"O Sol brilha ...e a Festa da Aldeia aproxima-se" … e uma breve estória
Mário Silva Mário Silva
"O Sol brilha ...e a Festa da Aldeia aproxima-se"
… e uma breve estória

A fotografia de Mário Silva captura uma cena rural sob a intensa luz do sol.
Em primeiro plano, a imagem é dominada pelas silhuetas escuras de duas árvores frondosas, cujos troncos e ramos se destacam contra o brilho ofuscante do sol.
O sol, no centro da composição, irradia uma luz dourada e amarelada que preenche grande parte do céu, criando um efeito de “flamejar” e um “halo” luminoso à volta das árvores.
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A vegetação em primeiro plano, que parece ser erva seca e alguma folhagem rasteira, está também em contraluz, adquirindo tons quentes de dourado e castanho, banhada pela luz solar.
A atmosfera geral da fotografia é quente e um pouco etérea, sugerindo um final de tarde de verão.
A imagem transmite uma sensação de tranquilidade e a grandiosidade da natureza, realçando o poder e a beleza do sol.
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Estória: A Promessa Dourada do Verão
Em cada verão, havia um dia que a aldeia inteira aguardava com uma ansiedade doce: o dia da Festa de Verão.
Era a altura em que a rotina das sementeiras e das colheitas cedia lugar à alegria do reencontro, ao barulho das concertinas e ao cheiro a sardinhas assadas que perfumava as noites.
Na fotografia de Mário Silva, o sol, num brilho intenso por entre as folhas de uma árvore, não era apenas a luz do dia; era a promessa da festa que se aproximava, um farol dourado no fim do cansaço.
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Para o pequeno Tiago, de apenas sete anos, a festa era um mundo mágico.
Significava gelados, algodão doce, e a oportunidade de ver primos que só apareciam uma vez por ano.
Mas este ano, Tiago sentia algo mais.
Os seus avós, que sempre tinham sido o coração da festa – a avó Maria, com a sua mesa farta de iguarias, e o avô Joaquim, o contador de histórias junto à fogueira – pareciam mais cansados.
As suas vozes eram mais baixas, os seus passos mais lentos.
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Tiago tinha ouvido os adultos sussurrarem que talvez este ano a festa não fosse tão grande.
Faltava gente, faltava mão-de-obra, faltavam os velhos braços que sempre erguiam os arcos e enfeitavam as ruas.
O coração de Tiago encolheu-se.
Uma festa menor? Como seria isso possível?
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Todas as tardes, Tiago ia para o alto do monte, para o seu lugar secreto, onde duas árvores gigantes, irmãs em silêncio, se erguiam.
Dali, olhava para o sol, que se filtrava por entre as folhas, pintando o chão de ouro e sombra.
Era o mesmo sol que Mário Silva um dia capturaria na sua fotografia, com a sua luz quase ofuscante, a espalhar uma aura de esperança.
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- Ó sol - sussurrava Tiago - faz com que a nossa festa seja a mais bonita de sempre.
Pelos meus avós, que tanto já deram a esta terra.
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Os dias passavam e, na aldeia, a preparação da festa parecia arrastar-se.
Mas, como por magia, algo começou a mudar.
Um a um, os emigrantes que tinham partido anos antes, começaram a chegar mais cedo do que o habitual.
Trouxeram consigo filhos, netos, e uma nova energia.
As notícias dos receios da aldeia tinham-se espalhado, e a saudade, aliada à vontade de ajudar, trouxe-os de volta.
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As mulheres mais novas, que agora tinham as suas próprias vidas nas cidades, arregaçaram as mangas e começaram a cozinhar ao lado da avó Maria, aprendendo os segredos das receitas antigas.
Os homens mais novos, com as suas forças renovadas, ajudaram o avô Joaquim a montar os arcos e as luzes.
O baloiço da Escola, onde as crianças da aldeia riam, parecia ter um novo balanço.
O som das marteladas, das vozes em festa, das gargalhadas ecoava pelos vales.
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Quando o dia da Festa de Verão chegou, o sol brilhava no céu como um olho benevolente, exatamente como na fotografia de Mário Silva.
As árvores no alto do monte pareciam vibrar com a luz dourada.
A aldeia estava irreconhecível, cheia de cor, de música, de gente.
Era a festa mais vibrante que Tiago alguma vez vira.
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Ele correu para os seus avós, que, rodeados por filhos e netos, sorriam com os olhos marejados de alegria.
- Avó! - exclamou Tiago - A festa é linda!
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Maria apertou a mão do neto.
- Vês, meu filho? O sol brilha, sim. Mas é a luz das nossas gentes que faz a festa.
São as raízes que nos prendem a esta terra, a memória que nos traz de volta.
A festa não é só a celebração do verão; é a celebração do nosso povo, da nossa união.
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Naquela noite, sob um céu estrelado, o avô Joaquim contou as suas histórias, e o canto das concertinas uniu gerações.
Tiago percebeu que a verdadeira beleza da festa não estava no algodão doce, mas no fio invisível que ligava cada um à sua aldeia, à sua história, e à luz dourada de um sol que, ano após ano, prometia recomeços e celebrações para as gentes de Trás-os-Montes.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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