Gotinhas d'Água (poema) – Mário Silva
Mário Silva Mário Silva
Gotinhas d'água (poema)
Mário Silva

I
Lá no orvalho, ou na chuvada
Que passou, leve e fugaz,
A natureza acorda, encharcada,
Com mil espelhos de paz.
Nos fios finos, quase invisíveis,
A água suspensa, a repousar.
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II
Cada gota, um mundo breve e lento,
Redonda e plena de luar,
Reflete o sol do firmamento
Antes que a sede a vá sugar.
Em cada esfera, um brilho de prata,
Num verde leito que a aguenta.
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III
Ficou-se a chuva, no silêncio breve,
Onde o musgo e a folha se encontraram.
Deixou a vida, leve e quase neve,
Nos caules que se entrelaçaram.
E o ar respira, puro e sem defeito,
Obrigado ao que foi feito.
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IV
Na solidão da sua forma pura,
A gota aguarda o fim do tempo seu,
Um instante, frágil e sem cura,
Que ao mundo inteiro se ofereceu.
É o cristal que pende, quase a cair,
Pronto a tombar, ou a sumir.
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V
São pérolas postas, sem artifício,
Na ponta de um verde, humilde e chão.
É a promessa, é o sacrifício,
Da seiva que corre sem perdão.
E o sol de longe, tímido as beija,
Como quem a vida almeja.
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VI
E assim a vida, em Trás-os-Montes nossa,
É feita de gotas a brilhar;
Pequenos gestos, sem grande pressa,
Que o dia a dia vem alimentar.
A beleza está ali, na humilde gota,
Pequena e simples, mas que não se esgota.
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Poema & Fotografia: ©MárioSilva
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