Pequenas Gotas de Águas Frias


Águas Frias - making a free slideshow
Domingo, 8 de Setembro de 2013

Águas Frias (Chaves) - Castelo de Monforte do Rio Livre ... ao longo dos tempos ...

 

 

Depois de ter verificado que uma foto do Castelo de Monforte do Rio Livre, no "facebook", despertou alguma discussão sobre este monumento nacional e de saber que um grande incêndio invadiu as Terras de Monforte, achei que seria oportuno trazer de novo a este espaço o Ex-libris de Águas Frias.

 

Não vou fazer a descrição deste belo castelo, nem da bela paisagem que se vê ( ou melhor, parece que se via). Ainda não fui lá depois do incêndio, mas imagino que o verde se tenha transformado em "negro" e por isso triste.

 

Triste também é o "abandono" que tem sido voltado, ao longo dos anos, pelas entidades responsáveis pela sua perservação e divulgação - afinal é classificado como Monumento Nacional - afeto ao Instituto Português do Património Arquitetónico, pelo Decreto-lei 106F/92, DR, 1.ª série A, n.º 126.

 

Penso, que desde aí ficou votado ao esquecimento ...

 

É triste que se trate da Memória de um Povo ... ao abandono, ... só se lembrando de colocar bonitas imagens e descrições nos raros roteiros turísticos da zona de Chaves ...

 

Mas vou deixar as reflexões para quem já visitou o referido Castelo e pode ser que algum responsável, furtuitamente, possa ser alertado para este tema e tire da "gaveta" os estudos que dizem ter feito e arregassem as "mangas" e devolvam o respeito por este pedaço de História ...

 

 

 

 

E por falar em história vou deixar aqui um pouco da História do Castelo de Monforte do Rio Livre, ao longo dos tempos ...

 

 

 

 

Cronologia

 

70 d.C. - possível construção de um forte romano no local do actual castelo; pensa-se que ali foi subsistindo população ao longo dos séculos, até às invasões muçulmanas e depois até à reconquista cristã; 

 

séc. XI - consta que já existia no local uma Civitas com o nome de Batocas ou Troia;

 

 

séc. XII - provável construção do castelo;

 

 

 

1273, 4 Setembro - data do primeiro foral à povoação de Monforte de Rio Livre por D. Afonso III, reservando para si o padroado, não dispensando os moradores do serviço militar; o rico homem quando quisesse ir à vila e ali comer tinha de pagar e o meirinho da coroa não podia exercer justiça; foi dado ainda a concessão de uma feira franca com duração de dois dias, e os moradores ficaram dispensados do anúduva; a este concelho ficou submetido um vasto termo densamente povoado com várias aldeias, entre os Rios Mente e Rabaçal;

 

 

1280 - reconstrução do castelo e das muralhas após a sua quase destruição aquando das guerras com Leão;

séc. XIII - referência ao castelo e ao seu "tenente" D. Gonçalo Mendes;

 

 

1312, cerca - construção da torre de menagem;

 

 

séc. XIII / XIV - conclusão da reconstrução do castelo durante o reinado de D. Dinis, ali residindo o alcaide; a povoação já se encontrava, muralhada numa área de 180 x 120 m e teve um crescimento florescente; 

 

1383 - Monforte tomou o partido por Castela durante a crise dinástica; 

 

1420 - D. João I institui couto de homiziados; Idade Média, finais - era já notória a tendência preocupante da população abandonar o local, levando os monarcas a conceder repetidos privilégios a quem ali permanecesse;

 

 

1483, 16 Dezembro - carta ao alcaide-mor de Bragança ordenando-lhe que fizesse em Monforte as obras que lhe indicava; os moradores das aldeias e casais, numa légua antiga ao redor, deveriam ir morar permanentemente dentro dos muros de Monforte, sob pena de perderem nessa área os bens que possuíssem da coroa, caso tais ordens não fossem cumpridas dentro do prazo de 1 ano; todas as terras e propriedades das aldeias que nessa zona ficassem desertas seriam dados aos mesmos a título de sesmarias; D. João II enviou um cavaleiro da casa real a Monforte para ouvir os moradores da vila e termo e se documentasse das medidas que deveriam ser adoptadas pelo soberano; D. João II chegou mesmo a oferecer um prémio de mil reais por cada pessoa que, de qualquer parte, viesse habitar na vila, continuamente, tal era a necessidade de povoamento para defesa do território junto à fronteira;

 

 

1500, 1ª década - construção da barbacã e fosso;

 

 

séc. VI, início - segundo os desenhos de Duarte D'Armas, o castelo possuía, em frente da porta, uma barbacã com troneiras e era antecedida por fosso; segundo a legenda do códice de Madrid dos desenhos de Duarte D'Armas, a vila não tinha mais de dez ou doze vizinhos e todas as outras casas estavam derrubadas e feitas em pardieiros, nem tendo portas, nem se podendo andar pelas ruas por causa do esterco do gado;

 

 

1512, 1 Junho - foral novo de D. Manuel dado em Santarém; 

 

1557 - a vila tinha 14 fogos;

 

 

séc. XVII / XVIII - construção de um meio baluarte junto à porta e de uma outra estrutura a E. da torre e corpo principal do castelo, de que subsistem vestígios, e que servia para aquartelamento da cavalaria;

 

séc. XVIII - o concelho de Monforte pertencia à Casa do Infantado, de que era donatário o infante D. Francisco, irmão do rei D. João V; por ocasião da sua visita ao domínio, os homens bons do concelho quiseram presenteá-lo com produtos da região, mas como a terra era pobre, só conseguiram obter figos e pinhas, cujas colheitas e recolha se faziam na altura; o infante considerou tal oferta como uma afronta e mandou amarrar o autor de tal ideia a um poste, ordenando que os soldados lhe atirassem, um a um, todos os figos; consta que, no final, o vereador desabafou: "Olha se lhe tínhamos oferecido as pinhas!!";

 

 

1753 - data de uma planta do castelo, assinada pelo ajudante de e engenharia José Monteiro de Carvalho, assinalando no pátio de armas os quartéis de cavalaria, e tendo outras construções adossadas à torre e à cerca a O.; a NO. a cerca integrava um cubelo, rasgando-se um pouco antes, a Oeste, e um pouco depois, a Este uma porta, a última das quais dava acesso à fonte da vila, protegida por revelim;

 

1755, 1 Novembro - segundo as Memórias Paroquiais não padeceu ruína com o terramoto;

 

 

 

1758, 12 Abril - queda de um troço de 15 / 16 varas das muralhas do castelo que corria de Sul para Oeste durante a ocorrência de um terramoto; 24 Abril - segundo o relato do abade António Luís Nogueira, a vila situava-se num alto da serra, e tinha como donatário o Conde de Atouguia; tinha muros fortes em circuito com uma só porta a E. e uma outra, mais a S., chamada de Barroso, a qual havia sido tapada pelo Governador Pedro Aires Soares; era praça de armas tendo então como governador interino Simão Teixeira, capitão de infantaria, com 14 soldados, um sargento e um cabo de esquadra que eram rendidos mensalmente pelo Regimento da Guarnição de Chaves, distante légua e meia; tinha um castelo na zona alta da vila, corpo de guarda e seis cortaduras, a Este e outros 3 a Sul, onde havia artilharia, as peças sem carregos; no meio "bojo" do castelo, em frente da porta do governador, existia um meio torreão de cantaria e junto deste outro mais demolido, onde tinha havido duas grandes peças de artilharia em direcção a Este e com engenho que "virotava" ao Norte e Sul e que foram levados para Chaves;

 

 

1796 - referência à vila estar quase despovoada e arruinada, não tendo mais de cinco moradores, três no interior dos muros, demolidos, e dois no exterior dos mesmos, razão que levou os moradores a mudarem-se para o lugar de Águas Frias; não tinha, já por muito tempo, alcaide, e conservava-se na vila quatro canhões, de calibre 24, três dos quais ainda em bom uso, mas o outro estava arruinado e com ferrugem;

 

1804, 28 Dezembro - informação de que a Província de Trás-os-Montes não tinha praça, forte ou fortaleza ou artilharia alguma de préstimo, devido à invasão espanhola de 1762 ter arruinado a Praça de Chaves, a de Bragança e a de Miranda, assim como alguns castelos;

 

séc. XIX, princípio - a vila encontrava-se completamente desabitada;

 

1801 - data de uma planta do castelo, marcando a localização das bocas de fogo;

 

 

 

1811 - era governador do castelo João de Mesquita Teixeira;

 

1836 - transferência da sede do município para Lebução, a aldeia mais importante do concelho;

 

1853, 31 Dezembro - extinção do concelho de Monforte de Rio Livre; criação da comarca de Valpaços;

 

1861, 23 Setembro - circular do Ministro da Guerra sobre a situação das fortificações da Província;

 

1863 - o castelo ainda tinha governador e alguns veteranos;

 

1874 - a cerca da vila estava desmantelada e apenas o castelo se conservava em melhor estado; ainda tinha a antiga casa da Câmara, cadeia e pelourinho;

 

séc. XIX - extinção do concelho por falta de moradores, sendo transferido para Lebução;

 

séc. XX, início - ainda se realizava uma feira junto ao castelo;

 

 

Vista que se pode (ou podia) observar  do Castelo  de Monforte do Rio Livre

 

 

 

séc. XX, segunda metade - desenvolvimento de vários projectos de adaptação a empreendimentos hoteleiros, mas sem qualquer viabilidade;

 

1992, 01 junho - o imóvel é afeto ao Instituto Português do Património Arquitetónico, pelo Decreto-lei 106F/92, DR, 1.ª série A, n.º 126.

 

 

 

 

Vista sobre Águas Frias que se pode (ou podia) observar  do Castelo  de Monforte do Rio Livre

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sinto-me:

publicado por ÁguasFrias às 22:30
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1 comentário:
De riolivre a 8 de Setembro de 2013 às 23:17
Muito bem, meu caro Mário.
Deixaste aqui um belo repositório de alguns factos que permitem, aos menos avisados, ficar com a possibilidade de, sucintamente, conhecerem a história deste monumento que tanto apreciamos e que as autoridades insistem em votar ao abandono.
Como se não bastasse, mão criminosa pretendeu ajudar a deteriorar ainda mais esse riquíssimo património que, com muito bem dizes, é o "ex-libris" da nossa aldeia.
Com efeito, um ou mais bandidos decidiram que o verde que envolvia a aldeia e que tanto extasiava quem por lá passava deveria ser transformado em carvão.
Hoje mesmo tive oportunidade de constatar aquilo de que só tinha conhecimento por notícias. A monstruosidade que caiu sobre a nossa aldeia fez com que ficasse quase tudo vestido de negro. Um dos incêndios cujas chamas aí encontraram pasto começou na Bolideira e, passando junto a Casas, sempre a norte da estrada, consumiu tudo atá à zona da barragem das Nogueirinhas. O outro pouco tempo após o primeiro, começou muito perto da estrada, por cima das casas do Firmino e do Jorge e serviu de pasto às suas chamas tudo o que se encontrava a sul do castelo e levando consigo a belíssima e irrecuperável mata do Barros, tendo sido estancado já muito perto de Faiões.
Resta-nos a pequena alegria de poder continuar a ver (até quando?) a vegetação frondosa a Norte do Castelo, ou seja, desde a estrada até lá. Felizmente, julgo que por capricho do vento, as chamas foram "empurradas" para sul.
Um abraço.


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