Pequenas Gotas de Águas Frias


Águas Frias - making a free slideshow
Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Águas Frias (Chaves) - Um Reino Maravilhoso

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Hoje vou socorrer-me de um texto que foi gentilmente inserido num dos comentários deste espaço, pela família Leandro, Sónia e Afonso, que de Ibiza, sentem a ligação às suas origens.

Afinal, quem melhor que o grande escritor Miguel Torga poderá transmitir e descrever algumas das características deste pedaço de terras lusas – Trás-os-Montes.

Assim deixo-vos um extracto que embora date de 1941, no seu essencial, se mantém actual.

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Um Reino Maravilhoso

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“Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.

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Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:

- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...

Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?

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Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:
- Entre!

A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.

(…)

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A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Chaves, de Chaves a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Régua.
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.
Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias.  (…) Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.

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(....)

A terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão.

(…)
Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
- Entre quem é!

Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira.

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O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva. Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada.

Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura.

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Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles.  (…) Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia.

(…)

 

 

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O nome de Trasmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei.” 

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Miguel Torga - “Um Reino Maravilhoso” - 1941

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publicado por ÁguasFrias às 23:00
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Águas Frias (Chaves) - Lutando contra a maré ...

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Na sequência do “post” anterior e constatando os factos, observa-se que em toda a região transmontana, os poucos jovens da Aldeias têm vindo a deixar a sua Terra natal e rumam às grandes cidades ou emigram, à procura de novas oportunidades que a sua própria Terra não lhes pode oferecer.
Este é já um discurso que, de tanto ser falado, parece ser um “destino fatal”, deixando envelhecer e esvaziar as nossas Aldeias.
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Hoje, vou apresentar um exemplo que, a meu ver, contraria esta pseudo “normalidade” (êxodo). É uma pedrada num lago, fazendo ondular a calmaria das águas … frias.
Trata-se de um jovem que lutou pela sua instrução e concluiu uma licenciatura em Educação. Não tendo conseguido colocação como docente (cada vez há menos lugares para os jovens licenciados), não cruzou os braços e foi à luta … procurando uma actividade que pudesse mantê-lo ligado à terra e à sua Terra.
Muniu-se dos conhecimentos teóricos e técnicos e pôs em prática a sua ideia – implantar estufas de flores.
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Lembro-me do entusiasmo com que começou, … desde a montagem da estrutura até à preparação do terreno e plantação das primeiras plantas.
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Lembro-me das primeiras preocupações que demonstrava na luta com as ervas daninhas e com as expectativas que mantinha em relação à rentabilidade do seu esforço.
Lembro-me também da sua expressão de contentamento, aquando das primeiras florações das suas milhares de plantas.
“São cravos, Senhor, … são cravos”
As plantas estão identificadas … são cravos.
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O "Senhor" (jovem) não é mais que o Albino (conhecido carinhosamente por Bino) que com a preciosa ajuda da sua mãe, D. Noémia e com o olhar atento do pai, o Henrique, tem conseguido manter uma “nova actividade”, levando as cores e odores de Águas Frias a diversas partes do País e até para Espanha.
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É de louvar quem luta contra a maré e com engenho, arte, trabalho e muita dedicação, consegue vencer.
Só por isto, Bino, … és um vencedor.
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Toda a família Pires é constituída por “vencedores”, pois além do “Bino” também:
- a mãe, dona Noémia - vencedora na gestão do tempo, que divide desde as tarefas domésticas, às lides das terras, ao acomodar das crias, à ajuda nas estufas de cravos, ao serviço do café, …
- o pai, Henrique (“Parente”) – que lutou e venceu contra um AVC, …
- o irmão, Romeu – que vence na sua actividade profissional e venceu as últimas eleições, sendo actualmente o Presidente da Junta de Freguesia de Águas Frias, …
Esta, assim como a maioria das famílias desta Aldeia, são constituídas por verdadeiros “vencedores”.
Haverá, certamente, oportunidade para trazer a este espaço outros exemplos, que de forma diversa, foram e são verdadeiros vencedores contra as adversidades.
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sinto-me:

publicado por ÁguasFrias às 18:19
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Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

Águas Frias (Chaves) - Aldeia envelhecida

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Foi com alguma surpresa que na última ida a Águas Frias, seguindo a Estrada Nacional 103 (de Chaves em direcção a Vinhais àBragança), deparei com um novo sinal de trânsito junto à placa identificativa do início da Aldeia de Águas Frias.

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O sinal A15 da Direcção Geral de Viação, assinala perigo … aconselhando aos condutores, prudência, … pois vão atravessar uma zona frequentada por idosos.

Pelo menos, a empresa Estradas de Portugal, SA, reconhece oficialmente que as populações das Aldeias estão cada vez mais envelhecidas.

Este é um facto incontornável.

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Agora que é reconhecido este facto, falta somente às entidades competentes (sejam elas quem forem) planear e colocarem em prática programas e/ou incentivos à fixação dos jovens às suas Terras natais.

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Sr. Clemente     

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Como nada foi ou tem sido feito, a população activa foi procurando noutras zonas (litoral e grandes cidades) e noutros países (inicialmente o Brasil, a América e mais tarde a França, Alemanha, Espanha,...)melhores condições, em busca de uma vida mais confortável.  

Existem, no entanto, alguns (raros) exemplos de iniciativa individual que tentam rumar contra a maré da desertificação.

Oportunamente trarei a este espaço alguns (raros) exemplos de “lutadores” que tentam criar alternativas a uma agricultura não compensadora, a uma indústria inexistente e a um comércio que se resume a uma taberna, dois cafés e um “comércio”.

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sinto-me:

publicado por ÁguasFrias às 16:37
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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Águas Frias (Chaves) – Nostalgia, Ansiedade e Alegria

Prevendo que amanhã poderei “visitar”, mais uma vez, Águas Frias, e depois de algum tempo de ausência, vou compreendendo (um pouco) os sentimentos e emoções de Todos aqueles que por motivos vários tiveram que procurar outros lugares para conseguirem uma vida mais confortável.

A nostalgia/saudade que se sente quando ausentes e longe do lugar que os viu nascer, onde cresceram, onde criaram amizades, ou simplesmente, como eu, onde se sentiram ou sentem bem…

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Águas Frias - vista parcial

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Compreendo, agora um pouco melhor, o(s) sentimento(s) de quando se vê, em qualquer lugar, uma notícia, mesmo que seja pouco significativa, dessa “nossa” Terra, ou uma qualquer imagem ilustrativa desse “nosso” cantinho. Este foi um dos motivos da criação deste blog. Inicialmente, para poder ter o prazer pessoal de partilhar com Todos as fotos que possuía e que traziam recordações agradáveis.

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Águas Frias - igreja

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E … quando algo nos é grato, também é aprazível podermos partilhá-lo com os Outros.

Assim, como não tenho notícias a apresentar (dificuldade de quem está longe), aqui deixo algumas das recordações de Águas Frias que fui captando e que muito me apraz compartilhar com todos os que ainda têm paciência de visitar este espaço.

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Águas Frias  e Castelo de Monforte do Rio Livre

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Também vou compreendendo a ansiedade pelo momento do regresso, nem que este seja breve.

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Águas Frias - A Lampaça

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Agora, compreendo melhor o sentido do poema “O Regresso a Águas Frias” que me foi enviado por uma aquafrigidense, também ela ausente: a Cláudia dos Anjos Lopes.

Agora, já vou compreendendo melhor o sentimento de Alegria e bem-estar no momento de regresso.

 .

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 Regresso a Águas Frias

 
Serpenteando sobe aquela estrada
O carro entra na curva inclinada
Desliza por uma parte renovada
Da longínqua aldeia que não esqueceu
No Bairro do Souto há uma esplanada
Na fonte das Maias corre água gelada
No Cipestre, a viatura fica estacionada
Aí, a saudade do condutor é apaziguada
Quando entra na casa onde ele nasceu

Poema de Cláudia dos Anjos Lopes

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Com toda esta mistura de sentimentos, desejo a todos um Carnaval com muita alegria e muita folia, esquecendo as amarguras e deixando transparecer as “alegrias” contidas.

 .

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publicado por ÁguasFrias às 01:32
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