"A borboleta (Pieris rapae) e as flores de cardo (Cirsium arvense)"
Mário Silva Mário Silva
"A borboleta (Pieris rapae)
e as
flores de cardo (Cirsium arvense)"

Naquele dia ensolarado de julho, o campo irradiava uma paleta de verdes vibrantes, salpicados aqui e ali por explosões de cor.
Mas eram os tons de roxo intenso que mais chamavam a atenção, emanando das cabeças espinhosas dos cardos, que se erguiam orgulhosos, apesar da sua natureza um tanto indomável.
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Uma pequena borboleta, uma “Pieris rapae”, ou a "borboleta-da-couve" como era carinhosamente conhecida, dançava no ar.
As suas asas, de um creme suave e quase translúcido, eram pontuadas por discretas pintas pretas, quase como a assinatura de um artista no seu trabalho.
Ela não era das mais exóticas, nem das mais chamativas, mas a sua elegância residia na sua simplicidade e na sua persistência.
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A borboleta-da-couve, com os seus sentidos aguçados, sentiu o néctar doce que emanava das flores de cardo.
As “Cirsium arvense”, conhecidas popularmente como cardo-rasteiro, podiam ser consideradas uma praga por alguns, com as suas raízes profundas e a sua capacidade de se espalhar.
Mas para a borboleta, eram um oásis.
As suas flores, um turbilhão de filamentos roxos, ofereciam um banquete de energia essencial para os seus voos incansáveis.
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Com um movimento grácil, a borboleta pousou delicadamente numa das flores.
As suas patinhas finas agarraram-se às pequenas estruturas espinhosas, não com medo, mas com a familiaridade de quem encontra um velho amigo.
A sua probóscide desenrolou-se, mergulhando no coração púrpura da flor, sorvendo o néctar com satisfação.
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Ao lado, outra flor de cardo esperava, igualmente vibrante, a prometer mais néctar.
A borboleta sabia que tinha tempo, que o sol de julho ainda aquecia o ar e que a vida no campo se desenrolava no seu próprio ritmo.
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Naquele instante, a cena era um microcosmo perfeito do equilíbrio da natureza.
A borboleta, frágil, mas determinada, encontrava sustento na planta que muitos consideravam robusta e indesejável.
Era uma dança antiga, um pacto silencioso de coexistência.
A “Pieris rapae” levaria pólen de uma flor para outra, perpetuando o ciclo de vida do cardo, que por sua vez, lhe oferecia a sua doce recompensa.
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E enquanto a borboleta se demorava, o tempo parecia parar.
Não era apenas uma borboleta e uma flor; era a poesia do dia a dia, uma chamada de atenção de que a beleza e a interconexão podem ser encontradas mesmo nos cantos mais humildes do nosso mundo.
A fotografia de Mário Silva capturou não apenas uma imagem, mas um fragmento de uma história eterna, que continua a desdobrar-se em cada campo e em cada dia de verão.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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