Alvéola-branca (Motacilla alba) … e uma estória
Mário Silva Mário Silva
Alvéola-branca (Motacilla alba)
… e uma estória

A fotografia de Mário Silva, intitulada "Alvéola-branca (Motacilla alba)", captura uma alvéola-branca num momento peculiar e visualmente interessante.
O pássaro está empoleirado no topo de um cone de um remate de telhado laranja, que se destaca vibrantemente contra um fundo claro e desfocado, que pode ser o céu ou uma superfície muito iluminada.
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A alvéola-branca, identificável pelas suas cores distintas (preto, branco e cinzento), é vista de perfil, com a sua cauda longa e elegante a apontar para baixo.
O seu bico está ligeiramente aberto, e parece ter algo que acabou de caçar ou recolher – possivelmente um inseto – o que sugere um momento de alimentação ou de transporte de alimento para os seus jovens.
Os detalhes das penas são nítidos, e o olho do pássaro está focado, transmitindo uma sensação de alerta e vivacidade.
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O cone laranja, com a sua textura áspera e algumas manchas escuras, serve como um pedestal inesperado e moderno para a ave, criando um contraste fascinante entre a natureza selvagem e um objeto criado pelo homem.
A composição minimalista, com o foco total no pássaro e no cone, realça a beleza da alvéola-branca e a estranheza do seu poleiro incomum.
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A Estória: O Rei do Cone Laranja
Na movimentada cidade, onde o cinzento do asfalto reinava supremo e os prédios arranhavam o céu, havia um pequeno cone de trânsito.
Laranja berrante, desgastado por mil carros e esquecido numa berma, parecia um ponto de exclamação perdido no grande livro da cidade.
Mas para Piu-Piu, uma alvéola-branca de penas impecáveis e olhos astutos, aquele cone não era um obstáculo; era um trono.
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Piu-Piu era uma alvéola diferente.
Enquanto as suas irmãs se contentavam com telhados e fios elétricos, ele ansiava por um poleiro que lhe desse uma perspetiva única sobre o mundo.
E foi assim que descobriu o cone laranja.
De longe, parecia uma montanha colorida, e de perto, era o poleiro perfeito para o seu plano: tornar-se o melhor caçador de insetos da cidade.
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Todos os dias, ao amanhecer, Piu-Piu voava para o seu trono laranja.
A partir dali a sua visão era imbatível.
Observava o zumbido das moscas, o rastejar dos besouros e o voo errático das borboletas.
E com uma precisão que faria inveja a qualquer falcão, ele mergulhava, apanhava a sua presa – um minúsculo inseto, mal visível para o olho humano – e regressava triunfante ao seu cone.
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Mário Silva, o fotógrafo, passou semanas a tentar captar este momento.
Piu-Piu era esquivo, rápido.
Mas naquele dia, com o sol a nascer e o céu a pintar-se de um branco suave, Piu-Piu pousou no seu trono.
No bico, trazia o seu pequeno prémio da manhã.
Ele olhou para o horizonte, com o seu olhar de rei, a sua cauda a balançar com a autoconfiança de um monarca.
Era o momento perfeito.
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A fotografia, quando revelada, tornou-se a lenda de Piu-Piu.
"O Rei do Cone Laranja", diziam.
As outras alvéolas, que antes o olhavam com estranheza, agora admiravam-no.
Aprenderam que, às vezes, o melhor lugar para ser o que se é, não é onde se espera, mas onde a ousadia nos leva.
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Mas Piu-Piu tinha um segredo hilariante que ninguém sabia.
Ele não escolhera o cone apenas pela vista privilegiada.
A verdade é que, um dia, ao voar apressado, tinha embatido com o bico no cone e, para sua surpresa, o impacto tinha libertado um cheiro a... pizza!
Parece que, na noite anterior, um desavisado transeunte tinha deixado cair um pedaço de pizza na base do cone, e o calor do sol havia fermentado um aroma que atraía os insetos mais suculentos de toda a cidade.
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Então, enquanto todos viam em Piu-Piu um símbolo de perspicácia e adaptabilidade, ele, no seu trono laranja, ria-se baixinho com o seu segredo de caça: a pizza esquecida que fazia do seu poleiro não só o mais alto, mas também o mais... apetitoso.
E assim, Piu-Piu continuou a reinar, o seu pequeno império de insetos garantido pela mais improvável das iscas, um verdadeiro “gourmand” da natureza no coração da cidade.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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