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MÁRIO SILVA - Fotografia, Pintura & Escrita

*** *** A realidade é a "minha realidade" em imagens (fotografia, pintura) e escrita

09
Dez25

"Um naco da Aldeia" - Águas Frias - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Um naco da Aldeia"

Águas Frias - Chaves – Portugal

09Dez DSC00020a_ms.JPG

A fotografia de Mário Silva é um plano geral que capta uma secção da aldeia de Águas Frias a partir de um ponto de vista elevado, revelando a disposição das casas e a intersecção entre o espaço construído e o espaço rural.

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O Primeiro Plano: O primeiro plano é dominado por uma maciça explosão de folhagem outonal, com tonalidades intensas de amarelo-dourado e castanho-claro.

Esta folhagem, provavelmente de carvalhos ou castanheiros, enquadra a vista e serve como uma cortina quente que nos introduz ao cenário da aldeia.

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O Naco da Aldeia: Imediatamente atrás da folhagem, o olhar é dirigido para um conjunto de casas rurais.

As habitações apresentam a arquitetura típica da região, sendo a maioria de fachadas brancas ou creme com telhados de telha cerâmica de cor laranja-avermelhada.

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A Interação Rural-Urbana: A imagem evidencia a integração da aldeia na paisagem agrícola.

Entre as casas, veem-se terrenos cultivados ou hortas, alguns com vegetação verde viva, contrastando com a cor seca do outono e dos telhados.

Esta disposição mostra a proximidade direta entre o lar e o sustento.

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A Composição: A fotografia utiliza as árvores outonais como moldura e contrapeso ao casario, com a luz a realçar os telhados e a folhagem.

 O título "Um naco da Aldeia" sugere que esta é uma porção representativa, um pequeno pedaço da vida e da paisagem de Águas Frias.

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Um Naco da Aldeia – A Topografia da Vida e do Ocre em Trás-os-Montes

A expressão "Um naco da Aldeia" contida no título da fotografia é singularmente apropriada.

Não é a aldeia inteira, mas uma porção palpável e vital de Águas Frias, Chaves, que Mário Silva nos apresenta.

Esta imagem sintetiza a topografia humana e natural de Trás-os-Montes, onde o assentamento humano se molda ao terreno e coexiste intimamente com a produção agrícola.

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A Transição e a Cor no Outono

O Outono é a estação chave para esta paisagem, marcada pela folhagem amarelada em primeiro plano.

É um momento de transição, onde a energia da natureza se retrai após a colheita, mas a cor — o ocre e o laranja — celebra o calor do fruto e da madeira.

A folhagem em primeiro plano funciona como uma moldura natural e sazonal para o casario, lembrando que a aldeia não se impõe à floresta e ao campo, mas sim assenta neles.

O manto de cores quentes sublinha a interconexão entre o ciclo da vegetação e o ciclo da vida comunitária.

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A Arquitetura da Sobrevivência

O "naco" revelado mostra a essência do assentamento rural transmontano: casas com telhados inclinados de cor viva que combatem as chuvas e as neves do inverno e fachadas de cores claras que refletem a luz, muitas vezes escassa na região.

As casas são construídas em patamares, adaptando-se à inclinação do terreno, uma característica da paisagem montanhosa.

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Crucialmente, as parcelas de terreno cultivado, visíveis entre e por baixo das casas, mostram que a aldeia é uma unidade de produção e de habitação.

A vida não se separa do trabalho na terra; o lar é vizinho da horta, e a agricultura é uma atividade de proximidade, essencial para o sustento e a autonomia das famílias.

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Esta fotografia não é só um postal de uma aldeia; é uma planta do viver rural.

É a história contada em cores de terra e telha de um pedaço de Portugal que se mantém fiel à sua paisagem e ao seu ritmo sazonal.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
02
Dez25

"Pela Lampaça, à noite" - Águas Frias - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Pela Lampaça, à noite"

Águas Frias - Chaves – Portugal

02Dez DSC03326_ms

A fotografia de Mário Silva é um plano noturno que se foca num recanto rural iluminado artificialmente, num arruamento da povoação de Águas Frias.

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A Iluminação: O elemento mais distintivo é a luz forte e amarelada de um candeeiro de rua (Lampaça), que banha a cena em tons de ocre e dourado.

Esta luz cria sombras profundas, acentuando a textura dos elementos.

A Árvore Desfolhada: No centro do plano, domina uma árvore caduca, cujos ramos nus e retorcidos se estendem dramaticamente contra o fundo escuro.

A luz do candeeiro incide diretamente nos ramos, transformando-os numa intrincada silhueta dourada.

O Muro de Pedra: Na base da árvore e atravessando a parte inferior do quadro, há um muro de pedra rústico (granito), coberto de musgo e terra.

Este muro representa a fronteira entre a habitação e a rua, e a sua textura rugosa é realçada pela luz.

O Contexto Rural Noturno: No fundo, vislumbram-se as formas escuras de construções rurais e telhados.

O chão, onde a luz mais forte incide, reflete o pavimento húmido e batido de uma rua da aldeia.

A composição evoca uma atmosfera de quietude e intimidade rural sob o manto da noite transmontana.

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Pela Lampaça, à Noite – A Luz que Preserva a Memória da Aldeia

A fotografia "Pela Lampaça, à noite" de Mário Silva capta um momento simples, mas profundo da vida em Águas Frias, Chaves.

O título refere-se à luz do candeeiro público (a “Lampaça”, em linguagem popular do Norte), que assume o papel de guardião silencioso da aldeia, sublinhando o contraste entre a escuridão da noite rural e o foco da vida comunitária.

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A Lampaça: O Coração Luminoso da Comunidade

Na aldeia transmontana, a luz artificial, especialmente à noite, é um elemento de agregação e segurança.

A “Lampaça” não tem apenas a função de iluminar o caminho; ela demarca o espaço cívico onde a vida da aldeia, que se abranda, não cessa completamente.

É o ponto de referência para quem regressa a casa e o foco de luz que repele a solidão da noite.

O tom amarelado e quente da luz (a cor tradicional das lâmpadas de sódio antigas) na imagem evoca uma sensação de nostalgia e conforto.

Contrasta com o frio e o negrume do meio envolvente, criando um microclima de familiaridade e história.

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O Muro e a Árvore: Símbolos de Resistência

Os dois elementos estruturais da fotografia — a árvore desfolhada e o muro de granito — são metáforas poderosas da paisagem e do povo de Trás-os-Montes:

A Árvore: Sem a sua folhagem, a árvore exibe a sua estrutura óssea e ramificada.

Ela suportou as estações e, sob a luz artificial, a sua nudez não é de fraqueza, mas de resiliência.

É um símbolo do ciclo de repouso no inverno, essencial para a força da primavera.

O Muro de Pedra: Construído com o granito local, o muro é um limite de dureza e permanência.

Ele representa a tenacidade com que os transmontanos se agarram à sua terra e às suas raízes, dividindo o espaço privado da rua e resistindo ao tempo, tal como o povo da região.

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O cenário, banhado pela “Lampaça”, é um tributo à vida que persiste no interior de Portugal.

A luz na rua de Águas Frias é a chama que mantém viva a memória e a identidade rural, contrastando o negrume vasto e natural com a pequena, mas fundamental, luz da civilização e da comunidade.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
27
Nov25

"O largo; a sede da Junta de Freguesia; o cruzeiro de Nosso Sr. dos Milagres" - Águas Frias - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"O largo; a sede da Junta de Freguesia;

o cruzeiro de Nosso Sr. dos Milagres"

Águas Frias - Chaves – Portugal

27Nov DSC08973_ms

A fotografia de Mário Silva capta um amplo plano do largo principal da aldeia de Águas Frias, onde se encontram os elementos cívicos, administrativos e religiosos da comunidade, sob a luz clara de um dia de outono.

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A Sede da Junta de Freguesia: No lado esquerdo do plano, domina um edifício de dois pisos, com as paredes em pedra (granito) e uma varanda no piso superior.

O telhado é de telha tradicional.

O rés-do-chão apresenta inscrições identificativas ("Junta de Freguesia de Águas Frias") e algumas aberturas.

A estrutura é robusta e utilitária, tipicamente rural.

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O Cruzeiro: No lado direito, sob a sombra das árvores, encontra-se uma pequena estrutura religiosa que funciona como cruzeiro de rua.

Esta consiste num nicho emoldurado por um pequeno telhado sustentado por colunas, abrigando uma imagem de culto, Nosso Senhor dos Milagres, dado ser um cruzeiro.

A sua presença demarca o espaço sagrado no largo.

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O Largo e a Vegetação: O largo propriamente dito é um espaço amplo de pavimento simples, que serve de ponto de encontro e estacionamento.

Árvores de grande porte, com folhagem de outono em tons de verde, amarelo-dourado e vermelho intenso, emolduram a cena, sugerindo a transição da estação.

 O céu é limpo e azul.

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O Coração da Aldeia Transmontana – A Tripla Identidade do Largo

O largo principal de Águas Frias, Chaves, imortalizado na fotografia de Mário Silva, é o palco onde se manifestam os três pilares que estruturam a vida social e cultural da aldeia transmontana: o poder cívico (Junta), a fé (Cruzeiro) e a comunidade (Largo).

Este espaço é o verdadeiro coração da freguesia, um ponto de convergência de todos os caminhos.

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A Junta de Freguesia: O Poder Terreno

O edifício da Sede da Junta de Freguesia representa a autoridade local e a voz da comunidade.

Não se trata de uma simples repartição administrativa, mas sim do polo onde se resolvem os problemas quotidianos, se organizam os festejos e se mantêm as tradições.

Na arquitetura de granito e de linhas simples, o edifício simboliza a solidez e a resiliência das instituições rurais.

É o elo de ligação entre a aldeia e o município, garantindo que as necessidades dos habitantes, desde o arranjo dos caminhos à distribuição de água, sejam atendidas.

É o símbolo da vida organizada e da gestão coletiva.

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O Cruzeiro: O Elo com o Sagrado

A presença do Cruzeiro de Nosso Senhor dos Milagres lado a lado com a administração civil sublinha a profunda raiz religiosa que ainda impera nas comunidades transmontanas.

Estes pequenos altares ao ar livre são pontos de devoção espontânea e local.

O cruzeiro é um farol de fé, onde os lavradores, antes ou depois do trabalho, podem fazer uma breve oração.

Simboliza a esperança, a proteção e a constante busca por milagres que amparem a vida, muitas vezes dura, do campo.

É um lembrete de que a vida da aldeia é regida não só pelas leis humanas, mas também pelas leis divinas.

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O Largo: O Espaço da Comunidade

Por fim, o Largo é o palco da vida social.

É onde se dão os encontros após a missa, onde as crianças brincam e onde se realizam as festas anuais.

Rodeado pela vegetação do outono em tons vibrantes, este espaço aberto representa a liberdade, a partilha e o convívio.

O largo é o ponto de partida e o ponto de chegada.

Ao unir a administração (Junta) e a fé (Cruzeiro), este espaço encapsula a identidade completa da aldeia: uma comunidade que se apoia na organização prática, mas que encontra o seu conforto e a sua força na espiritualidade e na tradição.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
17
Nov25

"Original puxador de porta" - Tinhela – Valpaços – Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Original puxador de porta"

Tinhela – Valpaços – Portugal

17Nov DSC01477_ms

A fotografia de Mário Silva é um close-up de um detalhe de arquitetura rural, capturado em Tinhela, Valpaços.

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O foco da imagem está num puxador de porta de ferro forjado que apresenta uma forma artística e incomum, assemelhando-se a uma figura humana estilizada ou a um lagarto/macaco com braços e pernas longos e curvos.

O ferro é de cor castanho-ferrugem e está pregado a uma porta de madeira pintada num tom azul-pálido e gasta pelo tempo.

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A superfície da porta é composta por tábuas verticais, com a pintura desbotada e desgastada, o que confere ao conjunto uma atmosfera rústica e antiga.

No lado esquerdo, é visível uma fechadura ou buraco da chave em latão, contrastando com o puxador rústico.

A luz incide suavemente, destacando a textura áspera e irregular do ferro forjado.

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O Puxador de Porta: Onde a Funcionalidade Encontra a Alma Artesanal

A fotografia de Mário Silva, que destaca um puxador de porta artesanal na aldeia de Tinhela (Valpaços), celebra a beleza singular do ferro forjado e a forma como a funcionalidade mais básica — abrir e fechar — pode ser elevada a uma expressão de arte popular.

Este tipo de detalhe arquitetónico é uma marca da identidade das aldeias rurais portuguesas, especialmente no interior transmontano.

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A Originalidade da Necessidade

Em ambientes rurais, a produção de objetos quotidianos era, por natureza, artesanal.

O serralheiro ou ferreiro local não se limitava a replicar modelos industriais; ele infundia a sua criatividade e as tradições locais em cada peça.

O puxador retratado, com a sua forma orgânica e quase animada (que evoca, talvez, a figura de um macaco, um lagarto ou um homem em movimento), transcende o utilitarismo.

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Originalidade: Este tipo de puxador demonstra uma liberdade formal invulgar, transformando a porta numa tela para a escultura funcional.

Cada peça é única, contando uma história silenciosa daquele lar.

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Contraste Material: A escolha da madeira pintada de azul gasta em contraste com o ferro envelhecido pela ferrugem sublinha a passagem do tempo, a resiliência dos materiais e a beleza que nasce da imperfeição e do uso diário.

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Funcionalidade e Simbolismo

Apesar da sua aparência decorativa, a principal função do puxador é, obviamente, ser um ponto de contacto, um ponto de transição entre o exterior e o interior.

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A Ergonomia Rústica: O ferro forjado, embora duro, era moldado para que a pega fosse firme.

As formas curvas garantiam que a mão pudesse agarrar o objeto com facilidade e segurança.

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O Simbolismo na Porta: Em muitas culturas, a porta e os seus acessórios (puxadores, aldravas, dobradiças) tinham um valor simbólico, atuando por vezes como amuletos.

Formas de animais ou figuras humanas podiam ser vistas como guardiões da casa, conferindo um caráter protetor ao portal de entrada.

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A fotografia de Mário Silva não é apenas sobre um puxador; é sobre a poesia da ferraria tradicional, onde a arte da forja se misturava com as necessidades do quotidiano, deixando um legado de funcionalidade e originalidade nas portas das casas de Portugal.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
15
Nov25

"Ufff... um gato preto" ... e uma estória


Mário Silva Mário Silva

"Ufff... um gato preto" ... e uma estória

15Nov DSC02658_ms

A fotografia de Mário Silva é um retrato de um felino, capturado num enquadramento rústico.

A imagem foca-se num gato preto de pelo denso e lustroso, que está enrolado e confortavelmente aninhado na abertura de uma janela ou nicho em pedra rústica.

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O gato está em repouso, com os olhos parcialmente fechados, parecendo ligeiramente ensonado ou incomodado pela luz que entra.

A sua cor negra contrasta drasticamente com a escuridão total do interior do nicho e com a pedra clara e trabalhada da moldura da janela, que é banhada pela luz solar.

O enquadramento em pedra é grosso e antigo, realçando as texturas e o contraste entre o animal e o ambiente.

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Ufff... Um Gato Preto. A Estória do "Porteiro" Faustino

O título da fotografia, "Ufff... um gato preto", sugere um misto de alívio e talvez uma pitada de superstição bem-humorada.

E é exatamente isso que Faustino, o gato em questão, causa na pequena aldeia de Favas do Tempo.

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Faustino não era apenas um gato; era o Porteiro Não Oficial da Rua da Amargura (assim chamada por ser a mais íngreme).

E tinha a mais importante das funções: sentar-se na janela da velha casa de granito, a de Dona Piedade, e julgar quem passava.

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O seu pelo era tão negro que, quando se aninhava na sombra da sua alcova de pedra, como na fotografia, era virtualmente invisível.

Isto causava uma série de pequenos sustos matinais.

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Um dia, o Sr. Custódio, o padeiro, vinha a subir a rua carregando a primeira fornada de broas de milho.

O sol tinha acabado de bater na janela e, ao ver a silhueta negra imóvel, o padeiro parou a meio do passo.

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"Ufff... um gato preto," sussurrou Custódio, fazendo o sinal da cruz. "Que o azar não me vire as broas."

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Faustino, que estava apenas a tentar desfrutar do seu sono da manhã, abriu um olho dourado, deu um miar de preguiça — um som que mais parecia um "deixa-me em paz" profundo — e virou a cabeça para o sol.

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Custódio, aliviado por o "mau presságio" não ter fugido (sinal de que não era assim tão mau, pensou ele), sorriu.

"Ah, Faustino! Bom dia! Pensei que me tinhas pregado um susto, bicho do Demo. Anda cá, toma uma fatia de salpicão, para abençoar o dia."

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E foi assim que Faustino não só se tornou o felino mais bem-alimentado da aldeia (aceitando o salpicão como compensação pelo esforço de não lhes dar azar), como também o principal motivo de suspiros e exclamações matinais.

O "Ufff... um gato preto" deixou de ser um prenúncio e passou a ser o cumprimento não oficial de Favas do Tempo.

E Faustino, o seu guardião ensonado, continuava a dominar a sua escuridão de granito, aceitando a sua importância cómica com a dignidade que só um gato preto pode ter.

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Estória & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
07
Nov25

"A parreira e Águas Frias" - Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

"A parreira e Águas Frias"

Chaves - Portugal

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A fotografia de Mário Silva é uma paisagem que enquadra a vista de uma aldeia a partir de uma vinha.

A imagem está dividida em dois planos distintos: o primeiro plano é dominado por um elemento natural em “bokeh” (desfocado), nomeadamente os ramos de uma parreira com folhas em tons de vermelho-vivo e ocre de outono.

Este filtro natural emoldura a paisagem no centro da composição.

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O segundo plano, em foco, revela a aldeia de Águas Frias, caracterizada por um aglomerado de casas tradicionais, com paredes brancas e telhados de barro avermelhado, que se aninham na encosta.

O casario estende-se pela colina, em harmonia com o relevo.

O fundo é montanhoso, coberto por vegetação densa.

A luz suave da manhã ilumina as fachadas, conferindo-lhe uma sensação de paz e integração rural.

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A Parreira e a Aldeia: O Vínculo Indissolúvel entre a Vinha e a Vida Rural Transmontana

A fotografia de Mário Silva, que enquadra a paisagem de Águas Frias através do manto outonal de uma parreira, é uma poderosa metáfora do Norte de Portugal: a vida da aldeia é inseparável do ciclo da vinha.

A parreira e o casario não são apenas elementos vizinhos, mas partes de um mesmo organismo, onde a cultura e a economia se constroem em torno da terra.

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A Vinha: O Espelho da Vida em Trás-os-Montes

O primeiro plano, dominado pelas folhas da parreira em tons de fogo, simboliza a época da colheita e do repouso.

As cores intensas — do vermelho vibrante ao castanho-ocre — atestam o final da vindima, a altura mais importante do ano agrícola.

Em Trás-os-Montes, a viticultura é uma herança ancestral; a vinha não é cultivada em extensões industriais, mas em socalcos e parcelas pequenas, muitas vezes adjacentes ou mesmo dentro das aldeias.

A parreira é, assim, o símbolo do trabalho e da subsistência das gentes de Águas Frias.

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A Aldeia: Um Nicho de Permanência

A aldeia de Águas Frias, visível ao longe, é o ninho da comunidade.

As casas de paredes claras e telhados vermelhos, perfeitamente integradas na encosta, mostram a arquitetura tradicional que privilegia a funcionalidade e a adaptação ao terreno.

A sua disposição compacta sugere a união e a dependência mútua dos seus habitantes.

A aldeia e a vinha coexistem num ecossistema onde a matéria-prima (a uva) é transformada em produto (o vinho), que, por sua vez, sustenta a vida da comunidade.

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A Perspetiva da Emoção

Ao escolher enquadrar a aldeia através da parreira, o fotógrafo estabelece uma perspetiva emocional.

O “bokeh” das folhas funciona como um véu de memória, sugerindo que a visão que se tem da vida rural é inseparável da sua produção e da sua história.

É um olhar que valoriza o sacrifício e a beleza do ciclo natural.

A parreira não é apenas uma planta; é a moldura viva da tradição transmontana.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
31
Out25

“Campo de futebol relvado, de erva seca” - Travancas – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Campo de futebol relvado, de erva seca”

Travancas – Chaves – Portugal

31Out DSC08003_ms

Esta fotografia de Mário Silva, capturada em Travancas, Chaves, retrata um cenário que evoca a melancolia e o contraste entre o desporto e o abandono.

O plano principal é dominado por um campo coberto por erva alta e seca, em tons profundos de castanho-dourado e ocre, sugerindo o final do verão ou o avanço do Outono no interior transmontano.

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Em contraste com o tom da relva, destacam-se duas balizas de futebol em ferro, visivelmente enferrujadas e sem redes, que se erguem como esqueletos sobre o campo.

A primeira baliza, mais próxima e maior, é ladeada por arbustos.

A segunda, mais distante, reforça a profundidade da composição.

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O fundo da imagem é preenchido por uma paisagem montanhosa, suavemente ondulada, que se estende sob um céu dramático, pesado, com nuvens carregadas em tons de cinzento e amarelo-sujo.

A luz é difusa e quente, conferindo à cena uma atmosfera de quietude, isolamento e a memória de jogos passados.

O campo, outrora palco de atividade, surge agora como um monumento à pausa e à espera.

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O Relvado Seco e as Balizas Enferrujadas – O Futebol como Metáfora no Portugal Rural

O “campo de futebol relvado, de erva seca”, capturado em Travancas, Chaves, é muito mais do que um mero registo paisagístico; é uma profunda metáfora da vida e da memória nas aldeias do interior de Portugal.

A imagem evoca a dualidade entre a paixão comunitária e a realidade do despovoamento.

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O Templo do Desporto no Interior

Em comunidades pequenas, o campo de futebol – por mais rústico que seja – transcende a função desportiva.

É um verdadeiro templo social.

É o ponto de encontro de jovens, o palco de rivalidades amigáveis entre aldeias, e o espaço onde a identidade local se reforça a cada golo.

O “relvado” de erva seca, longe do glamour dos grandes estádios, representa a autenticidade e o engenho do futebol praticado na sua forma mais pura, em condições simples.

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As Balizas: Memória e Abandono

As balizas enferrujadas são o ponto focal dramático da fotografia.

A sua corrosão e a falta de redes simbolizam o passo do tempo e, inevitavelmente, o abandono.

O metal, castigado pelos Invernos e Verões, reflete a estagnação da atividade.

Estas balizas permanecem de pé, orgulhosas, mas vazias, a guardar a memória dos jogos, dos gritos de vitória e dos lamentos de derrota.

Elas representam a resistência de uma tradição que teima em não desaparecer, mesmo quando os jogadores já partiram.

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A Paisagem e a Quietude Transmontana

O cenário de montanhas distantes e o céu carregado enquadra o campo numa quietude quase solene.

A paisagem vasta e rural reforça o sentido de isolamento destas comunidades.

A cena, capturada no silêncio da tarde, convida à reflexão sobre o ciclo de vida das aldeias: a vitalidade trazida pelo verão e pelos regressos, e a pausa melancólica trazida pelo Outono e o Inverno, quando a vida comunitária se recolhe e o campo espera pacientemente pela próxima estação.

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Em Travancas, como em muitas outras aldeias de Chaves, este campo de futebol é uma cápsula do tempo, celebrando a paixão inata pelo jogo enquanto lamenta, silenciosamente, os filhos da terra que já não vêm chutar a bola.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
29
Out25

“Pela rua principal de Sobreira” – Águas Frias – Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Pela rua principal de Sobreira”

Águas Frias – Chaves – Portugal

29Out DSC07825_ms

Esta fotografia de Mário Silva capta um pequeno, mas profundamente característico, recanto da aldeia de Sobreira, em Águas Frias (Chaves), no Norte de Portugal.

A composição é dominada por uma antiga fachada rural, rústica e texturada, dividida em duas secções distintas.

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À esquerda, ergue-se uma parede de pedra irregular em tons quentes, banhada por uma luz solar que lhe confere um brilho dourado e acentua a robustez dos materiais de construção tradicionais.

À direita, a parede apresenta um reboco mais claro e desgastado, em contraste suave com a pedra.

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O ponto focal é a porta castanha-avermelhada, de aspeto metálico e simples, que se insere numa moldura de pedra.

Por cima desta porta, luxuriante e viva, cresce uma parreira (videira), com as suas folhas verdes a penderem de forma protetora sobre a entrada e a criarem uma coroa de vitalidade sobre o cenário de pedra antiga.

Esta vide sugere a tradição agrícola e a profunda ligação da vida rural à produção do vinho.

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A telha tradicional no topo da parede, os pequenos pormenores como o tubo de escoamento e a pequena janela, juntamente com a assinatura do autor, emolduram uma cena que exala a calma, a simplicidade e a durabilidade da vida no interior transmontano.

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A Parreira, a Pedra e a Porta – Os Elementos da Memória Rural Transmontana

A fotografia de Mário Silva, capturada na aldeia de Sobreira, em Águas Frias, não é apenas um retrato arquitetónico; é uma síntese visual dos valores e da cultura do Portugal rural e transmontano.

A imagem condensa três elementos centrais da identidade desta região: a pedra, a porta e a videira.

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A Pedra: A Fundação da Resiliência

A parede de pedra, fria e robusta, simboliza a resiliência e a antiguidade destas comunidades.

Construída com o material abundante da região – o granito –, estas fachadas testemunham séculos de vida, resistindo ao rigor do clima e à passagem do tempo.

Cada bloco irregular, iluminado pelo sol, conta a história de uma construção feita à mão, perfeitamente integrada no ambiente circundante.

É uma arquitetura de necessidade, mas também de profunda beleza.

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A Parreira: O Símbolo da Vida e do Sustento

Contrastando com a imobilidade da pedra, a parreira que se debruça sobre a porta traz vida, movimento e cor.

A videira é, historicamente, um pilar da economia e da cultura transmontana.

Crescer à entrada de casa não é apenas decorativo; é um símbolo de sustento, de sombra no verão e, sobretudo, da produção caseira do vinho.

Esta videira luxuriante representa a interdependência entre o homem e a terra, e o ciclo anual de trabalho, colheita e celebração.

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A Porta: O Limiar do Lar

O elemento central, a porta, é o portal entre o mundo público da rua e o santuário privado do lar.

A sua aparência simples e metálica sugere funcionalidade e proteção.

Numa rua principal de uma aldeia, a porta é o ponto de passagem onde se trocam as primeiras palavras do dia, onde o trabalho começa e onde o descanso se encontra.

É o coração visível da vida familiar, emoldurado pelo legado da pedra e pela promessa da videira.

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A fotografia, ao isolar e realçar estes três elementos, captura a essência de Sobreira e de muitas outras aldeias do interior: um lugar onde a tradição se mantém firme na pedra, a subsistência floresce no verde da videira, e o calor da vida reside logo após o humilde limiar da porta.

É um convite à reflexão sobre a autenticidade e a beleza duradoura do Portugal profundo.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
15
Out25

“Águas Frias - as casas, a igreja de perfil e a colina negra dos incêndios”


Mário Silva Mário Silva

“Águas Frias - as casas, a igreja de perfil

e a colina negra dos incêndios”

15Out DSC09479_ms

Esta fotografia de Mário Silva apresenta uma vista panorâmica de uma aldeia, Águas Frias, aninhada numa paisagem de colinas.

Em primeiro plano, destacam-se os telhados de terracota das casas e o volume de uma igreja, vista de perfil, com a sua torre sineira alta e estreita.

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O fundo da imagem é dominado por uma colina extensa, onde se nota o contraste brutal entre a vegetação verdejante e as áreas queimadas.

Estas manchas escuras, que a descrição chama de "colina negra dos incêndios", são uma cicatriz visível na paisagem.

A composição, que utiliza a torre da igreja como ponto focal vertical em contraste com a horizontalidade das colinas, é um retrato da vida rural na presença da ameaça da natureza.

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A Cicatriz da Paisagem: Fé, Comunidade e a Memória do Fogo

A fotografia de Mário Silva, "Águas Frias - as casas, a igreja de perfil e a colina negra dos incêndios", é um poderoso testemunho visual da realidade de muitas aldeias do interior de Portugal.

Mais do que um mero registo topográfico, a imagem fala sobre resiliência, fé e o impacto duradouro das catástrofes naturais.

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A Igreja: O Coração da Comunidade

No centro da composição, a igreja ergue-se acima dos telhados, simbolizando o coração e o espírito da comunidade.

Historicamente, a igreja é o ponto de encontro, o refúgio e o centro da identidade destas aldeias.

A sua presença imponente, com a torre a apontar para o céu, sugere uma fonte de força e esperança que permanece inabalável, mesmo quando a paisagem circundante é marcada pela destruição.

As casas, agrupadas à sua volta, representam a vida e o calor da família e da vizinhança.

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A Colina Negra: A Marca do Fogo

O elemento mais dramático da fotografia é o contraste entre a vida e o rasto da devastação.

A colina negra no horizonte é a memória palpável do fogo.

Não é apenas uma área queimada; é uma chamada de atenção de que o ecossistema e o modo de vida da comunidade estiveram em risco.

Em regiões como Trás-os-Montes, os incêndios florestais têm um impacto profundo que se estende para além da perda de vegetação, afetando a qualidade do solo, a fauna local e a economia rural.

O negro da colina torna-se, assim, um símbolo de vulnerabilidade e de luto ecológico.

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Um Retrato da Resiliência

O mérito desta fotografia reside na forma como justapõe estes dois mundos: a tranquilidade e a permanência da aldeia, com a efemeridade e a violência da natureza selvagem.

A vida, representada pelos telhados laranjas e a vegetação ainda verde, insiste em continuar perante a adversidade.

A imagem de Mário Silva é, em última análise, uma homenagem à resiliência das populações que, ano após ano, refazem as suas vidas e mantêm a sua fé no lugar que chamam de lar, por mais duras que sejam as "águas frias" do destino.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
12
Out25

Capela de Nossa Senhora da Conceição - Nova de Veiga – São Pedro de Agostem - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

Capela de Nossa Senhora da Conceição

Nova de Veiga – São Pedro de Agostem - Chaves – Portugal

12Out DSC03524_ms

A fotografia de Mário Silva retrata a Capela de Nossa Senhora da Conceição, localizada em Nova de Veiga, na freguesia de São Pedro de Agostem, Chaves.

A imagem, com uma perspetiva de baixo para cima, realça a solidez e a simplicidade da construção.

A capela tem paredes brancas e telhado de barro.

Os cantos das paredes e os elementos decorativos são em pedra amarelada.

A porta de madeira escura e a pequena sineira no topo são os elementos principais.

O céu azul com nuvens brancas, visível no topo da fotografia, contrasta com as cores da capela e confere-lhe um aspeto monumental.

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A Fé Inscrita na Paisagem: O Significado de Capelas e Igrejas em Trás-os-Montes

As capelas e igrejas de Trás-os-Montes são mais do que simples edifícios religiosos; são o coração da paisagem, a memória de um povo e o eco de séculos de fé e devoção.

Em aldeias remotas, em penedos solitários ou em vales escondidos, estas construções, como a Capela de Nossa Senhora da Conceição, testemunham a profunda espiritualidade das gentes transmontanas.

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A Arquitetura da Fé e da Simplicidade

A arquitetura das capelas transmontanas reflete a alma da região: robusta, simples e funcional.

Geralmente construídas com as pedras locais, como granito ou xisto, estas pequenas igrejas parecem fundir-se com a paisagem.

As suas paredes brancas, que contrastam com a pedra e os telhados de telha, são um sinal de pureza e de respeito.

As sineiras, muitas vezes singelas, tocam ao ritmo do dia-a-dia da aldeia, chamando os fiéis para a missa, assinalando a passagem das horas e anunciando as festas religiosas.

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O Coração da Comunidade

Em Trás-os-Montes, a igreja ou a capela é o centro da vida comunitária.

É o lugar onde se celebram os momentos mais importantes da vida: batismos, casamentos e funerais.

É também o palco das festas religiosas, uma das tradições mais vivas da região.

As festas do padroeiro, as romarias e as procissões são momentos de grande alegria e de união.

Nesses dias, a aldeia veste-se a preceito para honrar o seu santo, e os sons da música e os aromas da comida preenchem as ruas.

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Um Refúgio de Paz

As capelas e igrejas, muitas vezes situadas em locais de grande beleza natural, servem também como um refúgio de paz.

A sua quietude e o seu silêncio convidam à introspeção e à contemplação.

São espaços onde as gentes transmontanas podem fazer as suas preces, pedir graças e encontrar conforto em tempos difíceis.

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A fotografia de Mário Silva capta a dignidade de uma capela que, apesar da sua modéstia, é um pilar da comunidade.

Ela é um elo entre o céu e a terra, um testemunho da fé inabalável de um povo que, na sua simplicidade, construiu a sua alma nas suas igrejas e capelas.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
10
Out25

“Pela rua do Carril” - Águas Frias - Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Pela rua do Carril”

Águas Frias - Chaves - Portugal

10Out P1180496_ms

A fotografia de Mário Silva retrata uma rua em Águas Frias, Chaves, com uma atmosfera tranquila e rural.

A imagem tem como ponto central uma rua estreita, que se estende para longe, ladeada por casas tradicionais.

Em primeiro plano, do lado esquerdo, uma casa de dois andares com paredes amarelas e persianas verdes escuras domina a cena.

Uma escadaria exterior conduz ao andar superior, um elemento típico da arquitetura local.

Do lado direito, um muro de pedra irregular e um poste com a placa "Rua do Carril" guiam o olhar.

A vegetação densa e o céu nublado dão um toque de serenidade à paisagem.

A assinatura do autor no canto inferior direito sela a obra.

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Estória: A Rua do Carril

Na aldeia de Águas Frias, a Rua do Carril não era apenas um caminho de cimento; era o coração da aldeia.

Uma rua estreita e sinuosa, ladeada por casas que se aninhavam na encosta, cada uma com a sua própria história.

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Na casa amarela e verde, vivia uma velha costureira, a Senhora Emília.

Todas as manhãs, a Senhora Emília abria as persianas verdes e sentava-se à janela para observar a vida a passar.

Via as crianças a correrem para a escola, os vizinhos a irem para os campos e o carteiro a entregar as cartas.

A sua vida era uma tapeçaria de pequenas histórias, e a Rua do Carril era a sua tela.

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Numa tarde de verão, um forasteiro parou no cimo da rua, com um mapa na mão.

Parecia perdido.

A Senhora Emília, sempre atenta, chamou-o da sua janela.

- Venha, venha, meu senhor. O que procura?

 O homem, confuso, explicou que procurava um rio, o qual, segundo o seu mapa, passava por ali.

A Senhora Emília riu-se e explicou-lhe que o rio secou há muito, muito tempo, e a Rua do Carril era o que restou do seu antigo leito.

O homem, fascinado, agradeceu e continuou o seu caminho, mas as palavras da Senhora Emília ficaram na sua mente.

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A Rua do Carril era o leito de um rio invisível, feito de memórias e de vidas.

O carril, que outrora transportara água, agora transportava as histórias das gentes que ali viviam.

A escadaria da casa da Senhora Emília era como uma cascata, por onde desciam os passos dos filhos e netos que a visitavam.

As paredes amarelas eram o calor do sol que outrora tinha secado o rio.

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A fotografia de Mário Silva capturou aquele momento, com a luz do sol a incidir suavemente sobre a casa amarela e a rua de cimento.

A Rua do Carril não era apenas um caminho, mas um rio de história, onde as memórias corriam, e as vidas se entrelaçavam, na tranquilidade de uma aldeia de Trás-os-Montes.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
04
Out25

“O banco virado para o sol poente”


Mário Silva Mário Silva

“O banco virado para o sol poente”

04Out DSC05218_ms

A fotografia de Mário Silva retrata um cenário de tranquilidade e contemplação.

Em primeiro plano, um banco de ferro com assento de madeira está colocado sobre uma superfície rochosa.

O banco, que parece ser antigo, está virado para um pôr do sol, banhando a paisagem numa luz dourada.

À direita, uma grande rocha texturizada, um penedo, é iluminada intensamente pelo sol poente.

No fundo, a paisagem é suavemente iluminada, mostrando um vale verde e montanhas distantes, com as casas de uma aldeia a pontuar a cena.

A iluminação e o enquadramento criam uma atmosfera de serenidade e convidam à introspeção.

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O Banco dos Segredos

O banco de ferro, ali encostado ao grande penedo, era mais do que um simples lugar de descanso.

Era o confidente da aldeia.

A sua posição privilegiada, virada para o sol poente, fazia dele o melhor lugar para ver a vida a passar e o dia a despedir-se.

Mas, como toda a peça de mobiliário com história, o banco tinha os seus segredos.

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Toda a gente o usava.

Os namorados, que vinham trocar juras de amor com a luz dourada do crepúsculo.

Os velhos da aldeia, que vinham sentar-se a conversar sobre as colheitas do ano e a saúde dos netos.

As crianças, que, depois de brincar, vinham descansar as pernas e observar os primeiros pirilampos.

O banco, silenciosamente, absorvia cada história, cada suspiro, cada riso e cada lágrima.

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O seu segredo, no entanto, era que ele devolvia o que lhe era dado.

Não com palavras, mas com a paz do final do dia.

Quando alguém se sentava, o banco, na sua sabedoria de anos, transmitia-lhe a serenidade do crepúsculo, o peso da rocha milenar ao seu lado e a quietude do vale que se estendia à frente.

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Uma vez, um homem que tinha perdido a esperança na vida sentou-se ali.

O sol poente parecia um quadro sem cores.

As palavras amargas de um passado pesado saíram da sua boca, e o banco ouviu-o pacientemente.

O banco, em silêncio, devolveu-lhe uma sensação de leveza, de que o dia de amanhã seria um novo recomeço.

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Assim, o banco tornou-se o guardião dos segredos e a fonte de paz.

Um dia, a luz que se deitou sobre ele era tão dourada que quase se confundiu com o penedo.

A fotografia de Mário Silva capturou esse instante, mostrando não apenas o banco, mas a sua alma, o seu espírito de tranquilidade e a sua capacidade de ouvir e confortar, ali, virado para o sol que se ia embora, para esperar o sol que haveria de voltar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
02
Out25

“A palmeira na rua Cimo de Vila” - Águas Frias - Chaves - Portugal


Mário Silva Mário Silva

“A palmeira na rua Cimo de Vila”

Águas Frias - Chaves - Portugal

02Out DSC05167_ms

A fotografia de Mário Silva retrata uma cena bucólica numa rua de uma aldeia portuguesa, com uma luz dourada de fim de tarde.

Em primeiro plano, uma palmeira imponente estende as suas frondes sobre uma casa com um telhado vermelho e paredes de cor creme.

Um muro baixo de pedra e um arbusto verde frondoso separam a casa da rua de cimento.

A rua, em curva, conduz o olhar para o fundo da imagem, onde é possível vislumbrar as colinas e o céu.

A iluminação suave realça a textura das paredes, o verde das plantas e o ambiente de tranquilidade rural.

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O Segredo da Palmeira Centenária

A pequena rua de Cimo de Vila, na aldeia de Águas Frias, era um lugar de poucas novidades e muitas histórias.

Mas de todas as histórias, a mais falada era a da palmeira que se erguia à porta da casa de Dona Laida.

Diziam que aquela palmeira era a mais velha da aldeia, plantada por um marinheiro que tinha regressado das colónias há mais de cem anos.

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Dona Laida, uma mulher de sorrisos discretos e olhos azuis, vivia naquela casa há quase toda a sua vida.

A palmeira era a sua companheira, a sua guardiã.

O seu “telhado” de folhas era como um chapéu de sol, e a sua sombra, no verão, era um bálsamo para o calor.

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Mas o que ninguém sabia, exceto Dona Laida, era o segredo daquela árvore.

A palmeira, à medida que envelhecia, tinha adquirido a estranha capacidade de guardar as memórias das pessoas que passavam por ali.

As histórias dos namorados que deram as mãos, os risos das crianças que correram pela rua, as confidências dos vizinhos que se encontraram no fim do dia — tudo ficava lá, nas suas folhas verdes.

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Dona Laida, nos seus fins de tarde, sentava-se na varanda e ouvia a palmeira.

Não com os ouvidos, mas com o coração.

As memórias sussurravam nas frondes, um eco de todas as vidas que a palmeira tinha testemunhado.

Ouvia a canção de embalar que a sua mãe lhe cantava, o primeiro “olá” que o seu marido lhe deu, as promessas de futuro que a sua filha lhe fazia.

A palmeira era a sua arca do tesouro, o seu diário vivo, o seu elo com o passado.

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A fotografia de Mário Silva, com a sua luz suave e dourada, capturou um desses momentos.

Não apenas a beleza da casa e da árvore, mas a história silenciosa que ali se guardava.

A palmeira, naquele instante, era um farol de memórias, um testemunho vivo de todas as vidas que se tinham cruzado sob a sua sombra protetora.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
18
Set25

“Fonte de mergulho” Paradela de Veiga - Chaves – Portugal


Mário Silva Mário Silva

“Fonte de mergulho”

Paradela de Veiga - Chaves – Portugal

12Set DSC03563_ms

A fotografia "Fonte de mergulho" de Mário Silva foca em uma fonte de pedra, de estilo rústico e antigo, rodeada por vegetação.

A estrutura de pedra, coberta por musgo e hera, possui uma entrada em arco que permite o acesso à água.

Uma data, 1810, está gravada na pedra, sugerindo a sua antiguidade.

A vegetação luxuriante e a iluminação suave criam um ambiente místico e atemporal.

A imagem é assinada digitalmente no canto inferior direito.

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As Fontes de Mergulho e a sua Importância

As fontes de mergulho são um tipo de fonte rural, com um tanque ou um poço, onde as pessoas, tinham que mergulhar o balde ou outro utensilio para apanhar água.

Estas fontes, muitas vezes encontradas em aldeias remotas, são mais do que simples estruturas para obter água; são o coração da vida rural e um elo com o passado.

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A importância das fontes de mergulho é multifacetada.

Em primeiro lugar, elas são um recurso vital para a população rural.

Numa época em que não existia água canalizada, estas fontes eram a principal fonte de água potável, utilizada para beber, cozinhar, lavar roupa e dar de beber aos animais.

A sua localização, muitas vezes estratégica, era um fator de atração para a fundação de aldeias e para o desenvolvimento das comunidades.

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Em segundo lugar, as fontes de mergulho são um importante ponto de encontro social.

As pessoas que iam buscar água encontravam-se, conversavam e partilhavam as notícias da aldeia.

As fontes, por isso, tornaram-se o palco de histórias, de lendas e de tradições.

Eram o coração da aldeia, o lugar onde as amizades se formavam, os casamentos se combinavam e os segredos se partilhavam.

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Em terceiro lugar, estas fontes são um testemunho da história e da cultura das comunidades rurais.

As suas datas, gravadas na pedra, são um lembrete da longevidade e da resiliência das aldeias.

A sua arquitetura rústica, a sua integração na paisagem e a sua ligação com a natureza fazem delas um elemento importante do património rural.

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Hoje, com a chegada da água canalizada, muitas destas fontes perderam a sua função utilitária.

No entanto, o seu significado permanece.

Elas são um lembrete do passado, um símbolo da vida rural e um tesouro cultural que deve ser preservado.

A fotografia de Mário Silva, "Fonte de mergulho”, Paradela de Veiga - Chaves - Portugal", é uma ode a esta importância, um lembrete da beleza e do valor de um passado que, embora remoto, continua a moldar o nosso presente.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Set25

"Passeio a cavalo (passado) e passeio de mota (presente)" Tinhela, Valpaços, Portugal


Mário Silva Mário Silva

"Passeio a cavalo (passado) e passeio de mota (presente)"

Tinhela, Valpaços, Portugal

11Set  DSC03688_ms

A fotografia "Passeio a cavalo (passado) e passeio de mota (presente)" de Mário Silva capta um momento na estrada rural entre Tinhela e Alvarelhos, em Valpaços, Portugal.

A imagem mostra duas mulheres, lado a lado, montadas em cavalos brancos.

Uma delas usa um boné e a outra um capacete de equitação.

Ao lado delas, na mesma estrada, um motociclista está sentado na sua mota, de costas para a câmara, a observar as mulheres a cavalo.

A paisagem de fundo é composta por colinas cobertas de árvores e vegetação, enquanto o primeiro plano tem um caminho de terra com erva amarelada.

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Estória: O Encontro do Tempo

Tinhela e Alvarelhos eram duas aldeias que o tempo tinha esquecido.

As suas estradas, estreitas e sinuosas, eram as artérias de uma terra que vivia ao seu próprio ritmo.

A fotografia de Mário Silva, com a sua composição única, parecia capturar o encontro de duas épocas, o passado e o presente.

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As duas mulheres a cavalo eram Maria e Ana, as duas netas do velho Manuel.

Elas, que tinham crescido na cidade, vinham todos os verões à aldeia, e a sua paixão era cavalgar.

Para elas, cavalgar era mais do que um desporto; era um ato de amor, uma ligação à sua herança, uma celebração do seu passado.

Na fotografia, com os seus cavalos brancos e os seus sorrisos no rosto, elas eram a beleza e a serenidade do passado.

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O motociclista, que Mário Silva capturou de costas, era o Diogo, um jovem da aldeia que tinha regressado da cidade.

Ele, com a sua mota preta e o seu capacete, era a personificação do presente.

Ele amava a sua aldeia, mas não se sentia ligado às suas tradições.

Para ele, o futuro era a cidade, o progresso, a tecnologia.

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Naquele dia, os dois mundos, o passado e o presente, colidiram.

O som da mota de Diogo quebrou o silêncio da estrada, e o som dos cascos dos cavalos de Maria e Ana ecoou no ar.

Diogo, que nunca tinha visto as duas a cavalgar, parou a mota e olhou para elas, fascinado.

Ele viu a alegria nos seus rostos, a paz nos seus corações, e a serenidade daquele momento.

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Ele percebeu que o passado não era um fardo; era uma herança.

Que a tradição não era um peso; era uma força.

E que a sua mota, que ele pensava ser o seu futuro, era apenas uma forma de se mover no presente.

A verdadeira viagem, ele percebeu, era a viagem interior, a viagem do coração, a viagem do espírito.

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A fotografia de Mário Silva era um lembrete de que o passado e o presente não são inimigos, mas companheiros de viagem.

E que o futuro, tal como a estrada, está à nossa frente, mas as nossas raízes, a nossa história, a nossa essência, estão sempre connosco.

E Diogo, com um sorriso, ligou a sua mota e seguiu o seu caminho, mas o som dos cascos dos cavalos de Maria e Ana permaneceu no seu coração, uma melodia do passado que lhe recordava que a vida, afinal, é um eterno encontro entre o passado e o presente.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
10
Set25

"Não é uma Aldeia qualquer ... é Águas Frias"


Mário Silva Mário Silva

"Não é uma Aldeia qualquer ... é Águas Frias"

10Set DSC03906_ms

A fotografia "Não é uma Aldeia qualquer... é Águas Frias" de Mário Silva capta uma vista panorâmica de uma aldeia aninhada numa paisagem rural.

Em primeiro plano, uma cerca rústica e vegetação verde enquadram o cenário.

A aldeia é composta por casas de diferentes cores, com telhados de cerâmica, espalhadas por uma colina.

A paisagem é dominada por uma vasta área arborizada e montanhosa no horizonte.

A fotografia é tirada num dia de poucas nuvens e a luz do sol realça as cores vivas das casas.

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A Lenda de Águas Frias

Há muito, muito tempo, quando as montanhas de Verín, na Espanha, eram ainda mais altas e o rio corria com mais força, existia uma aldeia que vivia sob uma maldição.

Era a "Aldeia das Águas Quentes", e a sua maldição era a falta de água.

Os rios estavam secos, as colheitas morriam e o povo sofria.

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Um dia, um viajante, um antigo peregrino, chegou à aldeia.

Ele, que tinha percorrido os caminhos de Santiago, tinha ouvido falar da maldição.

Ele disse ao povo:

- O vosso coração está cheio de ganância. O vosso amor é por ouro, não pela terra.

E disse-lhes que a única forma de quebrar a maldição era encontrar a fonte de "águas frias", uma fonte lendária que, segundo a lenda, se encontrava no coração da floresta.

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O povo riu-se do viajante.

Eles não acreditavam em lendas.

Mas o seu coração estava endurecido pela falta de água.

No entanto, uma jovem, de coração puro, que não tinha ganância, acreditou na lenda.

Ela, que tinha visto a sua família a sofrer, decidiu procurar a fonte.

A fotografia de Mário Silva, com as suas cores vibrantes e a sua beleza, capta o seu espírito.

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Ela entrou na floresta, aquela floresta densa e sombria que o fotógrafo capturou no horizonte.

Ela andou por dias, sem comer, sem beber, apenas com a esperança de encontrar a fonte.

Ela não tinha medo, pois o seu amor pela família e pelo seu povo era mais forte que o seu medo.

Ela não desistiu.

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E, num dia, quando a sua esperança estava quase a acabar, ela viu.

Não era uma fonte de água, mas uma fonte de luz.

Uma luz que brilhava por entre as árvores e que a chamava.

Ela seguiu a luz e chegou a uma clareira.

No centro da clareira, havia uma pequena fonte.

A água, límpida e fresca, parecia ter um brilho próprio.

Ela bebeu, e sentiu uma paz que nunca tinha sentido.

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A jovem voltou à aldeia e contou a sua história.

O povo, que tinha sofrido, finalmente acreditou.

Eles foram à fonte e beberam da água, e a sua ganância desapareceu, substituída pela bondade.

E, a partir desse dia, a maldição foi quebrada.

O rio voltou a correr, as colheitas voltaram a crescer, e a aldeia prosperou.

E a aldeia, que antes era conhecida como a "Aldeia das Águas Quentes", passou a ser conhecida como Águas Frias, uma homenagem à jovem corajosa e à sua fé.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
11
Ago25

Os Telhados da “Minha” Aldeia


Mário Silva Mário Silva

Os Telhados da “Minha” Aldeia

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No declive do monte, onde o sol se deita,

Um manto de telhas, em tons de cor de laranja.

Telhados de barro, que a história relata,

A aldeia “adotiva”, que a alma completa.

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És um ninho de pedra, em abraço sereno,

Onde a vida pulsa, em ritmo pequeno.

Janelas que guardam segredos e preces,

E as chaminés, em fumo, desenham rezas.

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Telhados que ouvem o vento a soprar,

Contam histórias que o tempo não vai apagar.

De risos e choros, amores e mágoas,

Refletem a luz das manhãs e das águas.

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Mário Silva capta a essência do lugar,

Na dança das sombras, no sol a brilhar.

Um pedaço de terra que o coração abraça,

Telhados da "minha" aldeia, que o tempo não esvazia.

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Poema & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
10
Ago25

Hoje há Festa na Aldeia (Águas Frias – Chaves - Portugal)


Mário Silva Mário Silva

Hoje há Festa na Aldeia

Águas Frias – Chaves - Portugal

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Em Águas Frias, onde o granito abraça o céu,

E a brisa da serra sussurra segredos ao léu,

Hoje não há silêncio, nem o gado de um pastor,

Pois a aldeia inteira veste o seu melhor calor.

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Do palco, luzes pintam a noite sem fim,

Verdes e azuis, amarelos e carmim.

Acordes vibrantes, um som que nos guia,

A banda em palco, a dar vida à melodia.

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Multidão que se agita, num abraço sem par,

Faces sorridentes, a rir e a cantar.

Amigos que regressam, de terras distantes,

Para reviver memórias, momentos gigantes.

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O cheiro a entrecosto, a fumaça no ar,

Mistura-se à festa, ao doce luar.

Crianças que correm, em jogo e folia,

É a alegria que salta, um novo dia.

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Há mãos que se erguem, num brinde ao verão,

No peito um calor, sem igual emoção.

As vozes se juntam, num coro feliz,

Cantando a esperança, a vida que quis.

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Por entre os arcos, a luz a bailar,

Um elo se forma, de alma e de olhar.

Porque neste arraial, a alma se faz,

Mais forte, mais viva, em festejos e paz.

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Em Trás-os-Montes, a tradição a pulsar,

Que a aldeia respira, ao sol e ao luar.

Hoje há festa em Águas Frias, sim!

Um reencontro eterno, que não tem fim.

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Pois hoje há festa, e a aldeia irradia,

A chama da vida, a pura energia.

Em Águas Frias, em cada canção,

Pulsa a alma de um povo, em plena união.

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Texto & Fotografia digital: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
09
Ago25

"A Festa de Verão" - sábado (Águas Frias - Chaves - Portugal)


Mário Silva Mário Silva

"A Festa de Verão"

sábado

(Águas Frias - Chaves - Portugal)

09Ago DSC01263_ms

No ano de 2025, a pequena aldeia de Águas Frias, aninhada no concelho de Chaves, em Portugal, vestiu-se de gala para mais uma edição da sua já tradicional "Festa de Verão".

Longe de ser apenas um mero evento, esta celebração transformou-se num verdadeiro epicentro de confraternização, onde o passado e o presente se entrelaçaram em abraços apertados, sorrisos rasgados e olhares marejados de emoção.

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Desde o final da tarde, o largo de Águas Frias começou a encher-se, à medida que os primeiros acordes da música tradicional portuguesa se faziam ouvir.

Mas a magia da Festa de Verão vai muito além do ritmo contagiante das concertinas e dos cantares tradicionais.

É nos encontros, muitas vezes inesperados, que reside a verdadeira essência desta celebração.

Amigos de infância que se reencontram após anos de distância, famílias que se reúnem vindas dos quatro cantos do mundo, e novas amizades que florescem sob o calor das noites de verão.

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A saudade, sentimento tão intrínseco à alma portuguesa, pairava no ar, mas era uma saudade doce, temperada pela alegria do regresso.

Era visível nos olhares de quem emigrou e que, por estes dias, volta à sua terra natal para reviver as memórias e fortalecer os laços.

As conversas estendiam-se pela noite dentro, repletas de histórias contadas e recontadas, de risadas partilhadas e de momentos de cumplicidade que aqueciam o coração.

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A emoção era palpável em cada rosto, em cada abraço apertado.

As recordações desfilavam livremente, desde as brincadeiras de criança nos campos em redor, até aos bailes de outrora na mesma praça.

Tudo contribuía para um ambiente de pura nostalgia, mas uma nostalgia feliz, que celebrava a vida e a riqueza das experiências partilhadas.

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E, claro, não faltou a alegria, em abundância, para encher a festa de cor e vivacidade.

Crianças corriam e brincavam, casais dançavam ao som da música, e grupos de amigos brindavam à vida.

A tasquinha da comissão de festas, repleta de iguarias regionais e o famoso vinho de Chaves, eram pontos de paragem obrigatória, adicionando sabor à festa.

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A Festa de Verão de Águas Frias, em 2025, reafirmou-se como um evento que transcende o mero entretenimento.

É um hino à comunidade, à memória e, acima de tudo, à alegria de viver e de partilhar.

Um convite irrecusável para que, ano após ano, todos os caminhos voltem a confluir em Águas Frias, onde a confraternização, os encontros, os reencontros, a saudade, a emoção e a recordação se misturam numa celebração inesquecível de muita, muita alegria.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷
07
Ago25

Em Tempos Áureos, Bastava Uma Concertina Para Haver Festa: A Alma de Águas Frias


Mário Silva Mário Silva

Em Tempos Áureos, Bastava Uma Concertina Para Haver Festa:

A Alma de Águas Frias

07Ago DSC02167_ms

Em Águas Frias, como em tantas aldeias recônditas de Trás-os-Montes, o conceito de "festa" era algo intrínseco ao pulsar da vida comunitária, algo que florescia com simplicidade e genuinidade.

Longe dos palcos grandiosos e das luzes néon que hoje caracterizam muitos arraiais, houve um tempo – os "tempos áureos" – em que a alegria nascia da partilha, da espontaneidade e, acima de tudo, de um instrumento mágico: a concertina.

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Naqueles tempos, a vida era feita de trabalho árduo no campo, de dias longos sob o sol e de invernos rigorosos.

Mas quando a semente estava lançada, a colheita guardada ou uma efeméride se anunciava, a aldeia ansiava pelo momento de esquecer as fadigas e celebrar.

Não era preciso um orçamento milionário ou uma banda de renome.

Bastava que um dos rapazes da aldeia, ou alguém de uma aldeia vizinha, pegasse na sua concertina.

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Eram jovens como o Serafim, que tinha um ouvido apuradíssimo e dedos que pareciam bailar sobre os botões do fole.

A sua concertina, com os seus foles coloridos e um som que era a própria voz da serra, era a orquestra inteira.

Bastava a melodia de uma chula, de um malhão ou de um vira, e num instante, o café, o “concelho” ou o recreio da escola transformava-se num salão de baile improvisado.

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As portas abriam-se, trazendo cadeiras e bancos para os mais velhos, que se sentavam à roda, batendo o ritmo com os pés e cantando as letras que sabiam de cor.

Os jovens, com os corações cheios de energia, formavam rodas para as danças tradicionais, os rapazes cortejando as raparigas com passos apressados e sorrisos cúmplices.

O pó levantava-se do chão batido, as saias rodopiavam, e o ar enchia-se de risos, gritos de alegria e o inconfundível som do acordeão a vibrar.

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A festa não era um evento planeado ao pormenor; era um acontecimento orgânico.

Começava ao fim do dia, depois do trabalho, e estendia-se pela noite adentro, sob o luar ou a luz bruxuleante de um candeeiro.

As vizinhas traziam folar caseiro, tigelas de tremoços e o vinho tinto da produção própria, forte e generoso.

As cantorias, muitas vezes improvisadas, contavam histórias de amores, de desaires, de desafios do quotidiano.

A comunidade inteira, sem distinção de idades ou posses, participava.

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Naqueles encontros, fortaleciam-se os laços, esqueciam-se as desavenças, celebravam-se os casamentos e os batizados, e choravam-se as ausências.

A concertina não era apenas um instrumento musical; era o catalisador da alma da aldeia, um fio condutor que unia as gerações e mantinha viva a chama da identidade transmontana.

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Hoje, os arraiais de Águas Frias são maiores, mais ruidosos, com palcos imponentes e luzes cintilantes, como a fotografia de Mário Silva tão bem capta.

Mas a memória daqueles "tempos áureos" permanece.

A sabedoria popular sabe que, no fundo, a verdadeira festa não reside no espetáculo, mas na essência do convívio, na partilha simples e na alegria que floresce quando a comunidade se reúne.

E, para isso, ainda hoje, o som de uma concertina tem o poder de despertar a alma da aldeia e fazer os corações de Águas Frias dançar.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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Mário Silva 📷

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