"Lagarto pintado. Quem te pintou? Foi uma Velha que, por Aqui, passou”
Mário Silva Mário Silva
"Lagarto pintado. Quem te pintou?
Foi uma Velha que, por Aqui, passou”

Esta fotografia de Mário Silva capta um plano aproximado de um lagarto, a “Lagartixa-de-bocage” (Podarcis bocagei), em tons de castanho e verde, que repousa sobre a areia do caminho.
O lagarto está a olhar para a direita, com a cabeça levantada e o corpo esticado.
A sua pele, com um padrão de manchas escuras, contrasta com o tom claro da areia.
A fotografia, com a luz do sol a incidir sobre o animal, realça a textura da sua pele e a sua forma.
A imagem transmite uma sensação de quietude, mas ao mesmo tempo de alerta, como se o lagarto estivesse pronto para se mover a qualquer momento.
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Estória: A Velha e o Lagarto
O lagarto, com a sua pele pintada em tons de castanho e verde, era o lagarto mais famoso do monte.
O seu nome era Verdelho, mas as crianças da aldeia, quando o viam, cantavam a canção que o Mário Silva mais tarde transformaria em título de fotografia: "Lagarto pintado. Quem te pintou? Foi uma velha que, por aqui, passou.”
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A história da velha era uma lenda.
Diziam que, há muito tempo, uma velha curandeira vivia na aldeia.
Era uma mulher sábia e bondosa, que curava as doenças com ervas e com a sua voz suave.
Um dia, um pequeno lagarto, ferido e triste, arrastou-se até à sua casa.
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A velha, com as suas mãos macias, pegou no lagarto.
Ela viu a sua pele, que antes era de uma cor única e deslavada.
Para lhe dar coragem e um pouco de alegria, a velha, com os seus dedos finos, pintou-lhe a pele.
Usou a cor do musgo para o seu corpo, e a cor da terra para as suas manchas.
No final, o lagarto estava pintado.
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O lagarto, pela primeira vez na sua vida, sentiu-se especial.
A sua pele, antes aborrecida, era agora uma obra de arte.
Ele tinha um propósito: era o guardião do segredo da velha.
E o seu corpo, com as suas cores, era a prova viva de que a beleza podia nascer da bondade.
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O lagarto viveu por muito tempo, e quando as suas crias nasciam, vinham com as mesmas cores do pai.
As manchas escuras, a cor do musgo, a cor da terra.
E a lenda da velha, que tinha pintado o lagarto com os seus dedos sábios, continuava a ser contada.
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A fotografia de Mário Silva capta o lagarto Verdelho, um descendente daquele lagarto original.
Ele está na areia, a olhar para o mundo, um pequeno rei no seu reino de pedras e de sol.
A sua pele pintada é a prova de que a beleza não é algo que se encontra, mas que se cria.
A estória do lagarto é um lembrete de que, com a bondade e com a sabedoria, podemos transformar o mais simples dos seres numa obra de arte, e que a história mais simples pode tornar-se uma lenda.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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