"O casinhoto na fraga"
Mário Silva Mário Silva
"O casinhoto na fraga"

No coração do Alto Tâmega, onde a história se entrelaça com a paisagem granítica, em Águas Frias, nas terras de Chaves, existia um lugar que parecia ter parado no tempo.
Não era uma casa imponente, nem uma ruína grandiosa, mas sim um modesto casinhoto na fraga, um abrigo nascido da própria pedra, da resiliência de um povo e da sabedoria de gerações.
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As fragas, enormes blocos de granito arredondados pela ação do tempo e dos elementos, dominavam a paisagem.
Algumas pareciam gigantes adormecidos, outras guardiões silenciosos.
E foi entre duas dessas fragas monumentais que o casinhoto encontrou o seu refúgio.
Não foi construído, mas sim encaixado, aproveitando a cavidade natural que o granito oferecia.
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As paredes laterais eram as próprias rochas nuas, frias no inverno e frescas no verão.
A entrada, baixa e retangular, era delimitada por pedras mais pequenas, empilhadas com mestria, sem argamassa aparente, como se tivessem sido colocadas ali por mãos que conheciam os segredos da pedra.
Sobre a abertura, um lintel robusto de granito apoiava a estrutura do telhado.
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E o telhado!
Era a parte mais humana do casinhoto, uma calha de telhas de barro, velhas e escuras, cobertas por uma patina de musgo e líquen que lhes dava uma cor terrosa, quase igual à da própria rocha.
Dispostas em filas ordenadas, as telhas curvadas pareciam as escamas de um animal antigo, protegendo o interior das intempéries.
Havia um toque de improviso, de engenho, na forma como se apoiavam sobre algumas travessas de madeira, já escurecidas pelo sol e pela chuva.
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À volta do casinhoto, a natureza reivindicava o seu espaço.
Ervas altas e secas, com as suas sementes prontas para a próxima estação, balançavam suavemente com a brisa, desenhando sombras alongadas na entrada escura.
Alguns arbustos e árvores pequenas, adaptados à aridez e à presença da rocha, espreitavam por trás das fragas, os seus verdes um contraste vivo com o cinzento do granito.
No topo da fraga maior, quase a coroá-la, um carvalho teimava em crescer, as suas folhas a murmurar segredos ao vento.
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Quem o teria construído? E para quê?
Seria um abrigo para pastores, que por ali levavam os seus rebanhos em tempos passados?
Um esconderijo para caçadores, que aguardavam a sua presa na solidão do monte?
Ou talvez, um lugar de repouso para os agricultores que trabalhavam a terra árida e pedregosa de Águas Frias, procurando refúgio do sol a pino ou da chuva inesperada?
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A entrada escura do casinhoto convidava à imaginação.
O que haveria lá dentro?
Ferramentas antigas?
Um leito de palha?
Ou estaria vazio, à espera de um novo visitante, de uma nova história para contar?
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Para Mário Silva, o fotógrafo, este casinhoto não era apenas um aglomerado de pedras e telhas.
Era um testemunho silencioso da vida rural portuguesa,foto da capacidade do homem de se adaptar e de coexistir com a natureza mais selvagem.
Era um portal para um passado não tão distante, um sussurro de memórias de trabalho árduo, de simplicidade e de uma profunda ligação à terra.
E ali, na imensidão das fragas de Águas Frias, o pequeno casinhoto continuava a resistir, guardando os seus segredos, um pedaço intemporal da alma transmontana.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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