"O ouriço esquecido"
Mário Silva Mário Silva
"O ouriço esquecido"

A fotografia de Mário Silva é um close-up macro que se foca num único ouriço de castanha, capturado na floresta, provavelmente após a época de colheita.
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O Ouriço: O objeto central é o ouriço, a casca espinhosa da castanha, que aqui se apresenta na sua forma redonda e perfeitamente simétrica.
As suas hastes são de cor castanho-alaranjada e o ouriço está fechado, sugerindo que a castanha lá dentro ainda não foi colhida ou que o ouriço foi abandonado.
O seu aspeto denso e espinhoso domina o plano.
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A Cama de Musgo: O ouriço repousa sobre um tapete denso de musgo vivo, de um verde fluorescente e vibrante.
O contraste entre o castanho-seco e picante do ouriço e a suavidade e a frescura húmida do musgo são extremamente acentuadas.
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Detalhes do Solo: Em frente ao ouriço, é visível um pequeno líquen branco-acinzentado, que acrescenta um detalhe de textura e cor secundário ao primeiro plano.
O fundo é desfocado em tons de castanho e verde-escuro, concentrando todo o foco no ouriço e no musgo.
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Composição: O enquadramento central e a profundidade de campo rasa conferem ao ouriço uma importância escultural, quase como se fosse uma pequena mina terrestre orgânica.
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O Ouriço Esquecido – Drama, Espinhos e a Traição Humana
No grande palco do souto transmontano, onde o Outono se desenrola em tons de glória e farra, encontramos a estrela desta peça: "O ouriço esquecido".
Aqui está ele, isolado, com a sua armadura de espinhos perfeita, repousando sobre um tapete de musgo verde piscina que grita Primavera (o que, convenhamos, é um choque de moda e calendário).
Mas não se deixe enganar pela beleza cénica.
Este ouriço é, na verdade, uma vítima.
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A sua função na vida era clara: proteger a sua preciosa carga, a castanha, para que, no momento certo, fosse colhida por mãos carinhosas e terminasse a sua jornada no calor crepitante de uma lareira, ao lado de um bom vinho.
Contudo, ele foi traído.
Enquanto os seus irmãos foram impiedosamente apanhados e calcados por botins e socas, este exemplar, por um capricho do destino (ou talvez por um “scanner” de castanhas avariado), foi deixado para trás.
Terá sido um erro de cálculo, uma mancha na eficiência da apanha?
Ou terá sido uma decisão consciente: "Deixemos este, Mário, para a foto, que está com um musgo fabuloso!"
Agora, o nosso ouriço está aqui, um herói trágico da micologia, destinado a abrir-se não para a fogueira, mas para o lento abraço húmido da terra.
Está a ser lentamente reabsorvido pelo ciclo de vida, sem a glória de ser cozido.
É o espinho na consciência do colhedor de castanhas: o lembrete de que, mesmo na colheita mais abençoada, há sempre um pequeno tesouro esquecido.
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E o musgo? O musgo verde-limão está simplesmente a rir-se, sabendo que a sua hora de dominar a floresta chegou, aproveitando o ouriço como um pequeno troféu castanho-alaranjado.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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