"Castanha transmontana e Magusto"
Mário Silva Mário Silva
"Castanha transmontana e Magusto"

A fotografia de Mário Silva é um close-up que foca a atenção no fruto do castanheiro no seu invólucro natural.
A imagem apresenta um ouriço (a casca espinhosa) parcialmente aberto, ainda pendurado num ramo, com as suas castanhas já visíveis no interior.
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O ouriço é de cor verde-limão e amarelo-pálido, coberto por uma miríade de espinhos longos e finos.
No seu interior, revelam-se duas castanhas de cor castanho-avermelhada e brilhante, com a ponta clara, prontas para serem colhidas.
O fundo é composto por folhagem verde-escura e alguma vegetação desfocada (bokeh), o que destaca as cores ricas e as texturas contrastantes da castanha e do ouriço.
A fotografia celebra a prontidão da colheita e a beleza do fruto antes de ser apanhado.
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A Castanha Transmontana: O "Pão da Pobreza" e a Festa do Magusto
A castanha, magistralmente retratada por Mário Silva no seu ouriço protetor, é um dos mais importantes símbolos culturais e económicos de Trás-os-Montes.
Durante séculos, o fruto do castanheiro (Castanea sativa) foi mais do que um alimento; foi o pilar da subsistência em muitas regiões de montanha, valendo-lhe o cognome de "pão da pobreza" ou "pão da serra".
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O Valor Histórico e Económico
O castanheiro, introduzido ou expandido pelos Romanos e cultivado em tradicionais soutos, prospera nos solos ácidos e no clima frio de Trás-osMontes e Beiras.
Antes da chegada da batata e da expansão do milho, a castanha servia como principal fonte de carboidratos, sendo consumida cozida, assada, seca (conhecida como "castanha pilada") ou moída em farinha.
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Hoje, a Castanha da Terra Fria (variedades como a Longal e a Judia) possui uma reputação de qualidade superior, sendo valorizada tanto para consumo “in natura” como para a exportação e a indústria de ultracongelados.
A colheita, que ocorre no outono, mobiliza as comunidades e representa uma fatia importante da economia local.
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O Magusto: A Festa da Partilha e da Identidade
O ponto alto do ciclo da castanha é a celebração do Magusto, um ritual ancestral de convívio e agradecimento, que em Portugal está tradicionalmente associado ao Dia de São Martinho (11 de novembro).
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O Magusto é a festa onde a castanha, após o trabalho da apanha, é finalmente saboreada de forma comunitária (ou era):
O Fogo e o Ritual: Acendem-se fogueiras para assar as castanhas (fazendo o magusto), que se comem quentes e, muitas vezes, ainda com o fumo a sair.
A Bebida Tradicional: A castanha assada é tradicionalmente acompanhada por vinho novo (o vinho acabado de fazer da vindima anterior) ou por jeropiga (uma bebida doce feita com mosto de uva).
O Convívio: O Magusto é (ou era) uma cerimónia de partilha, onde as castanhas, o vinho e a água-pé correm livremente, e o convívio, os cânticos e as brincadeiras (como enfarruscar os rostos uns dos outros com as cinzas da fogueira) reforçam (ou reforlavam) os laços comunitários.
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Em Trás-os-Montes, a castanha é, portanto, o laço que une o passado e o presente, e o Magusto é o momento em que a comunidade celebra (ou celebrava) a generosidade da terra e a sua própria identidade.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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