacam-se contra o céu.

Esta visibilidade é propositada pela natureza: a cor vermelha atrai as aves (como tordos e melros) durante o inverno, quando o alimento escasseia.

As aves comem a polpa e dispersam as sementes, garantindo que, na próxima primavera, novas roseiras possam colorir os campos.

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A imagem de Mário Silva capta, assim, um ciclo completo: a beleza estética do contraste vermelho-azul, a memória das brincadeiras antigas e a vitalidade de uma planta que alimenta o ecossistema no auge do frio.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
10
Dez25

"O ouriço esquecido"


Mário Silva Mário Silva

"O ouriço esquecido"

10Dez DSC05257_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva é um close-up macro que se foca num único ouriço de castanha, capturado na floresta, provavelmente após a época de colheita.

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O Ouriço: O objeto central é o ouriço, a casca espinhosa da castanha, que aqui se apresenta na sua forma redonda e perfeitamente simétrica.

As suas hastes são de cor castanho-alaranjada e o ouriço está fechado, sugerindo que a castanha lá dentro ainda não foi colhida ou que o ouriço foi abandonado.

O seu aspeto denso e espinhoso domina o plano.

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A Cama de Musgo: O ouriço repousa sobre um tapete denso de musgo vivo, de um verde fluorescente e vibrante.

O contraste entre o castanho-seco e picante do ouriço e a suavidade e a frescura húmida do musgo são extremamente acentuadas.

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Detalhes do Solo: Em frente ao ouriço, é visível um pequeno líquen branco-acinzentado, que acrescenta um detalhe de textura e cor secundário ao primeiro plano.

O fundo é desfocado em tons de castanho e verde-escuro, concentrando todo o foco no ouriço e no musgo.

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Composição: O enquadramento central e a profundidade de campo rasa conferem ao ouriço uma importância escultural, quase como se fosse uma pequena mina terrestre orgânica.

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O Ouriço Esquecido – Drama, Espinhos e a Traição Humana

No grande palco do souto transmontano, onde o Outono se desenrola em tons de glória e farra, encontramos a estrela desta peça: "O ouriço esquecido".

Aqui está ele, isolado, com a sua armadura de espinhos perfeita, repousando sobre um tapete de musgo verde piscina que grita Primavera (o que, convenhamos, é um choque de moda e calendário).

Mas não se deixe enganar pela beleza cénica.

Este ouriço é, na verdade, uma vítima.

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A sua função na vida era clara: proteger a sua preciosa carga, a castanha, para que, no momento certo, fosse colhida por mãos carinhosas e terminasse a sua jornada no calor crepitante de uma lareira, ao lado de um bom vinho.

Contudo, ele foi traído.

Enquanto os seus irmãos foram impiedosamente apanhados e calcados por botins e socas, este exemplar, por um capricho do destino (ou talvez por um “scanner” de castanhas avariado), foi deixado para trás.

Terá sido um erro de cálculo, uma mancha na eficiência da apanha?

Ou terá sido uma decisão consciente: "Deixemos este, Mário, para a foto, que está com um musgo fabuloso!"

Agora, o nosso ouriço está aqui, um herói trágico da micologia, destinado a abrir-se não para a fogueira, mas para o lento abraço húmido da terra.

Está a ser lentamente reabsorvido pelo ciclo de vida, sem a glória de ser cozido.

É o espinho na consciência do colhedor de castanhas: o lembrete de que, mesmo na colheita mais abençoada, há sempre um pequeno tesouro esquecido.

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E o musgo? O musgo verde-limão está simplesmente a rir-se, sabendo que a sua hora de dominar a floresta chegou, aproveitando o ouriço como um pequeno troféu castanho-alaranjado.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Nov25

"Castanha transmontana e Magusto"


Mário Silva Mário Silva

"Castanha transmontana e Magusto"

11Nov DSC06315_ms2

A fotografia de Mário Silva é um close-up que foca a atenção no fruto do castanheiro no seu invólucro natural.

A imagem apresenta um ouriço (a casca espinhosa) parcialmente aberto, ainda pendurado num ramo, com as suas castanhas já visíveis no interior.

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O ouriço é de cor verde-limão e amarelo-pálido, coberto por uma miríade de espinhos longos e finos.

No seu interior, revelam-se duas castanhas de cor castanho-avermelhada e brilhante, com a ponta clara, prontas para serem colhidas.

O fundo é composto por folhagem verde-escura e alguma vegetação desfocada (bokeh), o que destaca as cores ricas e as texturas contrastantes da castanha e do ouriço.

A fotografia celebra a prontidão da colheita e a beleza do fruto antes de ser apanhado.

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A Castanha Transmontana: O "Pão da Pobreza" e a Festa do Magusto

A castanha, magistralmente retratada por Mário Silva no seu ouriço protetor, é um dos mais importantes símbolos culturais e económicos de Trás-os-Montes.

Durante séculos, o fruto do castanheiro (Castanea sativa) foi mais do que um alimento; foi o pilar da subsistência em muitas regiões de montanha, valendo-lhe o cognome de "pão da pobreza" ou "pão da serra".

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O Valor Histórico e Económico

O castanheiro, introduzido ou expandido pelos Romanos e cultivado em tradicionais soutos, prospera nos solos ácidos e no clima frio de Trás-osMontes e Beiras.

Antes da chegada da batata e da expansão do milho, a castanha servia como principal fonte de carboidratos, sendo consumida cozida, assada, seca (conhecida como "castanha pilada") ou moída em farinha.

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Hoje, a Castanha da Terra Fria (variedades como a Longal e a Judia) possui uma reputação de qualidade superior, sendo valorizada tanto para consumo “in natura” como para a exportação e a indústria de ultracongelados.

A colheita, que ocorre no outono, mobiliza as comunidades e representa uma fatia importante da economia local.

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O Magusto: A Festa da Partilha e da Identidade

O ponto alto do ciclo da castanha é a celebração do Magusto, um ritual ancestral de convívio e agradecimento, que em Portugal está tradicionalmente associado ao Dia de São Martinho (11 de novembro).

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O Magusto é a festa onde a castanha, após o trabalho da apanha, é finalmente saboreada de forma comunitária (ou era):

O Fogo e o Ritual: Acendem-se fogueiras para assar as castanhas (fazendo o magusto), que se comem quentes e, muitas vezes, ainda com o fumo a sair.

A Bebida Tradicional: A castanha assada é tradicionalmente acompanhada por vinho novo (o vinho acabado de fazer da vindima anterior) ou por jeropiga (uma bebida doce feita com mosto de uva).

O Convívio: O Magusto é (ou era) uma cerimónia de partilha, onde as castanhas, o vinho e a água-pé correm livremente, e o convívio, os cânticos e as brincadeiras (como enfarruscar os rostos uns dos outros com as cinzas da fogueira) reforçam (ou reforlavam) os laços comunitários.

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Em Trás-os-Montes, a castanha é, portanto, o laço que une o passado e o presente, e o Magusto é o momento em que a comunidade celebra (ou celebrava) a generosidade da terra e a sua própria identidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
30
Jan25

"O ouriço esquecido"


Mário Silva Mário Silva

"O ouriço esquecido"

29Jan DSC05256_ms

A fotografia "O ouriço esquecido" de Mário Silva apresenta um close-up de um ouriço, o fruto espinhoso do castanheiro, pousado sobre um leito de musgo verde e húmido.

O ouriço, com a sua casca castanha e espinhos agudos, contrasta com a suavidade do musgo, criando uma composição visualmente interessante.

A profundidade de campo restrita enfatiza o ouriço, isolando-o do ambiente circundante e convidando o observador a um olhar detalhado.

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A composição da fotografia é simples e eficaz, com o ouriço ocupando o centro da imagem.

A perspetiva macro permite apreciar a beleza e a complexidade desse pequeno fruto, revelando a textura da sua casca e a delicadeza dos espinhos.

O fundo desfocado, composto por musgo e folhas, cria uma atmosfera natural e acolhedora.

A luz natural incide sobre o ouriço, criando sombras que acentuam a textura da sua casca e a humidade do ambiente.

A paleta de cores é limitada, com predominância de tons de castanha, verde e amarelo, que evocam a sensação de inverno e de decomposição.

O ouriço possui um forte simbolismo.

Ele representa a proteção, a resistência e a passagem do tempo.

Na fotografia de Mário Silva, o ouriço, esquecido no meio da floresta, pode ser visto como um símbolo da natureza em constante transformação.

Os ouriços desempenham um papel fundamental na dispersão das sementes dos castanheiros.

Ao caírem no solo, os ouriços decompõem-se, liberando as castanhas que germinam e dão origem a novas árvores.

Além disso, os ouriços servem de alimento para diversos animais, contribuindo para a manutenção da biodiversidade.

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Os ouriços desempenham um papel crucial na dinâmica dos ecossistemas florestais.

Ao dispersar as sementes dos castanheiros, eles contribuem para a regeneração das florestas e para a manutenção da biodiversidade.

Além disso, os ouriços servem como alimento para diversos animais, como esquilos, ratos e aves, contribuindo para a cadeia alimentar.

A decomposição dos ouriços enriquece o solo, fornecendo nutrientes essenciais para o crescimento das plantas.

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A fotografia "O ouriço esquecido" de Mário Silva é mais do que uma simples imagem de um fruto.

Ela convida-nos a refletir sobre a importância da natureza e sobre a interconexão entre todos os seres vivos.

O ouriço, aparentemente insignificante, desempenha um papel fundamental no ecossistema, contribuindo para a manutenção da vida na floresta.

A fotografia de Mário Silva captura a beleza e a fragilidade da natureza, convidando-nos a apreciar a complexidade e a importância de cada elemento do ecossistema.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

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