Pequenas Gotas de Águas Frias


Águas Frias - making a free slideshow
Domingo, 20 de Janeiro de 2008

Águas Frias (Chaves) - Aldrabas, Batentes e Puxadores

Embora possa parecer estranho, o tema que trago a este espaço, tem ainda a ver com as características da Gentes de Águas Frias e tem como base um pequeno episódio que tem quase três décadas mas que relembro com saudade.

A primeira vez que vim a esta Aldeia, e após um lauto almoço, fui, como era habitual até ao ponto de encontro, que à época era o único café – o café Pires.

Sentamo-nos, mas … os proprietários (a D. Noémia e o Pires) não estavam.

Problema? Não. Um dos elementos presentes, amigo de Todos (o saudoso Zeca), levanta-se, entra para dentro do balcão, tirou os cafés e no fim deixamos o valor da despesa em cima do balcão e lá fomos, em conjunto, passear pela Aldeia.

Isto que era um procedimento normalíssimo em Águas Frias, fez uma enorme confusão na mente de um tripeiro, em que tal nunca seria possível na sua terra.

Aqui havia confiança e entreajuda.

Estas qualidades nunca esqueci …

 .

Mas, afinal, o que tem isto a ver com o título “Aldrabas (ou aldavras), batentes e puxadores”?

 .

.

.

É que esta base de confiança não se confinava ao Café Pires mas estendia-se por todos os lugares. As portas tinham simplesmente aldrabas (“peças de ferro, na parte anterior de uma porta, servindo para bater nesta, a fim de chamar a atenção de quem está dentro e para erguer a tranqueta que segura a porta do lado posterior”).

.

.

Este mecanismo simples poderia ser aberto com facilidade por qualquer um.

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.

O batente pretendia somente, chamar a atenção do dono da casa que ao ouvir o seu som, logo respondia: “Entre!”

.

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Nas casas com fechadura existia um puxador que poderia ser em ferro ou madeira, mas era usual ver-se as chaves penduradas (ou uma pequena corda ou arame que servia para, da parte de fora, puxar o trinco).

 .

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Que maior voto de confiança se podia demonstrar.

.

.

.


publicado por ÁguasFrias às 16:53
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7 comentários:
De riolivre a 21 de Janeiro de 2008 às 16:59
Como tenho saudades desse tempo. Nem sequer era necessário bater para ouvir o tão transmontano "entre quem é". Bastava accionar a aldraba e entrar. Ninguém desconfiava de ninguém.
Mas em que planeta e em que era isso aconteceu? Não terá sido, certamente, naquele em que vegetamos.
Um abração, Mário.


De Bino a 24 de Janeiro de 2008 às 12:51
Sinto-me lisonjeado por este episódio (Café Pires) passado pouco tempo depois de eu nascer! Ainda assim queria agradecer ao Prof. Mário pelo reconhecimento de princípios tão nobres, que tanto retratam as gentes desta aldeia e outras, que são a confiança, a amizade e entreajuda! Deste episódio não me lembro, como é obvio, mas era habitual as pessoas servirem-se e servirem, claro está, eram pessoas de confiança. Voltando ao "Zeca" era alguém que emanava simpatia por onde passava, isso fazia com que toda a gente tivesse amizade por ele. Foi uma pessoa que participou na educação da minha geração e estou honrado porque me sinto com os princípios básicos de uma boa conduta moral, falo por mim e por todos da minha geração... e assim se transmitem estas qualidades, havendo pessoas deste género, os bons princípios estão assegurados e o mundo também.
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Sinto-me lisonjeado por este episódio (Café Pires) passado pouco tempo depois de eu nascer! Ainda assim queria agradecer ao Prof. Mário pelo reconhecimento de princípios tão nobres, que tanto retratam as gentes desta aldeia e outras, que são a confiança, a amizade e entreajuda! Deste episódio não me lembro, como é obvio, mas era habitual as pessoas servirem-se e servirem, claro está, eram pessoas de confiança. Voltando ao "Zeca" era alguém que emanava simpatia por onde passava, isso fazia com que toda a gente tivesse amizade por ele. Foi uma pessoa que participou na educação da minha geração e estou honrado porque me sinto com os princípios básicos de uma boa conduta moral, falo por mim e por todos da minha geração... e assim se transmitem estas qualidades, havendo pessoas deste género, os bons princípios estão assegurados e o mundo também. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Bino</A>


De ÁguasFrias a 25 de Janeiro de 2008 às 22:38
Obrigado pela visita e comentário e aproveitar para dizer que embora tenha privado pouco tempo com o "Zeca", senti essa simpatia e amizade que dele emanava. É bom saber que deixou marcas na sua geração e exemplo para as mais novas.
Até Breve "Bino"


De Salvador Silva a 26 de Janeiro de 2008 às 15:36
Nos anos 60 (1966/1969) cumpri o srviço militar em Chaves (BC10) e tive oportunidade de constactar o que neste post é descrito, não só em´Águas Frias, mas na generalidade das freguesias e lugares do concelho. Aconteceu-me algumas vezes ter que me deslocar a esses locais para tratar de assuntos relacionados com militares que estavam ou iam para o ultramar (normalmente averiguações para a concessão de subvenções a familiares) e encontrarem-se ausentes, a tratar das suas vidas, quem procurava. Não era problema, logo um vizinho me dizia que podia abrir a porta (aberta) entrar e deixar escrito o que pretendia ou a marcação de um futuro encontro. Não raro, sobre a mesa da sala havia um jarro com vinho, um prato com pão e enchidos ou presunto, de que me poderia servir se assim o entendesse. Fi-lo algumas vezes.
Aqui lhes deixo a minha homenagem por aquilo que tanto me sensibilizou.Bem hajam. Um Alentejano


De PeopleFromIbiza a 1 de Fevereiro de 2008 às 18:36
Parabéns pelo blog que faz chegar até ao mais improvavel canto do mundo o calor da lareira acesa e o sabor a alheira quentinha.
Na falta de palavras minhas, deixo as do Miguel Torga que dizem tudo.
Abraço
Leandro, Sónia e Afonso

Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes)

Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.
Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...
Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:
- Entre!
A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.
A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Chaves, de Chaves a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Régua.
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.
Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista(....)
No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.
A terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão.
Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
- Entre quem é! Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva.
Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada.
Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura.
Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia.
O nome de Trasmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei.


De ÁguasFrias a 7 de Fevereiro de 2008 às 00:01
Leandro, Sónia e também para o Afonso:
Obrigado pela Vossa visita.
É com prazer que sinto que de algum modo, vale a pena fazer este blog, permitindo levar algumas sensações desta "Nossa" Terra.
Obrigado por terem partilhado, com Todos, este belíssimo excerto de Miguel Torga.
Que excelente ideia de descrever este Reino Maravilhoso - Trás-os-Montes.
Voltem sempre.
Leandro, um apertado abraço; Sónia, um beijo; e para ti, Afonso uma repenicada beijoca.


De Anónimo a 9 de Dezembro de 2009 às 00:10
Muito Bem


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