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MÁRIO SILVA "navegando" em ... águas frias

"Navegando" no Reino Maravilhoso por Terras de Monforte, especialmente na Aldeia de Águas Frias - Chaves - Trás-Os-Montes - PORTUGAL

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"Navegando" no Reino Maravilhoso por Terras de Monforte, especialmente na Aldeia de Águas Frias - Chaves - Trás-Os-Montes - PORTUGAL

31
Mai09

Águas Frias (Chaves) – As suas Gentes e o trabalho no campo (III) – Sementeira


Mário Silva Mário Silva

 

Continuando a saga dos trabalhos agrícolas em Águas Frias, e depois de todas as tarefas relatadas no post anterior, que tinham como objectivo máximo, criar todas as condições, do ventre da terra, para a sementeira.
 
 
Terreno lavrado - foto tirada no inicio de Maio - as cerejas ainda estavam por amadurar ... mas agora ....
 
 
Semear – colocar as sementes na terra.
 
Esta tarefa para mim, um citadino não agricultor, tem um significado que vai além da simples tarefa de lançar a semente à terra – faz-me lembrar o momento depois da "concepção" (que se fez ao nível da flor, na agricultura, e no encontro do espermatozóide com o óvulo) e que deu origem a um embrião (a semente – na agricultura).
 
A partir deste momento esta, tem dentro de si, já todos os elementos para dar origem a um novo ser vivo (radícula, caulículo, folículos e até substâncias de reserva) – mas precisa de um ventre (solo) e condições para se desenvolver (os nutrientes – no estrume ou adubo, nos sais minerais da terra, … que serão absorvidas com a ajuda da água).
 
Até aqui se encontra analogia com o que se passa dentro do ventre materno em que o embrião humano está protegido pelo líquido amniótico e recebe todos os nutrientes para o seu desenvolvimento através do cordão umbilical que o liga à progenitora.
A mãe passa a ter alguns cuidados para que o seu futuro bebé disfrute das melhores condições para o seu desenvolvimento. Ainda não o vê mas, mas já cuida dele.
 
 
 
Também o agricultor dá algum conforto à sua semente, cobrindo-a com a terra fofa sem antes lhe preparar os nutrientes essenciais: estrume, adubo, material orgânico.
 
Também antes os pais sonharam, idealizaram e prepararam condições económicas, de organização para a recepção do novo ser.
Afinal foi o que cada agricultor (lavrador) fez, ao preparar o terreno, lavrando-o, frezando-o, tirando pedras e ervas daninhas, que pudessem ser obstáculo para que a semente, agora lançada, vingasse e desse um novo ser perfeito e viçoso.
 
"O QUE VOCÊ SEMEAR VOCÊ COLHERÁ” – ditado popular
 
Ainda antes foi preciso escolher cuidadosamente a semente que mostrasse melhores condições (grande parte delas já apartadas desde a última colheita).
 
 
 
Chegou o momento de tanta espera, destes novos seres vivos que serão as novas plantas: o milho, o centeio, o trigo, as favas, o tomate, pepino, feijão, …. – lança-se a semente à terra.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 Tal como o embrião humano também as sementes nem sempre dependem das condições e cuidados que lhes depositamos. Podem ser doenças que não se podem prever e na agricultura além disso ainda dependem de factores climatéricos que não se podem controlar.

 
Basta uma chuva, granizo, geada, frio ou calor em demasia e fora de tempo, para que todo o trabalho anteriormente feito, vá “por água abaixo” e desfaça sonhos, previsões sentindo o vazio de todo esse trabalho, sentindo que foi em vão, e quase sempre sem qualquer retribuição económica que seria, a base de sobrevivência para uma boa parte do ano.
É o "aborto" expontâneo" que leva à desilusão, deixa cair todas as expectativas e leva por vezes à revolta interior.
 
É esta talvez uma das razões para se verem pela Aldeia cada vez mais terreno de poulo”.
 
 
Tanto “ventre” que depois de décadas e décadas de terem “partos” consecutivos e produtivos, que davam sustento a todas as famílias (e numerosas), são agora “úteros vazios”, dando lugar a locais carregados de “fungos”, “bactérias”, enfim ervas daninhas que em nada enobrecem esses ventres fecundos e sadios.
 
Mas mesmo contra todas essas adversidades as gentes residentes/resistentes de Águas Frias, não baixam os braços e lutam e persistem (e ainda bem) em semear as suas terras e hortas, esperando o nascimento dos novos seres vivos que serão, quais filhos, que os apoiarão ao longo do(s) o(s) ano(s).
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Continuam a cuidar das suas sementes, que no seio da terra se vão desenvolvendo, sachando a terra, eliminando as ervas daninhas que lhes roubam o sustento “às suas filhas”, e arejam o terreno e em tempo de canícula vão logo, antes do nascer do sol, regá-las, para que nada lhes falte.
 
Começam a emergir, da terra tenras plantas, indefesas e necessitadas de cuidados redobrados – é a fase do nascimento.
 
Mas tal como nos humanos, é altura de alegria, mas não o fim. Ainda falta muito para deixarem de ser cuidadas, pois até ao amadurecimento (até adultos) precisam dos seus progenitores.
 
Todos os cuidados são fundamentais e não há tempo para desleixos.
 
Tanto no desenvolvimento de um bebé como de uma planta, cada fase precisa de tarefas distintas e nem sempre fáceis, a maior parte das vezes são árduas e às vezes penosas.
Tal como se deseja a um bebé que ele seja perfeito e saudável, também depois da sementeira é preciso desejar um bom desenvolvimento das plantas para que a colheita seja proveitosa e proporcional ao esforço dispendido.
 
Por tudo isso, o meu desejo é que todas as colheitas realizadas sejam proporcionais ao esforço que, embora eu não o fizesse, observei e constatei a forma como cada agricultor dispendeu com muito esforço (as mão calejadas, as costas doridas, as dores nas pernas e braços, canseiras em arranjar quem ajude, que o tractor funcione, que …. até porque a população vai envelhecendo e as forças já não são as mesmas dos 20 anos.
 
Claro que há, felizmente, jovens (poucos) que ainda trabalham a terra, ajudando os pais e espantem-se: jovens casais, com a colaboração dos filhos, que sendo oriundos de Águas Frias compraram casa e terrenos e que vem das terras onde vivem (a centenas de quilómetros) e passam o seu fim-de-semana a trabalhar na Terra qu
e é a sua.
 
São poucos mas são de louvar, pois prescindem muitas vezes do seu tempo de lazer e férias para tratar as terras, hortas e vinhas que certamente, sem a sua intervenção iriam juntar-se às muitas que, ao abandono se encheram de silvas, gestas e todo o tipo de ervas que invadem os terrenos incultos.
 
A Tia Lila ensinando como se cava o rego para se colocarem as sementes ...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Os ensinamentos foram eficazes e ... mãos na enxada e o rego lá vai seguindo o seu caminho.    Citadinos com amor pela terra.
 
Com a supervisão da Tia Lila, todos trabalham; uns cavam , outros semeiam, uns com mais geito, outros sem geito nenhum,....
 
Todos dão seu contributo (segundo o seu geito) sob o olhar atento do cão.
 
Aqui se pode ver as diferenças de postura de quem já semeia há décadas e quem nunca o tinha feito. A tia Lila de costas direitas , descontraída, lançando de forma ritmada as sementes à terra, outro, de costas curvadas com medo que as sementes não caiam no sítio certo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O amor à sua Terra e à terra, ainda existe por terras de Águas Frias.
 
 
 
 
Antes de terminar este tema e, se repararam não mencionei o “semear” da batata, pois penso que é pouco "correcto", pelo menos cientificamente, falar de semear quando afinal a batata é um tubérculo e não uma semente e por isso seria mais correcto, pelo menos no seu conceito, em falarmos em plantar batatas (mesmo quando dizemos “batata de semente”).
Mas, se houver oportunidade falaremos dos produtos que usualmente se plantam em Águas Frias num próximo “post”
 
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Queria deixar ainda um poema de Luiz Wilson, dedicando-o a todos os agricultores de Águas Frias, em especial áqueles que mesmo com o avançar da idade, ainda cultivam a terra com a mesma paixão dos seus vinte ou trinta anos:
 
 
“Canto meu verso para o velho agricultor
Reconhecendo seu valor por sua forma de plantar
Ele agora já tem seu rosto enrugado
Seu andar modificado mas não pára de lutar
 
A sua enxada é sua arma mais potente
Agricultor, homem valente, homem da mão calejada
O cansaço é invisível no seu rosto
Ele tá sempre disposto e não teme qualquer jornada
 
Sua experiência vale um bom troféu
Para o velho agricultor eu tiro o meu chapéu
 
É muito cedo na hora que o galo canta
Quando ele se levanta e bota lenha no fogão
Toma um café muitas vezes apressado
Pensando lá no roçado como se fosse o patrão
 
Não há relógio que controle o seu horário
O Sol é seu calendário, seja em que tempo for
Cada estação ele sonha com a colheita
Sua fé sempre respeita e trata a terra com amor
 
Sua experiência vale um bom troféu
Para o velho agricultor eu tiro o meu chapéu”
 
 
 
 
 
 
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E lembem-se sempre do velhos ditados populares sobre a sementeira:
 
 
 

 

 

Quem semeia ventos, colhe tempestades”

 

“Quando a Lua minguar, nada hás-de semear “
 
"Falar é semear; ouvir é colher”
 
 
 
E já agora que Maio está a terminar, alguns provérbios sobre este mês:
 
 
"O Maio me molha, o Maio me enxuga
 
Maio ventoso faz o ano formoso
 
Maio couveiro não é vinhateiro.
 
Maio frio e Junho quente: bom pão, vinho valente.
 
Maio hortelão, muita palha e pouco grão.

Maio pardo e ventoso faz o ano formoso.
As favas, Maio as dá, Maio as leva.
 
Quando Maio chegar, quem não arou tem de arar.
 
Uma água de Maio e três de Abril valem por mil."
 
 
 

Até lá, Boas Colheitas.
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Mário Silva 📷

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