"A protetora das Rias Baixas" (Sanxenxo - Espanha)
Mário Silva Mário Silva
"A protetora das Rias Baixas"
(Sanxenxo - Espanha)

Esta fotografia de Mário Silva, intitulada "A protetora das Rias Baixas" (Sanxenxo - Espanha), retrata uma escultura intrigante e etérea, imersa nas águas de uma Ria Baixa.
A figura, de bronze, apresenta uma forma alongada e esguia, com uma postura curvada, como se estivesse a inclinar-se ou a espreitar algo na água.
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A sua cabeça tem uma forma invulgar, com projeções que se assemelham a antenas ou chifres alongados, conferindo-lhe um ar místico ou de criatura marinha.
Uma das mãos da figura segura uma concha grande e detalhada, enquanto a outra parece tocar ou apontar para a superfície da água.
Os pés da escultura repousam sobre uma formação rochosa, que serve de base e está parcialmente submersa.
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A paisagem envolvente é dominada pelo mar, com as águas calmas e um pouco escuras, onde boias amarelas flutuam, possivelmente marcando uma área de navegação ou banhos.
Ao fundo, uma linha costeira com edifícios urbanos, incluindo casas e prédios de apartamentos, estende-se, revelando a proximidade da cidade.
O céu é nublado, com tons de cinzento claro, criando uma atmosfera suave e um pouco melancólica.
A imagem transmite uma sensação de mistério, ligando o elemento humano à natureza marinha e à paisagem urbana.
A Lenda: A Guardiã dos Sussurros do Mar
Nas Rias Baixas da Galiza, onde a terra beija o Atlântico e as marés trazem consigo histórias de navegantes e lendas milenares, emerge das águas de Sanxenxo uma figura de bronze, esguia e enigmática.
Mário Silva capturou a sua essência na fotografia "A Protetora das Rias Baixas", mas a sua verdadeira história, a lenda que os pescadores mais antigos sussurram ao anoitecer, é muito mais profunda.
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Conta-se que, há incontáveis séculos, quando as Rias eram habitadas por criaturas mágicas e os homens viviam em harmonia com o mar, uma sereia de nome Xoana, diferente das suas irmãs, nasceu com uma paixão inigualável pela terra.
Enquanto as outras sereias se deliciavam nas profundezas, Xoana sentia-se atraída pelos murmúrios da costa, pelas canções dos homens e pelo cheiro dos pinhais.
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O seu amor pelo mundo humano levou-a a desobedecer às leis do Mar Profundo.
Passava os dias a observar os pescadores, a ouvir as suas preces por boas capturas, a sentir as suas alegrias e tristezas.
As suas antenas, antes finas e translúcidas, tornaram-se mais robustas, capazes de captar os mais ténues sussurros do vento e das ondas, e a sua cauda de peixe começou a transformar-se em pernas quando se aproximava da costa.
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Um dia, uma grande tempestade, a mais violenta de que havia memória, abateu-se sobre as Rias.
Os barcos dos pescadores eram atirados contra as rochas, e as ondas gigantes ameaçavam destruir as aldeias costeiras.
Xoana, angustiada, implorou ao Deus do Mar, Neptuno, para que poupasse os humanos que tanto amava.
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Neptuno, furioso pela desobediência de Xoana, negou-lhe o pedido.
- Tu escolheste o mundo dos homens, agora suporta as suas tormentas!
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Desesperada, Xoana fez um sacrifício supremo.
Pegou na concha mais bela que alguma vez encontrara, uma concha mágica que continha todos os sons e segredos do oceano, e ergueu-a em direção ao céu.
- Eu dou-vos a minha voz, o meu canto e a minha forma de sereia - suplicou aos céus e ao mar, - se em troca poupardes estas gentes e as suas terras!
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No momento em que as suas palavras se perderam no vento, um raio atingiu Xoana, transformando-a na mesma estátua de bronze que hoje vemos.
A sua forma ficou congelada entre o mar e a terra, as suas antenas esticadas para o céu, a concha mágica firmemente apertada na mão, um gesto eterno de súplica e proteção.
A tempestade acalmou, o mar serenou, e as Rias foram salvas.
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Desde então, Xoana, a "Protetora das Rias Baixas", vigia a costa.
Os pescadores dizem que, nas noites de nevoeiro, quando o mar está em fúria, se ouvirmos com atenção, podemos escutar um fraco sussurro vindo da concha que ela segura.
É a sua voz de sereia, transformada em oração silenciosa, a guiar os barcos e a proteger a costa das intempéries.
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Acredita-se que, se alguém com um coração puro se aproximar da estátua e sussurrar um desejo à concha, Xoana, na sua forma de bronze, levará esse desejo às profundezas do oceano, e ele será atendido se for para o bem de todos.
E assim, a estátua em Sanxenxo não é apenas uma obra de arte; é o testemunho vivo de um amor abnegado e da magia que ainda reside nas águas e nas lendas das Rias Baixas.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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