Pequenas Gotas de Águas Frias


Águas Frias - making a free slideshow
Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Águas Frias - 25 de Abril

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ÁGUAS FRIAS – 25 de Abril
Hoje comemoram-se os 34 anos após a Revolução de 25 de Abril de 1974, que ficou popularmente conhecida por Revolução dos Cravos, já que esta se concretizou “sem” tiros ou baixas humanas e que num simples gesto de uma vendedeira de flores, em reconhecimento pela acção dos militares, ofertou cravos e que os soldados depositaram nos canos das espingardas. Este gesto, carregado de simbolismo, passou a ser a marca da Revolução de Abril.
Mas para além de todo este simbolismo, este dia vira significativamente uma página na nossa História recente, mudando de um regime político totalitário para um regime democrático, em que a principal conquista foi a LIBERDADE, em toda a sua concepção.
É a ela que se deve, por exemplo, a possibilidade da existência deste espaço, em que livremente possa escrever o que sinto, sem que exista o “lápis da censura” condicionando-me ao que quer que seja e até haja espaço para que todos os que quiserem possam exprimir as suas opiniões e comentários.
Assim, hoje, e dedicando a todos os que ao longo destes 34 anos tornaram possível esta minha liberdade, vou transcrever um excerto de um poema de João Ary dos Santos, dessa época e que (penso eu) retrata o pensamento da importância desta data, sendo acompanhado por imagens actuais desta pequena e bela Aldeia de Chaves – Águas Frias.
Castelo de Monforte do Rio Livre - o berço da Aldeia de Águas Frias
 
As Portas que Abril Abriu
José Carlos Ary dos Santos
 
Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
 
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
 
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
 
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
 
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
 
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
 
Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
 
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.
 
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.
 
E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
 
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.
 
Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.
Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.
E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.
Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.
 
Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
 
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
 
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

 

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"Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."
António Gedeão
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publicado por ÁguasFrias às 20:05
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1 comentário:
De carlossilva a 27 de Abril de 2008 às 23:20
Parabéns pelo post. O poema é dos melhores de ary dos santos. As fotos são espectaculares. Gosto particularmente da do cravo vermelho. Força.


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